A chave (Conto da obra Antes do baile verde), de Lygia Fagundes Telles

  • Data de publicação

Este conto est inserido na obra Antes do baile verde, de Lygia Fagundes Telles.

O conto A Chave, escrito em 1965, volta ao tema da diferena de idade entre os cnjuges. O leitor colocado em contato com os pensamentos de uma personagem, Toms, desde as primeiras palavras do conto. A personagem Toms tambm o narrador, e ser sob sua perspectiva que a histria ser contada. A seguir, o trecho inicial do conto:

Agora era tarde para dizer que no ia, agora era tarde. Deixara que ascoisas se adiantassem muito, se adiantassem demais. E ento? Ento teria quetrocar a paz do pijama pelo colarinho apertado, o calor das cobertas pela noitegelada, como nos ltimos tempos as noites andavam geladas! (Telles, 1982, p. 45)

Pode-se observar, no segmento acima, a repetio da expresso agora era tarde, oque denota, ao mesmo tempo, o desejo do narrador em enfatizar que a situao que apersonagem vive est consolidada, no pode ser alterada, e, o que resta a resignao, oconformismo, com o estado atual e imutvel dos acontecimentos. No perodo seguinte,pode-se deduzir que a culpa de tal situao da prpria personagem, ele deixara que ascoisas se adiantassem muito, demais. A gradao dos advrbios empregada d a sensaoque a situao foi piorando com o passar do tempo.

O narrador emprega uma intertextualidade com A Divina Comdia, de Dante Alighieri. Na obra do famoso florentino, o inferno apresenta nove crculos, cada qual reservado para a punio de pecados especficos. Assim, no primeiro crculo, Limbo, esto as almas dos no batizados; no segundo, encontram-se os sensuais; no terceiro, os que cometeram o pecado da gula etc. O narrador emprega a ironia para imaginar o ambiente: O crculo dos superficiais, dos tolos engravatados, embotinados, condenados a ouvir e a dizer besteiras por toda a eternidade. (p. 45).

O leitor recebe informaes atravs do olhar do marido, que, enquanto observa a mulher, que se prepara para ir a um jantar, faz conjeturas a respeito da situao do casal e da prpria vida. Por meio do discurso avaliativo, o leitor toma conhecimento do conceitoque Toms tem de sua esposa, Mag. Refere-se a ela como a cretina; a sonsa; e, a define como uma exibicionista.

Esse discurso subjetivo caber ao leitor, ao longo da narrativa, avaliar se a opinio deToms ou no pertinente.

Os trechos compostos por dilogos esto intercalados com outros, na forma desumrio, constitudos, geralmente, por analepses ou por monlogos interiores, nos quaisToms compara a situao atual com a do passado. O trecho a seguir esclarece as relaesentre as personagens, e, tambm, faz referncia a uma terceira personagem, Francisca:

Baixou o olhar para os prprios ps. E quase chegou a sorrir. Com aquelasmeias, pareciam ps de um rapaz, ela gostava das cores fortes. Francisca preferiacores modestas, mas Mago era jovem e os jovens gostam das cores fortes,principalmente os jovens que vivem em companhia de velhos. E que desejamdisfarar esses velhos sob artifcios ingnuos como meias de cores berrantes,camisas esportivas, gravatas alegres, alegria, meus velhinhos, alegria! Dia virem que ela vai querer que eu pinte o cabelo. (Telles, 1982, p. 47)

O leitor percebe, ento, que existe uma grande diferena de idade entre marido emulher. interessante perceber, no trecho selecionado, a disparidade entre o eu narradore o eu narrado. Nos dois primeiros perodos, o narrador, aparentemente, se subdivide: elese v de fora, apesar de ser, ao mesmo tempo, narrador e personagem (como mencionadoanteriormente). Entretanto, volta a se unificar, na ltima frase, na qual o leitor ouve avoz de Toms.

Nas pginas 48-49, uma analepse aprofunda a questo da diferena de idade. Tomsse recorda do dilogo que teve com o pai de Mag, h dez anos, no qual o homem havia dito: O caso que minha filha tem s dezoito anos e o senhor tem quarenta e nove, adiferena muito grande (p. 49). A fala do pai de Mag ganha um certo ar de prolepse, como se fosse uma profecia que acaba se cumprindo, no presente da narrativa, pois, ohomem diz Hoje no soma tanto. Mas daqui a dez anos como vai ser? (p. 49). O perodode dez anos se passou. No tempo presente da histria, Toms tem 59 anos e Mag, 28. E adiferena de idade, agora, tornou-se um problema.

Mag mudou. Por meio de outra analepse, o narrador mostra ao leitor que a moa,h alguns anos, era insegura, no sabia se exprimir bem. Na poca em que o casal seconheceu, Toms teve a iluso que seria um professor Higgins, da pea Pigmalio, de Bernard Shaw, para a moa, que seria o criador e, ela, a criatura, teve a ambio de quase ser Deus. No presente da narrativa, emprega a ironia para enfrentar a decepo com o resultado:

... E como se exprimia bem, a sonsa. Contudo, h alguns anos, queenternecedor v-la roendo as unhas quando se intimidava. Ou morder o lbioinferior quando no sabia o que dizer. E nunca sabia o que dizer. Vaidesabrochar nas minhas mos pensou, emocionado at s lgrimas.Desabrochara, sem dvida. Lanou-lhe um olhar. mas no precisava terdesabrochado tanto assim. (Telles, 1982, p. 47)

A sensao de nascer de novo (p. 51) sentida por Toms ao conhecer Magtransformou-se em cansao, tdio e saudade do passado, demonstrado pelo narradorautodiegtico por meio do discurso avaliativo, que emprega no monlogo interior: Se pudesse dormir ao menos aquela noite (...) A melhor coisa do mundo era mesmo dormir, afundar como uma ncora na escurido, afundar at ser a prpria escurido, mais nada. (p. 46). Tambm por meio dos gestos: ele boceja, vrias vezes, cochila, durante o dilogo com a esposa, levanta-se da poltrona para ir se arrumar, mas deixa-se cair novamente. E pelas comparaes que estabelece entre Mag e Francisca.

Enquanto ainda estava casado com Francisca, Toms queria negar a idade, a velhiceque j se aproximava. Queria que a mulher se enfeitasse mais. Deu-lhe um vidro deperfume. Deu-lhe um batom (...) Deu-lhe um colar de contas vermelhas (...) somos jovensainda, minha querida! Vamos reagir? (p. 51). Com o segundo casamento, Toms teve ailuso de que iria recuperar a prpria juventude. Entretanto, agora, a esposa tem com eleatitudes semelhantes s que ele teve com Francisca, no passado.

A juventude de Mag, que inicialmente o atraiu, no momento atual o incomoda e ocansa. O excesso de energia de Mag faz com que Toms a compare a um animal jovem:(...) cabelos demais, dentes demais, gestos demais, tudo em excesso. Eram agressivos atquando respiravam. Podia quebrar uma perna. Mas no quebrava, naquela idade os ossosdeviam ser de ao. (p. 47). Mag no precisava dormir (p. 48), orgulhava-se da forma deseu corpo (p. 46).

... Ela adorava espelhos, tinha espelhos por toda a casa. Aquele ali ento era opior, aquele que apanhava o corpo inteiro, sem deixar escapar nada. Com eleaprendera que envelhecer ficar fora de foco: os traos vo ficando imprecisose o contorno do rosto acaba por se decompor como um pedao de po a sedissolver na gua. (Telles, 1982, p. 49)

Toms sente o peso da idade. Agora sabe que intil tentar negar que a velhicechegou para ele. Intil esquecer essa idade porque as pessoas em redor no esqueciam(...) (p. 48-49). A personagem percebe o interesse que Mag sente por Fernando e, onarrador emprega o discurso avaliativo para desqualificar o rapaz, seja no discurso reportado, Analfabeto, gigol... (p. 49), (...) Um pilantra de marca fazendo blu-blunaquele violozinho... (p. 49), (...) Uma voz de mosquito (...) Afeminado... (p. 49), sejano monlogo interior, Enfim, uma besta quadrada. (p. 49). Mas Toms tem conscinciado atributo que o rapaz possui e que os diferencia: Fernando Tinha juventude, mais nada.Crispou os lbios. Tinha juventude. Ju-ven-tu-de... murmurou, voltando o olhar mortioem direo ao espelho. (p. 49). Toms sabe que um velho e acompanhar Mag, no augeda juventude, exige dele um esforo que, agora, torna-se insuportvel.

Apesar da perspectiva ser de Toms, o leitor pode perceber que Mag tambm estinsatisfeita. Nas linhas 255 a 258, pode-se observar o discurso avaliativo empregado pelonarrador para expressar a fala da personagem que, em discurso reportado, diz: Ih, comovoc anda desagradvel (...) Voc no faz idia de como anda desagradvel ultimamente.(p. 51). O ultimamente leva a pensar nos ltimos tempos, em que a velhice de Toms ovem tornando rabugento e, para Mag, desagradvel.

Toms, recorda-se da primeira esposa, Francisca, e sente saudade das msicasantigas que ela gostava de ouvir na vitrola, de suas unhas curtas, das mos de velha quemanipulavam o baralho, jogando pacincia. Sente saudade de andar de bonde (p. 51),saudade do passado, tempo da prudncia, tempo da considerao (p. 51).

Na ocasio em que Toms conheceu Mag, fora Francisca quem o incentivara asair: Toms, voc j viu como a noite est bonita? Por que no vai dar uma volta? Elefoi. Na volta encontrara Mag. Teve a sensao de nascer de novo quando ela o chamou deTom. Sentira-se um outro homem. (p. 50-51). Francisca havia olhado para Toms quasecomo uma me olha para o filho antes de lhe entregar a chave da porta (p. 51). E Tomssentira-se livre, feliz, sentira-se um adolescente apertando a chave no bolso. (p. 52).

Toms, agora, est arrependido da escolha que fez. Ele gostaria de poder voltar vida antiga, tranqila, que levava com Francisca. Ah, se pudesse voltar sem nenhumapalavra, sem nenhuma explicao. Ela tambm no diria nada: era como se tivesse idocomprar cigarros. (p. 52). E, em uma mistura de sonho e delrio, Toms reencontraFrancisca e lhe sorri. Ela sorria tambm no seu vestido de opalina rosada, mordiscando deleve a ponta de uma carta. Posso? perguntou-lhe, deitando a cabea no seu colo.Devolveu-lhe a chave. (p. 52).

Assim como Francisca, Toms tambm d a chave, d a liberdade para Mag,quando permite que a moa v sozinha ao jantar. Talvez nessa noite ela comece um novoromance, com Fernando, ou com outro jovem. Mas, isso no tem mais nenhumaimportncia para Toms.

Fonte: Biblioteca Digital da UNESP

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