dcsimg

A História do Cinema Mundial - 3. O expressionismo alemão e o Cinema Noir


Por Leonardo Campos*

Chegamos à quarta parte da coletânea História do Cinema Mundial com a análise do expressionismo alemão no cinema, estilo que influenciou outros países e suas produções culturais. Atrelado ao expressionismo, temos o Cinema Noir, estilo de filme cultuado, considerado “diferencial”.

Para alguns historiadores, o cinema alemão da década de 20, onde o expressionismo encontra-se vinculado, era descrito como extremo, decadente e com doses cavalares de violência, uma apologia ao nazismo que viria logo depois. O êxito de algumas produções expressionistas alemãs ganharam fama em pontos distintos do planeta, com notoriedade para os Estados Unidos, que sofreram a influência direta destas produções, principalmente no que tange ao filme noir.

O filme O gabinete do dr. Caligari (de Robert Wiene, 1920) seria um dos principais exemplares do gênero. No filme, os cenários são bizarros e seu enredo tem tom de pesadelo, características típicas de filmes deste estilo, que também estava vinculado a outros campos da cultura, como a pintura, a literatura e o teatro.

O fim do século trouxe um período de conturbações: as culturas advindas da Europa, apesar de se orgulharem de seu imperialismo, sofriam pelas múltiplas manifestações de cunho anticapitalista. A título de exemplificação, basta lembrar das obras de Baudelaire e as idéias bem difusas de Friedrich Nietzsche.


O grito, de Edvard Munch
Na pintura temos uma obra muito conhecida, assinada por Edvard Munch: "O grito", em exposição pela primeira vez em 1893. Na pintura expressionista estava exposta uma doutrina que envolvia o uso estático da cor e a distorção emotiva da forma, tratando também do aspecto profundo, divino e imperceptível das coisas. Na literatura, entre tantos, temos Franz Kafka como representante, apontados por alguns como expressionista. Tais características destas formas de artes estavam refletidas também no cinema.

Em primeiro lugar, havia uma iluminação bem especial, bastante insólita, que estava atrelada à maquiagem, que transformava o rosto dos atores em máscaras, cujo tratamento repleto de exageros podia levar à caricatura e ao grotesco. O que tornava prejudicial a pesquisa em torno do cinema alemão era a escassez de materiais sobre o tema, perdidos durante a fase bélica da Alemanha, grandemente envolvida nas duas grandes guerras mundiais. Segundo historiadores, o cinema alemão sofreu grande influência do cinema escandinavo, título futuro desta coletânea de artigos sobre a história do cinema mundial.

O primeiro representante do gênero foi "O outro" (1913), de Max Mack, considerado também o primeiro filme de cunho psicanalítico do cinema. O enredo gira em torno de um homem que desenvolve dupla personalidade após sofrer um acidente. Outro ótimo representante é O estudante de Praga (1913), que misturando Goethe e Edgar Allan Poe, narra a história trágica do estudante Baldwin, que vende seu reflexo no espelho ao demônio Scapinelli e passa a ser perseguido por seu duplo diabólico. O cinema expressionista alemão é diretamente ligado à temática fantástica.

Mais elementos caracterizaram o cinema expressionista: ligações com o gótico, efeitos de sombra e luz nas imagens e vilões sobrenaturais. Apesar do avanço tecnológico destas produções, que influenciaram na qualidade narrativa das mesmas, o cinema alemão enfrentou duro boicote internacional, por questões referentes a seu envolvimento nas guerras mundiais.

"O gabinete do dr. Caligari" ganhou notoriedade dentro deste estudos devido a criação de uma atmosfera de pesadelo que ganhou possibilidade pela produção em painéis pintados ao estilo expressionista, traçando um panorama com aspectos tortuosos e imprevisíveis. Somado a isso, estavam as interpretações dos atores, exageradas e de forte impacto visual, com maquiagem deformadora e enredo envolvendo personagens com sentimentos de destruição e revolta contra as autoridades.


Fritz Lang, um dos mais famosos nomes da
escola do expressionismo alemão
No que tange o quesito composição, o cinema expressionista prendeu-se em muitos aspectos ao gótico medieval, como maquiagem (já citado) reforçada e o figurino estilizado. Uma outra característica foram as cenas repletas de alucinações. Um título que ajudará no entendimento da estética expressionista é a película entitulada "Fantasma" (1922). Numa determinada cena, o protagonista é dominado por uma vertigem e as escadas do caminho que segue começam a subir e descer sem que ele precise se mexer.

No quesito temática, o cinema expressionista alemão estava ligado ao universo da literatura romântico-fantástica. Na estrutura narrativa, uma das experiências mais marcantes era a de evitar o uso de letreiros narrativos e/ou explicativos: era um cinema interessado em mostrar, e cada um que entendesse da sua forma a mensagem transmitida. A descontinuidade era parte do processo narrativo, sendo o espectador o responsável pela construção da narrativa.

FW Murnau, Fritz Lang e Paul Leni foram os três maiores representantes do movimento, que de tão marcante, influenciou em quesitos estéticos o estilo hollywoodiano noir.

CINEMA NOIR

Quando um cinéfilo é perguntado sobre as características do cinema noir, gênero considerado como diferencial/intelectual, ele trata logo de responder: são filmes com luz expressionista, narrados em off, trazendo um detetive durão e uma loira linda e fatal, apimentado com altas doses de erotismo.

Resposta incorreta? Certamente não. A grande confusão na definição do gênero está ligada às suas origens, equivocadas para muitos estudiosos, que não sabiam que na verdade, o gênero não é essencialmente norte-americano. Ele se difundiu e ampliou-se por lá, mas é oriundo da França, país que se encontrava privado de cinema hollywoodiano, vendo-se diante de uma leva de filmes franceses, entre eles os clássicos Alma torturada (1942) e Assassinos (1946). Esses diretores empregavam nas suas obras os tons escurecidos, na temática e na fotografia, além da representação critica da sociedade americana e subversão a unidade hollywoodiana.

Com o passar dos tempos, o cinema noir tornou-se objeto de culto. Filmes atuais como Los Angeles – Cidade Proibida (1997), Estrada perdida (1997) e O homem que não estava lá (2001) seriam versões modernas do gênero. O elemento central do gênero é o crime e simbolizava o mal-estar pós-guerra dos americanos.

Nos filmes do gênero, há predominância do tom pessimista e fatalista, atmosfera repleta de crueldade, clima claustrofóbico e herança estilística da literatura policial. A complexidade das tramas e o uso intenso de flashbacks são marcantes, somados a ruas desertas, paisagens noturnas. Nota-se inclusive os títulos de filmes noirs, sua maioria trazendo palavras de cunho iconográfico como city, dark, street, windown, lonely, mirror, e as de cunho temático, como fear, cry, panic, death.

O homem do Noir, diferente do caubói do western traz na sua personalidade o derrotismo, ambigüidade, narcisismo, isolamento e egocentrismo. A mulher do Noir, mítica, metaforiza a independência que as mesmas alcançaram no pós-guerra.

> Assista um trecho do filme Gilda, uma mostra da mulher do Noir

* Graduando em Letras Vernáculas com Habilitação em Língua Estrangeira Moderna - Inglês - UFBA | Membro do grupo de pesquisas “Da invenção à reivenção do Nordeste” – Letras – UFBA | Pesquisador na área de cinema, literatura e cultura


>> Confira também em

Comentários

Siga-nos:

Instituições em Destaque

 
 

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e receba as últimas notícias do Vestibular além de dicas de estudo: