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O fantástico mundo de "Alice"


Por Leonardo Campos*

Alice no país das Maravilhas é um dos maiores clássicos da literatura fantástica. O livro, que de início parece uma simples história, ganha maiores contornos discursivos ao longo dos seus treze capítulos. No romance, uma menina chamada Alice cai em uma toca de coelho e vai parar num local fantástico habitado por diversas criaturas igualmente fantásticas.

Há inúmeras interpretações para o livro. Uma delas é que a obra representa a passagem tempestuosa entre a infância e a adolescência, cheia de situações inesperadas. A história é também um dos maiores clássicos do gênero nonsense, uma expressão de língua inglesa que denota situações sem nexo, perturbadoras e sem sentido.


Ilustração da obra "Alice no país das maravilhas"
Ao longo da história da literatura mundial, muitos escritores criaram histórias fantásticas, e consequentemente, personagens também, estes, repletos de simbologia, que ganharam força com passar dos anos, cristalizados no imaginário mundial através da comunicação entre a literatura e outras linguagens, principalmente o cinema. É uma das obras da literatura de língua inglesa com maior número de traduções intersemióticas, ficando atrás apenas dos clássicos universais de William Shakespeare e da obra romântica da escritora Jane Austen.

A história de Alice foi criada em 1862, quando Lewis Carrol (pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson) realizou um passeio pelo rio Tâmisa com a sua grande amiga Alice Liddell, acompanhada de suas duas irmãs. Durante o percurso, através dos diálogos e histórias fantásticas narradas para matar o tempo, a pequena Alice solicitou ao escritor que escrevesse um conto. A obra ganhou sucesso na época, e por ter o aval de representantes da literatura, como o escritor Oscar Wilde, e da política, como a Rainha Vitória, a história de Alice foi traduzida para mais de cinquenta línguas, ganhando o mundo e influenciando diversos escritores na posteridade, entre eles, os brasileiros Guimarães Rosa, Maria Clara Machado e Monteiro Lobato. O argentino Jorge Luis Borges também, num trecho que será mais bem explicitado na próxima parte deste especial.


Alice Liddel, inspiração para Lewis Carroll escrever
a fantástica história em 1862
Apesar de parecer uma simples história, Alice no país das Maravilhas é uma obra extremamente profunda, inquietante, fantástica e que talvez tenha se tornado tão popular devido a simplificação e filtros que a linguagem cinematográfica adotou em todas as transposições realizadas. Alice no país das maravilhas traz ilustrações de Edward Lear, famoso ilustrador, pintor e escritor inglês, na época, prestador de diversos serviços para a Rainha Vitória.

As viagens da literatura fantástica

Percebemos as influências da literatura fantástica ao passear pela Menina de lá, de Guimarães Rosa, pela simpatia e felicidade irradiadas por Pollyana, de Eleanor Potter, por Dorothy no clássico O Mágico de Oz e muitos outros exemplares da literatura mundial. Vale lembrar que não associo aqui as influências de Lewis Carroll como únicas para os autores acima citados. Este especial não pretende ser categórico, evitando equívocos de interpretação, visando dialogar com os temas e discussões acerca da literatura fantástica, estilo literário que está diretamente ligado a todas as obras literárias aqui citadas.


Edgar Allan Poe (esq.) e Machado de Assis (dir.),
escritores famosos da literatura inglesa e brasileira
Sabe-se que o alemão Hoffman e o americano Edgar Allan Poe são dois grandes escritores clássicos da literatura fantástica. Temos outros grandes exemplares em nossa literatura, basta lembrar, por exemplo, de Carlos Drummond de Andrade (Flor, telefone, moça), nos contos Mariana e O espelho, do mestre Machado de Assis, entre outros.

Segundo Todorov, o fantástico é a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural. Discute-se que um dos fins da narrativa de cunho fantástico é mostrar a irrealidade da realidade, partindo da pressuposição de que tudo que não traga marca do real e do verossímil aborrece os leitores contemporâneos. Mas será que era assim na época da criação do mundo fantástico de Alice?

Como citado na introdução deste especial, Alice no país das maravilhas é uma história do sonho da personagem Alice, repleta de significados ocultos que foram ganhando forma e sendo dissecados ao longo do tempo.

O fantástico mundo de Alice...


Lewis Carrol
Os acontecimentos fantásticos iniciam-se da seguinte forma:

Alice estava começando a se cansar de ficar sentada ao lado de sua irmã, sem nada para fazer, à beira do riacho. Por uma ou duas vezes tinha sido dado uma olhadela no livro que sua irmã estava lendo, mas ali não havia gravuras nem conversas. Então, Alice pensou consigo mesma:
- E para que serve um livro sem gravuras nem conversas?

A literatura de Carroll representa o que conhecemos como realismo mágico: o que é fantástico e irreal funde-se com o concreto. Em torno do espaço onírico no qual a personagem Alice vive as mais absurdas e fantásticas aventuras, encontram-se animais personificados e objetos como baralhos em forma humana. Se tomarmos as idéias de Todorov e destrinchá-las, perceberemos que os acontecimentos de Alice são aceitáveis a partir do momento que percebemos o contexto em que as mesmas se encontram. Repare neste outro trecho do livro:

Mas quando viu o Coelho tirar um relógio de bolso do colete, olhar as horas, e apressar o passo, Alice deu um pulo, pois passou pela sua cabeça que nunca na vida tinha visto um coelho vestindo um colete, muito menos usando um relógio, e, morta de curiosidade, saiu correndo pelo campo atrás dele e chegou bem a tempo de vê-lo se enfiar apressadamente dentro de uma toca enorme embaixo de uma cerca.

Outros aspectos da obra de Lewis Carroll

Existem vários diálogos entre a obra de Lewis Carroll e alguns contos do argentino Jorge Luis Borges, com Sul, As Ruínas e O Jardim de Caminhos que se Bifurcam. Borges aproveita a narrativa literária fantástica para fazer criticas políticas, assim como o fez Lewis Carroll em Alice no país das maravilhas, como há de se ver neste trecho:

O argumento da Rainha era que se nada fosse feito logo para resolver aquela situação, ela ia mandar cortar a cabeça de todo mundo. (E foi essa última observação que provocou ansiedade e preocupação entre os presentes).

As imagens de labirinto são comuns a Borges. “As metáforas do tempo, do espelho e do labirinto ajudam no decifrar de alguns textos de Borges”, como cita Dorine Cerqueira no artigo "Jorge Luis Borges e a literatura fantástica". Segundo a mesma, ele ainda recria o mundo por meio da multiplicação linguística, que produz uma magia da linguagem. Não seria o mesmo que Lewis Carroll faz no mundo fantástico de Alice?


Mulheres vitorianas: imagem anônima ligada ao período aqui estudado
Segundo fontes da pesquisa para este trabalho, Lewis Carroll critica a política vitoriana do período através de passagens como essa, que mostram a rainha do mundo maravilhoso visitado de Alice, como uma louca decidida a decapitar todos aqueles que não seguissem as suas ordens. Mesmo que não haja verossimilhança com os acontecimentos da época da criação do livro, o fato de criticar ocultamente o reino inglês já fazia de Lewis Carroll um literato diferenciado de outros escritores da sua época. As ligações entre literatura e cinema estão muito claras na obra de Lewis Carroll, como este trecho:

Uma grande roseira crescia perto da entrada do jardim. As rosas eram brancas, mas três jardineiros estavam muito ocupados pintando-as de vermelho. Alice achou isso muito interessante chegou mais perto para observá-los.

Alice no país das Maravilhas e a literatura brasileira


Uma das edições da clássica história de
Lewis Carroll
Durante a leitura de Alice no país das Maravilhas, deparei-me com uma série de conclusões sobre as ligações da narrativa fantástica de Lewis Carroll com outros textos já lidos anteriormente. A mais óbvia delas foi à ligação com os personagens de Monteiro Lobato e o seu Sítio do pica-pau amarelo, clássico da nossa literatura infanto-juvenil. Percebi duas ligações pertinentes entre os personagens dos contos de Guimarães Rosa e o universo de Lewis Carroll: A menina de lá e As margens da alegria. Nininha, personagem do belíssimo conto A menina de lá, possui características fantásticas e a necessidade de ir para um mundo distante, numa história repleta de milagres. Influenciado ou não por Lewis Carroll, Guimarães cria uma personagem frágil e ao mesmo tempo brilhante, com pinceladas de narrativa fantástica no decorrer do conto, que faz parte do livro Primeiras estórias.

A proximidade maior talvez esteja no conto As margens da alegria. O conto é narrado em terceira pessoa e num tom lírico e reflexivo, mostra a primeira viagem de um menino, a descoberta do mundo: a crueldade emoldurada pela morte de um animal, o peru, a beleza e a felicidade representadas pelo vaga-lume entre outros. Nesse conto, Guimarães Rosa nos expõe a descoberta do mundo de um menino e suas experiências de dor e alegria, o caminho para a maturidade, algo vivido de forma similar pela personagem Alice.


Guimarães Rosa (esquerda) e Jorge Luis Borges (direita).
Ambos os escritores são marcos de suas respectivas
literaturas, sendo elas, a brasileira e a argentina
No conto As margens da alegria, o olhar do menino é um olhar que abarca as coisas vistas por um mundo que é descortinado a ele como num espetáculo. Em Alice, temos a mesma situação, apenas modificando o tempo de produção de ambas as obras, língua de produção e alguns aspectos sintáticos e discursivos das respectivas obras.

Para cabal entendimento das questões citadas neste tópico, indicamos a consulta dos contos de Guimarães Rosa e Jorge Luis Borges, dois excelentes escritores obrigatórios para aqueles que curtem literatura.

Uma leitura em três vias: cinema, literatura e teatro


Versão da Disney, de 1951
O primeiro ângulo a iluminar neste tópico é a versão clássica da Disney. É um filme de animação de longa-metragem, considerado um clássico, produzido pelos estúdios Disney em 1951. A produção deste filme durou cinco anos, e foi anteriormente desenvolvido durante dez anos, concorrendo ao Oscar de melhor trilha-sonora.

Em Portugal, o título mudou no relançamento para Alice no País das Fadas, mas na sua recente produção em DVD recebeu outra vez o título anterior.

Em 2008, outra adaptação ganhou o cinema: A menina no país das maravilhas, dirigido por Daniel Barnz.


Adaptação de 2008, dirigida por Daniel Barnz
O filme é um desafio: a história de Alice não é tão simplória quanto imaginávamos e trazê-la para os dias de hoje, onde o público alvo encontra-se afoito pelos sedutores vampiros da saga Crepúsculo, trata-se de tarefa de mestre. O filme funciona bem em quesitos acadêmicos, mas no que tange à demanda da indústria de entretenimento, fica em débito.

O enredo é o seguinte: Phoebe (Elle Fanning), é uma menina rejeitada pelos seus colegas de classe, que deseja mais do que tudo participar da peça de teatro da escola, "Alice no País das Maravilhas". Com o stress do dia a dia, o comportamento de Phoebe piora cada vez mais, criando uma forte pressão em seus pais Hillary (Felicity Huffman) e Peter (Bill Pullman). Ambos tentam compreender e ajudar a filha. Mas Phoebe se esconde em suas fantasias, confundindo realidade com sonho. A menina terá que encarar um duro, doloroso e emocionante processo, passando pela incrível transformação, como a de uma lagarta que se torna uma bela borboleta.

Numa narrativa desse tipo, onde o ambiente escolar serve de cenário para o desenrolar dos fatos, há espaço para abordagens paralelas como o bullying, sexualidade na infância e professores revolucionários. A Menina no País das Maravilhas é um filme um pouco longo, possui 122 minutos e ótimos atores.


A diretora Andrea Elia (esq.) e o pesquisador Leonardo
Campos (centro), acompanhados do elenco carismático
que nos forneceu a entrevista nos bastidores.
Antes de adentrar no universo da adaptação de Tim Burton, cabe aqui explicitar a outra via comentada no início deste tópico. Trata-se da adaptação de Alice para o campo teatral. Não iremos abordar a montagem estrelada pela atriz global Luana Piovanni. Aqui, iremos abordar a adaptação livre da diretora Andrea Elia, que ainda está em cartaz no Teatro Castro Alves, em Salvador, Bahia.

A peça conta a história de uma menina chamada Alice, que entediada com a repetição de fórmulas e métodos na sala de aula começa a questionar o fato do livro não ter figuras e como é importante dar asas a imaginação para que as histórias revelem as cores, cheiros e sabores de um lugar. Nessa viagem ela avista um Tatu e, no meio da confusão, ela segue o bicho e cai na sua toca até chegar ao “Sertão das maravilhas”.


Cartaz do filme "Alice no País das Maravilhas", versão
2010
Segundo a diretora Andrea Elia, em entrevista nos bastidores da peça, a montagem oscila sua percepção e suas impressões entre os conceitos de beleza e estranheza. Alice começa aos poucos a se encantar com aquele universo até então desconhecido, à medida que vai encontrando os seus personagens, conhecendo seus hábitos, expressões, musicalidade e os gostos do sertão.

Em sua mais nova versão, Alice foi para as telas dos cinemas através de Tim Burton, cultuado diretor de cinema fantástico.

Com influências óbvias do conto de terror de Edgar Allan Poe, Burton nos oferece uma narrativa visualmente perfeita mas que não acrescentou muita coisa no universo já retratado por Lewis Carroll.

Alice in Wonderland conhecido também como Tim Burton's Alice in Wonderland, é o novo filme baseado no clássico de Lewis Carroll.

A obra começou a ser rodada em maio de 2008 e estreou dia 5 de março de 2010 nos Estados Unidos.


Da esquerda para a direita, A Rainha de Copas, a Rainha Branca e o Chapeleiro Maluco


Bastidores do filme Alice: Tim Burton organizando o set de filmagens
O filme se passa 9 anos após a história original, com Alice já com 19 anos.

Tem no elenco Mia Wasikowska como Alice, Johnny Depp como o Chapeleiro Maluco, Helena Bonham Carter como a Rainha Vermelha e Anne Hathaway como a Rainha Branca, entre outros.

* Graduando em Letras Vernáculas com Habilitação em Língua Estrangeira Moderna - Inglês - UFBA | Membro do grupo de pesquisas “Da invenção à reivenção do Nordeste” – Letras – UFBA | Pesquisador na área de cinema, literatura e cultura - Colaborador do Passeiweb.com


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