dcsimg

A História do Cinema Mundial - O Cinema da Retomada


Por Leonardo Campos*

Neste segundo artigo da coletânea História do Cinema Mundial, pularemos algumas etapas e conheceremos um recorte dentro da história do cinema nacional: o cinema da retomada, período que geralmente é ligado à produção cinematográfica dentro de determinado período dos anos 90.

Registrado na década de 90, o cinema da retomada é identificado dentro do panorama do cinema nacional como o período de novo fôlego para as produções após a fase obscurantista do governo de Fernando Collor de Mello. Apoiado por uns, que reconhecem no período um perfil de retomada das produções, e criticado por outros que consideram o termo uma grande estratégia mercadológica, o cinema da retomada adquiriu características próprias no que se refere à história do cinema nacional, repleta de momentos marcantes, de alcance muitas vezes mundial.

O marco para o cinema da retomada foi a produção Carlota Joaquina – A princesa do Brasil, dirigido por Carla Camurati. A partir daí o cinema nacional veria a luz do dia novamente, após o período de trevas no qual mergulhou durante o governo do presidente Fernando Collor de Mello, que após a sua posse em 15 de março de 1990, não demorou em por um fim na Embrafilme e dar início ao ápice da crise, reduzindo as produções à quase zero.

> Assista aqui um trecho de uma apresentaçao, em inglês, do filme "Carlota Joaquina"

Para melhor entender este processo, é necessário retroceder um pouco na história do país naquele período, o que pode ser visto com maestria em alguns trechos do filme Terra estrangeira, de Walter Salles. O Brasil havia saído da ditadura militar havia poucos anos. A morte do presidente Tancredo Neves em 1985 deixou o país num emaranhado de incertezas, somado ao crescimento da dívida externa, do desemprego e da violência urbana. Os anos inflacionários de José Sarney também tiveram destaques significativos. A eleição do então exótico e midiático presidente Fernando Collor, o primeiro democrata após o conturbado período de incertezas, trouxe uma grande interrogação à população do país, que obteve suas respostas pouco tempo depois, numa das fases mais perturbadoras para os diversos setores do país, principalmente o cultural.

Neste processo, o cinema da retomada surgia em 1995, como já citado, no filme de Carla Camurati. Partindo desse ponto, esta nova fase do cinema nacional, não aceita pela totalidade dos profissionais ligados à atividade cinematográfica do país, trouxe, com características diferentes dos períodos anteriores, um novo fôlego para as produções.

As primeiras produções do cinema da retomada colocaram em relevo uma das principais tendências, que era a mescla de gêneros. Os filmes da retomada, mesmo quando abordam cenários como o sertão ou a favela, desenvolvem uma narrativa melodramática. Em alguns casos, a miséria e a violência transformam-se em meros divertimentos e entre suas grandes características está a disputa com o mercado internacional, ainda dominante no território nacional. Para a maioria da crítica especializada, os filmes do cinema da retomada emolduram as mazelas e contradições da sociedade brasileira, exibindo-as, mas não discutindo-as.

A ensaísta Ivana Bentes lançou inclusive um interessantíssimo termo para estes tipos de produções: a “cosmética da fome”. Para ela, no cinema da retomada, a estética da fome difundida por Glauber Rocha no cinema novo foi trocada pela cosmética da fome, vide filmes como Eu, tu, eles e Deus é Brasileiro, que abordam o sertão, antes agonizante, de forma bastante colorida e lírica.

Ao contrário dos cineastas filiados ao cinema novo e ao cinema marginal, que investiram no experimentalismo e, na maior parte dos casos, permaneceram indiferentes perante às leis e às regras mercadológicas, o cinema da retomada apresenta fidelidade às narrativas cinematográficas de cunho tradicional, esquemáticas e por vezes naturalistas, típicas do cinema hollywoodiano.

Outra característica marcante do cinema da retomada é a filiação com a televisão. Os filmes de Xuxa Meneghel ganham destaque e são lançados em curtos períodos de tempo.

Artistas da época, como por exemplo, a dançarina Carla Perez, também participaria de uma produção com abordagem da sua vida pessoal, resultando em um dos maiores fiascos do cinema nacional, o longa metragem Cinderela Baiana, dirigido por Conrado Sanchez. Era a vez também de uma das musas de Jorge Amado saírem das páginas do romance para ganhar as telas do cinema: Tieta do Agreste foi adaptado pelo diretor Cacá Diegues e também tornou-se logo um desastre de bilheteria e crítica. Estes filmes abordavam muitos estereótipos de baianidade, sendo severamente criticados pelos especialistas da área.

Filmes marcantes do Cinema da Retomada: Carlota Joaquina – A Princesa do Brasil (Carla Camuratti, 1994), por ser o primeiro grande sucesso de bilheteria, seguido de outros filmes com propostas inovadoras que aportavam concomitantemente: A terceira margem do rio (Nelson Pereira dos Santos, 1994), Capitalismo Selvagem (André Klotzel, 1994) e Terra estrangeira (Walter Salles e Daniela Thomas, 1995).

A mulher no Cinema da retomada

Claudia Abreu (Caminho das Nuvens) e Regina Casé (Eu Tu Eles): representações marcadas da mulher nordestina no Cinema da retomada.

A mulher nordestina já apareceu no cinema da retomada em diversas nuances, porém, todas elas, possuindo uma característica peculiar: todas são vítimas da inferioridade. Seja a avançada Darlene (Regina Casé), de Eu Tu Eles à sofrida, porém, cantante, Rose (Claudia Abreu), de Caminho das Nuvens: a reiteração do nordeste como espaço da dor e do sofrimento está firme, desde os signos massificados (cactos e mandacarus) aos estereótipos de nordestinidade tão freqüentes na mídia.

Para os propósitos deste estudo, a abordagem dos estereótipos de Nordeste toma como base o livro tese A invenção do Nordeste e outras artes, lançado em 1994. Uma das questões abordadas pelo autor trata do surgimento das noções negativas atreladas à expressão da nordestinidade: os mitos e estereótipos que emergiram com o espaço físico do Nordeste no mapa do Brasil, juntamente com a produção literária de autores canônicos, dentro da rubrica do regionalismo de 30, de autores como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Raquel de Queiroz, no caso do romance, e também na dramaturgia, de Ariano Suassuna.

Esta figura, presente nos romances de Jorge Amado, aparece como a personagem Tieta, integrante do perfil de mulheres do escritor baiano, que ganhou adaptação cinematográfica homônima em 1995, com a direção de Cacá Diegues.

No filme, a mulher nordestina (e baiana) é retratada a partir de uma perspectiva semelhante à de Cinderela Baiana, em diálogo com outras duas obras oriundas do universo amadiano: Gabriela – Cravo e Canela e Capitães de Areia. A Bahia de Tieta do Agreste aparece como a região do atraso, como no discurso do personagem Ascânio, que diz em alto e bom tom “isso aqui é o cú do mundo”.

* Graduando em Letras Vernáculas com Habilitação em Língua Estrangeira Moderna - Inglês - UFBA | Membro do grupo de pesquisas “Da invenção à reivenção do Nordeste” – Letras – UFBA | Pesquisador na área de cinema, literatura e cultura

>> Confira também em

Comentários

Siga-nos:

Instituições em Destaque

 
 

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e receba as últimas notícias do Vestibular além de dicas de estudo: