A Cartomante (Conto de Várias Histórias), de Machado de Assis

  • Data de publicação

O conto A Cartomante, de Machado de Assis, mostra a viso objetiva e pessimista da vida, do mundo e das pessoas (abolio do final feliz). A autor faz uma anlise psicolgica das contradies humanas na criao de personagens imprevisveis, jogando com insinuaes em que se misturam a ingenuidade e malcia, sinceridade e hipocrisia.

Crtica humorada e irnica das situaes humanas, das relaes entre os personagens e seus padres de comportamento. Linguagem sbria que, entretanto, no despreza os detalhes necessrios a uma anlise profunda da psicologia humana.

Envolvimento do leitor pela oralidade da linguagem. A historia repleta de "conversas" que o narrador estabelece freqentemente com o leitor, transformando-o em cmplice e participante do enredo (metalinguagem).

Citao de um autor clssico (shakespeare) intertextualidade; reflexo sobre a mesquinhez humana e a precariedade da sorte humana. Os aspectos externos (tempo cronolgico, espao, paisagem) so apenas pontos de referncia, sem merecerem maior destaque.

Estilo

A Cartomante um conto onde podemos observar caractersticas marcantes do estilo de Machado de Assis. O uso de metforas constantes, o comportamento imprevisvel dos personagens e seu valor filosfico, o uso de comparaes superlativas, bem como a ambigidade em seus personagens.

O autor usa intertextualizaes literrias, e o recurso da narrativa onisciente, para dinamizar o relato da histria acentuando os momentos dramticos do texto. Usa este recurso que eleva e prolonga o suspensa da histria, mantendo o leitor atento durante todo o desenrolar do conto.

Sem estes ingredientes, sem dvida o texto no teria a mesma dinmica e seu eplogo no teria a mesma nfase. Sem os pretextos machadianos facilmente saberamos o desfecho da histria ao lermos suas primeiras linhas. O uso destes atributos faz com que a historia gire em torno de seu prprio eixo dramatical sem que percebemos o uso desta tcnica literria.

Foco narrativo

A historia narrada em terceira pessoa. Existe a presena onisciente do autor, que usa desta oniscincia na narrao e descrio dos fatos. O uso constante de uma voz onisciente importante para dinamizar o relato da historia acentuando os momentos dramticos do texto e conflitos internos dos personagens, fortalecendo seu eplogo.

Sem essas caractersticas o texto tornar-se-ia montono, pois a primeira leitura saberamos de antemo seu desfecho. Tambm atravs deste recurso, o autor vai situando o leitor durante o curso da historia, ilustrando fatos e intertextualizando a narrativa.

Personagens

Embora a trama gire em torno de 4 personagens principais Vilela, Camilo, Rita e a cartomante (incgnita), existem outros personagens que no participam diretamente na trama, mas suas participaes so determinantes no enredo da histria.

A morte da me de Vilela, que uma personagem secundria tem papel fundamental no envolvimento amoroso dos personagens Camilo e Rita. O autor analisa e enfatiza psicologicamente todos os personagens preconizando seus conflitos internos bem como seus temores.

Enredo

Est o tema do tringulo amoroso e do adultrio, j presente nas Memrias (Brs Cubas, Virglia, Lobo Neves). Os amigos de infncia Camilo e Vilela, depois de longos anos de distncia, reencontram-se. Vilela casara-se com Rita, que mais tarde seria apresentada ao amigo. O resto paixo, traio, adultrio.

A situao arriscada leva a jovem a consultar-se com uma cartomante, que lhe prev toda a sorte de alegrias e bem-aventuranas.

O namorado, embora ctico, na iminncia de atender a um chamado urgente de seu amigo Vilela, atormentado pala conscincia, busca as palavras da mesma cartomante, que tambm lhe antecipa um futuro sorridente.

Dois tiros queima-roupa ao lado do cadver de Rita o esperavam. A vitria do ceticismo coroa o episdio.

Conto que surpreende pela excelente estrutura narrativa, dividida em trs partes.

Na primeira, introdutria, fica-se sabendo que Rita, dotada de esprito ingnuo, havia consultado uma cartomante, achando que seu amante, Camilo, deixara de am-la, j que no visitava mais sua casa. Desfeito o mal-entendido, faz-se um flashback que vai explicar como se montou tal relao. Camilo era amigo, desde longnqua data, de Vilela. Tempos depois, este se casa com Rita. A amizade estreita a intimidade entre Camilo e Rita, ainda mais depois da morte da me dele. Quando sente sua atrao pela esposa do amigo, tenta evitar, mas, enfim, cai seduzido. At que recebe uma carta annima, que deixava clara a relativa notoriedade da sua unio com a esposa do seu amigo. Temeroso, resolve, pois, evitar contato com a casa de Vilela, o que deixa Rita preocupada.

Terminada essa recapitulao, vai-se para a parte crucial do conto. Camilo  recebe um bilhete de Vilela apenas com a seguinte mensagem: Vem j, j. Seu raciocnio lgico j faz desconfiar que o amigo havia descoberto tudo. Parte de imediato, mas seu tlburi (espcie de carruagem de aluguel que equivaleria, hoje, a um txi) fica preso no trfego por causa de um acidente. Nota uma estranha coincidncia: est parado justamente ao lado da casa da cartomante. Depois de um intenso conflito interior, decide consult-la. Seu veredicto dos mais animadores, prometendo felicidade no relacionamento e um futuro maravilhoso. Aliviado, assim como o trfego, parte para a casa de Vilela. Assim que foi recebido, pde ver, pela porta que lhe aberta, alm do rosto desfigurado de raiva de Vilela, o corpo de Rita sobre o sof. Seria, portanto, a prxima vtima do marido trado.

Note neste conto sua estrutura em anticlmax, pois tudo nele (j a partir da citao inicial da famosa frase de Hamlet: h mais cousas no cu e na terra do que sonha a nossa filosofia) nos prepara para um final em que o misticismo, o mistrio imperaria. No entanto, seu final o mais realista e lgico, j engendrado no prprio bojo do conto. Refora esse aspecto o ritmo da narrativa, que lento em sua maioria, contrastando com seu desfecho, por demais abrupto. E no se esquea da presena de um qu de ironia nesse contraste entre corpo da narrativa e o seu final.

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