dcsimg

A metamorfose, de Franz Kafka


A Metamorfose é uma das mais conhecidas obras de Franz Kafka. Essa é a obra mais conhecida do autor, um dos maiores escritores do século XX. Foi escrita em 1912, quando Kafka tinha 29 anos. Foi publicado pela primeira vez em 1915. Seu estilo seco e direto não tem meias palavras para descrever um mundo sinistro.

Na história, um homem acorda transformado em um inseto e precisa aprender a lidar com a nova situação. Trata-se de uma revelação do desespero humano perante o absurdo e opressão do mundo.

A novela de Kafka narra a história de um caixeiro-viajante, obrigado a trabalhar para sustentar a família (composta por seu pai, sua mãe e a irmã mais nova de dezesseis anos) e pagar sua dívida, que acorda uma manhã metamorfoseado em um inseto. A partir daí a história é narrada com um realismo inesperado que associa o inverossímil e o senso de humor ao que é trágico, grotesco e cruel na condição humana - tudo no estilo transparente e perfeito desse mestre inconfundível da ficção universal.

A principio, é estranho, claro, mas para Gregor, tudo tem de se desenrolar normalmente durante o dia. Sua rotina não pode ser interrompida por alguns estranhamentos, modificações ou mal-estares repentinos, seu chefe, seu trabalho o esperam. Mas a incapacidade de se locomover e a dificuldade de se acostumar com sua nova estrutura de corpo, impedem Gregor de iniciar sua rotina, cumprir suas tarefas e horários, e inicialmente ele diz que o próprio trabalho é o culpado de tudo que está acontecendo. A família também estranha a atitude de Gregor, até descobrir o que realmente aconteceu. É um grande espanto a todos e, a partir desse dia, o mundo de Gregor agora é seu quarto, um esconderijo do mundo.

A descoberta desta transformação decorre durante a primeira parte do livro, que é dividido em três capítulos. Além da descoberta, a adaptação com o novo Gregor difere de acordo com cada membro da família. Os pais o rejeitam, já a irmã, mesmo insegura e com medo, procura ajudar o irmão. O próprio Gregor tem de se adaptar, e não só às suas formas físicas, mas às suas atitudes, opiniões e pensamentos, que também passam por uma metamorfose.

O pai volta a trabalhar e a mãe e a irmã também arranjam uma forma de ganhar dinheiro, afinal Gregor, o sustento da família, não trabalha mais.

O conformismo da família parece estável. Com o passar das semanas a mãe continua com medo, o que não queria ter, e a irmã faz o que consegue. Já o pai não liga; é difícil interpretar o que realmente pensa o pai. Ele se preocupa mais com o que Gregor pode fazer à sua família do que com qualquer outra coisa; parece que tem uma raiva pelo filho, como se ele tivesse feito de propósito e a relação entre eles, pai e filho, nunca tivera tanto significado ou consistência.

O pai, como responsável pela família, quer protegê-la e acha que Gregor é uma ameaça, principalmente para a mãe.

(...) quando nesse momento, alguma coisa, atirada de leve, voou bem ao se lado e rolou diante dele. Era uma maçã; a segunda passou voando logo em seguida por ele; Gregor ficou paralisado de susto; continuar correndo era inútil, pois o pai tinha decidido bombardeá-lo. Da fruteira em cima do bufê ele havia enchido os bolsos de maçãs e, por enquanto sem mirar direito, as atirava uma a uma. As pequenas maçãs vermelhas rolavam como que eletrizadas pelo chão e batiam umas nas outras. Uma maçã atirada sem força raspou as costas de Gregor, mas escorregou sem causar danos. Uma que logo se seguiu, pelo contrário, literalmente penetrou nas costas dele; Gregor quis continuar se arrastando, como se a dor, surpreendente e inacreditável, pudesse passar com a mudança de lugar; mas ele se sentia como se estivesse pregado no chão e esticou o corpo numa total confusão de todos os sentidos. Com o último olhar ainda viu a porta do seu quarto ser escancarada e a mãe se precipitar de combinação à frente da irmã que gritava; pois a irmã a tinha aliviado das roupas para permitir que ela respirasse com liberdade enquanto estava desacordada; viu-a correr ao encontro do pai e no caminho cair ao chão, uma a uma, as saias desapertadas; e viu quando ela, tropeçando nas saias, chegou até o lugar onde o pai estava e, abraçando-o em completa união com ele – mas nesse momento a vista de Gregor já falhava - , pediu, com as mãos na nuca do pai, que ele poupasse a vida de Gregor. (...)”.

O trecho descrito acima mostra o verdadeiro sentimento do pai de Gregor em relação a tudo que está se passando. A raiva, o desespero e o medo. Todos esses sentimentos acumulados em uma maçã que é arremessada ao filho, que sente além da dor física de uma maçã dentro de seu corpo, a dor de não conseguir mais ajudar a família e, de praticamente não fazer mais parte dela, de ser visto não mais como um filho ou irmão, e sim como um inseto asqueroso e nojento.

Depois de ler também informações e dados sobre o próprio Franz Kafka, em sua biografia, onde é citado o desentendimento dele próprio com seu pai, Hermonn Kafka, considera-se provável que protagonistas dos livros, não apenas de A Metamorfose, mas de outras obras também, tais como Carta ao Pai, O Processo e O Castelo, sejam projeções do próprio autor, com a exposição de seus sentimentos perante o mundo.

A última parte do livro conta o que parece esperado, mas na verdade acaba sendo uma surpresa. É impressionante a reação dos familiares de Gregor quando ele morre, já se torna algo desejado e é um grande alívio quando ocorre.

O VIÉS METAMORFÓSICO DE FRANZ KAFKA

A transformação da lagarta – uma criatura rastejante – em borboleta – um ser que ganha os céus em liberdade – é representada alegoricamente pelo mito grego de Psique, cuja história representa a purificação da criatura que após sofrer os mais penosos acintes ganha a imortalidade da alma.

Nesta obra, Franz Kafka inverte o significado dessa transformação. O protagonista de seu conto, Gregor Samsa, é um trabalhador explorado que labuta por endividamento, portanto um ser humilhado que certa manhã vê-se metamorfoseado num inseto rastejante e repugnante.

De uma vida mesquinha de caixeiro-viajante, Gregor samsa passa a viver a angústia ante sua própria existência. Rejeitado pela família Samsa leva a vida enclausurado no seu quarto, arrastando-se pelo chão; subindo pelas paredes; escondendo-se dos demais embaixo do sofá; alimentando-se de comidas podres e confundindo-se com o lixo despejado em seu recinto e sempre a espreitar atrás da porta as lamúrias de seus familiares, o que o faz sentir-se culpado por sua nova aparência física, já que seus sentimentos continuam humanos a despeito de todo o resto.

O subjetivismo de A Metamorfose tem aberto espaço para as mais variadas interpretações da obra kafikiana. Essa plurissignificância engloba desde leituras psicanalíticas à marxistas. Porém o que mais chama atenção em A Metamorfose é como Kafka, através do seu protagonista, considera a existência por si só um absurdo.

Créditos parciais: Iara Caldeira do Amaral (Trabalho de Literatura)

Comentários

Siga-nos:

Instituições em Destaque

 
 

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e receba as últimas notícias do Vestibular além de dicas de estudo: