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A margem imóvel do rio, de Luiz Antonio de Assis Brasil


A margem imóvel do rio, de Luiz Antonio de Assis Brasil. Um dos romances históricos em que, ao invés de sair do Brasil o autor entra nele como em uma geografia misteriosa.

O texto inteiro justifica o início (ou reinício) contido no último parágrafo do livro. Haverá, antes dele, dois outros igualmente marcantes: os que estão no último parágrafo do prólogo e no antepenúltimo parágrafo do epílogo.

São 52 capítulos breves. Assim, são três passos que resolverão a vida do protagonista. Vejamos.

O primeiro passo tem como antecedentes quinze capítulos – será o mais grave; nele se encontra, ainda, a prudência (notoriamente enganosa a partir de certa altura da história) e o conflito (surgido nas tentativas que são cada capítulo) presentes na tarefa que o protagonista se deu: a de “organizar a alma” – e, após iniciado, tomará trinta e cinco capítulos e meio, até o segundo passo, e o terceiro. Entre os três, há mistério – o mistério que é possível a todos nós e se apreende no exaurir da identidade que serve de prisão à própria vida –, ele está no protagonista, mas também nos ambientes que se lhe escolhem para corresponder. Nesse sentido, o ápice da narrativa foi deixado na seguinte passagem, onde o autor combina as almas de todas as mulheres da história, e, por arranjada coincidência, todos os desafios de insanidade e não:

Dado que criados não tocam piano, vivia mais alguém na casa. Ele deixou-se dominar pela idéia de ir ver. Levantou-se e empunhou o trinco da porta. Abriu-a. O perfil de uma jovem mulher ao piano repetia-se no espelho oval. O rosto desvelava-se pela luz das duas velas nos castiçais aplicados ao instrumento. As velas iluminavam também a partitura. ‘Essa jovem não mostra uma beleza na obrigatoriedade geral de serem belas, e que tanto exigimos das mulheres.’ Era bela por ser única, o queixo talvez um pouco projetado para a frente, ou o nariz pequeno demais. Toda essa assimetria ressaltava pela exatidão dos cabelos penteados em bandós idênticos. Ele procurou uma cadeira na penumbra. Era justo no momento em que a jovem feria o acorde final, o qual ficou ressoando pela força dos pedais. A seguir ela abriu outro livro de partituras e o pôs na estante do piano. Ele pôde ver que as mãos eram brancas (...) Ela agora começa o prelúdio A gota d´água, em que o intérprete martela com obsessão uma única tecla com a mão esquerda, enquanto a direita realiza uma fantasia de todas notas lentas.

Destaca-se também a linguagem do narrador – que não é brasileira, mas algo de “entre caminho” desta e a portuguesa. Numa leitura apressada, o conjunto pode sugerir um quadro inofensivo. Mas o final e o que ganha e perde o protagonista provam claramente o contrário – quando, justificados, tangenciam o preço da redenção.

Análise

O silêncio, mesmo ao meio-dia, mesmo no momento da maior lassidão do estio, o silêncio zumbe sobre as margens imóveis dos rios.

É com essa epígrafe, do escritor latino Horácio, que se inicia A margem imóvel do rio. O silêncio é também tema do poema que fecha o livro, este da autoria do poeta norte-americano Thomas Hood: “Onde o som não acontece existe um silêncio, / E existe um silêncio onde som não pode ser - / No túmulo frio, sob o mais profundo mar, / Ou no vasto deserto onde vida não há”. A idéia subjacente a essas citações, antes mesmo de iniciar o enredo propriamente dito, e ao encerrá-lo, pode-se dizer que remete ao silêncio (ou a falta dele) em que a personagem principal do livro é condenada a viver, acometida de uma doença que lhe atormenta os ouvidos - e cujos desdobramentos serão aprofundados no decorrer da narrativa. Limita-se aqui a dizer que as margens da história e da literatura, em A margem imóvel do rio, encontram-se igualmente em constante conflito de silêncios e ruídos. As margens da história e da literatura são fixas, se pensarmos que elas mantêm suas características distintas, vistas como ramos do saber; porém, como um rio, levam adiante o ruído de seu próprio movimento pelo fato de seu entrecruzamento. No romance A margem imóvel do rio, a história é imóvel; está à margem no questionamento da veracidade das lembranças de um historiador; o que move e flui é a trajetória pessoal das personagens, que silenciam e desaparecem como um rio; está na afirmação do homem, elemento ativo no movimento (ou na imobilidade) da história.

Assim exposta, a relação entre história e literatura na narrativa em questão é apresentada explicitamente a partir dos dois primeiros parágrafos do primeiro capítulo, onde se insere a figura do segundo imperador do Brasil, Dom Pedro II:

Os jornais humorísticos do século XIX informam que Sua Majestade o Sr. D. Pedro II, Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil, protetor das Ciências e das Artes, também chamado pelo vulgo de Pedro Banana, tinha o curioso hábito de repetir “já sei, já sei”. Falavam-lhe muitas e variadas coisas e, para defender-se do tédio, ele abreviava as conversas. Usava solenes barbas em leque, muito branquinhas, e isso era o bastante para que não insistissem. Tinha horror às disputas, mas suas decisões eram categóricas. Uma vez implicou com o Barão do Rio Branco e não o incluiu na comitiva que iria à Exposição da Filadélfia. “Assim o quero”, disse, e a História ainda aguarda as razões. Na Exposição, Sua Majestade proferiu a interessante frase “to be or not to be” no bocal do aparelho inventado por Mr. Bell, e foi ouvido na outra ponta do fio. (ASSIS BRASIL, 2003, p. 11)

Além dessa descrição de D. Pedro II, a capa e a contracapa do livro estampam duas imagens do imperador, como se ali estivessem para ilustrar e reforçar o que diz o texto. A par dessa apropriação do universo histórico pela literatura, é preciso considerar ainda a relação da ficção com a realidade exterior de existência comprovada, histórica, que Assis Brasil recria. Efetivamente, a apresentação de D. Pedro II no livro provoca um jogo intertextual entre a personagem da história - quiçá a personagem do Brasil mais estudada do século XIX - e a personagem da ficção, favorecendo a construção do texto literário aproximado daquela do referente histórico. Destacam-se também as informações sobre D. Pedro II buscadas em “jornais humorísticos do século XIX”, resgatando na ficção o modo como o discurso histórico retratava o imperador do Brasil, com o narrador emitindo um juízo sobre D. Pedro II: de acordo com o narrador, o imperador foi uma “necessidade romântica” do povo brasileiro, já que não houve por aqui hábitos de nobreza da Idade Média, ao compararmos com a Europa.

Falou-se aqui em D. Pedro II e nas informações contidas na obra em relação a tal personagem da história, e já é o caso de perguntar: é A margem imóvel do rio
um romance histórico? Esta obra, seguindo os passos do livro antecessor, O pintor de retratos, os elementos históricos não dominam a cena; não há uma descrição de hábitos e vestuários; os aspectos históricos, incluindo a descrição de D. Pedro II, são trabalhados literariamente. Mais importante do que os fatos e os lugares históricos são os dramas humanos por que passam suas personagens. Assis Brasil consegue fazer uma ficção em que os elementos históricos estão antes implícitos em obras que primam pela naturalidade. O segredo de sua literatura talvez seja entregar-se aos fatos narrados com uma cuidadosa contemporaneidade e não como alguém que, preso ao presente, olha um tempo perdido e só o enxerga por suas marcas mais salientes. A chave do bom romance histórico, quer me parecer, não está no uso de linguagens e eventos do passado, mas em conseguir capturar um ritmo condizente com o momento em que se passam as ações. Oque Assis Brasil realiza em A margem imóvel do rio é o que pode se denominar de novo romance histórico, no qual o fato histórico é utilizado para ir de encontro à visão legitimada das versões oficiais da história, pois se torna inviável obter uma única visão sobre o passado.

Tendo em vista isso, pode-se afirmar que A margem imóvel do rio desenvolve-se nos parâmetros do chamado novo romance histórico, já que o livro problematiza a impossibilidade de se chegar a um real conhecimento do passado, a considerar os múltiplos pontos de vista sobre qualquer fato histórico.

O enredo da obra delineia-se já no primeiro capitulo, ao mostrar o mordomo-mor da Casa Imperial a procurar documentos sobre uma viagem que D. Pedro II e a imperatriz D. Teresa Cristina, bem como toda a comitiva que acompanhava os imperadores nessas ocasiões, realizaram ao Rio Grande do Sul. O mordomo procurava referências a respeito de um estancieiro gaúcho chamado Francisco da Silva, que hospedara os monarcas na viagem feita vinte e um anos antes. O estancieiro enviara uma petição para o cumprimento de uma promessa que o imperador teria feito na ocasião da visita à sua propriedade, que seria a de lhe ser concedido o título nobiliárquico de Barão da Serra Grande. D. Pedro II não lembrava mais do estancieiro e mostrava certo descaso em relação à província gaúcha: “O Mordomo vinha-lhe agora falar sobre o Sul, esse território gélido, meio castelhano, bárbaro, lugar de guerras e sedições, pouco brasileiro”.

Em nota final, o autor informa que ao unir a obra com O pintor de retratos está “o olhar estrangeiro sobre o pampa”, sendo que em livros anteriores, como na obra de estréia Um quarto de légua em quadro, e também em As virtudes da casa, Videiras de cristal e O pintor de retratos, Assis Brasil criara personagens originários da Europa de passagem pelo Rio Grande do Sul. No entanto, em A margem imóvel do rio o estranhamento diante da terra gaúcha se evidencia em duas personagens provenientes do próprio país: D. Pedro II e o protagonista do livro, o Historiador, cujas trajetórias servem ao autor para descrever o Rio Grande do Sul tal como era visto pelo resto do Brasil, ou seja, o território que D. Pedro II comenta no discurso indireto e que vem corroborar as descrições que faziam os visitantes ao Sul no século XIX. Trata-se de viajantes que observaram e registraram sobre a realidade sul-riograndense, anotando as peculiaridades dos aspectos físicos e dos hábitos gaúchos do século XIX.

Em A margem imóvel do rio, o olhar estrangeiro, isto é, de alguém que não pertence ao lugar que está sendo visitado, contribui para estabelecer um estranhamento naquilo que os nativos – na obra, o povo gaúcho – julgam estar acostumados.

Na seqüência, ao perceber que o imperador não lembrara da promessa, nem do estancieiro, o mordomo retorna ao seu gabinete, na intenção de procurar uma solução para o caso: “Lembrou-se, numa inspiração, do Cronista da Casa Imperial. Ele acompanhara D. Pedro ao Sul. Mandou chamá-lo ao Paço”. A lembrança do mordomo de chamar o funcionário imperial apenas por uma inspiração leva a pensar que o ofício de cronista deveria estar em segundo plano no Império. Além disso, é evidente que o cronista não se considerava como tal, mas sim como um historiador, o que reforça a necessidade de se esboçar a diferença entre um e outro na época em que se desenvolve o enredo da obra.

Note-se que o objetivo mais importante é tentar entender a idéia de história que vai sendo proposta em A margem imóvel do rio. Nessa perspectiva, leva-se em
conta a época em que se desenrola a obra – o fim do século XIX –, quando a historiografia brasileira encontrava-se sob a influência do positivismo.

A diferenciação entre o cronista e o historiador é particularmente importante para desvendar o sentido da busca do protagonista pelo estancieiro gaúcho, pois, enquanto cronista, sua função seria apenas a de fazer um inventário dos casos e acontecimentos singulares, sem nenhuma pretensão à objetividade dos fatos, ao contrário da sua posição como historiador, em que deveria ter a certeza de quem seria o verdadeiro Francisco da Silva.

O que Assis Brasil realiza em A margem imóvel do rio não é um tratamento hostil contra a história, mas sim, ele mostrará, através do modo de elaboração do enredo, um historiador envolto com as (im)possibilidades da escrita da história; tentará provar ainda que essa história é feita de lembranças, que dependerão da fidelidade da memória nesse processo de anamnese, cuja simulação do narrador ao lembrar de coisas esquecidas nada mais fará do que chamar a atenção sobre elas. Dessa forma, a trajetória do historiador em busca de um passado que deseja lembrar, bem como a variação do ponto de vista no destino dos personagens do livro, são também a expressão da impossibilidade da certeza sobre os fatos tidos convencionalmente como históricos. Tudo dependerá da interpretação de alguém em determinado momento. O mito, quando desfeito logo será substituído por outro de ocasião, referendado pelo Historiador da hora.

Assim, nas frases do protagonista e nos juízos emitidos pelo narrador, perpassa o questionamento de que a história é construída pelo homem. É o que se percebe quando, ainda no primeiro capítulo, o Historiador é informado de maneira rude pelo mordomo de que, ao consultar o seu caderno de notas, ele deveria ter a obrigação de saber o destino do estancieiro, ao que o outro responde: “– Se fosse assunto digno da História”. A afirmação é contundente: ciente de que é portador do caderno de notas onde estão os dados da viagem ao Sul, o Historiador percebe aos poucos que o passado é construído de acordo com as expectativas e vivências de quem o escreve. Com efeito, A margem imóvel do rio é constituído a partir de uma concepção da história referendada pelo historiador, que a reconstitui de forma incompleta, pois os fatos são sempre passíveis de revisão. “Os objetos permaneciam tais como os deixara ontem à noite, quando estivera anotando, à margem das páginas, os erros da História do Brasil, de Robert Southey. Historiadores passam metade de seu tempo a corrigir os colegas”. A menção do livro de história sendo corrigido pelo protagonista pode ser vista como uma referência irônica ao fato de o próprio Historiador não estar convicto dos erros e acertos de seu caderno de notas. Entretanto, não se percebe se a frase referente a os historiadores corrigirem seus colegas parte do narrador da obra ou do protagonista, ambigüidade que reforça a ficcionalidade impressa na historicização da narrativa. No parágrafo anterior, a observação de que o Historiador organizava seus pensamentos em frases acabadas e corretas, a exemplo da frase citada, reforça a idéia de tais assertivas fazerem parte do pensamento da personagem. Em outras ocasiões, as observações do Historiador são enunciadas entre aspas, seguidas geralmente de comentários irônicos do narrador: ”Ele nem precisava de luz, conhecia cada palmo por onde andava. ‘Todas as pessoas deveriam nascer e morrer na mesma casa’. Melhor ainda: ‘Todas as pessoas deveriam ter o direito de nascer, viver e morrer na mesma casa’. Eis um juízo tão extravagante quanto inútil”.

Ainda no segundo capítulo, há a verificação de que o historiador pretendia escrever ele próprio um livro de história, que seria chamado História do Império por
um contemporâneo dos fatos. Nos cadernos de notas estavam as anotações das viagens e relatos da vida do Imperador: no caderno de número 17 se encontrava a descrição da visita de D. Pedro II ao Sul. O protagonista teria de consultá-lo para descobrir a localização do estancieiro Francisco da Silva, sendo que as lembranças do Historiador escritas no caderno revelam o retrato de uma província fria e muito diferente do resto do Império, descrita na seguinte passagem:

[O Historiador] Iniciou a leitura. Ali estava o registro do périplo de dois meses. Ao segurar o caderno ele sentia de novo o frio sulino. Nas casas de estância em que os acolhiam, a friagem, encarcerada entre as grossas paredes, era ainda mais pavorosa. Não havia lareiras. Ele não sentia as pontas dos dedos. À noite, os pés congelavam, mesmo sob várias mantas de lã. (MIR, p. 18-19)

Mais adiante, é contemplado o contexto sulino da época e as sensações do Historiador ao reler o caderno de notas:

Reviveu saraus tediosos, coronéis bêbados, belas damas, negociantes estúpidos, estancieiros avaros ou pródigos, padres que andavam de mula. Reviveu o pampa, o gado solto à sua própria conta, os ágeis cavaleiros a quem os poetas, esses imaginosos, chamavam de ‘centauros dos pampas’.Era aterrador (MIR, p. 25-26).

As passagens anteriores equivalem à idéia de como a província gaúcha era vista como uma unidade cultural e geográfica à parte do resto do Brasil. O olhar do estrangeiro sobre o pampa sulino revela a temperatura fria e hostil para quem está acostumado ao calor tropical do resto do país, o que acentua o estranhamento diante das adversidades climáticas do sul. A narração desse estranhamento, sua simplicidade quase poética, é tocante: “Ao descerem os paralelos geográficos rumo ao Sul, mais o tempo esfriava. Em frente à foz do Mampituba foi preciso tirar da mala a casaca de lã. Era um frio não completamente meteorológico, mas algo mais amargo, como um desamparo e um afastamento“ (MIR, p. 59).

Uma figura importante no desenvolvimento da obra é Cecília, a empregada do Historiador, cuja morte por febre amarela desencadeia a sua decisão de aceitar a
viagem ao Sul do Brasil à procura do estancieiro gaúcho. No prólogo do livro encontra-se a descrição do velório de Cecília, antecipando os acontecimentos que ocorrerão a partir do capitulo 14. De início, é de se destacar a linguagem, curta, seca, como em O pintor de retratos. Além disso, ainda do ponto de vista estrutural, a obra assume de imediato a postura de um narrador onisciente, premonitor, que tem acesso até a acontecimentos futuros, como uma epidemia de febre amarela que se espalharia nos anos seguintes. Assim, o prólogo se encerra com a previsão de que o velório da empregada seria o início para a preparação da viagem ao Sul: “A morte de Cecília era o sinal: aceitaria a missão que lhe davam. Muito ele desconhecia as origens daquela incumbência” (MIR, p. 11).

Será exatamente por meio de Cecília que o protagonista começará a perceber detalhes de sua existência, que no decorrer da obra irá se estender ao seu ofício de historiador. Ele constatará que a empregada tem uma concepção contrária à sua em relação ao Imperador D. Pedro II: Cecília, natural de Portugal, avista o Imperador no mesmo navio que a conduz para o Brasil pela primeira vez, e, ao cumprimentar D. Pedro II, tem seu gesto retribuído com outro aceno, o que lhe provoca a sensação de que o Imperador do Brasil era também uma pessoa comum: “– D Pedro é um homem como os outros – ela um dia disse ao Historiador, provocando-lhe uma reação de espantada incredulidade. Ele nunca pensara nisso. O fascínio imperial estava muito acima dessas contingências humanas” (MIR, p. 29).

Acompanhando-se mais de perto sua trajetória, depreende-se do seu envolvimento sentimental com Cecília um sutil jogo de sedução, em que o mais importante é o que está nas entrelinhas, nas descrições dos desejos reprimidos de ambas as personagens. Na sua viuvez, ao mesmo tempo em que deseja carnalmente a empregada, o Historiador sofre com os temores de causar falatório na vizinhança e com a possível traição à memória da esposa morta, enquanto em Cecília misturam-se sentimentos de piedade e amor pelo seu patrão. O narrador cristaliza a importância de Cecília na vida do Historiador ao descrever o momento em que este anuncia à governanta a sua viagem ao Sul: “Naquele instante, mais do que um sentimento, mais do que todas as certezas anteriores, mais do que suas convicções sensatas e mais do que apenas uma premonição, o Historiador soube que sua vida estaria para sempre unida àquela mulher” (MIR, p. 40).

Se essa afirmação condiz com a influência da empregada nas atitudes do Historiador, o que realmente irá se confirmar através do papel relevante que Cecília irá tomar no decorrer da obra, também é certo que Assis Brasil inspirou-se para compor o relacionamento da governanta e do Historiador na ópera La serva padrona, composta em 1733 pelo italiano Gianbatista Pergolesi que conta a trajetória da empregada Serpina, educada desde pequena por Uberto, seu patrão. Na idade adulta, Serpina se apaixona por Uberto e planeja várias artimanhas para se casar com o patrão. Com efeito, o narrador chega a mencionar a ópera, e comenta que, para o Historiador, “fazer-se de Uberto transformara-se num passatempo delicioso” (MIR, p. 25).

Entretanto, as lembranças da esposa falecida estavam presentes, e de sua morte é que surge outra peça importante na urdidura do livro: a doença de que o Historiador padece, cujos sintomas não lhe permitem ficar em silêncio. E é precisamente no momento em que retorna do funeral da esposa que um som intermitente começa a lhe invadir a cabeça: “Um zunir que lhe atormentava os ouvidos, um chiado de mil cigarras. Um concerto obtuso de grilos alucinados que ocupava seus dias” (MIR, p. 14).

O modo de elaboração do enredo acompanha esse permanente chiar nos ouvidos: em vários momentos, a incapacidade do Historiador de ficar em silêncio é o motivo para o narrador estabelecer a descrição das cenas, pelo fato de que o protagonista tem que se distrair para não ficar atento ao seu tormento nos ouvidos. Diz o narrador em determinado momento: “A atenção concentrada faz esquecer o chiado. Ele passou a escutar os passos de Cecília pela casa. Iam e vinham, na inspeção noturna às portas e janelas” (MIR, p. 26). Sua doença, diagnosticada como Tinnitus Aurium, emerge na própria linguagem do livro, como se o silêncio que lhe era negado fosse a causa das frases curtas e contundentes que perpassam A margem imóvel do rio, tal como na seguinte passagem: “Tentava [o historiador] escrever algo, e as linhas ficavam em branco. Gostaria que os ouvidos dessem alguma pausa em sua tirania. Agora, só lhe faltava o silêncio” (MIR, p. 131). Com efeito, as epígrafes que abrem e encerram o livro, já citadas anteriormente, são pistas de que o silêncio (e a falta dele) estará onipresente no decorrer da obra, sendo a doença de que é acometido o Historiador quase outra personagem do livro.

Cabe ressaltar o que Assis Brasil afirma a respeito da enfermidade de sua personagem:

A doença age como motivo propulsor de vários momentos, e, ao mesmo tempo, é o resultado (porque a doença se agudiza em certos instantes) desses momentos. Resolvi, neste livro, privilegiar a enfermidade física que, em geral, é esquecida pelos ficcionistas, que talvez não lhe reconhecem nada de transcendental ou épico. Sofre-se, apenas, seja de uma dor de dentes, seja de um zunir nos ouvidos – e nega-se qualquer resultado ou dignidade neste sofrer. E, no entanto, ele existe, e pode determinar a conduta de uma vida (Entrevista a CARPINEJAR)

Sofrendo com o zumbido nos ouvidos, que somente o deixava em paz durante o sono, o Historiador se debate também por não achar referências em seus cadernos de notas sobre o estancieiro Francisco da Silva. À medida que o protagonista de A margem imóvel do rio não consegue desvelar o caso, cresce nele a tentação de inventar um registro da visita do Imperador ao estancieiro e confirmar a promessa de D. Pedro II de conceder a Francisco da Silva o título de barão.

Nesses momentos o narrador expressa uma sutil ironia ao destacar, em uma primeira ocasião, a obrigatoriedade de os historiadores não mentirem em seus registros, e em uma segunda oportunidade, a idéia de que esses mesmos historiadores nunca concordam uns com os outros. Na primeira ocasião, o Historiador está revisando as suas anotações página por página, preocupado em desvendar o caso e já antevendo a possibilidade de inventar o registro que confirmaria a promessa de D. Pedro II. Contudo, o narrador observará: “Historiadores não são dados a mentiras” (MIR, p. 24). Nas digressões subseqüentes – ainda pairando sobre o protagonista a idéia de inventar o registro da visita imperial, idéia que era logo repelida, mas ficando sempre algo, o Historiador lembra-se de que, no requerimento enviado por Francisco da Silva, havia uma referência ao título de Barão da Serra Grande. Ato contínuo, ele consultará um colega do Instituto Histórico e Geográfico na intenção de descobrir tal serra em um mapa da Província do Rio Grande do Sul. Encontrado o acidente geográfico, localizado entre as cidades de Pelotas e Bagé, o membro do Instituto vê a possibilidade de o mapa não estar correto, o que se confirmaria logo adiante. Diz o narrador: “(...) os geógrafos, como ele sabia, inventam o que não sabem, tal como os historiadores. Aliás, dada a mentira geral, nunca vira um Historiador concordar com outro” (MIR, p. 34).

A análise de A margem imóvel do rio abre-se também à reflexão do papel da memória na história, na medida em que se encontra no seu enredo um historiador envolto com a perda de um componente essencial ao seu trabalho, isto é, as lembranças do passado. Neste plano, o leitor irá acompanhar como o Cronista da Casa Imperial – que devia se lembrar de tudo o que acontecia na vida do Imperador e sua família – vai perdendo gradativamente a memória. O narrador acentua o dilema do Historiador ao tentar lembrar da visita de D. Pedro II à estância gaúcha:

O que é uma lembrança, senão a lembrança de uma história? Ele precisava evocar uma história em que se visse chegando à casa de Francisco da Silva, sendo apresentado à família, ouvindo-lhe o nome, conversando e, talvez, tomando o café-da-manhã, depois partindo de lá. Mas virava e revirava sua memória, e não se via nessa narração (MIR, p. 31).

Na obra, encontram-se duas modalidades de memória. Em primeiro lugar, pode-se destacar o que Aristóteles chamou de mneme, que vem a ser a presença
involuntária de imagens do passado evocadas por um ato ou objeto e que fazem emergir uma lembrança. Na obra, o Historiador espera encontrar Francisco da Silva e sua estância justamente através da evocação espontânea que lhe causaria quando se visse diante do estancieiro gaúcho: “De certeza iria lembrar-se de Francisco da Silva. Bastaria vê-lo, ao chegar na estância – embora as casas fossem tão parecidas umas às outras. Em sua dispersa memória, ele as unia numa única, assim como fazemos com os pardais e os escaravelhos” (MIR, p. 67). Num segundo momento, encontra-se na obra a modalidade de memória que se convencionou chamar de anamnese (do grego ana, “remontar”, e mnesis, “memória”), que é a busca voluntária das reminiscências da memória. Esse processo mantém-se sempre presente durante a procura que empreende o Historiador, quando ele vai para o Sul atrás de Francisco da Silva, visto que ao procurar o estancieiro há a intenção deliberada de sua parte de encontrar e reconhecer a propriedade do homem que pediu o título de barão a D. Pedro II: “À medida que se aproximavam [de determinada estância], ele era acometido pela promissora idéia de haver estado ali. Não era ainda uma lembrança, mas uma reminiscência” (MIR, p. 73). Cabe ressaltar que em determinado momento, a personagem pensa ter chegado à estância, ao se lembrar de um broche de ouro em forma de serpente, que usava a mulher do dono da propriedade: “A constatação foi instantânea como um raio: estivera ali. (...) Lembrava-se do espantoso broche da estancieira. Veio-lhe a história que buscava, como quem puxa o fio de um novelo” (MIR, p. 83).

A destacar também o forte elemento irônico de um historiador perdendo e recuperando a memória, pois é no sentido ambíguo de um personagem cujo ofício requer lembrar-se dos fatos, e que, contudo, estava às voltas com a perda da memória, que é delineado o conflito do protagonista: “Era uma ironia em seu caso, mas uma grande verdade no geral, que Clio fosse filha de Mnemosyne, a deusa da memória” (MIR, p. 32).

É nessa situação de perda de memória que o Historiador é auxiliado, pela primeira vez, pelo espectro de Cecília. Interessante observar que nessa oportunidade a empregada ainda não está morta, o que acentua consideravelmente o aspecto surreal da cena. Cabe ressaltar que Assis Brasil sempre foi conhecido como um autor que não costuma inserir elementos fantásticos na sua narrativa. Contudo, em A margem imóvel do rio há um tom sobrenatural pairando sobre algumas personagens, como Cecília e as personagens femininas que o protagonista encontra logo adiante na trama: a surda-muda Maria Augusta e a misteriosa Lisabel. A empregada, por sua vez, surge como uma aparição que anuncia ao Historiador onde ele deveria procurar no seu caderno de notas para achar a referência ao estancieiro. Entretanto, nessa primeira oportunidade do aparecimento do espectro, não é citado o nome de Cecília; ela só é identificada como tal através da referência de um tratamento com que ela se dirigia ao patrão: “senhor-doutor”. De posse então da informação de que existia a anotação – “Francisco da Silva. Campos do Rio Grande” – sobre o homem e o local visitado por D. Pedro II e sua comitiva na província gaúcha, o Historiador parte para o Palácio Imperial na intenção de informar ao Mordomo-mor que achara o nome e o lugar procurados. No caminho, um episódio revela mais uma vez um narrador que se confunde entre a descrição da cena e os pensamentos do próprio protagonista. Trata-se da chegada do Historiador ao Largo Imperial:

Não fosse ele o Cronista da Casa Imperial, bem que gostaria de sentar-se ali, descansar um pouco de sua dignidade, misturar-se àquele povo. Mas hoje ele desviou o pensamento e os olhos, fixando-se em dois empregados que apagavam com escovões de piaçava um ‘Viva a República’ escrito de modo grosseiro na parede do Palácio. Até onde iriam aqueles socialistas? O tristonho edifício, com o passar do tempo e o envelhecimento do Regime, crivava-se de pequenos comércios que se abriam para as ruas laterais e mesmo para o Largo (MIR, p. 36).

Nessa mescla de narrador que, ao mesmo tempo em que se surpreende e se revolta com a atitude de pessoas contrárias ao regime monárquico, por outro lado observa o envelhecimento da Monarquia, podem ser destacados dois momentos significativos para o entendimento da obra. Em primeiro lugar, o registro do iminente colapso do regime monárquico no Brasil, que irá eclodir no fim do livro. Chama a atenção o fato da sutil alusão ao momento histórico (em torno de 1889) pelo qual passava o país, procedimento narrativo encontrado por Assis Brasil para inserir o seu Historiador nas mudanças políticas do fim do século XIX, que agitavam a Monarquia e preparavam o caminho para o estabelecimento do regime republicano. Em um segundo momento, a passagem enfocada é ignificativa pelo fato de mostrar o protagonista observador de um acontecimento histórico e dele não se aperceber. O irônico corre por conta de que o personagem pretendia escrever o livro História do Império por um Contemporâneo dos Fatos; entretanto ele não absorvia os próprios fatos de que era observador direto. Tal alienação se reflete em outros momentos da obra. O historiador não consegue reter o sentido dos acontecimentos à sua volta, contrapondo-se às mudanças do seu comportamento até o final da obra, quando tem fim o motivo de seu pretenso livro, isto é, o Império brasileiro.

as mudanças de percepção experimentadas pelo protagonista têm início na viagem que ele faz ao Sul, e esta começa a tomar forma definitiva quando ele comparece na já referida visita ao Mordomo-mor para informar a existência nas suas anotações do estancieiro Francisco da Silva. Considerando o conflito vivido
pelo Historiador, no que diz respeito a não ter anotado os detalhes da viagem vinte e um anos antes, percebe-se a absurda relevância que dava ao caso, pois, no fim das contas, seria apenas um título de barão que ficaria sem o respectivo dono, em um Império acostumado ao elevado número de títulos nobiliárquicos – barões, condes e viscondes. A narrativa explica essa exagerada preocupação para com a solução do caso de Francisco da Silva em função do cargo do protagonista na corte e da reverência que ele sentia pela figura de D. Pedro II, como se vê na seguinte passagem: “Deslindar o caso era mais do que obedecer a uma ordem. Em sua mente exacerbada, colocava naquilo sua dignidade de Cronista da casa Imperial e a respeitabilidade do próprio Monarca” (MIR, p. 24). E, mais adiante: “O caso era grave porque ele sabia da existência de um Francisco da Silva. E o caráter provisório da nota a lápis era uma condenação: o Cronista da casa Imperial não poderia agir daquele modo, como se anotasse cinco libras de banha ou uma arroba de azeite” (MIR, p. 36).

É nesse contexto que o Historiador se encontra diante do Mordomo-mor da casa Imperial para informar que, enfim, encontrara em suas notas o nome do estancieiro gaúcho. Contudo, nada havia anotado quanto à promessa imperial de conceder-lhe o título nobiliárquico mencionado na petição. Diante do impasse, o
Mordomo-mor sugere que a solução para descobrir o que sucedeu com Francisco da Silva seria uma nova viagem ao Sul: “– Só há uma forma de resolver – e o Mordomo-mor fez uma pausa dramática. – Deve Vosmecê em pessoa partir para o Rio Grande do Sul e esclarecer esse caso” (MIR, p. 38).

O Historiador não acolhe bem a idéia de voltar à Província gaúcha. Irritado, sente aumentar o zumbido nos ouvidos, justamente no momento capital da resolução do caso da viagem ao Sul: a aparição do próprio D. Pedro II.

Complementando o que foi dito da figura do Imperador do Brasil no capítulo I da obra, descrito como um senhor entediado de barbas brancas em leque, essa
descrição de D. Pedro II transporta sua figura histórica para a margem da literatura: “D. Pedro era um homem alto, velho para a idade, com a pele muito branca. Herdara a brancura da mãe Habsburg. Viam-se as veias azuis que circundavam o nariz. O Mordomo-mor segurava a cartola do Monarca, que calçava as luvas de suède gris perle”.

O encontro do protagonista de A margem imóvel do rio com D. Pedro II obedece a esse mesmo princípio do qual fala Barthes: para conceber um efeito do
real. Se a segunda viagem do Historiador ao Sul poderia parecer inverossímil aos olhos do leitor, a presença do imperador do Brasil ordenando a sua ida à procura de Francisco da Silva visa a estabelecer credibilidade à missão da personagem. O fato é que este é incumbido pelo próprio D. Pedro II a retornar ao Sul: “– (...) Boa viagem. Na volta, mande entregar-me um relatório. E não coma muito churrasco. O excesso de carne prejudica as vias urinárias” (MIR, p. 39).

Uma vez com a missão a cumprir, o Historiador parte para a preparação da viagem. O que se encontra nos capítulos que tratam de tal empreendimento é a sua tentativa de levar a empregada Cecília ao Sul, tentativa esta frustrada pela morte repentina da empregada: “Quando de manhã enxergou Cecília, soube que ela
estava com a febre. Nem era preciso fazer mais nada: para ele as coisas sempre foram adversas. Perguntou-lhe, com medo da resposta, se ela estava bem. Não, não estava
” (MIR, p. 50). O historiador leva então Cecília à Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, porém já intuía o destino que aguardava sua criada: “Quando a levaram, ele soube que tudo terminava ali. A evolução era conhecida: hemorragias, paralisação do fígado e rins, coma. Morte.” (MIR, p. 50). Com a morte de Cecília surge o que faltava para o Historiador ir para o Sul: na incumbência que lhe fora destinada por D. Pedro II, o único despropósito era como levá-la para a província gaúcha, pois o Sul continua a ser apresentado, em relação ao centro do país, como um lugar adverso: “(...) teria de atravessar vaus traiçoeiros e gemer embaixo do frio do vento minuano. Teria de comer mal e dormir pior” (MIR, p. 47).

Na obra, é clara a denotação de que o protagonista é um sujeito insignificante, que não questiona o que se passa a sua volta, absorvendo apenas os fatos do dia-a-dia. O processo de autoconhecimento, significando também com isso a mudança de sua visão de como escrever a história, começa desde o momento em que recebe a carta a respeito da morte de Cecília; “Enquanto ele não lesse aquele papel, ela estaria viva. Mas amanhã teria coragem. E amanhã ele precisaria fazer algo para dar sentido a tudo que até então chamara, apenas por displicência e tédio, de vida” (MIR, p. 53).

No início de sua viagem ao Sul, de navio, nota-se um movimento circular em direção à repetição da viagem feita vinte e um anos antes. Dos navios citados na obra, o “Alagoas” e o “Maranhão”, o Historiador deveria viajar no “Alagoas”, mas, por uma avaria na sua caldeira, teria que ser o “Maranhão” a transportá-lo, o mesmo da primeira viagem. A menção a tais navios é representativa pelo fato de contribuir para aproximar mais uma vez o leitor da história, uma vez que esses navios faziam parte da frota marítima do Império no fim do século XIX. Contudo, não há uma descrição das embarcações, somente é informado que ambas faziam parte da frota da Cia. Lloyd, companhia marítima estatal que fazia a rota para o Sul. Já com relação ao navio “Alagoas”, é interessante observar que foi o mesmo que levou a própria família imperial ao exílio, ao fim do Império.

No movimento de volta ao passado, o Historiador também ocupa o mesmo camarote em que viajara na primeira expedição ao Sul, na tentativa de ir recuperando a memória na convivência com o ambiente anterior. No camarote, o protagonista vai estabelecer contato pela primeira vez com uma personagem capital, cujas atitudes o farão refletir sobre sua posição diante da vida: o russo Anton Antonóvich Tarabukin, descrito como um homem ruivo, corpulento e simpático. Apesar de não se estenderem mutuamente, em razão de suas línguas diferentes, os dois travam diálogos em português e russo: “[O Historiador] Dava um acento interrogativo em frases absurdas, ao que o russo respondia alguma coisa em seu idioma. Era uma espécie de jogo de dominós com palavras” (MIR, p. 59). Enfim, ele parte rumo ao Sul, em busca de Francisco da Silva. Do convés do navio “Maranhão”, vislumbra o Brasil sob o domínio do Império pela última vez: “Ele foi até a amurada e observava o Paço, com o pavilhão imperial erguido. Sua Majestade estava na cidade: o Poder e o Império protegiam a Nação Brasileira” (MIR, p. 56). O sentido subjacente a esta parte de A margem imóvel do rio, em que a ironia paira sobre a visão de um Império e um imperador poderosos mas que na verdade estavam nos seus últimos estertores, dá a medida do quanto o autor carrega nas tintas para pintar o Historiador, cada vez mais alheio aos fatos à sua volta.

Por outro lado, nota-se que o seu próprio trabalho de historiador estava impregnado dessa ausência de convicções, visto que em seus cadernos de notas não se encontrava nenhum tipo de reflexão no sentido da história do imperador e do Império, mas somente trivialidades: “Sentou-se à mesinha, abriu o caderno nº 17.
Leu mais uma vez o que escrevera há anos, quando estava naquele mesmo lugar: observações rotineiras sobre o tempo, a disposição de Sua Majestade, notas sobre o itinerário e enumeração nominal da comitiva
” (MIR, p. 58).

Em decorrência, quando encontra o primeiro homem chamado Francisco da Silva, português e comerciante, na cidade do Rio Grande, ele não se preocupa em
estabelecer as circunstâncias que poderiam ligar essa personagem ao homem que procurava: “Ora, um vendedor de anchovas” (MIR, p. 61).

Da cidade do Rio Grande, o Historiador parte para Porto Alegre, e no tocante à chegada na capital da Província, verifica-se que Assis Brasil compõe um quadro
bastante sucinto do local. Ao contrário do que fizera em sua obra Cães da Província, em que realiza extensa descrição da capital – elogiada por críticos literários e historiadores pela sua reconstituição minuciosa –, em A margem imóvel do rio é breve a apresentação de Porto Alegre: “A Capital, afora sua ‘encantadora posição sobranceira ao Guaíba’, como ele escrevera no caderno, não oferecia nada que chamasse especial atenção. Era uma cidade com igrejas, praças e lampiões a gás” (MIR, p 61). A descrição da capital, sobretudo a parte que é atribuída ao Historiador, remete aos relatos de viajantes que sobre ela escreveram.

Na medida em que avança em busca do estancieiro, o protagonista encontra-se em uma viagem de trem rumo a uma estação denominada Pedras Altas, em cujas
proximidades fora informado que morava um Francisco da Silva. Abre-se um parêntese para ressaltar que tal estação é particularmente importante na própria
história do autor, pois é em Pedras Altas que se localiza o castelo da família Assis Brasil, o mesmo que serviu de matéria literária para a elaboração da série Um
castelo no pampa. E é próximo dessa localidade que o protagonista de A margem imóvel do rio volta a tomar contato com uma das principais paisagens que fazem parte do ambiente gaúcho: o pampa. Cabe salientar que é flagrante a temática do pampa que avulta nas obras de Assis Brasil: trata-se quase de uma obsessão do autor em destacar nas suas obras a planície que domina o Estado. No pampa “terrível e belo” (MIR, p. 61), o escritor vai buscar inspiração para as cenas de batalhas que se encontram em seus livros; é no pampa que os viajantes de suas obras vão tomar contato com a realidade gaúcha; é lá que Assis Brasil vai procurar a história de seus ancestrais, para compor a série do castelo no pampa. Nas palavras do próprio autor, o pampa cerca as cidades com uma presença misteriosa, cheia de ressonâncias e segredos do passado.

Efetivamente, em A margem imóvel do rio o pampa é convocado pelo autor em diversos momentos. A sua imobilidade e majestosa amplidão referidas na obra têm seus reflexos quando é descrita a morte de um viajante que definhou de fome ou de sede, muito perto de sua casa: “No mar também acontecem essas coisas, e algum poeta provincial com certeza repetiria: ‘O pampa, senhores, o pampa, é como um mar verde e imóvel!’” (MIR, p 148).

Na estação, o protagonista é informado pelo agente do lugar sobre dois primos chamados Francisco da Silva: o primo mais velho, dono da estância Porteira de Ferro; o mais novo, proprietário da estância Santa Quitéria. Esse mesmo agente indica um homem chamado Isidoro, para acompanhá-lo: “(...), um cocheiro quieto, barbudo, com cara de bandoleiro, (...)” (MIR, p. 71). Essa figura singular, que apesar do aspecto de bandido, tinha medo de cobra, serve na obra para aproximar o protagonista dos costumes do Rio Grande do Sul no seu périplo pelo Estado e Isidoro é importante personagem que redimensiona o olhar do cronista acerca dos hábitos locais. É o cocheiro quem apresenta ao Historiador a bebida da região, o mate, fala das revoluções do Estado e o auxilia na sua viagem, pois “também conhecia o tempo e o alertava para os perigos do pampa” (MIR, p. 85). Presencia-se assim, a valorização de uma personagem originária do Rio Grande do Sul, que representa, de certa forma, os gaúchos do pampa do século XIX.

Depois de conseguir o cocheiro como guia e uma charrete como meio de transporte, o protagonista confirma a hipótese do seu colega do Instituto Histórico e
Geográfico de que o mapa da Serra Grande que procurava estava errado, visto que ela não ficava entre as cidades de Pelotas e Bagé, conforme indicava o mapa do Confrade, o que pode ser visto como a confirmação da possibilidade de os geógrafos e os historiadores serem passíveis de erros, como alertara o seu colega. Na estância Porteira de Ferro, o Historiador toma contato com um Francisco da Silva velho e dominado por um filho e uma esposa autoritários. Contudo, ao ser
informado pela mulher de que não foram eles que teriam feito uma doação para a Cúria Diocesana, fato que confirmaria a identidade do estancieiro procurado, ele
anota em seu caderno: “Estância Porteira de Ferro. Francisco da Silva 1: tem noventa e nove anos, e contudo é falso” (MIR, p. 80).

No que diz respeito à próxima estância a ser visitada, a Santa Quitéria, o leitor toma conhecimento de que o dono da propriedade não se encontrava, e que as
informações teriam que ser recolhidas de sua esposa, num ambiente que não agradou o protagonista: “Ali tudo assumia um ar meio transtornado” (MIR, p. 89). O local também serve para ampliar o olhar do estrangeiro sobre o homem e os costumes locais. É descrito agora um típico galpão gaúcho: “Procurou o galpão dos peões. Sentavam-se em cepos à volta do fogo. As paredes eram revestidas de fuligem e desprendiam um forte odor de graxa. Os homens tomavam mate. A conversa tinha longos hiatos, naqueles diálogos sem fim dos gaúchos” (MIR, p. 89-90).

Ao considerar-se a condição da mulher do dono da estância Santa Quitéria, que cuida da casa e do campo enquanto seu marido se encontrava no Rio de Janeiro, vê-se que Assis Brasil privilegia a participação feminina na sociedade gaúcha do século XIX. O autor resgata para a esfera da literatura a mulher que a história muitas vezes relegou a um segundo plano. Mulheres estancieiras anônimas, as quais foram de fundamental importância na formação histórica, social e cultural do Estado.

A estancieira, chamada Augusta, pintada com tintas de uma mulher rude e violenta, por ser surda-muda comunicava-se com o Historiador através de gestos, em caracterização que serve para contrapor-se a outra figura singular presente na estância Santa Quitéria: Lisabel. A moça surge na obra apresentada como uma jovem requintada, que toca piano em uma noite de temporal, e a passagem de sua aparição, observada às escondidas pelo protagonista, é um dos momentos mais
líricos do romance:

O perfil de uma jovem mulher ao piano repetia-se no espelho oval. O rosto desvelava-se pela luz das duas velas nos castiçais aplicados ao instrumento. As velas iluminavam também a partitura. “Essa jovem não mostra uma beleza dissolvida na obrigatoriedade geral de serem belas, e que tanto exigimos das mulheres”. Era bela por ser única, o queixo talvez um pouco projetado para a frente, ou o nariz pequeno demais. Toda essa assimetria ressaltava pela exatidão dos cabelos penteados em bandós idênticos. Ele procurou uma cadeira na penumbra. Era justo no momento em que a jovem feria o acorde final, o qual ficou ressoando pela força nos pedais. A seguir ela abriu outro livro de partituras e o pôs na estante do piano. Ele pôde ver que as mãos eram brancas como as dos bibelôs de Meissen (MIR, p. 96).

Essa passagem em que o autor delineia a figura de Lisabel tocando no piano o prelúdio "A gota d’água", de Chopin, representa claramente o encontro da civilização com a barbárie, considerando o espaço da estância como um lugar rústico, governado pela madrasta violenta de Lisabel, dona Augusta, e a jovem encarnando um reduto civilizado no pampa gaúcho. Como visto no subcapítulo anterior, essa dialética avulta nas obras de Assis Brasil, aparecendo em muitas delas o contraste entre o progresso cultural, representado aqui pelo piano, e os grupos humanos do Rio Grande do Sul do século XIX, que viviam em um espaço sem cultura e muitas vezes violento.

A jovem, tachada de “louca” pela madrasta, sucumbe ao ambiente repressor a sua volta, e relata ao Historiador: “– Eu tenho a morte no coração’“ (MIR, p. 103).

Assustado com os mistérios que pairavam sobre a estância, e com a conclusão de que o Francisco da Silva do lugar não era aquele que procurava, ele decide partir, após o término de uma chuva que se demorara por dias. Há que se destacar a anotação que faz ao sair da propriedade: “Estância Santa Quitéria. Francisco da Silva 2: também é falso. Vacilou, e depois acrescentou: Aqui vive Lisabel. Era a primeira vez que escrevia um nome de mulher no vade-mécum. Riscou logo, várias vezes. Aquilo não interessava à História, nem a seu relatório” (MIR, p. 106). A exclusão da figura feminina do caderno de notas sugere o reconhecimento de que os historiadores relegavam a presença das mulheres no processo histórico. Tal exclusão é contextualizada pelo autor com o propósito de evidenciar mais adiante as mudanças ocorridas com o Historiador quando este começa a redimensionar o papel das mulheres em sua vida.

Na seqüência, ele encontra novamente o russo Anton Antonóvich Tarabukin, agora acompanhado por um guia e intérprete francês, chamado Adrien Picard. Do reencontro surge uma nova mudança no comportamento do protagonista: ao observar o russo comendo e bebendo avidamente, percebe a verdadeira felicidade, que também almejava, encontrada nas atitudes do russo comendo uma fritada de ovos com toucinho e pão: “Sem sono, o Historiador deixou-se ficar, fascinado por aquela gula ciclópica. Daria tudo para, um dia, sentir esse prazer – qualquer prazer” (MIR, p. 110). Essa passagem pode ser lida como a constatação da imagem alheia como formadora da própria imagem. Será efetivamente na observação do russo que o Historiador começará o processo de autoconhecimento, em que perceberá que mais importante do que sua viagem ao interior da Província era a viagem interior em busca de si próprio.

De sua margem, o Historiador avança nesse movimento de construção identitária pelo viés da interação com outra pessoa, quando tem relações sexuais com uma jovem da estância, onde há mais um homem chamado Francisco da Silva, denominada Estância do Baile. Deitado ao lado da moça, na cama que um dia servira ao Imperador, o protagonista constata a mudança que lhe ocorrera: “De repente algo se esclarecia em sua alma, embora ele ainda não soubesse bem o quê. Mas era algo bom e terno” (MIR, p. 118).

O protagonista de A margem imóvel do rio persegue justamente esse preenchimento, essa completude que busca no seu exterior, no(a) outro(a). Assim, renuncia a sua busca a Francisco da Silva e parte para o encontro com o russo e com o francês: “Estava quase eufórico. Queria voltar logo para Bagé, tinha
esperança de ainda encontrar a dupla para rever a vitalidade do russo que, ao comer seus triviais ovos com toucinho, ensinara-lhe algo
” (MIR, P. 123).

As mudanças ocorrem até mesmo na sua forma de conceber a história, pois, ao contrário do que ocorrera com Lisabel, ele não risca do caderno de notas o nome
de Cândida: ele sublinha o nome da moça, e redimensiona assim o papel da mulher na história e no seu relatório.

Assim, o Historiador partirá com o russo em uma viagem pelo pampa, vagando pelas coxilhas e estâncias, ambos acompanhados do francês com seus mapas e bússolas falsos, na ânsia de aventuras desconhecidas até então e de experimentar o sentido de liberdade que ele descobrira no russo: “Seduzia-o aquela busca ávida e insaciável de acumular aventuras, sem preocupar-se com os resultados” (MIR, p. 124).

O périplo sem direção pelo pampa sugere uma viagem iniciática, um trajeto de autoconhecimento do protagonista. Da viagem física errante pela Província surge
a viagem interior em busca da identidade e de novas aprendizagens, que lhe serve para lançar um novo olhar sobre o pampa: o vento gelado, que antes o incomodara, agora lhe parecia um ar de liberdade.

O protagonista de A margem imóvel do rio, levando-se em consideração que ele, mesmo com a percepção de que estavam sendo enganados pelo francês Picard, viajava apenas com a finalidade de se deslocar de um local para o outro.

Na obra em análise, essa idéia de fragmentação tamb&ea

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