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A teus pés, de Ana Cristina César


A Teus Pés, de 1982, é o último livro de Ana Cristina César, e único publicado por editora, reune os três livros anteriores de edição independente: Luvas de Pelica, Correspondência Completa e Cenas de Abril. Retrata com dor e elegância as vivências urbanas e as impressões cotidianas de uma poeta ao mesmo tempo densa e delicada.

Nesta obra, além de utilizar formas que nos remetem a escritas “íntimas”, a autora ousa mais, fragmenta mais, como se fizesse uma verdadeira colagem cifrada de frases vindas de diversos lugares.

O que se tem no fim são textos aparentemente desconexos, cheios de saltos, de versos que parecem não se encaixar. E muita coisa ainda com cara de diário, de correspondência. Resultado: a impressão de que há segredos escondidos nas entrelinhas, símbolos a serem decifrados, silêncios que suspendem o entendimento e aguçam a curiosidade: o que ela está querendo dizer? Entretanto, parece não ser bem essa a pergunta a ser feita. Segundo Ana Cristina, não se trata de fazer uma literatura de entrelinhas. Esses vazios, saltos, silêncios, espaços em branco seriam o que ela define como o “não-dito” do texto literário, algo que difere bastante do que usualmente se entende por “entrelinha”. Acompanhemos Ana Cristina:

A entrelinha quer dizer: tem aqui escrito uma coisa, tem aqui escrito outra, e o autor está insinuando uma terceira. Não tem insinuação nenhuma, não. (...) Eu acho que, no meu texto e acho que em poesia, em geral, não existe entrelinha. (...) Existe a linha mesmo, o verso mesmo. O que é uma entrelinha? Você está buscando o quê? O que não está ali?”.(16)

Deve-se destacar que, na “poesia marginal” dos anos 70, a autora atualiza dois gêneros usualmente considerados literatura menor: a carta e o diário. Resgata, dessa forma, não só o coloquialismo da linguagem, mas também a profunda interação entre o sujeito lírico e seu leitor implícito. Tal preocupação pode ser observada nesta obra.

A forma de dizer desdizendo, que é, em última instância, uma forma de manipular a linguagem, nos chama a atenção nos textos de Ana Cristina, como neste que abre A teus pés:

Trilha sonora ao fundo (...)
Agora silêncio
(...)
Eu tenho uma idéia.
Eu não tenho a menor idéia.
(...)
Muito sentimental.
Agora pouco sentimental.
(...)
Esta é a minha vida.
Atravessa a ponte.
(CESAR, 1998a, p.35)

Misto de poesia e prosa, um primeiro olhar sobre os textos presentes nesta obra já indica ao leitor que este não está diante de produções que pretendam se ater aos procedimentos da lírica tradicional. Pelo contrário, os textos objetivam redimensionar a produção poética por meio da desconstrução e da reconstrução do cotidiano – transfigurado em literatura – e das formas tradicionais da poesia – pulverizadas em textos que recriam gêneros literários, como já citado.

Na poesia de Ana Cristina César, a tentativa de apreender a fragmentação do sujeito lírico por meio de instantâneos do cotidiano se apresenta como mecanismo de criação de uma grande proximidade entre autora e leitor, uma vez que tenta inserir este último em uma atmosfera de intimidade, a partir da apresentação de acontecimentos que supostamente têm relação direta com a vida daquela que escreve. A exposição do eu não se dá apenas em termos de emoções, sentimentos ou aspirações pessoais, mas constitui procedimento para a escrita literária, em poemas nos quais, reflexivamente, problematiza-se a própria inserção de aspectos pessoais na poesia.

Inserida em seu contexto, a autora também se vê às voltas com a problemática do texto confessional, da autobiografia inscrita nos limites entre a confissão e a literatura”, e faz dos acontecimentos cotidianos e corriqueiros sua principal matéria poética, seu principal ponto de partida para a compreensão da existência e da própria poesia.

Outro poema da obra:

Casablanca

Te acalma, minha loucura!
Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!
Este som de serra de afiar facas
não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardías...

Estas molas a gemer no quarto ao lado
Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia
O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente no cinema...

As chaminés espumam pros meus olhos
As hélices do adeus despertam pros meus olhos
Os tamancos e os sinos me acordam depressa na
madrugada feita de binóculos de gávea
e chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano
.

Créditos: Annita Costa Malufe, doutoranda da IEL-Unicamp | Anélia Montechiari Pietrani, Periódicos UFSC | Luciana Borges, Professora Assistente de Literatura Brasileira na UFG, doutoranda em Estudos Literários pelo Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da UFG.

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