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A Relíquia, de Eça de Queirós

  • Data de publicação

Análise da obra

Romance de segunda fase, A Relíquia, de Eça de Queirós, publicado em 1887, nos dá uma visão pessimista do autor, de um Portugal demasiadamente conservador de que Titi é a principal representante; há também uma crítica ferina, contundente e cruel desta mesma sociedade portuguesa, ressaltando-se aí os defeitos do clero, o que já fora anteriormente feito em O Crime do padre Amaro (que faz também parte da segunda fase do autor). Desta vez, no entanto, a crítica é muito mais aguda e mostra as criaturas que fariam qualquer coisa por um pouco de dinheiro.

Principalmente neste romance o autor hostiliza os que ostentam o mundo de aparências; a própria D. Patrocínio, tão beata e tão piedosa, mas que, por discordar do modo de viver de um sobrinho "pecador', deixa-o morrer doente, sem atender-lhe os pedidos.

Estrutura da obra

O romance está dividido em cinco grandes capítulos, todos inominados.

Foco narrativo

O romance é narrado em terceira pessoa. O narrador é onisciente. Ele move-se lentamente pelo cenário, descrevendo detalhes mínimos de objetos ou vestuário, colocando o leitor dentro da cena de maneira realista. Esse apego à minúcia é outra marca queirosiana, que não pode ser esquecida.

Espaço / Tempo / Ação

O espaço principal é Lisboa e, também, a Terra Santa para onde o narrador se dirige numa viagem patrocinada por Titi.

O tempo da narrativa é cronológico e a narrativa linear, transcorrendo no período entre namoro de Luísa, a morte da mãe, o abandono pelo namorado, estendendo-se pelos dois anos de seu casamento com Jorge, até a viagem e volta desse.

A ação passa-se no final do século XIX.

Problemática e principais temas

A Relíquia é um romance que consegue atingir seu objetivo principal de criticar a sociedade lisboeta através de sua temática principal da inutilidade da hipocrisia. Esta é vista como juízo moral que parece prevalecer por um curto período na memória do próprio narrador, que acaba deixando-se levar pela força desagregadora da moral e da índole para afirmar que lhe faltou por um único momento o heroísrno de pregar mais uma mentira carregada de convicção para que tivesse obtido sucesso em sua suma hipocrisia. E essa crença na mentira que parece conduzir toda uma sociedade ao declínio e que representa nitidamente o estado de decadência da sociedade lusíada da segunda metade do século XIX. Ao contrário dos romances da terceira fase de Eça de Queirós, nos quais percebe-se um certa esperança vinda do interior, esse romance é marcado por um forte pessimismo, já que nem mesmo o declínio pelo qual passou, serviu profundamente ao protagonista de lição moral. Seu verdadeiro arrependimento não decorre de sua ação imoral tornada objetivo de vida, mas de não ter tido a coragem de continuar a mentir no momento que sua farsa foi revelada. Ao descortinar a verdade que se escondia por trás da falsa beatice de Teodorico, Eça revela mais do que a falsidade, o cinismo e a hipocrisia do personagem, mas uma sociedade moralmente desgastada e em rápido ritmo de declínio, urna vez que estabelece o interesse econômico como fundamental ao respeito e ao cumprimento dos desejos de uma beata seca e mal amada, porém rica.

Outras temáticas importantes já foram destacadas anteriormente, mas não nos custa retomá-las para melhor fixarmos sua importância:

a)  Crítica à decadência moral da sociedade.

b)  A inutilidade da hipocrisia.

c)  Censura a desconformidade entre os atos e os ideais.

d)  A hipocrisia religiosa.

e) O culto das aparências.

f) O convencionalismo social.

g)  Crítica à beatice doentia.

h)  Crítica à educação sexual transformada em aversão ao sexo.

i)   Crítica ao abuso da boa fé e da credulidade.

j)   Crítica à falta de sinceridade e à ambição desmedida.

O romance A Relíquia é um bom exemplo de que o emprego adequado da ironia torna urna temática séria algo divertido. até mesmo humorístico. Ao contrário das demais obras de Eça de Queirós. essa prima pelo espírito de graça e humor. Não é raro que o leitor encontre em suas páginas bons motivos para risadas menos contidas, graças às trapalhadas do protagonista, que imprime um tom sério, quase científico ao relato do que ele chama de crônica, mas que não consegue evitar formar de si mesmo um retrato cômico ou burlesco. Seus gestos são exagerados, suas representações primam pelo excesso, e só parece crer em seus atos aqueles que se deixam ou querem ser enganados. Não é à toa que essa obra serve de marco divisório entre a segunda e a terceira fase da obra de Eça de Queirós, pois encontramos em Teodorico um rascunho de seus sucessores: Gonçalo Mendes Ramires (A Ilustre Casa de Rarnires) e Jacinto (A Cidade e as Serras), protagonistas de obras consideradas da terceira fase.

Personagens

Teodorico Raposo - Chamado por alcunha Raposão. Jovem hipócrita e interesseiro que se faz passar por beato para enganar a tia. Titi, e obter sua fortuna em testamento. E falso e mulherengo. Peregrina pela Terra Santa apenas para atender o desejo da tia e aproximar-se ainda mais de sua fortuna. Falta-lhe resíduo moral e decência mínima, já que não demonstra qualquer escrúpulo também em enganar as pessoas com suas falsas relíquia.

Dona Maria do Patrocínio (Titi): Senhora muito alta, muito seca, “carão chupado e esverdinhado’, beata, virgem e com aversão ao sexo. Dona de uma imensa fortuna, usava isto como motivo para atemorizar o narrador.

Crispim - Filho do dono da firma Teles, Crispim & Cia. Chamado ironicamente de "a firma". Tinha cabelos compridos e louros, e um comportamento homossexual durante a vida no internato. Acaba tornando-se patrão e cunhado de Teodorico.

Pinheiro - Padre freqüentador dos jantares oferecidos por Titi. Triste, tem mania de doença e fica examinando sempre a língua no espelho.

Casimiro - Padre, procurador de Titi, vem sempre jantar com ela. Titi confia nele inteiramente.

Margaride - Homem corpulento e solene, calvo e com sombrancelhas cerradas, densas e negras como carvão. Foi amigo do pai de Teodorico em Viana, onde foi delegado. Foi juiz em Mangualde, mas aposentou-se depois de receber uma grande herança de seu irmão Abel. Tinha um gosto mórbido de exagerar as desgraças alheias.

Adélia - Amante de Teodorico, mas que era mantida por Eleutério Serra. Jovem interesseira, que acaba desprezando o protagonista por causa de sua obediência aos horários estipulados pela tia para chegar em casa e porque pouco consegue obter financeiramente. Acaba tornando-se amante do Padre Negrão, que recebe boa parte da herança de Titi.

Dr. Topsius - Alemão, formado pela Universidade de Bonn. Era um indivíduo espigado, magríssimo e pernudo, com uma rabona curta de lustrina, enchumaçada de manuscritos’. Tinha o nariz agudo e pensativo e usava óculos de ouro na ponta do nariz. Era patriótico, considerava a Alemanha a “mãe espiritual dos povos”. Apenas seu pigarro e a mania de usar a escova de dentes de Teodorico, desagradavam este último.

Mary - Amante que Teodorico arranja quando da viagem à Terra Santa, responsável pelo fato de Titi ter deserdado o sobrinho, por conta de uma camisola de rendas e de certo bilhete que nela havia pregado.

Padre - Negrão.

Vivência - Empregada de Titi.

Pote - Guia de Teodorico e Topsius em Jerusalém.

Justino - Tabelião de Titi.

Apedrinha - português encontrado no Egito como carregador de malas.

Enredo

A relíquia se inicia com uma apresentação na qual o narrador e personagem central da história, Teodorico Raposo, busca explicar ao leitor o que o levou a compor as memórias de sua vida. Ele afirma, primeiramente, que a principal justificativa está no fato de tanto ele como seu cunhado, Crispim, acreditarem que suas memórias encerram "uma lição lúcida e forte", sendo merecedoras, portanto, da imortalidade que a literatura propicia.

A narrativa se centrará numa viagem feita por Teodorico ao Egito e à Palestina, logo após uma decepção amorosa, viagem esta que promoveu significativas mudanças em seus bens e em sua moral. Não querendo dar ao seu relato uma forma de "guia de viagem", ele contará, "com sobriedade e com sinceridade", os casos que provocaram as mudanças em sua vida.

Contudo, há um outro objetivo para a escrita de suas memórias: promover uma correção na livro que seu douto amigo, Topsius, companheiro naquela viagem, escrevera sobre Jerusalém. Nesta obra, "Jerusalém passeada e comentada", Topsius afirma que Teodorico levava dentro de dois embrulhos de papel que o acompanharam na viagem "restos de seus antepassados". Preocupado com o que a Burguesia Liberal pensará dele, já que só através dela se conseguem "as coisas boas da vida", Teodorico deseja não só corrigir a obra do amigo, mas também esclarecer seus concidadãos do conteúdo dos dois pacotes.

Ainda que a narrativa se centre na viagem à Terra Santa, Teodorico escreve suas memórias relatando-nos toda a sua vida, desde a história do encontro de seus pais, até o momento da decisão de transformar suas experiências de vida em literatura.

A narrativa de Teodorico Raposo

Teodorico começa por nos dizer que seu avô paterno, Rufino da Conceição, era padre, teólogo e autor "duma devota Vida de Santa Filomena. Sua avó, Filomena Raposo, era doceira, conhecida por a "Repolhuda", e vivia em Évora com o filho, Rufino da Assunção Raposo, afilhado de Nossa Senhora da Assunção, pai do protagonista.

Rufino trabalhava no correio e escrevia, vez em quando, no "Farol do Alentejo". Em 1853, durante a visita de um importante Bispo a Évora, D. Gaspar de Lorena, Rufino escreveu um artigo elogioso à presença de "tão insigne prelado" e ganhou de imediato a simpatia do bispo. Quando este ficou sabendo que Rufino da Assunção era também "afilhado carnal" do Padre Rufino da Conceição, seu amigo de estudos à época do seminário, redobrou sua afeição por Rufino filho e, além de presenteá-lo com um relógio de prata, conseguiu com que este fosse "nomeado, escandalosamente, diretor da alfândega de Viana".

Em Viana, o pai de Teodorico conheceu um rico cavalheiro de Lisboa, o comendador G. Godinho, que passava o verão em sua quinta, o Mosteiro, com duas sobrinhas: a devota D. Maria do Patrocínio e a gordinha e trigueira D. Rosa. Nas constantes visitas que fazia ao Mosteiro, Rufino da Assunção tangia sua viola para D. Rosa e o amor entre eles não demorou a surgir. Iniciaram o namoro e, logo depois, casaram-se.

Teodorico Raposo nasceu numa tarde de sexta-feira da Paixão e D. Rosa, sua mãe, morreu na manhã seguinte, no sábado de Aleluia. Órfão da mãe, ele foi criado pelo pai, longe do avô comendador G. Godinho e da tia D. Maria do Patrocínio. Ainda na infância, o menino perdeu o avô comendador e, logo depois, o pai. Aos sete anos, órfão, sua tia, D. Maria do Patrocínio, mandou um seu empregado, o Sr. Matias, buscar-lhe em Viana. Já durante a viagem, Teodorico começou a registrar suas impressões do mundo exterior. Uma delas, em particular, deixou no menino fortes lembranças: o encontro, no corredor de uma estalagem, com a "inglesa do Sr. Barão".

Numa manhã de domingo, chegaram em fim a Lisboa, no casarão do Campo de Sant'Ana, casa de D. Maria do Patrocínio, a titi. Entre a timidez do menino e a rispidez beata da velha senhora, Teodorico logo teve que aprender que a titi era muito rica e que era necessário ser "temente a Deus, quietinho em casa, sempre obediente à titi" e, mais do que tudo, "dizer sempre que sim à titi". Na noite daquele mesmo domingo, Teodorico conheceu Padre Casimiro e Padre Pinheiro, religiosos que freqüentavam a casa de D. Patrocínio, e viu, pela primeira vez, o "oratório da titi", que o maravilhou com sua riqueza e brilho.

Aos nove anos, Teodorico foi mandado pela titi para o colégio dos Isidoros, em regime de internato. Lá, logo ligou-se "ternamente" a um rapaz chamado Crispim, que adorava beijá-lo na face e mandava-lhe bilhetinhos chamando-o de seu "idolatrado". Um dia, chamado de "lambisgóia" por um dos rapazes do colégio, Teodorico esmurrou-o bestialmente e, a partir daí, passou a ser temido, a fumar e a desenvolver as primeiras paixões.

Durante esse tempo, uma vez por mês, Vicência, empregada de D. Patrocínio e primeiro amor "ilícito" de Teodorico, vinha buscá-lo para passar um domingo com a titi. Nesses domingos, iam à missa, a titi cobrava-lhe o conhecimento da doutrina religiosa e, vagarosamente, por meio da Vicência, ele penetrava na intimidade e nas histórias da família.

Depois do colégio dos Isidoros, Teodorico foi terminar os "preparatórios" em Coimbra, na casa do Dr. Roxo, lente em teologia, o qual impôs-lhe "uma vida dura e claustral" ganhando de imediato o ódio de Teodorico. No entanto, morto o eclesiástico no primeiro ano de Direito, Teodorico mudou-se para a "divertida hospedagem das Pimentas" e conheceu logo os prazeres da liberdade. Brigas, bebedeiras, amores e vadiagem passaram a constituir sua vida em Coimbra. Por causa de sua barba, vasta e negra, apelidaram-no de Raposão, alcunha que ele aceitou com orgulho. As rezas e a vida piedosa aconselhadas pela titi foram abandonadas, mas, nem por isso, ele deixara de escrever quinzenalmente uma carta a titi dizendo de "sua humilde e recatada vida".

Numa de suas férias de verão, passadas em Lisboa ao lado da odiosa titi, por meio do Silvério, amigo de estudos em Coimbra, conheceu Adélia e logo se apaixonou, mas, temeroso do ódio da titi às relações entre homens e mulheres, voltou a Coimbra e aos estudos. Tempos depois, retornou definitivamente a Lisboa com o grau de Doutor. Como recompensa de seus estudos e por sua demonstração de uma vida beata, a titi deu-lhe um cavalo, roupas novas e um mesada e começou, assim, "farta e regalada, sua existência de sobrinho da Sra. Patrocínio das Neves". Manteve-se, contudo, a hipocrisia da dupla vida: por um lado, os amores de Adélia, constantemente visitada, por outro a "santidade" das visitas diárias, a pedido da titi, a igrejas, capelas e oratórios.

Num encontro com o Dr. Margaride, antigo amigo da família Neves e velho amigo de seu pai, Teodorico confessou suas preocupações com o destino que a titi daria a sua herança, pois não creditava que tivesse ainda conquistado, com sua aparente fervorosa religiosidade, a beata senhora. Dr. Margaride disse-lhe, então, que ele possuía um forte rival, Jesus Cristo, e que era necessário lutar mais para vencê-lo, mas que isto não era impossível. A Sra. Patrocínio das Neves, muito provavelmente, deixaria toda sua fortuna para a Igreja, a não ser que Teodorico se mostrasse um santo. Teodorico percebeu, então, que se era necessário fazer frente ao rival, corrigindo sua devoção e tornando-a perfeita. Passou, assim, a não perder uma missa, uma novena, uma quermesse, participar de todos os desagravos ao Sacramento, jejuns, enfim, decidiu tornar-se um santo frente a sua titi. Com tantas atividades, seu tempo e energia para os amores de Adélia diminuíram muito. Ela não demorou a arranjar outro amante, o Adelino. Por essa época, desiludido com a traição de sua amada, Teodorico decidiu por aceitar ir em peregrinação, em nome da titi, à Terra Santa, não sem antes estabelecer um roteiro que incluísse "regiões amáveis, femininas, e cheias de festa" e sem considerar a viagem como um grande passo no seu propósito de "santificação". Antes de partir, no entanto, prometeu à titi trazer uma relíquia religiosa da Terra Santa, que a ajudaria a intensificar sua adoração e passar melhor os seus dias.

Em Alexandria, no Egito, terra sensual e religiosa, já em companhia do Dr. Topsius, seu companheiro de viagem, hospedaram-se no Hotel das Pirâmides e lá conheceram o Alpedrinha, português, moço de bagagem, que logo indicou a Raposão o caminho do amor: uma lojinha discreta, onde se vendiam luvas e flores de cera, cuja dona era uma inglesa de Iorque, chamada Miss Mary. Logo passaram a viver dias de paixão sensual e Raposão passou a ser "seu portuguesinho valente" e Miss Mary, sua "maricoquinhas". O Cairo, o Nilo, as Esfinges e, principalmente, as igrejas, foram preteridas por Raposão para ficar ao lado de sua maricoquinhas. Enquanto Topsius fazia suas pesquisas históricas nesses lugares, Raposão passava seus dias amando nos braços de Miss Mary. Chegado o dia de partir para Jerusalém, Miss Mary deu a Raposão uma sua camisa, com a qual havia dormido a última noite. Com suas habilidosas mãos, Miss Mary embrulhou-a num papel pardo e cerrou-o com uma fita vermelha. Assim, sofrendo por ter de deixar tão deliciosos braços, Raposão partiu para a Terra Santa.

Passada Jafa e chegando a Jerusalém, as impressões da cidade foram as piores possíveis. Raposão achou tudo um horror. A cidade pareceu-lhe sem atrativos para seus interesses sensuais, uma maçada. Todavia, no hotel, avistou Ruby, filha de um comerciante escocês. Teodorico logo imaginou nela uma possibilidade de diversão. Ao visitar o Santo Sepulcro, intencionando encontrar lá a escocesa, deparou-se apenas com a histeria das rezas e o comércio intenso de artigos religiosos, só conseguindo sair de dentro do santo lugar como entrara "em pecado e praguejando".

Nesta mesma noite, ousando observar o banho de Ruby pelo buraco da fechadura de seu quarto, foi flagrado pelo pai da moça e levou uma surra do comerciante escocês. No outro dia, com o corpo dolorido, negou-se a sair do quarto, mas à noite foi a casa de Fatmé, lugar onde o alegre Pote, seu guia pela Terra Santa, prometeu-lhe diversão. Lá só encontrou aborrecimento, o que o fez desejar abandonar Jerusalém.

Seguiram, depois, Raposão e Topsius, em direção ao Jordão. No rio sagrado, ele fez, obedientemente, as rezas mandadas pela titi, mas também banhou-se e tomou cervejas em sua margem. Enquanto Topsius foi em visita a Jericó, Raposão saiu a passear pelos arredores do acampamento e encontrou uma árvore de onde tirou o galho que, transformado depois por Pote em uma coroa e embrulhada em pacote semelhante ao da blusa de Miss Mary, tornou-se a tão esperada relíquia para a titi. A veracidade de ter sido aquela a árvore de onde saiu o galho que formou a coroa de espinho de Jesus foi falsamente assegurada por Topsius.

Ao adormecer, naquela mesma noite, Raposão sonhou ter-se transportado, junto com Topsius, para a sexta-feira em que Cristo foi apresentado a Pilatos, julgado pelo seu crime de declarar-se reis dos judeus e crucificado. Em seu sonho, Raposão e Topsius acompanharam todo o processo do julgamento, as tentativas de Pilatos de se esquivar da sentença, as argumentações dos judeus para condená-lo; presenciaram a crucificação, a dor de Cristo na cruz, a tentativa de seus amigos de salvá-lo da morte, através do "vinho da misericórdia", que provocava a morte aparente; e, por fim, ficaram sabendo da morte de Jesus e do cumprimento da vontade divina.

No relato que faz de seu sonho, Raposão apresenta, logo no início, a idéia de que com ele se revela uma nova verdade, sem mistificações, sobre a morte de Cristo. Em relação a essa verdade, são significativas as últimas falas de Topsius. Quando fica sabendo, pelos amigos de Cristo, que seu corpo foi roubado do sepulcro para tentar reanimá-lo e que o sepulcro havia ficado vazio, ele afirma para Raposão que no dia seguinte as mulheres que amavam Cristo iriam ao sepulcro e, não encontrando seu corpo, sairiam a gritar o milagre da ressurreição e assim surgiria uma nova religião.

Ao acordar no dia seguinte, Raposão sentia desânimo e vontade de deixar a Terra Santa. Partiram, ainda, ruma à Galiléia e visitaram Betel, Sichem e Nazaré, voltando, por fim a Jerusalém. Na cidade santa, aborrecido com tanta religiosidade, Raposão decidiu por ficar no hotel ordenando as outras pequenas relíquias que havia comprado. Ao partir de Jerusalém, decidiu desfazer-se do pacote com a blusa de Miss Mary, temeroso do olhar e dos dedos da titi, sempre a ver e a remexer tudo. Desatento à semelhança dos pacotes, ele os trocou, deixando a coroa e levando como relíquia para a titi a roupa íntima de Miss Mary.

Novamente em Jafa, reencontraram Alpedrinha. Pelo moço, Raposão ficou sabendo que sua amada Miss Mary havia partido com um italiano para Tebas. Irado com a traição, Raposão ainda ficou sabendo que também Alpedrinha havia tido um caso com ela e, como lembrança, tinha recebido um "chambrezinho". Desiludido e desejoso dos ares portugueses, reiniciou sua viagem de volta a Portugal, deixando Topsius em Alexandria.

Chegando a Lisboa, foi recebido com admiração pela titi. Teodorico teve, assim, a certeza de que sua sorte mudara, pois após a "santa viagem" não haveria mais dúvida quanto as suas virtudes religiosas. D. Patrocínio demonstrava por ele grande reverência e o olhava com devoção. Nem por isso, a senhora deixou de ir conferir as malas de sobrinho para ver se encontrava marcas de relaxações com mulheres.

Na noite da chegada, num jantar de homenagem e comemoração, além das pessoas habituais a casa de D. Patrocínio, Teodorico foi apresentado ao Padre Negrão, substituto de Padre Casimiro que estava muito doente. De imediato, odiou a intimidade que o padre demonstrava gozar com a titi e prometeu terminar com o que parecia uma ameaça ao seu poder.

Após o jantar, momento marcado para a entrega da grande relíquia trazida pelo sobrinho para a titi, todos foram para frente do oratório, que estava ricamente preparado para receber tão santa preciosidade. Quando D. Patrocínio desembrulhou o pacote, em vez da anunciada coroa de Cristo, teve em mãos a prova mais contundente das relaxações de seu sobrinho: a blusa de Miss Mary. De imediato, a beata senhora escorraçou Teodorico de sua casa, que só teve tempo para pegar as outras pequenas relíquias que trouxera.

Expulso da casa da titi e sem dinheiro, Teodorico foi para o Hotel da Pomba de Ouro. Aí, pouco tempo depois, encontrou o Sr. Lino, negociante de objetos sagrados vindos da Terra Santa. Teodorico, de imediato, passou a negociar as pequenas relíquias que havia trazido de sua viagem com o comerciante. Logo percebendo que poderia comercializar as peças sozinhos, sem a intermediação do Sr. Lino, começou a vender para as beatas locais, produzindo falsas relíquias, desgastando rapidamente o negócio.

Novamente empobrecido, Teodorico recebeu a notícia pelo Justino, tabelião de D. Patrocínio, de que a titi havia morrido e que tinha lhe deixado de herança um velho óculo. Mortificado com a notícia, Raposão voltou ao seu quarto, naquele momento na casa de hóspedes do Pita, e frente ao oratório começou a acusar Cristo de ter trocado os pacotes e ter permitido que chegasse às mãos da titi a blusa de Miss Mary, de tê-lo jogado na miséria. No auge de suas imprecações contra o Altíssimo, sentiu uma luz forte vir do crucifixo e uma voz iniciou por apontar a hipocrisia de toda a sua vida, a lembrar-lhe de todas as mentiras, de todas as falsas ações religiosas, de toda a luxúria que imperou até aquele momento em sua vida. Essa voz revelou-se como a voz de sua própria consciência, e concluiu por apontar a inutilidade da hipocrisia.

Depois desse episódio, Teodorico reencontrou Crispim, seu amigo do Colégio dos Isidoros. Notando que Raposão estava "muitíssimo feio", Crispim, naquele momento único dono da Crispim & C.a, ofereceu-lhe uma vaga na Firma e passou a ajudá-lo. Em pouco tempo, Raposão prosperou na Firma e Crispim decidiu promover o casamento entre ele e sua irmã. Um dia, Crispim o convidou para ir a uma missa e perguntou qual a igreja de sua preferência. Raposão ia mentir, mas lembrou-se de sua consciência e respondeu afirmando sua falta de religiosidade. Da mesma forma aconteceu quando Crispim veio perguntar-lhe sobre seu interesse em D. Jesuína, sua irmã. Raposão disse que não a amava, mas a achava um "belo mulherão", que lhe agrava "muito o dote, e havia de ser um bom marido". Casaram, Raposão e Jesuína, tiveram filhos e ele tornou-se um homem honrado, comendador e rico.

Mais tarde, soube que o Padre Negrão era amante de Adélia. Enfurecido com a notícia e com a constatação de que o hipócrita padre havia ficado com sua herança e com sua amante, Raposão, reavaliando a sua vida, arrependeu-se de sua falta de firmeza de, naquela hora em que a titi desembrulhou o pacote e encontrou a camisa de Miss Mary, não ter afirmado hipocritamente que aquela era a camisa de Maria de Madalena, e que o bilhete era a prova de que a santa havia ofertado a camisa a ele pelo muito que ambos gozaram com suas orações. Assim, teria assegurado a herança e o prestígio. Como se vê, volta-se ao reino da hipocrisia.

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