Educação e violência doméstica no filme "Preciosa", de Lee Daniels

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Por <

em>Leonardo Campos*

Em outras ocasiões, informamos que ir ao cinema nem sempre se trata de mero divertimento: é preciso ter senso crítico para avaliar o que se está assistindo, com certo distanciamento, rindo nos momentos certos e refletindo igualmente. Preciosa, produção recente que vem ganhando o público e a crítica desde 2009, é um desses casos. Apesar de toda aura de filme de arte, Preciosa, que é um dos favoritos ao Oscar 2010, é um filme belíssimo, que nos permite discutir algumas questões contemporâneas como educação e violência doméstica.


"Preciosa": dois cartazes oficiais. O filme é um dos favoritos na corrida ao Oscar 2010
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi pensando nisso que elaboramos este especial. Lee Daniels, diretor, acertou nas escolhas de forma geral: elenco, trilha sonora, tempo de duração. Abordaremos este especial da seguinte maneira. Primeiramente, faremos um apanhado do filme, comentando o enredo e algumas questões técnicas fundamentais para a compreensão do mesmo. Logo depois, faremos um recorte no que tange os dois temas desta abordagem: educação e violência doméstica. Por fim, como já de costumes em nossos especiais, selecionaremos cinco grandes momentos do filme, através de frases metonímicas.

Graças aos prêmios arrebatados nos Festivais de Sundance, Cannes e Toronto, Preciosa está ganhando o reconhecimento necessário. É um filme sobre uma determinada cultura e modo de vida, que pode não conseguir ganhar outros públicos, portanto, já está inserido na linha do cânone cinematográfico hollywoodiano (também), devido ao apoio recebido de ícones da cultura da Mídia, como a apresentadora Oprah Winfrey e os cantores Lenny Kravitz e Mariah Carey, que também participaram do filme.

PRECIOSA: RETRATOS DE UMA SOBREVIVÊNCIA TRÁGICA


Precious indo à escola: rotina sofrida diariamente.
O filme começa em Harlem, no ano de 1987. A história é narrada pela personagem principal, que em alguns intervalos, insere seu ponto de vista nas situações apresentadas. A protagonista citada é a adolescente afro-americana Clareece "Precious" Jones (Gabourey Sidibe), que vive (ou sobrevive?) com sua familia desajustada; engravidada duas vezes pelo pai e em uma relação destrutiva com a sua mãe (Mo'Nique). Precious é muito fechada pra os outros mas aberta a reflexões, e daí, temos alguns dos momentos mais bonitos do filme. Toda reflexão de Precious se transforma em poesia: ás vezes ela relata ser apaixonada pelo professor, não gosta (e não consegue) ler e adora matemática (ela diz que nem sabe o motivo).


A mãe de Precious é vivida pela atriz Mo'nique, de forma demonizadora.
Ao longo da primeira parte do filme, Precious é intimidada pela diretora da escola a abandonar o local, devido à sua segunda gravidez aos 16 anos de idade: Precious recebe então o convite para entrar em uma escola alternativa, onde ela tem esperança de poder mudar a direção de sua vida, e nisso, começam os confrontos com a sua mãe, construída de forma demonizadora pela atriz Mo’nique.

O uso de cores intensas e a forma que são inseridos em determinados locais do filme se tornam poesias adaptadas para o plano cinematográfico. Nesse processo, o diretor faz uso intenso de planos fechados, numa espécie de linguagem documental.


O filme ganhou está ganhando o público e a crítica de forma gradativa,
principalmente pelo apoio de ícones da cultura da mídia, como a
apresentadora Oprah Winfrey e os cantores Lenny Kravitz e Mariah
Carey.
Filmado em apenas cinco semanas, e com um orçamento, digamos, ínfimo para a realidade da indústria cinematográfica hollywoodiana, Preciosa ainda aborda, de forma ligeira, o processo de escrita como forma de expurgar suas dores e ressentimentos: na sala de aula, a adolescente Precious e suas colegas usam as experiências diárias (e passadas) para abordagem dos seus respectivos panoramas de vida.


Elenco nos bastidores do filme: o diretor no centro da foto, entre
as mulheres da trama.
Preciosa parece um imenso videoclipe.

Narrado de forma poética (como já dito) e com interferências poderosas do roteiro (na cena em que a mãe conversa com ela através de uma foto), o filme nos permite assisti-lo de forma confortável, devido a estes maneirismos da sétima arte, mesmo que estejamos diante de uma história amarga e intensamente sofrida.

Ao adentrar na sala de aula da nova instituição, Precious insere-se numa redoma de luz. A cena é fascinante. Uma nova chance?

PRECIOSA E SEUS PERSONAGENS COADJUVANTES

Lenny Kravitz (John): vive o enfermeiro que cuida de Precious durante o seu segundo parto. John simpatiza com a garota e vez ou outra surge para ajudá-la com algo, seja uma quantia em dinheiro, ou até mesmo palavras de afeto.

 

 

 

Mariah Carey (Mrs. Weiss): surpreendemente bem no papel da assistente social, Mrs Weiss surge ao meio do filme. É com a personagem que Precious vai conversar sobre a violência sofrida em casa (surras, exploração e humilhação por parte da mãe; estupros, dois bebês e o vírus HIV contraído do pai), a garota ainda tem de encarar o preconceito dos colegas com sua aparência e um bloqueio em assimilar as lições passadas na escola.

 


Paula Patton (Ms. Rain): a professora alega que adora ensinar, mas que seu talento mesmo é ser cantora. MS. Rain personifica a professora dedicada e que faz de tudo para colaborar com a sofrida trajetória de Precious. Seu papel lembra muito as excelentes personagens dos filmes Escritores da Liberdade (Erin Gruwell, por Hilary Swank)e Mentes Perigosas (Louanne Johnson, por Michelle Pfeiffer).

 


PRECIOSA E A PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO


O enredo de Preciosa é muito próximo aos filmes Mentes
Perigosas (1ª imagem) e Escritores da Liberdade
(2ª imagem), temas de próximos artigos no Passeiweb
Só através da cultura e da educação a pessoa sente-se inserida na sociedade. Essa máxima, utilizada a exaustão em outros filmes do mesmo segmento, como Escritores da Liberdade, Mentes Perigosas e O Triunfo (e muitos outros que não citaremos aqui por questões ligadas a recorte) é o sangue que corre nas veias do filme Preciosa.

Depois que a adolescente mantém contato com Mrs Rain, sua professora, é que ela vai começar a ampliar a sua visão de mundo. Acesso à leituras, bate papo com as colegas em sala de aula (colaborando com a ampliação do conhecimento de mundo) e a relação de afeto com a sua professora fazem de Precious uma pessoa esperançosa. Se recortado na perspectiva da educação, pode-se utilizar Precious para analisar a situação da educação não só numa perspectiva brasileira: Preciosa ganha status universal. Uma pérola do cinema nacional recente é O Contador de histórias, dirigido por Luiz Villaça. Nele, temos a trajetória de Roberto Carlos Ramos, que aos 6 anos de idade é deixado em uma entidade assistencial por sua mãe, que tem a esperança de estar lhe proporcionando melhores condições de vida. Aos 13, porém, Roberto continua analfabeto, tem mais de 100 fugas e várias infrações no currículo e é considerado "irrecuperável". Mas o encontro com uma pedagoga mudará para sempre sua vida.


Cartaz do filme "O Contador de Histórias", de Luiz Villaça: produção
nacional próxima ao tema, mostrando de forma igualmente lúdica
como algumas pessoas conseguem sobreviver a violência e ausência
de educação. O filme também aponta também para o fato de
algumas personagens (constantes ou peremptórias) nos ajudarem
nas escolhas adequadas para a vida.
Em Preciosa, numa de suas viagens de pensamento, temos a inserção do discurso de Marthin Luther King, I have a dream, nome popular dado ao histórico discurso público feito pelo ativista político estadunidense, no qual falava da necessidade de união e coexistência harmoniosa entre negros e brancos no futuro. O discurso, realizado no dia 28 de agosto de 1963 nos degraus do Lincoln Memorial em Washington, D.C. como parte da Marcha de Washington por Empregos e Liberdade, foi um momento decisivo na história do Movimento Americano pelos Direitos Civis. Feito em frente a uma platéia de mais de duzentas mil pessoas que apoiavam a causa, o discurso é considerado um dos maiores na história e foi eleito o melhor discurso estadunidense do século XX numa pesquisa feita no ano de 1999. De acordo com o congressista John Lewis, que também fez um discurso naquele mesmo dia como o presidente do Comitê Estudantil da Não-Violência, "o Dr. King tinha o poder, a habilidade e a capacidade de transformar aqueles degraus no Lincoln Memorial em um púlpito moderno. Falando do jeito que fez, ele conseguiu educar, inspirar e informar [não apenas] as pessoas que ali estavam, mas também pessoas em todo os EUA e outras gerações que nem sequer haviam nascido. Marthin Luther King Jr foi um pastor protestante e ativista político estadunidense. Membro da Igreja Batista, tornou-se um dos mais importantes líderes do ativismo pelos direitos civis (para negros e mulheres, principalmente) nos Estados Unidos e no mundo, através de uma campanha de não-violência e de amor para com o próximo. Se tornou a pessoa mais jovem a receber o Prêmio Nobel da Paz em 1964, pouco antes de seu assassinato. Seu discurso mais famoso e lembrado é "Eu Tenho Um Sonho".

PRECIOSA E A PERSPECTIVA DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

É possível discutir o filme relacionando com a Lei Maria da Penha, que ganhou os jornais e revistas durante 2009. A lei alterou o Código Penal brasileiro e possibilitou que agressores de mulheres no âmbito doméstico ou familiar sejam presos em flagrante ou tenham sua prisão preventiva decretada, estes agressores também não poderão mais ser punidos com penas alternativas, a legislação também aumenta o tempo máximo de detenção previsto de um para três anos, a nova lei ainda prevê medidas que vão desde a saída do agressor do domicílio e a proibição de sua aproximação da mulher agredida e filhos.


A farmacêutica Maria da Penha, que dá
nome à lei contra a violência doméstica.
Devido aos estupros, Precious engravida duas vezes: a avó ajuda na criação da sua primeira filha, que se chama Mongo. A criança é doente mental, por isso foi apelidada dessa forma. De acordo com pesquisas acerca de movimentos feministas, é impossível discutir a violência doméstica sem discutir os papéis de gênero, e se eles têm ou não têm impacto nessa violência. Algumas vezes a discussão de gênero pode encobrir qualquer outro tópico, em razão do grau de emoção que lhe é inerente.

Quando as mulheres passaram a reclamar por seus direitos, maior atenção passou a ser dada com relação à violência doméstica, e hoje o movimento feminista tem como uma de suas principais metas a luta para eliminar esse tipo de violência. O primeiro abrigo para mulheres violentadas foi fundado por Erin Pizzey (1939), nas proximidades de Londres, Inglaterra. Isso aconteceu na década de 1960. Pizzey fez certas críticas a linhas do movimento feminista, afirmando que a violência doméstica nada tinha a ver com o patriarcado, sendo praticada contra vítimas vulneráveis independentemente do sexo.

O FILME EM 7 MOMENTOS

“Eu gostaria de ter um namorado com pele clara e cabelos fabulosos...eu queria ser capa de revista”.
Trecho da narração de Precious em que percebemos a imposição da cultura da mídia na vida social em todo o mundo, o sonho de ser uma celebridade, até mesmos aqueles que não possuem talento.
“Precious... pare de bater as coisas na cozinha. Você quer falar algo, diga... agora coma o pé de porco, e logo...”
Cena forte em que a mãe obriga Precious a comer um enorme pé de porco, mesmo a garota sem fome. O tratamento é pior possível durante toda a trama.
“Tenho pena dela, é só uma professora, não uma assistente social”
Uma das reflexões de Precious, sobre como a professora ultrapassa a linha das possibilidades, ajudando os alunos da escola especial de outras formas.
“Você sabe soletrar imigrante ilegal?”
Outra cena marcante em que as garotas discutem em sala de aula, colocando em pauta questões contemporâneas ligadas aos imigrantes ilegais nos Estados Unidos, tema chave de outros tantos bons filmes, como Crash- No Limite e Território Restrito.
“A mãe diz que os homossexuais são pessoas ruins... mas não são eles que me estupram, não são eles que me maltratam...”
Precious reflete sobre a opinião de sua mãe em relação aos homossexuais, já que descobri que sua professora vive um relacionamento discreto com uma mulher.
“Seu pai morreu. Ele tinha o vírus da AIDS.”
Um dos momentos mais emocionantes do filme, próximo ao final, quando Mary, sua mãe, informa-lhe que seu pai morreu há alguns dias, e que tinha o vírus da AIDS. Estuprada pelo pai de várias formas, infelizmente Precious descobre que também é portadora do vírus.
“Semana passada, Sr. Raimi me pediu que escrevesse como eu queria ser: eu disse, cabelos longos, pele clara e magra.”
Mais uma cena marcante sobre as reflexões de Precious, garota que foge dos padrões ditados pela cultura da mídia contemporânea, buscando sentir-se inserida de alguma forma.

Preciosa é um filme excepcional e deve ser visto e analisado criticamente, caro vestibulando. Em próxima oportunidade, faremos um especial sobre o filme O Contador de Histórias, de Luiz Villaça, analisando situações similares numa ótica especificamente nacional. Bons estudos.

* Graduando em Letras Vernáculas com Habilitação em Língua Estrangeira Moderna - Inglês - UFBA | Membro do grupo de pesquisas “Da invenção à reivenção do Nordeste” – Letras – UFBA | Pesquisador na área de cinema, literatura e cultura - Colaborador do PASSEIWEB.com


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