dcsimg

A História do Cinema Mundial - 5. A montagem soviética


Por Leonardo Campos*

A montagem soviética foi um dos períodos basilares na história do cinema mundial, influenciadora de muitos outros movimentos cinematográficos posteriores.

Todos os representantes deste movimento eram jovens e pouco experientes, como Lev Kulechov, Dziga Vertov e Eduard Tissé. Antes de adentrar as características da montagem soviética, farei um panorama histórico do período, na década de 20, logo após a Primeira Grande Guerra Mundial. Como se encontrava a União Soviética naquele momento?

A Guerra Civil Russa

A guerra civil russa foi um conflito armado que eclodido em abril de 1918 e terminou em meados de 1922. Durante o período, diversos matizes da política enfrentaram-se na tentativa de impor a sua forma de governo. As partes em conflito incluíram ex-generais tzaristas, republicanos liberais (os cadetes), o exército vermelho (bolchevique), milícias anarquistas (o Exército Insurgente Makhnovista) e tropas de ocupação estrangeiras. O Exército Vermelho foi o único vencedor do conflito, após o qual foi criado o Estado Soviético, sob liderança inconteste dos bolcheviques.

Aproveitando-se do verdadeiro caos em que o país se encontrava, as nações aliadas da Primeira Guerra Mundial resolveram intervir a favor dos brancos (tzaristas e liberais). Tropas inglesas, francesas, americanas e japonesas desembarcaram tanto nas regiões ocidentais (Criméia e Georgia) como nas orientais (ocupação de Vladivostok e da Sibéria Oriental). Seus objetivos eram: derrubar o governo bolchevique (que era pela paz com a Alemanha) e instaurar um regime favorável à continuação da Rússia na guerra; mas talvez seu objetivo maior fosse evitar a "contaminação" da Europa Ocidental pelos ideais comunistas - daí a expressão utilizada por Clemenceau, Presidente da França - de "cordon sanitaire".

Todo movimento histórico geralmente é datado através de um estopim. No caso da Guerra Civil Russa, temos o assassinato do embaixador alemão em Moscou, Conde Wilhelm von Mirbach. Tais levantes tiveram projeção até o fim daquele mesmo mês, mas se estenderam até 30 de dezembro de 1922. Estes acontecimentos, por alguns agrupados em torno do conceito de Revolução de 1918, iniciaram-se durante o Quinto Congresso dos Soviets de toda Rússia, nos quais os discursos antibolcheviques dos anarquistas e dos socialistas-revolucionários não receberam apoio da maioria dos delegados. Derrotados no congresso, os anarquistas e os socialistas-revolucionários decidiram sabotar o Tratado de Brest-Litovsk arrastando a Rússia Soviética a uma guerra com a Alemanha.

Sergei Eisenstein rompe relações com sua família e seus estudos (de engenharia) para manter-se n organização de espetáculos teatrais para os soldados do comumente conhecido Exército Vermelho.

Essa geração de cineastas revolucionou as gerações posteriores para sempre. Alguns conceitos e teorias já expostos pelo cinema mudo alguns anos antes foram lapidadas e incrementadas pelo cinema soviético, que ficou conhecido na posteridade como grande fundamentador da edição que conhecemos atualmente, das técnicas de montar uma narrativa, tornando-a didática e possível de entendimento, com linearidade. Alguns desses artistas foram influenciados por movimentos como o futurismo e o construtivismo, movimentos de vanguarda que encontraram seu lugar em diversos suportes artísticos, como literatura, linguística, pintura e outros.

Antes da montagem soviética: influências do Futurismo e do Construtivismo

O futurismo foi um movimento artístico e literário surgido oficialmente em 20 de fevereiro de 1909, com a publicação do Manifesto Futurista, do poeta italiano Filippo Marinetti, no jornal francês Le Figaro. A obra rejeitava o moralismo e o passado. Apresentava um novo tipo de beleza, baseado na velocidade e na elevação da violência. O slogan do primeiro manifesto futurista de 1909 era “Liberdade para as palavras”, e considerava o design tipográfico da época, especialmente em jornais e propaganda. A diferença entre arte e design passa a ser abandonada e a propaganda é escolhida como forma de comunicação. O futurismo desenvolveu-se em todas as artes, influenciando vários artistas que posteriormente instituíram outros movimentos modernistas. Repercutiu principalmente na França e na Itália, onde vários artistas, entre eles Marinetti, se identificaram com o fascismo.

O futurismo enfraqueceu após a Primeira Guerra Mundial, mas seu espírito rumoroso e inquieto refletiu no dadaísmo, no concretismo, na tipografia moderna e no design gráfico pós-moderno. A pintura futurista recebeu influência do cubismo e do abstracionismo, mas utilizava-se de cores vivas e contrastes e a sobreposição das imagens com a pretensão de dar a ideia de dinamismo. Na literatura, as principais manifestações ocorreram na poesia italiana, que se dedicava às causas políticas. A linguagem é espontânea e as frases são fragmentadas para exprimir a ideia de velocidade.

Já o construtivismo trata-se de um movimento das artes plásticas, do cinema e do teatro que ocorreu basicamente na Rússia, com importante papel no apoio à Revolução Russa de 1917. Esse movimento defende a arte funcional, que deve atender às necessidades do povo.


Sergei Eisenstein
Como já visto, no cinema, os temas resumem-se às etapas da Revolução Russa e a seus ideais. O teórico e cineasta Serguei Eisenstein (1898-1948) é o principal representante. Seus filmes pretendiam induzir ao debate de idéias, e a montagem das cenas explorava o contraste das imagens. Sua obra-prima, "O Encouraçado Potemkim" (1925), é uma homenagem aos 20 anos do levante popular russo de 1905, precursor da revolução.


Dziga Vertov
Em 1921, o cineasta Dziga Vertov (1895-1954) funda o grupo Kinoglaz (cinema-olho), que produz documentários sobre o cotidiano com filmagens ao ar livre e cuidadosa montagem. Entre suas principais obras estão "A Sexta Parte do Mundo" (1926) e "Um Homem com a Câmera" (1929).

A montagem soviética e seus representantes

Convencionou-se deixar Kulechov como o representante pioneiro. Ele, na época um jovem pintor, fora convidado para trabalhar como cenógrafo numa rede de estúdios de cinema. Ele era defensor da criação do roteiro pelo próprio diretor. Em sua teoria, temos exposto o cinema como um conjunto de signos, no qual os elementos inseridos são válidos de acordo com a sua composição e consequentemente, posicionamento dentro do registro, da filmagem.

O principal objetivo de Kulechov era envolver o espectador numa narração vertiginosa, que o tomasse por completo e o levasse à emoção e entendimento, ao planejado: um cinema engajado. Um exemplar clássico é "Mr. West no país dos bolcheviques" (1924), uma propaganda da URSS na maior forma ocidental.

Com narrativa tênues, Sergei Eisenstein narra sem aprofundamentos em questões psicológicas e pessoais, evitando identificação psicológica com os espectadores, prendendo-se a forma da narrativa em si. Em filmes como "A Greve" temos as caricaturas, como os patrões e seus lacaios surgindo de forma estereotipada e estimulando a repulsa do espectador, nesse caso, as massas. Há a relação dos objetos com os personagens e com o que é dito, surgindo uma nova forma de cinema, um novo modo de narrar. Segundo alguns críticos, há em parte da obra de Eisenstein um pouco do estilo kitsch. O que seria o kitsch? O Kitsch é um termo de origem alemã (verkitschen) que é usado para categorizar objetos de valor estético distorcidos e/ou exagerados, que são considerados inferiores à sua cópia existente. São frequentemente associados à predileção do gosto mediano e pela pretensão de, fazendo uso de estereótipos e chavões que não são autênticos, tomar para si valores de uma tradição cultural privilegiada. Eventualmente objetos considerados kitsch são também apelidados de brega no Brasil, ou "pirosos" em Portugal.

A produção Kitsch surge para suprir a demanda de uma classe média em ascensão, que não conseguia entender e aceitar a arte de vanguarda, com suas propostas inovadoras, mas desejava participar do "universo da arte". Esta parte da população não teve a sensibilidade artística educada e, portanto, não desenvolveu o gosto, mas queria parecer culta e apreciadora da arte, porque isto lhe conferia status social

"O Encouraçado Potemkim" (1925), realizado no mesmo ano de "A Greve" possui muito significado no cinema de Eisenstein. Tratava-se de uma narrativa muito mais linearizada, com mais personagens individualizados. O cinema começava a ver a evolução das técnicas narrativas, que amadureciam. Assim como "A Greve", Eisenstein continua buscando uma forma de exprimir o fluxo de energia que move as massas nos movimentos revolucionários.

Em "Outubro", temos a encomenda governamental para comemoração do dez anos da revolução. Na base do filme estão os acontecimentos de 1917. A narrativa é dividida em duas partes. A primeira condesa o processo até 25 de outubro e a segunda narra o dia da tomada do Palácio do Inverno. Técnicas narrativas como close começam a surgir. A cada obra, Eisenstein busca manter o já conquistado e experimentar novas formas de realizar a síntese cinematográfica entre emoção e razão, passado e presente, arte, ciência e revolução.

O cinema soviético influenciou entre tantos, o cinema brasileiro de Glauber Rocha. Em "Deus e o Diabo na terra do Sol", ao assistirmos a cena do massacre de Monte Santo para sentirmos a presença de Eisenstein.

* Graduando em Letras Vernáculas com Habilitação em Língua Estrangeira Moderna - Inglês - UFBA | Membro do grupo de pesquisas “Da invenção à reivenção do Nordeste” – Letras – UFBA | Pesquisador na área de cinema, literatura e cultura - Colaborador do PASSEIWEB.com


>> Confira também em

Comentários

Siga-nos:

Instituições em Destaque

 
 

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e receba as últimas notícias do Vestibular além de dicas de estudo: