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A confissão, de Flávio Carneiro


Em A confissão, Flávio Carneiro retorna ao fantástico (tão presente em seu primeiro livro), escrevendo cada palavra sobre a linha finíssima que separa sanidade e loucura, realidade e fantasia. O livro é um romance que começa muito realista e depois há uma virada fantástica (o personagem que se confessa é o causador da morte de Emma, porque ele é um vampiro), parte do real para inventar uma nova concepção de vampiro: o vampiro moderno.

"Não, é preciso que eu lhe tome esse tesouro, essa coisa tão preciosa e ao mesmo tempo tão simples, corriqueira, isso que atende pelo nome, ouça bem, que atende pelo nome de medo..." É o narrador-protagonista, cujo nome não é pronunciado, anunciando o desenlace de uma estranha história. Ele seqüestrou uma mulher e a levou para uma casa. Ali, ele começa a contar sua vida, que envolve sentimentos como amor... e medo. Tudo começa assim: "A senhora me escute, por favor. Em primeiro lugar, peço desculpas pelo mau jeito. Sei que não foi nada gentil de minha parte interceptar seu carro..."

Uma busca frenética em que prazer e morte servem como meios para um homem aparentemente comum restaurar as rédeas de sua própria vida.

A figura do vampiro é uma das formas como o diabo é visto e retratado na literatura, é uma antítese ao cristianismo. Entretanto, o vampiro de Flávio Carneiro é um personagem híbrido “mocinho-vilão” ou “vilão-mocinho” que embora cause suspense e medo não é visto como monstruoso, horroroso. Pois o desconhecido se torna conhecido através de nós, leitores, que nos identificamos com o personagem e identificamos a nós mesmos nele.

O autor cria o sugar da vítima, que não se torna vampiro pela relação sexual, e o fato de o vampiro absorver não a juventude ou a vida, mas o dom, o talento, que ele desejasse obter de sua vítima. Situações como a vítima morrer, porém com a expressão da felicidade, ou o vampiro ter que ser convidado pela vítima para entrar na casa, ou lhe agradar mais os dias nublados que os dias ensolarados, claros, mostram características tradicionais dos vampiros porém suavizadas; elas servem no início do romance como sutis alusões à sua vampiridade.

O romance é narrado por um homem que seqüestra uma mulher e a leva para uma casa numa praia deserta. Ali, ele a amarra a uma poltrona e diz que precisa lhe contar uma longa história. Aos poucos, vamos sabendo que se trata de uma história de amor, medo e muitas surpresas, na qual a mulher seqüestrada desempenha um importante, e inusitado, papel. O personagem-narrador é um ser mimético, ele incorpora diferentes personalidades como se fosse um personagem diferente de acordo com a situação que quer causar. Assim, no início da narração ele transforma-se no personagem que ele era antes para contar a história: em um episódio que estava em um hotel, decide ser um homem estrangeiro e quieto, para não estabelecer comunicação, ele opta por fazer o papel do que não falar, e por vezes, camufla-se para conquistar uma mulher como ocorreu com Emma. E, além de mimético, é um vampiro confesso.

Um seqüestrador explica para sua vítima, durante uma longa madrugada, suas razões para capturá- la. Amarrada a uma poltrona, ela escuta uma história de amor, medo e muitas surpresas. Da inusitada ocupação do protagonista - um ladrão especializado em furtar livros – às descobertas que ele faz sobre sua própria identidade, tudo é revelado gradualmente no longo monólogo do seqüestrador em A Confissão.

O nome do protagonista nunca é mencionado, como também não são revelados detalhes de sua família. Narrado na primeira pessoa e sem diálogos, A Confissão é o relato labiríntico e entrecortado das muitas histórias que o narrador tem para contar. O leitor acompanha passo a passo as aventuras deste estranho sedutor, que parece querer ao mesmo tempo atrair e amedrontar a mulher que tem diante de si. Mesclando elementos de terror com suspense de policial “noir”, a narrativa ágil de Flávio Carneiro é uma leitura surpreendente.

E assim como a mulher ouve com ansiedade o relato de seu seqüestrador - querendo saber, afinal, por que está naquela casa e qual o seu destino -, também o leitor é, de certa forma, capturado.

Com um ritmo ágil, A confissão transporta o leitor para dentro da mente de um homem atormentado, sedento por retomar o controle de suas próprias experiências. De sua tentativa, resulta um romance forte, delicado, surpreendente.

Narrado em primeira pessoa, trata-se de um relato, ou melhor, da confissão de um personagem anônimo que se descobre detentor de um dom, que é ao mesmo tempo dádiva e maldição. Este dom leva o protagonista, numa jornada que mescla o prazer à morte, a reunir uma gama considerável de conhecimento e habilidades. Entretanto, exausto após anos de peregrinações infindáveis, ele se vê com um desejo incontrolável de retornar à cidade de origem, o Rio de Janeiro, e de volta percebe que nada mais há para ser buscado ou aprendido. Angustiado, seqüestra uma senhora da alta sociedade e decide lhe contar toda a sua história, na tentativa de recobrar o controle sobre sua própria vida. É claro que a escolha desta mulher não é aleatória, mas o real motivo que a teria motivado só conhecemos ao final da narrativa.

Para a tessitura do texto, Flávio optou por uma linguagem limpa, correta, que não abusa nem de excessiva erudição, nem de um simplismo populista. O relato é construído de maneira investigativa, assemelhando-se às narrativas policiais, sendo que, de dentro da narrativa principal, a do protagonista, emergem as histórias das mulheres que ele conheceu, dos diálogos que tiveram, das confissões que lhe ofereceram, das memórias de que se apropriou. E a cada nova história, surgem novos mistérios que não se revelam e acabam culminando no enigma principal. Esse entremeado narrativo, longe de confundir o leitor, o atrai inevitavelmente pela força da expectativa, que a cada nova história é potencializada.

Além disso, Flávio articula magistralmente o fantástico ao verossímil, ao construir um discurso que narra o absurdo como possível, sem soar falso, mas sem a obsessão de demonstrá-lo como verossímil. E interrompe a narrativa no ápice, oferecendo possibilidades várias, permitindo ao leitor mais exigente que a finalize com suas próprias interpretações.

Ao fazer de nós cúmplices de terríveis segredos, o romance A Confissão, não só nos estimula a curiosidade e o interesse com uma narrativa envolvente, mas também nos ensina que uma metáfora bem feita pode permitir reflexão mais profunda e efetiva que a clara obviedade.

A confissão feita no livro apresenta várias faces, pois são várias confissões, várias histórias, de várias pessoas. O que o narrador pratica é uma dupla confissão, a dele e, indiretamente, a das mulheres que ele “sugou”, o que poderíamos chamar também de múltipla confissão, pois na confissão dele há muitas histórias (vivenciadas por ele ou narradas para ele e que não foram vivenciadas diretamente nem narradas).

No entanto, essa relação pode ser interpretada como uma confissão do livro para o leitor seqüestrado ou seduzido pela força (a obrigação de ler o livro para a prova), pela palavra ou pela protelação (o suspense gerado pela interrupção da história no momento final, que só será revelado depois). Entre a mulher seqüestrada e o leitor obrigado a ler há uma relação de semelhança, como se um mimetizasse o outro: os dois são ouvintes por obrigação.

No romance, há também verossimilhança em relação ao contexto do leitor e do autor pois o personagem narra os acontecimentos como qualquer outra pessoa (escritor ou leitor) ao contar algo, sem obedecer a uma ordem exata, abandonando a história no final e partindo para outra que também será abandonada no final, final este que só será revelado depois – o que gera suspende e sedução -, fazendo observações próprias nas histórias de sua vida ou da vida dos outros e respondendo espontaneamente supostas perguntas do ouvinte (o que gera muitas vezes a sensação de que o narrador está falando com a mulher seqüestrada, mas diretamente com o leitor). E, ainda, porque o personagem é como nós que muitas vezes não queremos dialogar, só precisamos de alguém que escute com atenção sem sentenciar nenhum de nossos questionamentos, para os quais, na maioria das vezes, já temos as respostas.

Assim, a confissão feita pelo homem não objetiva receber respostas ou fórmulas certas de resolução porque ele estava contando as suas histórias, de sua vida e da vida de suas vítimas, talvez, apenas para ter certeza de que existia. Ela é estruturada pelo autor de maneira a realçar o suspense, que é uma experiência contínua que vai crescendo até atingir um clímax - isso é obtido ao diminuir o terror, que se obtém como surpresa.

Ao lermos o livro tememos, ao nos identificar com os personagens, e então descobrimos a necessidade de temer. De maneira que podemos concluir que o romance comunicou toda a importância e necessidade do medo na vida, através das identificações e relações de vampiridade que foram estabelecidas entre leitor e livro, entre leitor e personagens.

Ao final do livro fica claro que o próximo ato do personagem será transar com a mulher seqüestrada mesmo contra a vontade dela. No entanto, o autor pára a história um instante antes do seu desfecho, o que nos permite aumentar infinitamente os limites de nosso universo de leitura. Assim, pode ser que ele tenha desistido de violentá-la, ou que a mulher tenha quebrado um vaso na cabeça dele e fugido, ou, como sempre é possível esta interpretação pobre: talvez tudo não tenha passado de em sonho e o personagem acorde todo suado olhando para aquele teto cheio de infiltração de seu quarto naquela pensão barata do centro da cidade.

O anônimo narrador é também um anônimo trambiqueiro das ruas do Rio de Janeiro, vivendo de roubar livros que vende a colecionadores e a sebos. Costuma se embriagar de vinho barato, e sofre de uma ausência de paladar. Sofre de outras ausências, certamente, conforme o leitor fatalmente irá supor, ao longo do romance.

O que é pertinente à caracterização desse homem como vampiro, inicia com sua fascinação por uma rica jovem chamada Emma, que ele seduz após um encontro fortuito. O contato sexual com ela termina com a morte da moça, de uma maneira que ele não consegue explicar. Obcecado com a morte dela, ele vaga pela cidade até cair desmaiado no centro do Rio, para ser socorrido por uma médica madura, Agnes, que lhe informa sobre a sua natureza "vampírica", por assim dizer.

Há dois aspectos interessantes, nesse momento do romance - o primeiro é a evocação de um fandom de vampiros, pessoas fascinadas com essa figura recorrente dos mitos e folclores e também da ficção, e que muitas pessoas levam a sério como a versão que o esoterismo fornece do vampiro - uma espécie de sanguessuga das energias vitais dos outros. É claro, o segundo aspecto é justamente essa variação, vinculada ao esoterismo, do vampiro como alguém que drena as energias ou que consome ou abusa emocional e espiritualmente de outro alguém. (A outra variação que sobra é a do vampiro animal, o morcegão mesmo, que Martin Cruz Smith explorou em Terrores da Noite, de 1977.)

Em A Confissão, esse vampiro emocional é capaz de matar, e durante o sexo, no que Flávio Carneiro evoca a sedução fatal do vampiro da ficção posterior a Drácula. Essa é uma associação direta e suficientemente clara. Uma dedução que se firma ao longo do romance, porém, é a de que o narrador possui encantos invisíveis (como pode um pobre-coitado seduzir tantas mulheres sofisticadas e ricas?), um "magnetismo animal" aparentemente infalível, para usar outro termo antigo. Para complicar e inserir um outro plano de significados, Agnes, a aficcionada por vampirismo, entrega-se a ele mesmo sabendo que irá morrer, mas disposta a enfrentar a morte especial, que ele traz.

Tudo isso já seria bastante original e instigante, no contexto brasileiro, mas uma sacada particularmente inspirada sobre a idéia do vampiro emocional, é a de que este herdaria da vítima suas memórias, suas sensações, suas experiências de vida. Assim o narrador cura-se de sua falta de paladar, torna-se um apreciador de bons pratos e vinhos. Essa absorção de memórias e experiências leva a uma outra alusão instigante, a da imortalidade. O narrador-vampiro de Flávio Carneiro envelhece como todos nós, mas ele é uma criatura muito mais longeva, porque incorpora as existências das mulheres que matou.

Ele obviamente não herda qualquer solidez de caráter ou profundidade existencial de suas amantes. Continua se comportando como uma espécie de espertalhão pé-de-chinelo das ruas, sempre racionalizando precariamente suas mesquinharias. Resulta na caracterização de um "narrador não-confiável", no sentido de que o leitor não pode pôr a mão no fogo sobre tudo o que ele afirma, especialmente quando ele diz que fazia "bem" às mulheres, ao matá-las, dando-lhes o que supostamente elas queriam. Ao descobrir seu poder, usa-o para não só amealhar conhecimentos que deseja possuir na sua ascensão da sarjeta, mas para roubar de suas vítimas os valores que estiverem disponíveis. Com isso ele viaja pelo mundo, conquistando novas amantes na Inglaterra, em Portugal e em lugares que não se dá ao trabalho de nomear nem numerar.

Sem dúvida, um aspecto determinante do romance é a imersão do leitor, na personalidade do narrador, em sua incerteza e sua volubilidade, simbolizada pela metáfora do copo meio cheio, meio vazio - quando ele costuma tomar meias-resoluções. Para realizar esse mergulho, Flávio tenta criar um discurso meio oral, meio literário, com certo relaxamento da pontuação como principal recurso. Mas me pareceu quase perfunctório, já que há uma gramática bastante correta subjacente, de modo que quase que sem perceber o leitor vai mentalmente colocando os pontos nos lugares certos. Ritmos da oralidade e rupturas mais radicais com o discurso literário bem constituído poderia ter levado a um resultado mais audacioso.

No plano do enredo, o romance realiza um final bastante terrificante, mas que poderia ter causado um impacto ainda maior se tivesse se detido mais em detalhe, nas mortes de suas amantes - especialmente na segunda metade, que é um pouco mais "magra" em descrições, que a primeira. E por falar em detalhes, o livro também teria alcançado uma visualidade e um envolvimento maior (para este leitor, ao menos), com a presença de mais detalhes específicos - de todo tipo: nomes de pessoas e lugares, objetos e paisagens.

Enfim, a última característica de interesse seria o lado metaficcional, de A Confissão - não apenas confissão, mas narração - de uma narrativa composta de outras narrativas "roubadas" (das vítimas do narrador). Como o escritor americano Lucius Shepard afirmou certa vez, na roda das profissões da mitologia hindu, em que supostamente o sujeito ascende espiritualmente ao assumi-las em encarnações sucessivas, a atividade de escritor está logo abaixo da de ladrão. Tem-se portanto a imagem do autor amarrando o leitor para ser "ouvido" por ele, numa narrativa composta de histórias roubadas, e que almeja derradeiramente incorporar também o leitor.

Fontes: Aline Aimée | Juliana Ramos, Teoria da Literatura | Roberto de Sousa Causo, escritor e crítico |

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