A legião estrangeira (Livro), de Clarice Lispector

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Nos 13 contos e crnicas de A legio estrangeira, com sua primeira edio datada de 1964, Clarice Lispector aborda o cotidiano familiar, a perversidade infantil e a solido. Como apontou o escritor Affonso Romano de SantAnna na introduo de uma antiga edio do livro, para Clarice Lispector importa mais a geografia interior. "Ao invs de tipos picos e dramticos, temos figuras situadas numa aura de mistrio, vivendo relaes profundas dentro do mais ordinrio cotidiano", escreveu. "Mais do que as aventuras, interessa-se por descrever a solido dos homens diante dos animais e objetos."

Entre os contos destaca-se Viagem a Petrpolis, escrito quando Clarice tinha apenas 14 anos. Neste, a precoce escritora narra a absurda solido de uma velhinha que, sem lugar para morar, empurrada de uma casa para outra. E o leitor perceber em Os desastres de Sofia uma histria de transparente sensibilidade, em que a autora aborda a perversidade infantil por meio do relacionamento de uma aluna com seu professor. Mensagem fala sobre dois estudantes, que tentam no se ver como homem e mulher. S quando ela vai embora que o rapaz percebe que j um homem e v a colega como uma mulher.

A vulnerabilidade dos animais diante dos homens, e vice-versa, est presente em A quinta histria, Macacos e ainda em A legio estrangeira. Como tambm apontou Affonso Romano de SantAnna, a tenso nos contos de Clarice surge da oposio Eu X Outro, que pode ser um animal, uma criana ou uma coisa. "Dessa tenso que surge a epifania, a revelao de uma certa verdade."

Leia na ntegra o conto Mensagem

A princpio, quando a moa disse que sentia angstia, o rapaz se surpreendeu tanto que corou e mudou rapidamente de assunto para disfarar o aceleramento do corao.

Mas h muito tempo desde que era jovem ele passara afoitamente do simplismo infantil de falar dos acontecimentos em termo de "coincidncia". Ou melhor evoluindo muito e no acreditando nunca mais ele considerava a expresso "coincidncia" um novo truque de palavras e um renovado ludbrio.

Assim, engolida emocionadamente a alegria involuntria que a verdadeiramente espantosa coincidncia dela tambm sentir angstia lhe provocara ele se viu falando com ela na sua prpria angstia, e logo com uma moa! Ele que de corao de mulher s recebera o beijo de me.

Viu-se conversando com ela, escondendo com secura o maravilhamento de enfim falar sobre coisas que realmente importavam; e logo com uma moa! Conversavam tambm sobre livros, mal podiam esconder a urgncia que tinham de pr em dia tudo em que nunca antes haviam falado. Mesmo assim, jamais certas palavras eram pronunciadas entre ambos. Dessa vez no porque a expresso fosse mais uma armadilha de que os outros dispem para enganar os moos. Mas por vergonha. Porque nem tudo ele teria coragem de dizer, mesmo que ela, por sentir angstia, fosse pessoa de confiana. Nem em misso ele falaria jamais, embora essa expresso to perfeita, que ele por assim dizer criara, lhe ardesse na boca, ansiosa por ser dita.

Naturalmente, o fato dela tambm sofrer simplificara o modo de se tratar uma moa, conferindo-lhe um carter masculino. Ele passou a trat-la como camarada.

Ela mesma tambm passou a ostentar com modstia aureolada a prpria angstia, como um novo sexo. Hbridos ainda sem terem escolhido um modo pessoal de andar, e sem terem ainda uma caligrafia definitiva, cada dia a copiarem os pontos de aula com letra diferente hbridos eles se procuravam, mal disfarava a gravidade. Uma vez ou outra, ele ainda sentia aquela incrdula aceitao da coincidncia: ele, to original, ter encontrado algum que falava a sua lngua! Aos poucos compactuaram. Bastava ela dizer, como numa senha, "passei ontem uma tarde ruim", e ele sabia com austeridade que ela sofria como ele sofria. Havia tristeza, orgulho e audcia entre ambos.

At que tambm a palavra angstia foi secando, mostrando como a linguagem falada mentia. (Eles queriam um dia escrever.) A palavra angstia passou a tomar aquele tom que os outros usavam, e passou a ser um motivo de leve hostilidade entre ambos. Quando ele sofria, achava uma gafe ela falar de angstia. "Eu j superei esta palavra", ele sempre superava tudo antes dela, s depois que a moa o alcanava.

E aos poucos ela se cansou de ser aos olhos dele a nica mulher angustiada. Apesar disso lhe conferir um carter intelectual, ela tambm era alerta a essa espcie de equvocos. Pois ambos queriam, acima de tudo, ser autnticos. Ela, por exemplo, no queria erros nem mesmo ao seu favor, queria a verdade, por pior que fosse. Alis, s vezes tanto melhor se fosse "por pior que fosse". Sobretudo a moa j comeara a no sentir prazer condecorada com o ttulo de homem ao menor sinal que apresentava de... de ser uma pessoa. Ao mesmo tempo que isso a lisonjeava, ofendia um pouco: era como se ele se surpreendesse de ela ser capaz, exatamente por no julg-la capaz. Embora, se ambos no tomassem cuidado, o fato dela ser mulher poderia de sbito vir a tona. Eles tomavam cuidado.

Mas, naturalmente, havia a confuso, falta de possibilidade de explicao, e isso significava tempo que ia passando. Meses mesmo.

E apesar da honestidade entre ambos se tornar gradativamente mais intensa, como mos que esto perto e no se do, eles no podiam se impedir de se procurar. E isso porque se na boca dos outros cham-los de "jovens" lhes era uma injria entre ambos "ser jovem" era o mtuo segredo, e a mesma desgraa irremedivel. Eles no podiam deixar de se procurar porque, embora hostis com o repdio que seres de sexo diferente tm quando no se desejam, embora hostis, eles acreditavam na sinceridade que cada um tinha, versus a grande mentira alheia. O corao ofendido de ambos no perdoava a maneira alheia. Eles eram sinceros. E, por no serem mesquinhos, passavam por cima do fato de ter muita facilidade para mentir como se o que realmente importasse fosse apenas a sinceridade da imaginao. Assim continuaram a se procurar, vagamente orgulhosos de serem diferentes dos outros, to diferentes a ponto de nem se amarem. Aqueles outros que nada faziam seno viver. Vagamente conscientes que havia algo de falso em suas relaes. Como se fossem homossexuais de sexo oposto, e impossibilitados de unir, em uma s, a desgraa de cada um. Eles apenas concordavam no nico ponto que os unia: o erro que havia no mundo e a tcita certeza de que se eles no se salvassem seriam traidores. Quanto a amor, eles no se amavam era claro. Ela at j lhe falava de uma paixo que tivera recentemente com um professor. Ele chegara a lhe dizer j que ela era como um homem para ele , chegara mesmo a lhe dizer, com uma frieza que inesperadamente se quebrara em horrvel bater de corao, que um rapaz obrigado a resolver "certos problemas", se quiser ter a cabea livre para pensar. Ele tinha dezesseis anos, e ela, dezessete. Que ele, com severidade, resolvia de vez em quando certos problemas, nem seu pai sabia.

O fato que, tendo uma vez se encontrado na parte secreta deles mesmo, resultara na tentao e na esperana de um dia chegar ao mximo. Que mximo?

Que , afinal, que eles queriam? Eles no sabiam, e usavam-se como quem se agarra em rochas menores at poder sozinho galgar a maior, a difcil e a impossvel; usavam-se para se exercitarem na iniciao; usavam-se impacientes, ensaiando um com o outro o modo de bater asas para enfim - cada um sozinho e liberto pudesse dar o grande vo solitrio que tambm significaria o adeus um do outro. Era isso? Eles se precisavam temporariamente, irritados pelo outro ser desastrado, um culpando o outro por no ter experincia. Falhavam em cada encontro, como se numa cama se desiludissem. O que , afinal, que queriam? Queriam aprender. Aprender o qu? Eram uns desastrados. Oh, eles no poderiam dizer que eram infelizes sem ter vergonha, por que sabiam que havia os que passam fome; eles comiam com fome e vergonha. Infelizes? Como? Se na verdade tocavam, sem nenhum motivo, num tal ponto extremo de felicidade como se o mundo fosse sacudido e dessa rvore imensa cassem mil frutos. Infelizes? se eram corpos com sangue como uma flor ao sol. Como? se estavam para sempre sobre as prprias pernas fracas, conturbados, livres, milagrosamente de p, as pernas dela depiladas, as dele indecisas mas a terminarem em sapatos de nmero 44. Como poderiam jamais ser infelizes seres assim?

Eles eram muito infelizes. Procuravam-se cansados, expectantes, forando uma continuao da compreenso inicial e casual que nunca se repetira e sem ao menos se amarem. O ideal os sufocava, o tempo passava intil, a urgncia os chamava eles no sabiam para o que caminhavam, e o caminho os chamava. Um pedia muito do outro, mas que ambos tinham a mesmo carncia, e jamais procurariam um par mais velho que lhes ensinasse, por que no eram doidos de se entregarem sem mais nem menos ao mundo feio.

Um modo possvel de ainda se salvarem seria o que eles nunca chamariam de poesia. Na verdade, o que seria poesia, essa palavra constrangedora? Seria encontrarem-se quando, coincidncia, casse uma chuva repentina sobre a cidade? Ou talvez, enquanto tomavam um refresco, olharem ao mesmo tempo a cara de uma mulher passando na rua? Ou mesmo encontrarem-se por coincidncia na velha noite de lua e vento? Mas ambos haviam nascido com a palavra poesia j publicada com o maior despudor nos suplementos de Domingo dos jornais. Poesia era palavra dos mais velhos. E a desconfiana de ambos era enorme, como de bichos. Em quem o instinto avisa: que um dia sero caados. Eles j tinham sido por demais enganados para poderem agora acreditar. E, para ca-los, teria sido preciso uma enorme cautela, muito faro e muita lbia, e um carinho ainda mais cauteloso um carinho que no os ofendesse para, pegando-os desprevenidos, poder captur-los na rede. E, com mais cautela ainda para no despert-los, lev-los, astuciosamente para os mundo dos viciados, para o mundo j criado; pois esse era o papel dos adultos e dos espies. De to longamente ludibriados, vaidosos da prpria amargura, tinham repugnncia por palavras, sobretudo quando uma palavra como poesia era to esperta que quase exprimia, e a ento que mostrava mesmo como exprimia pouco. Ambos tinham, na verdade, repugnncia pela maioria das palavras, o que estava longe de facilitar-lhes uma comunicao, j que eles ainda no tinham inventado palavras melhores: eles se desentendiam constantemente, obstinados rivais. Poesia? Oh, como eles a detestavam. Como se fosse sexo. Eles tambm achavam queos outros queriam ca-los no para o sexo, mas para a normalidade. Eles eram medrosos, cientficos, exaustos de experincia. Na palavra experincia, sim, eles falavam sem pudor e sem explic-las: a expresso ia mesmo variando sempre de significado. Experincia s vezes tambm se confundia com mensagem. Eles usavam ambas as palavras sem aprofundar-lhes muito o sentido.

Alis, no aprofundava nada, como se no houvesse tempo, como se existissem coisas demais sobre as quais trocar idias. No percebendo que no trocavam nenhuma idia.

Bem, no era apenas isso, e nem com essa simplicidade. No era apenas isso: nesse nterim o tempo ia passando, confuso, vasto, entrecortado, e o corao do tempo era o sobressalto e havia aquele dio contra o mundo que ningum lhes diria que era amor desesperado e era piedade, e havia neles a ctica sabedoria de velhos chineses, sabedoria que de repente podia quebrar denunciando duas caras que se consternavam por que eles no sabiam como se sentar com naturalidade numa sorveteria: tudo ento se quebrava, denunciando de repente dois impostores. O tempo ia passando, nenhuma idia se trocava, e nunca, nunca eles se compreendiam com perfeio como na primeira vez em que ela dissera que sentia angstia e, por milagre, tambm ele dissera que sentia, e formara-se o pacto horrvel. E nunca, nunca acontecia alguma coisa que enfim arrematasse a cegueira com que estendiam as mos e que os tornasse prontos para o destino que impaciente os esperava, e os fizesse enfim dizer para sempre adeus.

Talvez estivessem to prontos para se soltarem um do outro como uma gota de gua quase a cair, e apenas esperassem algo que simbolizasse a plenitude da angstia para poderem se separar. Talvez, maduros como uma gota de gua, tivessem provocado o acontecimento de que falarei.

O vago acontecimento em torno da casa velha s existiu porque eles estavam prontos para isso. Tratava-se apenas de uma casa velha e vazia. Mas eles tinham uma vida pobre e ansiosa como se nunca fossem envelhecer, como se nada jamais fosse suceder e ento a casa tornou-se um acontecimento. Haviam voltado da ltima aula do perodo escolar. Tinham tomado o nibus, saltado, e iam andando. Como sempre, andavam entre depressa e soltos, e de repente devagar, sem jamais acertar o passo, inquietos quanto presena de outro. Era um dia ruim para ambos, vspera de frias. A ltima aula os deixava sem futuro e sem amarras, cada um se desprezando o que na casa mtua de ambos a famlia asseguravam como futuro amor e incompreenso. Sem um dia seguinte e sem amarras, eles estavam pior que nunca, mudos, de olhos abertos.

Nessa tarde a moa estava de dentes cerrados, olhando tudo com rancor ou ardor, como se procurasse no vento, na poeira e na prpria extrema pobreza de alma mais uma provocao para a clera.

E o rapaz, naquela rua da qual ela nem sabiam o nome, o rapaz pouco tinha do homem da criao. O dia estava plido ainda, involuntariamente moo, ao vento, obrigado a viver. Estava porm suave e indeciso, como se qualquer dor s o tornasse ainda mais moo, ao contrrio dela, que estava agressiva. Informes como eram, tudo lhes era possvel, inclusive s vezes permutavam as qualidades: ela se tornava como um homem, e ele como uma doura quase ignbil de mulher. Varias vezes ele quase se despedira, mas, vago e vazio como estava, no sabia o que fazer quando voltasse para casa, como se o fim das aulas tivessem cortado o ltimo elo. Continuara, pois, mudo atrs dela, seguindo-a com a docilidade do desamparo. Apenas um stimo sentido de mnima escuta ao mundo o mantinha, ligando-o em obscura promessa ao dia seguinte. No, os dois no eram propriamente neurticos e apesar do que eles pensavam um do outro vingativamente nos momento de mal contida hostilidade parece que a psicanlise no os resolveria totalmente. Ou talvez resolvesse.

Era uma das ruas que desembocam diante do cemitrio Joo Batista, com poeira seca, pedras soltas e pretos parados porta dos botequins.

Os dois andavam na calada esburacada que mal os continha de to estreita. Ela fez um movimento ele pensou que ela ia atravessar a rua e deu passo para segu-la ela se voltou sem saber de que lado ele estava ele recuou procurando-a. Naquele mnimo instante em que se buscavam inquietos, viraram-se ao mesmo tempo de costa para os nibus e ficaram de p diante da casa, tendo ainda a procura no rosto .

Talvez tudo tivesse vindo de eles estarem com a procura no rosto. Ou talvez do fato da casa estar diretamente encostada calada e ficar to "perto". Eles mal tinham espao para olh-la, imprensados como estavam na calada estreita, entre o motivo ameaador dos nibus e a imobilidade absolutamente serena da casa. No, no era por bombardeio: mas era uma casa quebrada, como diria uma criana. Era grande, larga e alta como as casas assobradadas do Rio antigo. Uma grande casa enraizada. Com uma indagao muito maior do que a pergunta que tinham no rosto, eles se haviam voltado incautelosamente ao mesmo tempo, e a casa estava to perto como, se saindo do nada, lhes fosse jogada aos olhos uma sbita parede. Atrs deles os nibus, frente a casa no havia como no estar ali. Se recuassem seriam atingidos pelo nibus, se avanassem esbarrariam na monstruosa casa. Tinham sido capturados.

A casa era alta, e perto, eles no podiam olh-la sem ter que levantar infantilmente a cabea, o que os tornou de sbito muito pequenos e transformou a casa em manso. Era como se jamais alguma coisa estivesse estado to perto deles. A casa devia ter tido uma cor. E qualquer que fosse a cor primitiva das janelas, estas eram agora apenas velhas e slidas. Apequenados, eles abriram os olhos espantados: a casa era angustiada.

A casa era angustiada e calma. Como palavra nenhuma o fora. Era uma construo que pesava no peito dos dois meninos. Um sobrado como quem leva a mo garganta. Quem? Quem a construra, levantando aquela feira pedra por pedra, aquela catedral do medo solidificado?! Ou fora o tempo que se colara paredes simples e lhes dera aquele ar de estrangulamento, aquele silncio de enforcado tranqilo? A casa era forte como um boxeur sem pescoo. E ter a cabea diretamente ligada a ambos era a angstia. Eles olhavam a casa como uma criana diante de uma escadaria.

Enfim ambos haviam inesperadamente alcanado a meta e estavam diante da esfinge. Boquiabertos, na extrema unio do medo e do respeito e da palidez, diante daquela verdade. A nua angstia dera um pulo e colocara-se diante deles nem ao menos familiar como a palavra que eles tinham se habituado a usar. Apenas uma casa grossa, tosca, sem pescoo, s aquela potncia antiga.

Eu sou enfim a prpria coisa que vocs procuravam, disse a casa grande.

E o mais engraado que no tenho segredo nenhum, disse tambm a casa grande.

A moa olhava adormecida. Quanto o rapaz, seu stimo sentido enganchara-se na parte mais interior da construo e ele sentia na ponta do fio um mnimo estremecimento de resposta. Mal se movia, com medo de espantar a prpria ateno. A moa encorara-se no espanto, com medo de sair deste para o terror de uma descoberta. Mal falassem, e a casa desabaria. O silncio de ambos deixava o sobrado intacto. Mas, se antes tinham sido forados a olh-lo, agora mesmo que lhes avisassem que o caminho estava livre para fugirem, ali ficavam, presos pelo fascnio e pelo horror. Fixando aquela coisa erguida to antes deles nascerem, aquela coisa secular e j esvaziada de sentido, aquela coisa vinda do passado. Mas e o futuro?! Oh Deus, dai-nos o nosso futuro! A casa sem olhos, com uma potncia de um cego. E se tinha olhos, eram redondos olhos vazios de estatua. Oh Deus, no os deixeis ser filho desse passado vazio, entregai-nos ao futuro. Eles queriam ser filhos. Mas no dessa endurecida carcaa fatal, eles no compreendiam o passado: oh livrai-nos do passado, deixai-nos cumprir nosso duro dever. Pois no era a liberdade o que duas crianas queriam, elas bem queriam ser convencidas e subjugadas e conduzidas mas teria que ser por alguma coisa mais poderosa que o grande poder que lhes batia no peito.

A moa desviou subitamente o rosto, to infeliz que sou, to infeliz que sempre fui, as aulas acabaram, tudo acabou! porque na sua avidez ela era ingrata com uma infncia que fora provavelmente alegre. A moa subitamente desviou o rosto numa espcie de grunhido.

Quanto o rapaz, ele rapidamente perdia o p na vaguido como se fosse ficando sem um pensamento. Isso tambm era resultado da luz da tarde: era uma luz lvida e sem hora. O rosto do rapaz estava esverdeado e calmo, e ele no tinha nenhuma ajuda das palavras dos outros: exatamente como temerariamente aspirara um dia conseguir. S que no contara com a misria que havia em no poder exprimir.

Verdes e nauseados, eles no sabiam exprimir. A casa simbolizava alguma coisa que eles jamais poderiam alcanar, mesmo com toda a vida de procura de expresso. Procurar a expanso, por uma vida inteira que fosse, seria em si um divertimento, amargo e perplexo, mas divertimento, e seria uma divergncia que pouco a pouco os afastaria da perigosa verdade e os salvaria. Logo eles que, na desesperada esperteza de sobreviver, j tinham inventado para eles mesmo um futuro: ambos iam ser escritores, e com uma determinao to obstinada como se exprimir a alma a suprimisse enfim. E se no suprimisse, seria um modo de s saber que se mente na solido do prprio corao.

Ao passo que com a casa do passado eles no poderiam brincar. Agora, to menores que ela, parecia-lhes que tinham apenas brincado de ser moo e doloroso de dar a mensagem.

Agora, espantados, tinham finalmente o que haviam perigosa e imprudentemente pedido: eram dois jovens realmente perdidos. Como diriam as pessoas mais velhas, "eles estavam tendo o que bem mereciam" . E eram to culpados como crianas culpadas, to culpados como so inocentes os criminosos. Ah, se ainda pudessem apaziguar o mundo por eles exacerbados, assegurando-lhes: "estvamos apenas brincando! Somos dois impostores!" Mas era tarde. "rende-te sem condio e faze de ti uma parte de mim que sou o passado" dizia-lhes a vida futura. E, por Deus, em nome de que poderia algum que tivesse esperana de que o futuro seria deles? quem?! Mas quem se interessava em esclarecerlhes o mistrio, e sem mentir? Havia por acaso algum trabalhando nesse sentido? Dessa vez, emudecidos como estavam, nem lhes ocorreria acusar a sociedade.

A moa havia subitamente voltado o rosto com um grunhido, uma espcie de soluo ou tosse.

"Meio que chorar dessa hora bem de mulher", pensou ele do fundo da sua perdio, sem saber o que queria dizer com "essa hora". Mas essa foi a primeira solidez que ele encontrou para si mesmo. Agarrando-se a essa primeira tbua, pde voltar cambaleando tona, e como sempre antes da moa. Voltou antes dela, e viu uma casa de p com um cartaz de "aluga-se". Ouviu o nibus s suas costas, viu uma casa vazia, e ao seu lado a moa com um rosto doentio, procurando escond-lo do homem j acordado: ela procurava por algum motivo ocultar a cara.

Ainda vacilante, ele esperou com palidez que ela se recompusesse. Esperou vacilante, sim, mas homem. Magro e irremediavelmente moo, sim, mas homem. Um corpo de homem era a solidez que o recuperava sempre. Volta e meia, quando precisava muito, ele se tornava um homem. Ento, com mo incerta, acendeu sem naturalidade um cigarro, como se ele fosse os outros, socorrendo-se do gesto que a maonaria dos homens lhe dava como apoio e caminho. E ela?

Mas a moa saiu de tudo isso pintando com batom, com ruge meio manchado, e enfeitado por um colar azul. Plumas que um momento antes haviam feito parte de uma situao e de um futuro, mas agora era como se ela no tivesse levado o rosto antes de dormir e acordasse com as marcas impudicas de uma urgia anterior. Pois ela, volta e meia, era uma mulher.

Com um cinismo reconfortante, o rapaz olhou-a curioso. E viu que ela no passava de uma moa.

Ficou por aqui mesmo, disse-lhe ento despedindo-se com altivez, ele que nem sequer tinha mais hora certa para voltar para casa e sentia no bolso a chave da porta.

Despediram-se eles, que nunca se apertavam as mos, pois ela, na falta de jeito de em to m hora ter seios e colar, ela estendera desastradamente a sua. O contato das duas mos midas se apalpando sem amor constrangeu o rapaz como uma operao vergonhosa, ele corou. E ela, com batom e ruge, procurou disfarar a prpria nudez enfeitada. Ela no era nada, e afastou-se como se mil olhos a seguissem, esquiva na sua humildade de ter uma condio.

Vendo-a afastar-se, ele a examinou incrdulo, com um interesse divertido: "ser possvel que mulher possa saber realmente o que angustia?" E a dvida fez com que ele se sentisse muito forte." No, mulher servia mesmo era para outra coisa, isso no se podia negar." E era de amigo que precisava. Sim, de um amigo leal. Sentiu-se ento limpo e fraco, sem nada a esconder, leal como um homem. De qualquer tremor de terra, ele saa com um movimento livre para frente, com a mesma orgulhosa inconseqncia que faz o cavalo relinchar. Enquanto ela saiu costeando a parede como uma intrusa, j quase me dos filhos que teria, o corpo pressentido a submisso, corpo sagrado e impuro a carregar. O rapaz olhou-a, espantado de ter sido ludibriado pela moa tanto tempo, e quase sorriu, quase sacudia as asas que acabavam de crescer. Sou homem, disse-lhe o sexo em obscura vitria. De cada luta ou repouso, ele saa mais homem, ser homem se alimentava mesmo daquele vento que agora arrastava poeira pelas ruas do cemitrio So Joo Batista. O mesmo vento de poeira que fazia com que o outro ser, o fmeo, se encolhesse ferido, como se nenhum agasalho fosse jamais proteger a sua nudez, esse vento das ruas.

O rapaz viu-a afastar-se, acompanhando-a com os olhos pornogrfico e curioso que no pouparam nenhum detalhe humilde da moa. A moca que de sbito ps-se a correr desesperadamente para no perder o nibus...

Num sobressalto, fascinado, o rapaz viu-a correr como doida para no perder o nibus, intrigado viu-a subir no nibus como um macaco de saia curta. O falso cigarro caiu-lhe da mo...

Alguma coisa incmoda o desequilibrara. O que era? Um momento de grande desconfiana o tomava. Mas o que era?! Ele vira a correr toda gil mesmo que o corao da moa, ele bem adivinhava, estivesse plido. E vira-a, toda cheia de impotente amor pela humanidade, subir como um macaco no nibus e viu-a depois sentar-se quieta e comportada, recompondo a blusa enquanto esperava que o nibus andasse... Seria isso? Mas o que poderia haver nisso que o enchia de desconfiada ateno? Talvez do fato dela Ter corrido toa, pois o nibus ainda no ia partir, havia pois tempo...Ela nem precisava ter corrido... Mas que havia nisso tudo que fazia com que ele erguesse as orelhas em escutar angustia, numa surdez de quem jamais ouvir a explicao?

Ele tinha acabado de nascer um homem. Mas, mal assumira o seu nascimento, e estava tambm assumindo aquele peso no peito; mal assumira a sua glria, e uma experincia insondvel dava-lhe a primeira futura ruga. Ignorante, inquieto, mal assumira a masculinidade, e uma nova fome vida nascia, uma coisa dolorosa como um homem que nunca chora. Estaria ele tendo o primeiro medo de que alguma coisa fosse impossvel? A moa era um zero naquele nibus parado, e no entanto, homem que agora ele era, o rapaz de sbito precisava se inclinar para aquele nada, para aquela moa. E nem ao menos inclinar-se de igual para igual, nem ao menos inclinar-se para conceder... Mas, atolado no seu reino de homem, ele precisava dela. Para qu? Para lembrar-se de uma clusula? Para que ela ou outra qualquer no o deixasse ir longe demais e se perder? Para que ele sentisse em sobressalto, como estava sentindo, que havia a possibilidade de erro? Ele precisava dela com fome para no esquecer que eram feitos da mesma carne, essa carne pobre da qual, ao subir no nibus como um macaco, ela parecia ter feito um caminho fatal. Que ! Mas afinal que que est me acontecendo? Assustou-se ele.

Nada. Nada, e que no se exagere, fora apenas um instante de fraqueza e vacilao, nada mais que isso, no havia perigo.

Apenas um instante de fraqueza e vacilao. Mas dentro desse sistema de duro juzo final, que no permite nem um segundo de incredulidade seno o ideal desaba, ele olhou estonteado a longa rua e tudo agora estava estragado e seco como se tivesse a boca cheia de poeira. Agora e enfim sozinho, estava sem defesa merc da mentira pressurosa com que os outros tentavam ensin-lo a ser um homem. Mas e a mensagem?! A mensagem esfarelada na poeira do vento arrastava para as grades do esgoto. Mame, disse ele.

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