A volta do marido pródigo (Conto de Sagarana), de Guimarães Rosa

  • Data de publicação

Anlise da obra

Conto narrado em 3 pessoa, sendo pois o narrador onisciente, não participa da história. Neste conto, farto em citações de lugares e personagens da região de Itaguara, assim como em Conversa de bois, os animais se transformam em heris, questionando o saber dos homens com o seu suposto no saber.

Em A volta do marido prdigo, o autor descreve um ladino que vende a mulher para dedicar-se a aventuras na cidade grande, mas depois se arrepende, volta para sua região e, malandramente, reconquista sua posição e sua mulher.

O conto uma pardia da "parbola do filho prdigo, e apresenta traos de humor, presentes, principalmente, na maneira pela qual a personagem protagonista caracterizada como malandro folclrico. Essa questo tambm amparada na concepo de mundo s avessas presente na narrativa.

O que se percebe que, no conto, no existe julgamento moral a respeito de nenhuma das atitudes de Lalino, que poderiam, segundo o senso comum, ser consideradas ms. Tambm, as personagens do texto ditas respeitveis so descritas como no to respeitveis assim. No entanto, em qualquer caso, a leveza e a ironia com que tais situaes de desregramento moral so apresentadas amenizam a seriedade que o tratamento desses assuntos poderia assumir.

Na releitura de Guimares Rosa h uma viso bem diferente daquela encontrada no ensinamento moral que a parbola pretendeu passar. No conto, o que importa retratar a personagem do malandro, do tpico brasileiro que, para tudo, d um jeitinho.

Personagens

Lalino Salãthiel - todos o chamam de Laio. Mulato vivo, malandro, contador de histórias. Garante que conhece a capital, Rio de Janeiro, mas nunca foi lá. Certa vez, foi realmente conhecê-la.
Maria Rita - mulher de Lalino; trata-o com especial carinho.
Marra - encarregado dos serviços; depois que a obra acabou, mudou-se do arraial.
Ramiro - espanhol que ficou com Ritinha, a mulher de Lalino.
Waldemar - Chefe da Companhia.
Major Anacleto - chefe político do distrito, homem de princípios austeros, intolerante e difícil de se deixar engambelar.
Tio Laudônio - irmão do Major Anacleto. Esteve no seminário, vivia isolado na beira do rio. Poucas vezes vinha ao povoado. Chorou na barriga da mãe, enxerga no escuro, sabe de que lado vem a chuva e escuta o capim crescer. Era conselheiro do Major.
Benigno - inimigo político do Major Anacleto.
Estêvão - capanga respeitado do Major Anacleto. Jamais ria. Tinha pontaria invejável: atirava no umbigo para que a bala varasse cinco vezes o intestino e seccionasse a medula, lá atrás.

Lalino um sujeito simptico, espertalho e falante, avesso ao trabalho, sabe como poucos contar uma estria. A chave para entend-lo melhor est em suas contnuas aluses a peas de teatro, quase sem ter visto nenhuma. Ele parece constantemente representar, em tudo o que faz ou fala. Assim, sai-se bem em tudo o que faz.

Assemelha-se a Leonardo, de Memrias de um sargento de milcias, e a Macunama: os trs heris sem nenhum carter.

Essas so as aventuras de um heri picaresco, Eullio Salãthiel (Lalino), que abandona a mulher aps seis meses de casado e vai conquistar o mundo. Antes de viajar, consegue extorquir algum dinheiro de um espanhol interessado nela e que dela iria tomar conta. Sua esposa, Maria Rita, abandonada por ele, passa a morar com o espanhol Ramiro.

Ao vender Ritinha, o protagonista abre mo do que lhe mais caro, mas que ele ainda no , naquele momento, capaz de perceber.

Desiludido com o Rio de Janeiro retorna sua terra e urde um plano para recuperar a mulher - Maria Rita - e o prestgio junto ao povo do lugar. Com pacincia e astcia, vence todos os obstculos, recupera a mulher, expulsa os espanhis do lugarejo e reconquista o prestgio junto ao coronel para cuja vitria nas eleies contribui.

Aps ter passado por tudo o que passou, o Lalino do final no mais a mesma pessoa, que se engana no que decide fazer e apressa-se a reparar o erro, nem tampouco se utiliza de todos os seus atributos de astcia e malandragem para recuperar o que havia perdido, mas sim, aprende a dar importncia s coisas que realmente devem ter importncia atribuda.

Ele agora tem plena conscincia de que deve cuidar de seu tesouro mais precioso, pois, do contrrio, corre o risco de entreg-lo, mais uma vez, de mos beijadas, a quem o estiver cobiando.

Atravs de ironia claramente perceptvel, o autor mostra lendas populares da regio dos Campos Gerais de Minas, assim como ditados que louvam a esperteza e a pacincia.

Resumo do conto

Na introduo do conto o cenrio apresentado: homens trabalham duro escavando o solo para dele retirar minrio. Seu Marra o encarregado, de olho em todos para que o trabalhe ande a contento. Lalino Salthiel um mulato vivo, malandro, que chega tarde ao trabalho e inventa desculpas. Em vez de trabalhar duro, como os outros, inventa histrias, conta causos. A maioria admira-o. Mas h quem enxergue nele apenas um aproveitador. Generoso acha que Ramiro, um espanhol, anda rondando a mulher de Lalino.

Laio, naquela noite, no comparece casa de Waldemar para a aula de violo. No outro dia, fica em casa vendo umas revistas com fotografias de mulheres. tarde, vai empresa e acerta as contas com Marra. Est disposto a ir embora. Na volta para casa, encontra Ramiro, o espanhol que lhe anda cercando Maria Rita. Nasce, imediatamente, um plano: tomar um dinheiro emprestado do espanhol. O argumento convincente: quer ir embora sem a mulher, mas falta-lhe dinheiro para viajar. Ramiro empresta-lhe um conto de ris. Com o dinheiro no bolso, Laio pegou o trem na estao rumo capital do Pas. Seu Miranda, que foi lev-lo, ainda tentou dissuadi-lo. No conseguiu.

Um ms depois, Maria Rita ainda vivia chorando, em casa. Trs meses passados, Maria Rita estava morando com o espanhol. Todos diziam que Laio era um canalha, que vendera a mulher para Ramiro. E assim, passou-se mais de meio ano.

As aventuras de Lalino Salthiel no Rio de Janeiro excederam expectativa. Seis meses depois, Laio estava quase sem dinheiro e comeou a sentir saudades. Tomou a deciso: ia voltar. Separou o dinheiro da passagem e programou uma semana de despedida: "uma semaninha inteira de esbrnia e fuzu". Acabada a semana, Laio pegou o trem: queria s ver a cara daquela gente quando o visse chegar!

Enquanto atravessava o arraial, Laio teve que ir respondendo s chufas dos moradores. Finalmente, chegou casa de Ramiro, o espanhol que se apossou de Ritinha. Laio informou-lhe que estava de volta para devolver o dinheiro do emprstimo. Ramiro, querendo evitar que Laio visse Ritinha, perdoou o emprstimo: a dvida j estava quitada. Mas Laio insistiu: "eu quero-porque-quero conversar com a Ritinha"! E disse isso com a mo perto do revlver. O espanhol concordou, desde que no fosse em particular. De repente, Laio esmoreceu: no queria mais ver a Ritinha. Queria s pegar o violo. Depois, quis saber se o espanhol estava tratando bem a Ritinha. E despediu-se. Primeiro pensou em ir casa de seu Marra. Depois, dirigiu-se para a beira do igarap: era tempo de melancia. Depois de apreciar a paisagem, Laio deu de cara com seu Oscar. Trocaram idias, e Oscar prometeu que ia falar com o velho (Major Anacleto) e tentar arranjar um trabalho para Laio na poltica.

Alm de chefe poltico do distrito, Major Anacleto era homem de princpios austeros, intolerante e difcil de se deixar engambelar. Quando Oscar lhe falou de Laio, ele foi categrico: aquilo um grandessssimo cachorro, desbriado, sem moral e sem temor a Deus... Vendeu a famlia, o desgraado.

Tio Laudnio era irmo do Major Anacleto. Esteve no seminrio, vivia isolado na beira do rio. Poucas vezes vinha ao povoado. Chorou na barriga da me, enxerga no escuro, sabe de que lado vem a chuva e escuta o capim crescer. Pois foi Tio Laudnio que intercedeu a favor de Laio. O Major concordou. Era mandar chamar o mulato no dia seguinte.

Mas Laio no apareceu no dia seguinte. S apareceu na fazenda na quarta-feira de tarde. E topou logo com o Major Anacleto. Quando o Major tentou expuls-lo da fazenda, Laio deu-lhe notcias de todas as manobras polticas da regio, quem estava com o Major e quem o estava traindo. J descobrira a estratgia do Benigno para derrotar o Major na prxima eleio. Em troca de tanta informao, pediu a proteo do Estvo, o capanga mais temido do Major. Assim, o povo do arraial ficou sabendo que Laio era o cabo eleitoral do Major Anacleto e, como tal, merecia respeito.

Major Anacleto, depois do relatrio de Laio, mandou selar a mula e bateu para a casa do vigrio. O padre teve de aceitar leitoa, visita, dinheiro, confisso e o cargo de inspetor escolar. Antes de o Major sair, o padre contou-lhe que Laio estivera na igreja. Tambm se confessara e comungara e ainda trocara duas velas para o altar de Nossa Senhora da Glria.

Quando o Major e Tio Laudnio passaram em frente casa de Ramiro, o espanhol aproveitou para denunciar Lalino: o mulato estava de amizade com Nico, o filho do Benigno. Foram juntos Boa Vista, com violes, aguardente, e levando tambm o Estvo. O Major ficou danado de zangado. No via a hora de encontrar o Laio.

Depois de peregrinar por todas as bandas, o Major voltou para a fazenda, onde Laio j o esperava. Primeiro o Major xingou o mulato de muitos nomes feios, depois Laio teve tempo de explicar: era tudo estratgia poltica para saber das coisas. Passara, sim, em frente casa de Ramiro, mas no o insultara. Dera vivas ao Brasil porque no gostava de espanhis. E tinha mais (coisa que o Major no sabia): espanhol no vota porque estrangeiro.

Houve um perodo de calmaria poltica em que Laio ficou tocando viola e fazendo versos no meio da jagunada do Major. Um dia, pediu um favor a seu Oscar, filho do Major: que ele fosse ter com Ritinha e conversasse com ela, mas sem dizer que era da parte do Laio. Oscar foi e fez o contrrio: falou mal do mulato, disse a Ritinha que o marido andava fazendo serenata para outras mulheres. Aproveitou a proximidade e pediu-lhe um beijo. Ritinha expulsou-o, no sem antes confessar que gostava mesmo era do Laio, que ia morrer gostando dele. De volta, seu Oscar contou o contrrio: que Ritinha no gostava mais do marido, gostava de verdade era do espanhol.

Certa tarde, depois de dormir um pouco na cadeira de lona, o Major foi acordado com uma barulheira dos diabos. O mulherio no meio da casa, os capangas l fora, empunhando os cacetes, farejando barulho grosso. Ritinha jogou-se aos ps do Major e suplicou-lhe proteo. Que no deixasse os espanhis lev-la fora dali. O Ramiro, com cimes, queria mat-la, matar o Laio e, depois, suicidar-se. Disse tudo isso chorando e falando na Virgem Santssima.

O Major mandou chamar o Eullio e foi informado de que o mulato estava bebendo juntamente com uns homens que chegaram de automvel. Foi a conta: o Major pensou que eram da oposio e comeou a xingar o Laio. Cabra safado, traidor. Ia levar uma surra, pelo menos isso. Tio Laudnio procurava acalm-lo. De repente, l vem o Laio dentro de um automvel. E a surpresa foi geral. Era gente do governo, Sua Excelncia o Senhor Secretrio do Interior. A o Major desmanchou-se em sorrisos e gentilezas. E a autoridade satisfeita, elogiando muito o Laio, pedindo ao Major que, indo capital, levasse o mulato junto.

O Major, contentssimo, mandou trazer Maria Rita para as pazes com Laio. Convocou a jagunada e ordenou: "mandem os espanhis tomarem rumo"! Se miar, mete a lenha! Se resistir, berrem fogo!

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