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Abdias, de Cyro dos Anjos


Editado em 1945, oito anos depois do O amanuense Belmiro, o segundo romance de Cyro, Abdias, não é a repetição do Amanuense, mas um segundo romance que continua o primeiro, embora os personagens tenham outro nome e sejam apresentados em novas situações.

Abdias representa um progresso, em relação ao Amanuense. Mais orgânico, o novo romance se concentra na análise psicológica dos protagonistas. É a obra da maturidade de Cyro dos Anjos. No romance, o autor apresenta linguagem apurada, uma escrita madura e sensível, que se detém nas construções psíquicas dos personagens e na análise de seus comportamentos.

Sendo a narrativa em primeira pessoa, também escrito no formato de diário e apresenta comentários líricos e reflexivos sobre a sua vida pessoal.

Cyro dos Anjos desenvolve sua ficção em torno dos problemas da alma, do destino e da consciência. Seu romance Abdias reflete bem essa tendência literária.

A obra conta a história de um velho professor de português de um aristocrático colégio para moças da Belo Horizonte dos anos 40 que vê, repentinamente, todos os seus valores serem questionados, pois começa a cair de amores por uma sua aluna, filha de sua paixão adolescente no rincão natal. Ele é casado, contudo, e não quer reconhecer para si mesmo que está apaixonado. O professor Abdias deseja a morte da mulher, como solução fácil para seu caso amoroso. E é no desenrolar deste drama que Cyro dos Anjos nos faz refletir sobre todo um mundo de covardia, egoísmo e fraqueza.

O romance acompanha o crescimento da paixão impossível do professor pela aluna, até que ela escape de sua órbita e case com um jovem. Página antológica do livro é aquela em que, morta a esposa, Abdias assim inicia um retrato de sua solidão: Carlota, a vida é um tecido de equívocos. Foi preciso que morresses, para eu saber que te amava e que éramos felizes, na monotonia dos nossos dias. Nessa monotonia, formada de coisas simples e permanentes, encobria-se a felicidade.

O despontar do sentimento de Abdias por Gabriela é pintado de maneira admirável, sintetizando com perfeição um dos motivos do ideário do escritor. Segundo ele:

A moça resumiu, para mim, naquele momento, todas as antigas namoradas, e sua casa representou os misteriosos palácios que as escondiam. É possível que a amada seja uma só e apenas exista em nosso espírito. Nela se encarnarão transitoriamente formas femininas que se lhes assemelham, mas essas formas passam, fugazes, e a amada permanece idêntica a si mesma, dentro de nós, fora do tempo.

O grande assunto do livro é nossa incapacidade latente de saber o que nos vai ao coração, o que realmente pretendemos sob a multidão de justificativas e desculpas de que nos armamos. O leitor desconfia, depois sabe muito bem o que está acontecendo, mas o protagonista se engana enquanto pode. A dosagem dos sentimentos, sua evolução durante a narrativa, a multidão de frases belas e de efeito, a poesia maravilhosa polvilhada na narrativa, tudo faz de Abdias uma obra de mestre.

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