dcsimg

A vinha dos esquecidos, de João Clímaco Bezerra


Análise da obra

Em A Vinha dos Esquecidos, João Clímaco Bezerra narra a angústia existencial do padre Anselmo, ao mesmo tempo em que conta a história do negro Zacarias, numa perdida cidadezinha do interior. O livro tem 35 capítulos que se alternam entre padre Anselmo (capítulos ímpares) e Zacarias (capítulos pares).

João Clímaco Bezerra consegue tramar bem o seu enredo, a partir da subjetividade dos personagens, nuanças de personalidade, também registrando um contexto histórico em que o modo de vida rural começa a mudar.

O título do romance remete à existência de uma população esquecida, assistida por um padre também esquecido:

(...) Agora as pregações haviam dado uma guinada de extremo a extremo. De tudo proibido passara para tudo permitido. Sinal dos tempos. Padre Anselmo não gostava de ameaças de castigo. Preferia mostrar Jesus, o doce Jesus, como o cordeiro de Deus que viera tirar os pecados do mundo. O Ser Supremo que tudo o todos perdoava. E tinha a predileção especial pela palavra “vinha”. (...)

Na obra, encontramos narrativa heterodiegética com acessibilidade lingüística, número atraente de discursos diretos, além dos discursos indireto e indireto livre, alguns até fazendo uso de palavras de baixo calão; encontramos, não raramente, flash-bach; há personagens bem definidos, abundância de criticidade, regionalismo, intensa intertextualidade bíblica; recorrente uso de latinismos; presença dos dois protagonistas (padre Anselmo e Zacarias); idealização de alguns personagens, como seu Leandro; personagens reais, como o padre Mundoca; discursão acerca de temas polêmicos ou inquietantes, como o segredo de confissão ou a educação sexual; há temas emocionantes como a amizade, o amor, e sociais, como a justiça ou a falta dela.

A Igreja era ligada ao conservadorismo. Logo, padre Anselmo seguia este caminho. Mas com a chegada de um novo padre, padre Pierre, que trazia idéias libertadoras da Europa, todos se vêem escandalizados.

Pode-se apontar portanto, temáticas muito relevantes e recorrentes no romance de Clímaco, como morte, desigualdade social, prostituição, injustiça, segredo de confissão, crises existenciais, racismo, tentação, casamentos formal e informal, religiosidade/crenças em milagres e educação sexual.

Obra de densidade psicológica. Configura-se como um romance de personagens, cuja narrativa se volta para a trajetória de vida de dois personagens. Vê-se ao longo da leitura, que a obra desenvolve o mundo interior das personagens, narrando o que pensam e o que lhes diz a consciência de si mesmas e dos demais.

Tempo

Pelos indício de modernidade que a cidade começa a tomar conhecimento, possívelmente a história ocorre na segunda metade do século XX. Embora haja o tempo psicológico, é o cronológico que ainda norteia a seqüência das ações.

Foco narrativo

O foco narrativo é feito na terceira pessoa, através de um narrador onisciente, que parece filtrar todo o tempo o ponto de vista dos protagonistas. O narrador, em alguns momentos, confunde-se com o protagonista, daí a força do discurso indireto livre para manifestar essa identificação.

O narrador de A Vinha dos Esquecidos não é personagem.

Enredo

A obra é ambientada em um lugarejo perdido sem progresso, abandonado das autoridades, dos homens de negócios, de Deus. Uma "cidadela esquecida até por Deus", na qual histórias simples e outras bastante complexas se mesclam.

A história principal focaliza a personagem Padre Anselmo, homem de Deus que, apesar de sua formação de Seminário, vive um confronto enorme: desde criança gostava de esganar os bichinhos, maltratar os animais. Por não ser um menino de muita atitude, aceitou de pronto a ordem de sua mãe de colocá-lo no Seminário; sem muitas manifestações de contrariedade, Anselmo entra no colégio de sacerdotes e, logo no início de sua formação doutrinária recebe, de um professor, o livro "A Imitação de Cristo", livro que o acompanha em todos os momentos, livro que permanece no bolso surrado de suas roupas simples. É desse livreto que Anselmo retira forças nos momentos de maior aflição e provações.

Ao tornar-se padre é enviado de volta a cidade que nasceu. Perde a mãe muito cedo e passa a ser criado pela negra Joana, que nunca o informa do verdadeiro paradeiro de seu pai. Devido o passado crudelíssimo de maltratar os animais, evita criá-los em sua casa, evita ter contato com eles, então, passa a cuidar de rosas, passa a conversar com elas, entende-as, preocupa-se quando estão doentes, vibra quando estão em plena saúde.

Padre Anselmo tem, embora lute muito contra esse sentimento, gosto por ver os moribundos padecendo, sente prazer pela morte das criaturas.

Um grande acaso atormenta a vida de Anselmo: a morte e estupro de uma garota por Inácio, homem que freqüenta as altas rodas da sociedade, possui um armazém e dinheiro, porém, devido a polícia ter chegado ao local do crime no momento em que Pedrinho, pai de família, honesto, incapaz de realizar tamanha barbaridade, passava. Pedrinho é acusado erroneamente de assassino; O padre, devido às confissões de seus fiéis sabe quem foi o verdadeiro assassino, uma vez que Inácio o confessa, porém fica de mãos atadas por se tratar do segredo da confissão, logo guarda para si uma verdade que não pode vir à tona. Sofre muito ao ver Laura, esposa de Pedrinho aos prantos sem poder fazer nada por ela. Anselmo consegue que Pedrinho saia da cadeia, onde está padecendo, para se cuidado pela esposa, embora provisoriamente.

Nos momentos finais do livro, padre Anselmo contesta Deus em como irá apresentar suas ovelhas diante do Todo Poderoso, sabia que ali eram todos mansos e humildes de coração, mas, que algumas vezes, pareciam mais um conjunto de lobos. O livro termina com padre Anselmo contemplando a cidade em que nascera, e que depois de se tornar sacerdote, voltara para seu povo, agradecia a Deus, embalado pela beleza das estrelas e pelo cheiros das rosas que cativava.

Uma história paralela é a do Negro Zacarias, homem direito, que, quando criança, sofria muito por ver Isaura, sua mãe, ganhar dinheiro como "mulher da vida", recebendo homens em sua casa; Zacarias fazia-se de surdo no seu quarto para não ouvir "os ofegos dos homens em cima de sua mãe". Foi mandado para o colégio público, mas não perseverou; Padre Anselmo manda Zacarias para uma escola particular, porém, ao ser humilhado pelo professor, ameaça-o com um estilete, vai embora e não mais se interessa pelos estudos. Passa a trabalhar na caldeira da casa de máquinas da fábrica de Seu Leandro, que é um homem muito bom, conversa com os empregados, ajuda-os. Na caldeira mostra-se muito útil e inigualável, com o passar do tempo nutre uma grande amizade por Justino, rapaz com o qual Zacarias muito se identifica, por se parecer com ele, porém, Justino tem muito gosto pelos estudos, de uma família de onze irmão, sonha em ser doutor, quando sai da fábrica vai direto para a aula. Isaura, mãe do negro Zacarias, falece e seu Leandro ajuda bastante nos rituais fúnebres. Agora Zacarias está só, sem ninguém, pois não namorava, era filho único, só tinha a mãe por companheira. No velório de uma funcionária da fábrica, Zacarias conhece Maria, "moça donzela", bem cuidada pela mãe, chega a beber um pouco e a falar besteiras, porém sente algo bom por ela, sente-se leve. Depois do velório acompanha Maria e a mãe dela até em casa. Passam-se os dias e quando Zacarias se encontra tocando violão em casa, no meio da noite, surge uma mulher bonita, limpa, à porta, era Alice, "uma mulher da vida como Isaura", Zacarias deixa-a entrar e por fim mantém relação sexual na mesma cama em que sua mãe morrera. Zacarias fica muito perturbado quanto a tudo, será que trabalhara até agora para se juntar a uma "sem-vergonha"? Ou será que deveria casar direitinho com Maria e viver em paz?

Em um determinado momento a fábrica pega fogo, porém não acontece um grande acidente, os prejuízos são poucos; é nessa hora que o velho Clarindo intensifica sua cobrança pelo sindicato, reivindicando indenizações, seu Leandro tem uma conversa com ele e, pela maneira serena que seu Leandro tem de falar, o homem muda seu comportamento e a idéia esfria. Após o incêndio, Justino passa a trabalhar no escritório, trabalho leve, e no seu lugar entra Jorginho, seu irmão, porém Zacarias não simpatiza com o garoto, por ele ser muito arredio, muito preguiçoso, ser muito diverso de Justino.

Zacarias fala com Maria e pede-a em casamento, fazem uma promessa de nunca mais tocar no nome de Alice. (O livro relata o noivado, mas nada aborda sobre o casamento e o futuro dessas duas personagens).

Vale salientar que ao final do livro, o autor deixa em aberto os finais das histórias, não se relata se a negra Joana morre, se Padre Anselmo morre, não comenta sobre o casamento de Zacarias e Maria.

A resolução do caso de Pedrinho e Inácio, não dá pra dizer se Inácio se entrega às autoridades, tendo em conseqüência a liberdade de Pedrinho.

Comentários

Siga-nos:

Instituições em Destaque

 
 

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e receba as últimas notícias do Vestibular além de dicas de estudo: