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O fabuloso mundo de "Sex and the City"


Por Leonardo Campos*

Poucas séries de TV conseguiram alcançar êxito semelhante ao de Sex and the City. Conseguindo unificar o fútil com o útil (de forma proposital), roteiro edificado com figuras de linguagem sofisticadas e elenco principal e coadjuvante de ouro, Sex and the City durou seis temporadas e até hoje habita o imaginário de pessoas do mundo inteiro. Largamente estudado no meio acadêmico, abriu as portas para melhor compreensão dos processos da mulher pós-moderna. Com a chegada de Sex and the City 2 neste final de semana, decidi criar este especial sobre o filme, a série, os personagens e as relações no que tange a estética da recepção.

Sex and the City: origens

Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) atua como colunista num jornal, relatando histórias sobre relações interpessoais e sexuais. Carrie vive em Manhattan, Nova Iorque. A história gravita em torno da amizade com as suas três inseparáveis companheiras: Samantha Jones (Kim Catrall), a típica loura fatal que trabalha como relações-públicas e está sempre atrás de um bom partido sem compromissos; Charlotte York (Kristin Davis), que trabalha numa galeria de artes, e é a romântica e sensível que busca sempre longos relacionamentos, embora nunca consiga ter um; e Miranda Hobbes (Cynthia Nixon), advogada, racional, e a mais prática de suas amigas, sempre sabendo o que quer da vida.

A série é baseada no livro Sex and the City, de Candace Bushnell. A idéia de produzir a série, que originaria dois filmes anos depois surgiu em 1996, quando o produtor Darren Star conheceu a escritora, que escrevia uma coluna de mesmo nome, para o jornal New York Observer, veículo de informação focado na cultura de Manhattan e direcionado aos ricos e poderosos que nela habitavam. Na coluna, Candace Bushnell ironizava as relações amorosas de modelos e solteiros cobiçados na cidade através de seu alter-ego, Carrie Bradshaw, que veríamos nas telas anos depois na pele de Sarah Jessica Parker.


A verdadeira Carrie Bradshaw (Candace Bushnell, escritora da
coluna Sex and the City) e Darren Star, produtor da série.
Segundo a atriz, que também iria produzir o programa de sucesso no canal HBO, todas as personagens colheram os benefícios do movimento feminino, pois demonstram sua liberdade sexual, senso de oportunidade e a habilidade para o sucesso. De acordo com pesquisas, a revista Veja certa vez criou um especial sobre as mulheres brasileiras, alegando que elas têm mais anos de estudo que os homens, e com isso, estão mais aptas a obterem carreiras de prestígio, entretanto, este fator estimula a solteirice. O paradoxo surge, mostrando que isso tudo ajuda profissionalmente, portanto, pode atrapalhar sentimentalmente. Alguém se recorda da personagem Miranda Prisley (Meryl Streep), em O Diabo Veste Prada?


Miranda Priesley (Meryl Streep, "O Diabo
Veste Prada"): felicidade no trabalho…
desgraça no amor…será? Teorias da mulher
pós-moderna.

O programa Sex and the City teve seis temporadas, todas disponíveis em DVD, somando um total de 94 episódios. Quatro anos após o encerramento da série, Sex and the City ganhou o seu primeiro filme independente, e hoje, está com a continuação em exibição nos cinemas de todo o mundo. Definindo a mulher pós-moderna

A série trouxe dois tipos de mulher para as telas: a imagem da mulher tradicional e a imagem da mulher pós-moderna. Segundo Raymundo Lima, doutor em Educação pela USP, a mulher tradicional A mulher tradicional é constituída à imagem e semelhança da mãe. A imagem da mãe é de assexuada, sem desejo próprio, santa, imaculada, que “padece no paraíso” ou que goza ao realizar o desejo dos outros. A ‘boa mãe’ é aquela que abdica de seus desejos para realizar os desejos dos filhos, marido, parentes, vizinhos. Ainda é assim: “boa mãe” é aquela que no final do dia é um trapo de cansada, sem ânimo para nada, inclusive para satisfazer o desejo sexual do marido.


A mulher pós-moderna pode tudo?
Cena do filme Sex and the City 2
Sex and the City vai apresentar mulheres pós-modernas dialogando, em verdadeiro conflito com esse outro perfil, o da mulher tradicional. Segundo o mesmo autor, a mulher pós-moderna é senhora do seu desejo, é anti-santa, e a meta de ser mãe fica no horizonte. Ela se assume como dona do seu corpo, ocupa os espaços e administra o seu tempo. Seu corpo, ela usa-o como bem entende. Procura aprimorá-lo com uma malhação ou turbiná-lo com silicone. Ela usufrui das conquistas das mulheres da década de 1970: a pílula anticoncepcional, a masturbação, o amor-livre, e hoje ela toma iniciativa em relação ao homem ou mulher do seu desejo. Seu espaço, digamos, está para além do lar: ela não quer ser dona-de-casa, nem ter um trabalho de faz-de-conta fora do lar, porque seu olhar está para além dos limites das convenções, isto é, ela investe no estudo e na carreira profissional, e aspira um trabalho profissional e poder. Samantha Joones (Kim Catrall) é um dos personagens que mais exalta a condição da mulher pós-moderna. Ela traz outros caracteres que o especialista em educação e psicologia da USP aborda em seu artigo sobre A Mulher tradicional e a Mulher pós-moderna, ao alegar que A mulher pós-moderna é resultado da ruptura dos costumes – inclusive na sexualidade – ocorridos a partir da década de 1970. A pílula anticoncepcional afastou o risco de uma gravidez indesejada e propiciou a mulher ver a sexualidade como um divertimento. A mulher-tradicional casava virgem, não por escolha pessoal, mas por imposição cultural e religiosa. A mulher pós-moderna resgata o estilo de Lilith, e está aberta para uma experiência a um, a dois, a três, dez, dependo de sua escolha. Seu gozo é estar no comando das situações, mas ainda sonha: talvez um dia encontre a alma gêmea.


Movimento feminista: apesar de retratar o direito das
mulheres, Sex and the City vai encarcerar algumas das
personagens no próprio paradoxo: belas , livres e
bem sucedidas… atrás do homem ideal!
A mulher-tradicional passou a ser vista como uma coitada na cama, uma escrava no lar e uma bobinha na sociedade. Contradizendo a mulher-tradicional que até se gabava de nunca ter sentido “nada” durante o ato sexual, a mulher pós-moderna se preocupa em conseguir um orgasmo a qualquer preço. Fazer psicoterapia ou se consultar com um sexólogo hoje é uma escolha ‘natural’ das mulheres que tomaram consciência do seu direito ao prazer sexual e uma existência plena. Para a atriz Kim Catrall (Samantha), as mulheres sexualmente livres ou “promíscuas” sempre foram punias através dos tempos, sendo sempre mortas ou abusadas. Segundo a atriz, “tornou-se possível para a mulher falar a respeito do que ela gosta ou não sexualmente. Levantou a bandeira da honestidade. Eu acredito que Sex and the City é sobre a luta pela intimidade e pela gratificação”.

Ainda no bojo dos estudos acadêmicos de Raymundo de Lima, os homens parecem assustados com a mulher pós-moderna, tanto na intimidade sexual como no seu forte desempenho na sociedade competitiva. Não conscientemente, alguns temem ser devorados por essa mulher dominadora, com desejos sexuais ativos, inextinguíveis e ilimitados. O “mito da vagina dentada” recalcado nos homens desperta-lhes conflitos endopsíquicos. Que homem não é surpreendido com um orgasmo que parece um ataque epiléptico?


Capa do livro "Modernidade líquida", do
teórico Zigmunt Bauman. Na modernidade
líquida, tudo é volátil, as relações humanas
não são mais tangíveis e a vida em conjunto,
familiar, de casais, de grupos de amigos, de
afinidades políticas e assim por diante, perde
consistência e estabilidade.

Ele ainda continua alegando que o mal-estar da modernidade líquida obriga homens e mulheres pós-modernos a maximizarem os momentos de prazer e minimizarem a disciplina e as chateações próprias do cotidiano. A boa notícia hoje para a mulher é ela poder escolher como usar o seu corpo, como direcionar o seu desejo e sua própria vida. Ainda que as mais conservadoras aceitem seguir o estilo apequenado da mulher antiga, não é mais possível ignorar as mulheres pós-modernas nas ruas, nos filmes, no noticiário, na internet. Elas parecem “mais mulher”. Segundo Kristin Davis (Charlotte), o programa é sobre o movimento cultural de uma geração que cresceu tendo escolhar, podendo não casar em determinada idade e se assim não quisesse e optar por seguir uma carreira profissional. Diferente das mães desta geração, as mulheres agora tem escolhas, logo, podem ter a vida que querem.

Por dentro do mundo das personagens

Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) é a narradora da série, uma vez que cada episódio é montado segundo o tema que ela aborda na sua coluna para o The New York Star. Carrie é conhecida pelo seu gosto pela moda, que a faz gastar os rendimentos em sapatos como Manolo Blahniks ou em roupas das casas mais aclamadas e pela vida que a grande metrópole proporciona. Outro motivo de orgulho é o seu apartamento de um quarto em Upper East Side, que finalmente compra e é a sua casa por toda a série. Carrie vai-se envolver seriamente com alguns homens que a marcam decisivamente para o futuro.
Charlotte York (Kristin Davis) é uma comerciante de arte com uma educação de classe média-alta de Connecticut. É a mais conservadora e tradicionalista do grupo e a que dá mais enfâse ao lado emocional do amor em detrimento da luxúria, e encontra-se permanentemente em busca do seu cavaleiro andante. Apesar da sua rigidez em alguns assuntos, ela é conhecida por ter feito concessões enquanto casada, que até as amigas se chocaram como falar sujo e sexo oral em público. Prefere deixar a sua carreira quando se casa pela primeira vez, casamento este dissolvido depois das diferenças entre ela e o marido. Com o divórcio, Charlotte recebe o apartamento de Park Avenue. Casa-se novamento com o seu advogado, Harry Goldenblatt após se converter ao judaísmo.
Miranda Hobbes (Cynthia Nixon) é uma advogada que está concentrada na sua carreira, que tem perspectivas extremamente cínicas relativamente aos homens e às relações, devido a isso acaba a maior parte da série sozinha. Graduada pela Harvard University, Miranda nasceu na Philadelphia, onde vive sua família. Nas primeiras temporadas, Miranda tinha uma fachada mais durona e forte mas com o decorrer da série vai ficando cada vez menos, especialmente depois do namoro com Steve Brady com quem tem um filho, Brady Hobbes. No final da série Miranda casa-se com Steve e vai viver no Brooklyn em Nova York.
Samantha Jones (Kim Cattrall) é a mais velha do grupo, porém a mais bela e sedutora, praticamente podendo seduzir qualquer homem, de qualquer idade. Tem muito orgulho no seu corpo e não poupa esforços para conseguir o que deseja, evitando envolvimento emocional a todo o custo, enquanto satisfaz todos os possíveis desejos que tem. Melhor amiga de Carrie, sempre lhe dando conselhos e dicas. É uma relações públicas independente. Na terceira temporada, muda-se de um apartamento em Upper East Side para um loft caro na Meatpacking District. Durante o decurso da série tem inúmeros relacionamentos, mas são mais libertos que os da suas amigas.

Algumas observações sobre o mundo de Sex and the City

Podemos fechar este especial alegando que a série apresenta, de acordo com alguns estudos acadêmicos, um extenso panorama de paradoxos: as mulheres apresentadas estão no limite entre a tradicional e a pós-moderna. Acreditamos que essa intensa confusão de posicionamentos (ora tradicional, ora pós-moderna) seja uma representação bem marcada do comportamento das mulheres diante da dita pós-modernidade.

Os gays estão presentes em Sex and the City de forma bastante alegórica. Surgem afoitos por moda, promíscuos, exagerados. Diante de tal quadro, nos perguntamos: onde está marcado o limite entre o real e o estereótipo?

Apesar de trazer marcado em seu contexto, alguns exageros no que tange as questões citadas acima, Sex and the City ganha mais força por trazer, mesmo que fora dos padrões das teorias do movimento feminista, a mulher num outro posicionamento, conquistando espaço. Um programa televisivo onde as mulheres podem tanto quanto (ou mais) que os homens. Falar de sexo é permitido. Gerenciar empresas também. O seriado até hoje é referência, ganhou duas adaptações para o cinema e ainda promete muito mais. Separe o joio do trigo: mesmo que não problematize algumas questões de gênero, inclusive estereotipando-a, se entregue ao mundo fashionista de Carrie e sua trupe. A diversão é garantida e o roteiro traz metáforas que transformam o enredo, em alguns momentos, em pura poesia.

* Graduando em Letras Vernáculas com Habilitação em Língua Estrangeira Moderna - Inglês - UFBA | Membro do grupo de pesquisas “Da invenção à reivenção do Nordeste” – Letras – UFBA | Pesquisador na área de cinema, literatura e cultura - Colaborador do Passeiweb.com


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