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A escrava Isaura, de Bernardo Guimarães


Escrito em plena campanha abolicionista (1875), o livro conta as desventuras de Isaura, escrava branca e educada, de caráter nobre, vítima de um senhor devasso e cruel. Em A escrava Isaura, Bernardo Guimarães se une aos abolicionistas do Brasil e dá voz ao drama dos escravos. O livro não deixa de apresentar, porém, uma das características mais marcantes do escritor: a linguagem simples, de contador de casos, em que se revela o cotidiano das províncias brasileiras do século XIX.
 
O romance foi um grande sucesso editorial e permitiu que Bernardo Guimarães se tornasse um dos mais populares romancistas de sua época no Brasil. O autor pretende, nesta obra, fazer um libelo anti-escravagista e libertário e, talvez, por isso, o romance exceda em idealização romântica, a fim de conquistar a imaginação popular perante as situações intoleráveis do cativeiro.

A escrava Isaura é um romance romântico com pretensões abolicionistas. Seu enredo apresenta uma seqüência de peripécias ao estilo dos folhetins da época, recheado de personagens unidimensionais (o bom é sempre bom e o mau é sempre mau). A personagem central é Isaura, uma escrava branca dotada dos melhores sentimentos, pura de coração e com uma "educação como não tiveram muitas ricas e ilustres damas". No entanto, sofre as terríveis perseguições de Leôncio, seu senhor e homem tocado pelos piores vícios.

Tempo / Espaço

O autor localiza a narrativa em uma temporalidade histórica: "Era nos primeiros anos do reinado do Sr. D. Pedro II". Este parágrafo lança o leitor em uma temporalidade apenas familiar para os leitores da época da publicação do romance. Ele foi publicado na década de setenta do século XIX, durante o império do Sr. D. Pedro II.

No parágrafo seguinte, o leitor é enviado para um espaço banal, o espaço do município de Campos de Goitacazes. Este município foi um dos centros da economia escravagista do sudeste.

Conduzindo o leitor pelo olhar, o narrador descreve a fazenda situada à margem do rio Paraíba, a pouca distância da vila de campos. O olhar do narrador põe a arquitetura da fazenda, tendo como centro do palco a casa-grande e as senzalas, em uma paisagem brasileira que lembra, de uma outra maneira, a descrição maravilhosa da descoberta do Brasil na Carta de Pedro Vaz de Caminha. Neste Jardim das delícias senhorial, o leitor descobrirá, se tiver vontade de ver, uma versão ficcional do regime oligárquico de poder do Brasil-Nação funcionado ao lado da poética da natureza de Bernardo de Guimarães. O poder oligárquico e a poética da natureza brasileira são os dois objetos que remetem o leitor para a temporalidade histórica do romance.

Personagens

A personagem de Leôncio, no referido romance, é um retrato bastante fiel do que se conhece de um patriarca imperialista. É exatamente neste ponto que a teoria pós-colonialista constitui-se em uma nova estética pela qual os textos são interpretados politicamente, baseando-se numa relação entre discurso e poder. Por isso, é deveras difícil crer que seja possível a imagem de um senhor de escravos desprovida de uma ideologia imperialista. Por mais que o romance não seja ambientado nos centros urbanos do Brasil, da época em que foi escrito, e sim no interior, numa fazenda, não significa que seus personagens estejam totalmente livres de quaisquer influências européias.

A figura de Isaura pode ser analisada sob dois aspectos: Isaura-escrava e Isaura-mulher. Mostra de que maneira a figura feminina é subalterna ao seu senhor, no que diz respeito ao seu papel duplamente inferiorizado. Isaura é escrava, dentro de um sistema escravocrata aceito pela sociedade com naturalidade; é submetida a uma educação refinada, na casa grande, como devem ser todas as filhas de senhores de escravos, fazendeiros ricos e poderosos; recebe, então, o rótulo da mulher branca. Sob este prisma é que percebemos a dualidade da objetificação da mulher na sociedade imperialista, onde o elemento masculino é dominante, e também a impossibilidade de liberdade da mulher que, mesmo livre dos grilhões de sua cor, que no caso de Isaura não faz diferença, pois a cor branca não significa liberdade, devido à descendência negra, ainda é cativa de um sistema social que aprisiona a mulher ao confinamento do lar e à servidão ao esposo.

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