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A História do Cinema Mundial - O cinema e o 11 de setembro


Por Leonardo Campos*

Após 08 anos da trágica manhã de 11 de setembro de 2001, dia mundialmente conhecido como o advento do hiperterrorismo, quando quatro aviões americanos foram sequestrados e com requintes de ódio e violência, lembramos que tivemos um dos mais terríveis ataques terroristas da história mundial.

Pensando em você, estudante, elaboramos esse artigo, abordando o tema analisando os contextos histórico e político que marcou esta data; depois, discutindo como o cinema se aproxima da realidade para dar mais poder e sofisticação às suas narrativas, abordando assim, alguns conceitos cinematográficos relevantes, permitindo que você, vestibulando, saiba analisar de forma mais crítica uma narrativa fílmica; e por último, fazendo um estudo do filme Crash – No Limite, dirigido e roteirizado por Paul Haggis, ganhador do Oscar 2006 de Melhor Filme, considerado por muitos especialistas das ciências humanas e áreas afins, como o melhor exemplar para entendimento das tensões raciais nos EUA e no mundo, que alcançaram seu ápice pós 11/09.

OS EUA, O MUNDO E OS ATAQUES DE 11 DE SETEMBRO


Avião rumo à segunda torre: desastre de repercursão mundial
Os ataques terroristas de 11 de setembro foram uma série de ataques suicidas, ministrados pela Al-Qaeda contra alvos civis nos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001.

Na manhã deste dia, dos quatro aviões comerciais que foram sequestrados, dois deles colidiram contra as torres do World Trade Center, em Manhattan, Nova Iorque. Um terceiro avião, o American Airlines Flight 77, foi direcionado pelos sequestradores para uma colisão contra o Pentágono e os destroços do quarto avião, que atingiria o Capitólio, o United Airlines Flight 93, foram encontrados de forma dispersa num campo próximo de Shanksville, Pensilvânia.

A Al-Qaeda é uma poderosa e sofisticada organização mundial. Falar sobre a instituição fundamentalista islâmica requer muito espaço e estudos mais profundos. Indicamos aos vestibulando à recorrer aos livros especializados no assunto. A Al-Qaeda (traduzido por alguns como "A Fundação" ou "A Base") é uma organização internacional, constituída por células colaborativas e independentes que visam, supostamente, reduzir a influência não-islâmica sobre assuntos islâmicos.

Vários documentários e filmes ficcionais foram produzidos após o fatídico acontecimento: Crash – No Limite, As Torres Gêmeas, Voo United 93, Território Restrito, WTC – Wolrd Trade Center, Medo Absoluto e outras tantas produções.

Dentre eles, selecionamos Crash – No Limite, por tratar de um tema que está em voga na ordem do dia: as tensões raciais que assolaram os Eua após essa marcante data, além de apresentar ainda outros temas afins como tráfico humano, e violência urbana. Importante deixar claro que não é a primeira vez que conflitos raciais mancham a história dos Estados Unidos, portanto, vale lembrar que pela data propícia é coerente focar aqui aos fatos referentes apenas aos conflitos pós 11/09.


Barry Glassner, autor da obra "A Cultura
do Medo"
Para realização desse artigo, foi necessário recorrer a um embasamento teórico. Como dica indicamos o livro A Cultura do Medo, de Barry Glassner. Nesta obra, o autor comenta que a criminalidade mundial parece ser maior do que realmente é. Enquanto ela cai nas estatísticas em 20%, as notícias sobre a violência aumentam 600%.

Cultura do medo prova que os números da criminalidade, as drogas e a gravidez precoce deveriam assustar menos do que a poluição e a má distribuição de renda. E desvenda a enganosa teia de perigos e pavores que são o alvo da paranóia da sociedade, que acaba engolindo rumores como se fossem fatos, sucumbe diante da manipulação dos dados e torna-se vítima de um sistema de pensamentos e hábitos avessos ao convívio humano.

O CINEMA COMO RETRATO DO REAL: O IMPACTO DE DETERMINADOS ARTIFÍCIOS DA LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA


Tensão de Crash – No Limite: narrativa exuta, sem gordura (excessos)

Para maior aproveitamento do assunto abordado nessa segunda parte, indicamos a leitura dos artigos disponíveis em nosso site, referentes à História do Cinema Mundial. Veremos assim, que, mesmo na época do Cinema mudo, já existia a intenção do realizador em contar algo, mesmo que tudo fosse narrado de forma linear, sem o uso dos recursos cinematográficos que chegaram juntamente com as inovações tecnológicas ao longo dos anos da história da Sétima Arte, como é comumente conhecido o cinema.

Entre os grandes trunfos do filme Crash – No Limite, estão o uso da montagem, o roteiro e a trilha-sonora, sem contar a atuação de seus protagonistas, em momentos ímpares em relação as suas respectivas carreiras. Os travellings, uma forma de narrativa em que a câmera gira em torno da cena, pegando todos os ângulos possíveis, são movimentos que intensificam a sensação de realidade que o filme tenta transmitir ao espectador a todo tempo. Outros dois planos cinematográficos comuns em tramas tensas e de forte teor dramático são o plongée e o contra-plongée. Artificios cinematográficos que ganharam intensidade nas produções de Orson Wells, famoso (e competente) diretor norte americano, neles, temos duas formas bem polares de narrar uma situação: no primeiro, o contra-plongée plongeé, o objeto ou até mesmo o personagem é filmado de baixo para cima e dá a sensação de superioridade, triunfo. Por seu turno, no caso do plongée, o objeto é filmado de cima para baixo e causa impressão de inferioridade, mediocridade.

É preciso estar atento ao uso desses recursos para melhor compreensão de determinadas narrativas fílmicas. O uso desses recursos citados acima não são gratuitos. Eles fazem parte do discurso do realizador, significam algo e pode ter a absoluta certeza, que se percebidos pelo espectador durante a exibição do filme, sua compreensão chegará a um nível crítico fantástico, permitindo que sua visão crítica de mundo amplie-se e com isso, melhores textos virão, combinado?


Cartaz oficial do filme, lançado em 2005 no Brasil
CRASH - NO LIMITE: CALDEIRÃO DE ESTEREÓTIPOS E XENOFOBIA

Crash – No Limite permite abordar diversos temas da contemporaneidade. A diáspora intensa em relação aos Estados Unidos; a violência urbana crescente não apenas em solo americano, mas de proporções mundiais; o preconceito racial latente.

No filme, tem-se o uso de tramas paralelas que intensificam o título do mesmo, "Crash", uma onomatopeia que nos remete a outros significados com batida, colisão.

O enredo da trama ficou conhecido através da seguinte sinopse: uma dona de casa e o seu marido procurador de Justiça. Um dono de uma loja. Dois detetives que também são amantes. Um diretor de televisão afro-americano e a sua mulher. Um serralheiro mexicano. Dois ladrões de automóveis. Um polícia recruta. Um casal coreano de meia-idade. Todos vivem em Los Angeles e durante as próximas 36 horas, irão todos entrar em colisão.

A xenofobia, para deixar mais claro, é ainda usado em um sentido amplo (amplamente usado mas muito debatido) referindo-se a qualquer forma de preconceito, racial, grupal (de grupos minoritários) ou cultural. Apesar de amplamente aceito, este significado gera confusões, associando xenofobia a preconceitos, levando a crer que qualquer preconceito é uma fobia.

Crash – No Limite saiu do ciclo “cinema e entretenimento” e ganhou feições acadêmicas ao abordar as tensões raciais em um país assustado após os atentados de 11 de setembro. Na história dos EUA, algo similar acontecera, o ataque de Pearl Habor, em 1941, porém, os fatos ocorridos em 11 de setembro de 2001 alcançaram índices de destruição inigualáveis.


Torre de Babel: suposta origem das diversas línguas e raças
Crash – No Limite, poderia ser comparado a uma Babel contemporânea. Você conhece a história acerca da Torre de Babel? Acompanhe: a Torre de Babel, segundo a narrativa bíblica no livro de Gênesis, foi uma torre construída por um povo que tinha como objetivo alcançar o céu através dessa torre, para que eles não fossem espalhados sobre toda a terra. O relato fala que Deus não permitiu que alcançacem tal objetivo e além disso confundiu sua linguagem e o povo se espalhou sobre toda a terra. Esta história é usada para explicar a existência de muitas línguas e raças diferentes. A localização da construção teria sido na planície entre o Rio Tigre e Eufrates, atual Iraque, uma região estrategicamente boa por ser muito fértil.

Situando essa possível versão para a narrativa elaborada por Crash – No Limite, percebemos o inglês, uma língua considerada universal, mas no filme (e na realidade), com nuances diferenciadas para cada falante, evidenciando a pluralidade de sotaques, e dessa forma, o surgimento dos estereótipos e da intolerância diante do outro, evidenciado em diversos momentos do filme.


Cena de "Crash: No Limite"
O cenário da obra é Los Angeles. A neve, o constante amarelado de algumas cenas são criações da direção de arte para deixar o filme com ar ainda mais denso, somados aos diálogos de suas personagens, caracterizando a atmosfera de conflitos que Crash – No Limite tenta evidenciar a todo instante.

A neve nas ruas e a decoração natalina são paradoxais ao comportamento dos protagonistas, colaborando intensamente com a intenção de realidade do discurso fílmico dirigido por Paul Haggis.


Edward Said: estudo sobre o Orientalismo
Outro ponto favorável do roteiro de Crash – No Limite é a discussão sobre orientalismo. “Desde quando persa é árabe?”, questiona uma das personagens do filme. Outra dica interessante de leitura é o texto de Edward Said, intitulado Orientalismo: em 1978 Edward Said publicou a sua obra mais conhecida, Orientalismo, na qual analisava a visão ocidental do mundo "oriental", mais concretamente do mundo árabe. Said argumentou que o Ocidente criou uma visão distorcida do Oriente como o "Outro", numa tentativa de diferenciação que servia os interesses do colonialismo. Na construção do argumento central do livro Said analisou uma série de discursos literários, políticos e culturais que iam desde textos das Cruzadas ou de Shakespeare, nos quais encontrou um denominador comum: a representação dos habitantes do mundo oriental como bárbaros.

Em Crash – No Limite, temos a intensa polarização dos protagonistas: em dados momentos, são bandidos, em outros, heróis. Segundo pesquisa, os Estados Unidos já foram chamados de melting pot (caldeirão de misturas). O que Crash – No Limite faz é justamente mostrar que esse grupos se transformam constantemente em subgrupos, espalhando a segregação de forma violenta.


Rodney King: o fato real
Durante a repercursão de Crash – No Limite, os americanos ainda estavam com a ferida “Rodney King” exposta na sociedade, o que fez do filme um objeto a mais para as discussões acerca da intolerância racial: Rodney King era um taxista afro-americano que foi violentamente espancado pela polícia de Los Angeles que o deteu sob a acusação de dirigir em alta velocidade na noite de 03 de março de 1991. O julgamento e absolvição dos agentes policiais envolvidos provocou violentos tumultos em Los Ângeles, em 1992. A cena, registrada em vídeo por uma testemunha, percorreu o mundo. A absolvição dos policiais, em 29 de abril de 1992, por um juri formado por dez brancos, um negro e um asiático, provocou uma das maiores ondas de violência da história da Califórnia. Foram três dias de confrontos, incêncios, saques, depredações e uma onda de crimes que causaram 58 mortes, deixaram mais de 2.800 feridos, destruíram 3.100 estabelecimentos comerciais e causaram prejuízos estimados em mais de 1 bilhão de dólares.

A narrativa de Crash – No Limite comprovou a seguinte tese: uma cultura nega a outra para poder se afirmar como legítima. Com isso, afirma-se que o filme é a digna representação da intolerância racial na América contemporânea. Paul Haggis trouxe para o cinema o cotidiano dos americanos, assim como o diretor Sérgio Bianchi trouxe para as telas, o cotidiano similar do brasileiro, em obras primas como Quanto vale ou é por quilo?

Em Crash – No Limite, qualquer esbarro é motivo para guerra. Todas as personagens são tensas e surgem de forma bipolar na trama, ora como vítimas, ora como algozes. Selecionamos a seguir alguns pontos máximos do filme, e recomendamos aos que não tiveram a oportunidade de assistir a narrativa, que o faça de forma imediata. Crash – No Limite é um filme imperdível e deve ser visto sob qualquer pretexto. Um longa metragem sem gorduras (excessos) e com forte engajamento social.

Recentemente, um dos nossos articulistas abordou este filme em uma de suas aulas de redação numa turma de pré-vestibular, e o resultado, foi intensamente satisfatório.

O FILME EM TRÊS MOMENTOS MARCANTES

1. Quando a personagem Jean Cabot (Sandra Bullock) discursa para o marido, ambos tensos após serem assaltados por dois negros:

- Quem duvida que ele sairá daqui e não irá entregar uma cópia de nossas chaves a um de seus companheiros de gangue?

 


2. Richard Cabot (Brendan Fraser) deseja desvincular a imagem negativa em relação à comunidade negra, que supostamente surgirá após o noticiário sobre o assalto sofrido naquela mesma noite:

- Preciso por uma medalha em algum negro... aquele bombeiro... é iraquiano? Tem pelo escura, parece negro... Como?... Colocarei uma medalha num iraquiano com nome de Sadham Khudam?... você realmente merece um aumento.

 

3. Após dormirem juntos, os policiais Graham (Don Cheadle) e Ria (Jennifer Esposito) discutem:

- Eu não sou mexicana! Eu nasci em El Salvador, te disse ser mexicana em algum momento?

 

 

 

 

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Aula de Redação e Atualidades, em Salvador: discussão acerca do filme Crash - No Limite

* Graduando em Letras Vernáculas com Habilitação em Língua Estrangeira Moderna - Inglês - UFBA | Membro do grupo de pesquisas “Da invenção à reivenção do Nordeste” – Letras – UFBA | Pesquisador na área de cinema, literatura e cultura - Colaborador do PASSEIWEB.com


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