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A História do Cinema Mundial - 2. O Western


Por Leonardo Campos*

Ao contrário do que se pensa, o gênero Western, de origem norte-americana, é muito importante para o entendimento da historiografia da Sétima Arte, tendo influenciado muitos outros gêneros que vigoram até hoje, além de ter sido laboratório de algumas técnicas narrativas fundamentais para o aprimoramento das narrativas cinematográficas contemporâneas.

O gênero marca os primeiros filmes totalmente narrativos, além de ser um gênero hollywoodiano por excelência. A tal influência citada anteriormente está ligada ao fato de que o western foi fonte de inspiração para muitos filmes de samurais japoneses, filmes indianos, russos, mexicanos e interessante para o entendimento da nossa cultura, brasileira, dos filmes de cangaceiros.

O western foi o responsável pela cristalização do imaginário de Velho Oeste, local de fusão de distintas regiões dos Estados Unidos, comparados por alguns teóricos com a Grécia Antiga, que espalhou de forma semelhante seu imaginário pelo mundo afora. O cowboy tornou-se um legítimo estadudinense quando se transformou em um símbolo do oeste selvagem, legendário e folclórico. Hollywood imortalizou essa imagem de cowboy ao criar o tipo vestido com colete folgado, chapéu de abas, lenço no pescoço e portando um revólver num coldre, geralmente de couro.

O universo do western é mitológico, as histórias são criadas a partir de relatos de uma sociedade que criou o hábito de ao longo do tempo, alcançar a capacidade de simbolizar uma ideologia, e assim, dramatizar a consciência moral local. Estas histórias, que surgiram de eventos reais entram no processo de criação e recriação à medida que vão se transformando, tornando-se simbólicas, ícones que algumas vezes estão repletos de clichês históricos.

Uma das características deste gênero é a história de heroísmo do homem branco, desbravador de terras. Alguém duvida da relação com a história de colonização, relatada tão coerentemente pelo romantismo de José de Alencar? Nessas narrativas, o indígena e a natureza estão como obstáculos na construção de uma sociedade superior, atrelada ao puritanismo.

Muitos desses elementos míticos estão presentes na literatura dos Estados Unidos. Na genealogia do western estão a música folk colonial, livros de autores como James Fenimore Cooper e alguns romances populares do século XIX.

Com isso, é interessante lembrar das dicotomias presentes no imaginário do western: cultura versus natureza, Leste versus Oeste, o verde e o deserto, a América e a Europa, a ordem social e a anarquia, o indivíduo e a comunidade, a cidade e as terras selvagens, o cowboy e o índio, a professorinha e a dançarina / prostituta.

O momento histórico que o gênero se refere boa parte do tempo são os da Guerra Civil Americana e se estendeu até o início do século XX.

As primeiras duas décadas do século XX marcaram o pioneirismo norte-americano nas produções. "Grande Roubo do Trem" (Edwin Porter, 1903) foi o embrião do gênero, que teria também como característica a luta entre o bem e o mal, além de retratar a figura do índio de duas formas: a primeira, o índio como personagem irracional, selvagem e sedento por sangue, e na segunda, representações de um índio como portador da dignidade americana.

Uma outra característica de alguns filmes era o sentimentalismo que manifestava-se de diversas maneiras, entre elas, a recuperação do vilão pelo amor da heroína ou a admiração de uma criança (temática que vai permear diversos outros gêneros cinematográficos e literários), no amor de seu cowboy por seu cavalo (também uma temática que transformou-se em outros gêneros, como apegos, por exemplo, a um cachorro) e no dedicado herói e sua devoção pela irmã pura e ingênua.

Foi nesse gênero que surgiu a imagem da mulher redentora hollywoodiana, capaz de redimir o herói de toda sua violência e colocá-lo na ordem da paz e do amor. Essa mulher do gênero western é uma das pilastras basilares para as grandes divas dos filmes clássicos hollywoodianos, denominadas de mulheres poderosas, de poder e lugar certo na sociedade.

A reforma do herói é então, uma das principais características. Como surgimento de novas tecnologias, o gênero western ganhou novos formatos, adaptou-se a nova realidade cultural de um mundo pós Primeira Guerra mundial.


John Ford
A figura de John Ford e o filme "No Tempo das Diligências" são duas fortes fontes imagéticas do gênero western, que começou a cair no ocaso quando seu código de honra e as suas regras mostraram-se defasadas da realidade do mundo que mudava seu formato com passos cada vez mais ligeiros.

O gênero entrou em fase de saturação após a Segunda Guerra Mundial, por motivos citados anteriormente. Muitos diretores ainda continuvaam insistindo nestas narrativas, visando agradar provavelmente apenas aos fãs do formato. Outros eventos históricos posteriores como a Guerra do Vietnã, a Guerra da Coréia, a invenção da pílula anticoncepcional e outros fatores, desatualizaram o gênero, que foi posteriormente revisitado em produções que buscaram homenageá-lo, não pretendendo recriá-lo.


Ang Lee

Glauber Rocha
Em 2006, o diretor Ang Lee descontruiu toda a estrutura típica dos machões do gênero western e adaptou o conto "Brokeback Mountain" para os cinemas, um filme que aborda o ícone basilar do homem norte-americano numa relação homossexual. O gênero foi influência direta em alguns aspectos dos filmes de cangaço do cinema brasileiro, entre eles, "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha.

* Graduando em Letras Vernáculas com Habilitação em Língua Estrangeira Moderna - Inglês - UFBA | Membro do grupo de pesquisas “Da invenção à reivenção do Nordeste” – Letras – UFBA | Pesquisador na área de cinema, literatura e cultura


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