dcsimg

A História do Cinema Mundial - 4. Impressionismo francês e surrealismo


Por Leonardo Campos*

Em artigos anteriores, analisamos outras vanguardas cinematográficas, que muito contribuíram para o pensamento da teoria do cinema: expressionismo alemão etc. Dessa vez, o foco de análise são as vanguardas conhecidas como Surrealismo (conhecida através do Manifesto Surrealista de André Breton, de 1924) e o Impressionismo francês, que mantém forte diálogo com o Expressionismo, vanguarda que influenciou o filme noir.

Na época em que o cinema impressionista mostrava suas características, o mundo estava rodeado pelas inglórias da Primeira Grande Guerra Mundial, que muito estragou e quase nada mudou, criando com bastante força a Nova Ordem Mundial, marcada pela queda do absolutismo monárquico na Europa.


Blaise Cendrars
Blaise Cendrars, colaborador que trouxe as influências européias em sua viagem ao Brasil na época de eclosão do movimento modernista, juntamente com o poeta Guillaume Apollinaire, começou a ver o cinema não mais como entretenimento, como ato de mostrar, mas como uma rica fonte de inspiração para o mundo. O cinema naquele período estava relegado ao status de arte popular, inferior à literatura, pintura e ao teatro. O cinema era conhecido como o irmão pobre do teatro, reduzido a guetos. Com a hegemonia dos Estados Unidos na tecnologia cinematográfica, a França saiu na corrida por atualização.

Os filmes impressionistas se caracterizam por proezas técnico-estilísticas, sobre-impressões e planos subjetivos. Ritmo de montagem e aperfeiçoamento de técnicas de enquadramento fazem parte do panorama do movimento. Conhece-se muito pouco da escola impressionista, um movimento quase marginal e minoritário. Vale lembrar que para entender o Impressionismo no cinema Francês, é preciso relembrar da efervescência cultural da década de 20. Foi uma época de intenso experimentalismo: foram periódicos sobre cinema, cineclubes e salas especializadas.


Ricciotto Canudo
Ricciotto Canudo teve papel fundamental na teoria do cinema. Ensaísta e crítico de cinema, Canudo criou a alcunha das 7 artes, que culminou o cinema sendo a 7ª, termo que conhecemos e hoje soa como trivial. Temos outro teórico, chamado Louis Delluc, romancista e teatrólogo também. Não era tão crítico e analista como Canudo, que desmembrava o filme para analisar, algo que conhecemos hoje como decupagem. O movimento Impressionista dialoga com a pintura de mesma vanguarda.

Nas principais características do Impressionismo no cinema estão a postura do diretor como roteirista da sua produção e a valorização da imagem em sua forte carga de afeto, mistério e poesia, construindo a narrativa.

Exemplo de cena impressionista: no filme Eldorado (1921), a protagonista Sibilla, uma dançarina de boate, e somente ela, aparece fora de foco em companhia de colegas. Isso se explica a seguir: a moça estava preocupada com o filho doente.


Germaine Dulac
Um exemplar da literatura no impressionismo francês é " A queda da casa de Usher", com roteiro baseado em contos de Edgar Allan Poe. Os contrastes entre claro e escuro nesses filmes constituem talvez uma relação antecipada com o cinema noir. Como representantes do movimento temos: Abel Gance, Louis Delluc, Marcel L´Herbier, Germaine Dulac e Jean Epstein.

No caso do cinema surrealista, o seu desenvolvimento se deu nos primórdios da década de 30. Influenciado pelos pintores da mesma escola, acreditava-se que limitar a representação das coisas aos moldes formulados pela consciência era restringir de maneira intolerante a liberdade. Sintetizando: esses movimentos visavam a quebra da aliança com os moldes tradicionais vigentes na sociedade. O cinema surrealista representava uma tentativa artística de moldar para a arte o mundo dos sonhos. Há muitas influências da pintura surrealista: Dali, Miró, Magritte, Picasso e tantos outros.


Luis Buñuel
O espanhol Luis Buñuel é um dos maiores representantes do movimento. "O Cão andaluz" (1929) e "A idade de ouro" (1930). Com "O cão andaluz", roteiro co-escrito por Salvador Dali, Luis Buñuel estreou como diretor e ator neste curta-metragem, o marco inicial do surrealismo no cinema. À luz da psicanálise, Buñuel e Dali exploram o inconsciente humano, numa sequência de cenas oníricas, incluindo o célebre momento em que um homem corta, com uma navalha, o olho de uma mulher. Em "A Idade de Ouro", o diretor traz imagens fortes e cruas de morte, espancamento, fetichismo e, no final, um epílogo com um conto do Marquês de Sade. É primeiro longa-metragem do espanhol Luis Buñuel.

Na historia da literatura brasileira, Graciliano Ramos nos mostra um pouco de influência surrealista em seu livro Angústia, de 1938. No enredo, Luis Dias é um funcionário público de 35 anos, solitário, desgostoso da vida e que acaba se envolvendo com sua vizinha, Marina. Com traços existencialistas, Luís mistura fatos do passado e do presente, narra num ritmo frenético como um grande monólogo interior.

* Graduando em Letras Vernáculas com Habilitação em Língua Estrangeira Moderna - Inglês - UFBA | Membro do grupo de pesquisas “Da invenção à reivenção do Nordeste” – Letras – UFBA | Pesquisador na área de cinema, literatura e cultura


>> Confira também em

Comentários

Siga-nos:

Instituições em Destaque

 
 

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e receba as últimas notícias do Vestibular além de dicas de estudo: