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Cinderela Baiana, de Conrado Sanchez, e os estereótipos de baianidade


Por Leonardo Campos*

O Brasil e o Cinema da retomada

Acoplado na década de 90, o Cinema da retomada é assim intitulado por ser o marco do novo fôlego do cinema nacional, a grande retomada das produções, logo após a fase obscurantista do governo do então midiático Fernando Collor de Mello. O Brasil havia passado pela conturbada década de 80, período de acontecimentos marcantes que mudariam a estrutura da nação brasileira: primeiro, a doença e morte de Tancredo Neves, em um país que acabava de se livrar das amarras da ditadura; segundo, o crescimento do desemprego e da dívida externa, aliados aos anos inflacionários de José Sarney. Ao assumir o governo, Fernando Collor de Melo pôs um ponto final na Embrafilme, fato que vai marcar início do grande abismo encontrado pelo cinema nacional nos primeiros anos da década de 90.

O Cinema da retomada apresenta fidelidade às narrativas cinematográficas de cunho tradicional, algumas com cenas tipicamente hollywoodianas. A filiação com a televisão (filmes da Xuxa e dos Trapalhões) é outra característica marcante do movimento, colaborando com o entendimento das motivações da escolha de Cinderela baiana como objeto de estudo das representações de mulher nordestina no Cinema da retomada, examinando estereótipos de baianidade nele contidos. Naquele período, entre 1996 e 1998, Carla Perez não era apenas um fenômeno nos shows do grupo de pagode É o Tchan: o carisma da famosa loira, que ganhou repercussão internacional, era também um estrondo televisivo, aparecendo praticamente todos os domingos em programas populares como Domingão do Faustão (GLOBO) e Domingo legal (SBT).


Carla Perez e o grupo É o Tchan
Atendendo à demanda do cinema de entretenimento, o filme reitera os estereótipos de baianidade, apresentando a mulher baiana como uma espécie de produto de exportação e turismo sexual, num esquema que reitera a valorização do corpo como o ápice da representação da mulher, em um local onde as pessoas que representam a população da cidade de Salvador, parecem passar o tempo apenas dançando e perambulando pela cidade. As únicas personagens que parecem trabalhar são o empresário e seus subordinados e o pai da personagem principal. Até a baiana de acarajé tem suas vendas vinculadas a um milagre operado pela Cinderela baiana.

Não há, tampouco, qualquer referência à cidade de Salvador, entendida como metonímia da Bahia, em seus momentos de produção sócio-econômica ou cultural, para além dos eventos ligados à dança, e neste caso, dança com enfoque sensual e erótico, em sentido pejorativo.


Cartaz do filme Cinderela Baiana (1998)
Carlinha, de Cinderela Baiana, é uma personagem que consegue dar a volta por cima e vencer na vida, mas precisa usar o corpo para isso. Vai precisar do corpo e da sua dança sensual para alcançar o sucesso.

A representação da mulher nordestina é construída numa ótica de inferiorização. No caso de Cinderela Baiana, essa nordestinidade está ligada a um traço especifico de baianidade e aos estereótipos que constituem essa noção. Tais estereótipos que ainda persistem na mídia, como diz o próprio Durval Muniz ao alegar em entrevista que “a mitologia em torno do Nordeste, os estereótipos em torno do nordestino que nele critico continuam circulando e sendo veiculados na região e fora dela”. Algumas produções no cinema da retomada, assim como o inovador Amarelo Manga (Claudio Assis, 2003), tratam da região Nordeste através da ótica da metrópole e do urbano, fugindo dos lugares comuns nordestinos que trazem as mesmas referências a um Nordeste atrasado e bárbaro, com as mesmas imagens de caveiras, urubus, terra gretada, pés rachados e caatinga seca.

Outros filmes que abordam a Bahia de forma estereotipada.

Cinderela baiana aborda a Bahia através do espaço físico de Amarelo Manga, a metrópole, contudo, a Bahia que encontramos na película é arcaica e feia, como um longo videoclipe da miséria e da malemolência do baiano. Em oposição ao nordestino forte, do imaginário de Euclides da Cunha, o baiano é preguiçoso e vive em festa. Toda essa teatralidade que constrói o cotidiano baiano continua sendo reafirmada em produções como Ó Pai Ó (Monique Gadenberg, 2007) e o recente Os Normais 2 – A Noite mais maluca de todas (José Alvarenga Jr. 2009), dois exemplares polêmicos dessa repetitiva representação de baianidade e grandes sucessos de bilheteria nacional.

Um punhado de teoria para entender melhor Cinderela Baiana

Para traçar os dados estereotípicos que permeiam a narrativa de Cinderela Baiana é preciso entender que o que se convém chamar de baianidade, definição que está atrelada a abstrações e construções de âmbito social a partir de reflexões como as de Anderson (1989) em Comunidades imaginadas. O autor expõe que a nação imaginada como comunidade se dá pelo fato de haver uma desconsideração simbólica em relação às desigualdades sociais, diferenças culturais que compõem as nações de uma maneira geral em detrimento de um companheirismo profundo e horizontal.


Carla Perez na fase Rainha do bumbum. Ícone da representação
de mulher baiana e brasileira, segundo os olhares estrangeiros.
Em sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo, O Mito da preguiça baiana (1998), a pesquisadora Elisete Zalonrenzi afirmou que a relação da preguiça com os baianos tem forte teor racista. De acordo com as idéias da tese, a imagem de povo preguiçoso se enraizou por meio da elite portuguesa, que sempre considerou os escravos como indolentes e muito preguiçosos, devido às suas respectivas expressões faciais de desgosto e a lentidão na execução do serviço que lhes era taxado.

Depois, espalhou-se no Sul e Sudeste, inicialmente na década de 40, devido às migrações constantes. Todos que eram oriundos do Nordeste viraram baianos. Intitulá-los de preguiçosos foi a forma de defesa encontrada para rebaixar os trabalhadores nordestinos, e por seu turno, manchar a sua imagem. Vale ressaltar que muitos destes nordestinos eram propriamente baianos, taxados de desqualificados, estabelecendo fronteiras simbólicas entre dois mundos como forma de proteção dos seus empregos.

Segundo a mesma tese, a preguiça foi apropriada por outro segmento propicio à reiteração destes estereótipos: a indústria do turismo, que incorporou à imagem para vender a idéia de lazer permanente, este, muito atrelado à musicalidade da Bahia, vista com bastante representatividade em Cinderela Baiana, um dos pontos mais altos da narrativa, que faz da música um personagem da trama, atuante de forma diegética.


Cena do encontro da Cinderela baiana com seu príncipe encantado:
festival de equívocos
Os estereótipos e imagens generalizadas são perfis construídos historicamente, numa Bahia que ninguém usa relógio, a festa nunca acaba e tudo é motivo de alegria, há carnaval e festa todo dia. Assim como nesta mídia contemporânea, Cinderela Baiana esqueceu que Salvador é uma das principais capitais industriais do país, com um ritmo tão urbano quanto os das demais cidades, e com isso, apresenta-se como um filme redutor de uma dita realidade, a de uma metrópole influente, e também se mostra contraditório à realidade local, pois diferentemente de outros produtos que fazem um panorama da Bahia alegre e festiva, Cinderela Baiana apresenta isso, portanto, uma Bahia onde as pessoas são felizes na miséria constante, onde até os pontos turísticos são apresentados de forma canhestra, escura e por sua vez, sujos.

A preguiça é um dos temas que abrangem a idéia de baianidade, portanto não é o único aspecto estereotípico encontrado em Cinderela Baiana. O filme também apresenta a mulher como lançamento para o turismo sexual, além da capital baiana abrigar pessoas que dançam durante todo o dia.

Segundo Moura (2005), a baianidade nada mais é que a representação dos baianos, uma ilustração do seu modo de vida, com caracteres estruturados que lhe agregam valores díspares de quaisquer outras localidades, capazes de oferecer traços da cultura local. Seguindo as mesmas idéias do autor, há persistência de atores sociais em criar, manter e gerenciar um padrão de originalidade e diferença. Na verdade, o que se entende é uma busca identitária que destaque a Bahia, e, consequentemente, crie no “outro” a idéia de fantasia, ludicidade e possibilidades de liberdade. Elementos que, isolados ou articulados, contribuem para a fomentação do turismo, e com isso, e fecundação dos estereótipos.

Para falar dos estereótipos de baianidade é preciso recorrer ao universo de Jorge Amado, que nas palavras do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr, “não é um inventor do nordeste em si, mas um inventor da Bahia e da baianidade centradas na vida do Recôncavo, na memória da sociedade do cacau, do sul da Bahia”. Seguindo as idéias do historiador, podemos ainda afirmar que Jorge Amado, assim como Gilberto Freyre, enfatiza a contribuição africana para a cultura e os costumes brasileiros.

Saiba mais sobre a Cinderela Baiana

Como dito anteriormente, Cinderela baiana foi um filme de interesse puramente comercial, que por seu turno, capitalizava no sucesso de Carla Perez ainda como dançarina de pagode do grupo É o Tchan. A produção do filme foi uma verdadeira odisséia: foram seis meses para chegar até Carla Perez. O filme não foi terminado, eram dois meses de filmagens que foram reduzidos para um. Segundo o diretor do filme, “o filme morreu no meio”, daí entende-se toda aura mítica que ronda Cinderela Baiana: o filme nunca foi lançado oficialmente em DVD, há um processo judicial que ainda está em andamento, o que impede a comercialização do filme, fadado ao fracasso desde a sua equivocada produção.

Cinderela Baiana estreou numa sexta e no sábado já estava fora das salas de cinema. “Era impossível filmar com Carla Perez pelas ruas de Salvador, visto que a multidão que se formava eram algo exorbitante”. Em suma, Cinderela Baiana é uma produção equivocada desde as intenções do roteiro às atuações do elenco, soando como uma piada muito mal contada.

Assim como Lula Cardoso Ayres e Cícero Dantas pintaram um nordeste de forma ultrapassada, Cinderela Baiana consegue fazer o mesmo com a Bahia, representada de forma pictórica e bastante caricatural.

Herança da primeira metade do século passado, com obras a exemplo de Jorge Amado e composições de Dorival Caymmi, expressando sempre uma Bahia emoldurada de forma bucólica e folclorizada por estereótipos, Cinderela Baiana expressa também um período em que a Bahia permanecia sob o poder do grupo político unificado por Antônio Carlos Magalhães, um fator determinante para a legitimação desta identidade que conhecemos como baianidade.

O turismo e a cultura local, associados em 1971 com a criação da Bahiatursa e da Emtursa vai ser desenvolvida pelo governo do político que vai manter sua hegemonia até 2006. Essa baianidade difundida pela política de ACM encontra-se diluída no contexto de produção de Cinderela Baiana.

A persistência dos estereótipos de baianidade está presente em diversos momentos do filme: Chico (Lázaro Ramos) e Bucha, amigos de Carlinha (Carla Perez), representantes da conhecida malemolência do baiano, aqueles que levam as coisas do jeitinho malandro e desonesto de ser, características presentes com bastante evidência na cena em que colocam Carlinha para roubar uns acarajés.

E a Bahia é só acarajé?

Acarajé, Abaeté, baiana de acarajé com toda a sua indumentária, Farol da Barra, música para todos os lados (diegética ou não), orixás manifestando-se e rodas de pagode: a Bahia surge numa metonímia equivocada, assim como a representação de mulher baiana, de origem pobre e afro-descendente, reafirmando ainda os estereótipos que tem em sua fonte o discurso violento da mulher baiana, desde as mulheres Rita Baiana e Bertoleza (O Cortiço, de Aluisio de Azevedo), passeando pelas mulheres de Jorge Amado (Gabriela, Tieta e salvo algumas particularidades, Dona Flor), indo da demonização à erotização, chegando até a Carla Perez encontrada em Cinderela Baiana, uma adaptação cinematográfica não fiel aos fatos reais da vida da dançarina, mas que se aproxima muito daquilo que Carla Perez representou tanto na ficção como na realidade: corpo, sensualidade e sexualidade latente.

* Graduando em Letras Vernáculas com Habilitação em Língua Estrangeira Moderna - Inglês - UFBA | Membro do grupo de pesquisas “Da invenção à reivenção do Nordeste” – Letras – UFBA | Pesquisador na área de cinema, literatura e cultura - Colaborador do Passeiweb.com

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