Antologia, de Gregório de Matos

  • Data de publicação

As obras de Gregrio de Matos Guerra permanecem como uma das mais malditas e rebeldes da histria da literatura bresileira. o que comprova esta obra, Antologia, cuidadosamente organizada e anotada por Higino Barros.

Sua obra potica reflete influncias clssicas e sobretudo influncias dos poetas espanhis Gngora e Quevedo. No entanto, uma das obras poticas mais originais da lngua portuguesa no sc. XVII. Caracteriza-se por possuir aspectos tipicamente barrocos. Assim, ela se compe de elementos opostos como prprio do barroco. De um lado, h os poemas lricos, de fundo religioso, moral e amoroso. De outro lado, h os poemas satricos, sendo alguns erticos e outros at mesmo pornogrficos. Por esse lado satrico, Gregrio de Matos Guerra era chamado de "Boca do Inferno". Em suas stiras ridicularizou e atacou violentamente o clero e toda a sociedade baiana da poca, os dirigentes do reino, ricos e pobres, nobres e comerciantes, pretos, mulatos e brancos. Nesses poemas encontra-se uma verdadeira crnica da vida colonial brasileira no sc. XVII.

Dos poemas atribudos a Gregrio de Matos Guerra, at hoje no se sabe com exatido quais os verdadeiros e quais os falsos, nem sua cronologia. Foram preservados atravs de vrios cdices copiados por outros autores. Esses cdices se encontram guardados em bibliotecas portuguesas e brasileiras, como a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

Seu esprito profundamente barroco pode ser percebido na contraditria diversidade dos temas que desenvolveu em sua obra:

a. poesia sacra (temtica religiosa)
b. lrica amorosa
c. poesia satrica
d. poesia burlesca

I. Poesia sacra

Como autor barroco, no poderia faltar a poesia, religiosa em sua obra. Essa temtica abrange um amplo conjunto, desde os poemas circunstanciais em comemorao a festas de santos at os poemas de contrio e de reflexo moral:

Pequei, Senhor, mas no porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinqido,
Vs tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um s gemido,
Que a mesma culpa, que vos h ofendido,
Vos tem para o perdo lisonjeado.
Se uma ovelha perdida, e j cobrada
Gloria tal, e prazer to repentino
vos deu, como afirmais na Sacra Histria:
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e no queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glria

Esse soneto de contrio um dos mais conhecidos poemas de Gregrio e segue o modelo conceptista de Quevedo.

II- Lrica amorosa

A lrica amorosa na obra de Gregrio de Matos abrange um amplo leque temtico. s vezes a mais pura idealizao do amor:

Quem a primeira vez chegou a ver-vos,
Nise, e logo se ps a contemplar-vos,
Bem merece morrer por conversar-vos
E no poder viver sem merecer-vos.

Outras, uma requintada explorao da psicologia amorosa, como, por exemplo, na expresso da timidez do amante, temeroso do desprezo da amada:

Largo em sentir, em respirar sucinto,
Peno, e calo, to fino, e to atento,
Que fazendo disfarce do tormento,
Mostro que o no padeo, e sei que o sinto.

Chega tambm, freqentemente, a um realismo irnico, quase cnico, como nos seguintes versos em que busca definir o amor:

Isto, que o Amor se chama,
este, que vidas enterra,
este, que alvedrios prostra,
este, que em palcios entra:
[.......................................]
este, que o ouro despreza,
faz liberal o avarento,
assunto dos poetas:
[.......................................]
Arre l com tal amor!
isto amor? quimera,
que faz de um homem prudente
converter-se logo em besta
.

Segundo historiadores, o poeta teve uma paixo no correspondida pela filha de um senhor engenhoso, D. ngela de Sousa Paredes Rabelo organizou um ciclo dos poemas que seriam expresso desse caso amoroso. Entre eles esto alguns dos mais belos da obra de Gregrio de Matos.

O soneto a seguir o stimo poema do ciclo "ngela":

Anjo no nome, Anglica na cara.
Isso ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Anglica flor, e Anjo florente,
em quem, seno em vs se uniformara?
Quem veria uma flor, que a no cortara
De verde p, de rama florescente?
E quem um Anjo vira to luzente,
Que por seu Deus, o no idolatrara?
Se como Anjo sois dos meus altares,
Freis o meu custdio, e minha guarda,
Livrara eu de diablicos azares.
Mas vejo, que to bela, e to galharda,
Posto que os Anjos nunca do pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e no me guarda.

Observe que o nome da amada sugere as duas imagens em torno das quais se organiza toda a expresso potica.

III- Poesia satrica

O "Boca do Inferno" no perdoava ningum: ricos e pobres, negros, brancos e mulatos, padres, freiras, autoridades civis e religiosas, amigos e inimigos, todos, enfim, eram objeto de sua "lira maldizente".

O governador Cmara Coutinho, por exemplo, foi assim retratado:

Nariz de embono
com tal sacada,
que entra na escada
duas horas primeiro
que seu dono.

Contudo, o melhor de sua stira no esse tipo de zombaria, engraada e maldosa, mas a crtica de cunho geral aos vcios da sociedade. Sua vasta galeria de tipos humanos contribui para construir sua maior e principal personagem - a cidade da Bahia:

Senhora Dona Bahia,
nobre e opulenta cidade,
madrasta dos naturais,
e dos estrangeiros madre.

A cidade assim descrita num poema:

Terra que no aparece
neste mapa universal
com outra; ou so ruins todas,
ou ela somente m.

Mas nem sempre o poeta rancoroso com sua cidade. No famoso soneto "Triste Bahia", j musicado por Caetano Veloso, Gregrio identifica-se com ela, ao comparar a situao de decadncia em que ambos vivem. O poema abandona o tom de zombaria das stiras para tornar-se um quase lamento:

Triste Bahia! quo dessemelhante
Ests e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado,
Rica te vi eu j, tu a mim abundante.

Depreende-se desse texto que as stiras de Gregrio de Matos desagradavam a muita gente. Por isso ele defende seu direito de escrev-las.

Aos vcios

Eu sou aquele, que os passados anos
cantei na minha lira maldizente
torpezas do Brasil, vcios e enganos.
[.......................................................]
De que pode servir, calar, quem cala,
Nunca se h de falar, o que se sente?
Sempre se h de sentir, o que se fala?
Qual homem pode haver to paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
No chore, no suspire, e no lamente?
[..........................................................]
Se souberas falar, tambm falaras,
Tambm satirizaras, se souberas,
E se foras Poeta, poetizaras.
A ignorncia dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas feras.
H bons, por no poder ser insolente,
Outros h comedidos de medrosos,
No mordem outros no, por no ter dentes.
Quantos h que os telhados tm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos.
Uma s natureza nos foi dada:
No criou Deus os naturais diversos,
Um s Ado formou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos perversos,
S nos distingue o vcio, e a virtude,
De que uns so comensais outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse s me censure, esse me note,
calem-se os mais, chitom, e haja sade.

Poesia burlesca

a poesia mais circunstancial de Gregrio de Matos. De modo sempre galhofeiro, o poeta registra em versos sempre pequenos acontecimentos da vida cotidiana da cidade e dos engenhos. Segundo James Amado, a poesia burlesca a crnica do viver baiano seiscentista.

A maior parte foi escrita na ltima fase da vida do poeta, perodo de decadncia pessoal e profisional. O doutor deixara de advogar e perambulava pelos engenhos do Recncavo, levando sua viola de cabaa, freqentando festas de amigos e namorando as mulatas, muitas delas prostitutas, com tom brincalho podem freqentemente tornar-se obscenos. Da, o populismo chulo que irrompe s vezes e, longe de significar uma atitude aristocrtica, nada mais que vlvula de escape para velhas obsesses sexuais ou arma para ferir os poderosos invejados.

Texto I:

Dcimas

Quita, como vos achais
com esta troca to rica?
eu vos troco por Anica,
vs por Nico me deixais:
vs de mim no vos queixais,
eu, Quita, de vs me queixo,
e pondo a cousa em seu eixo,
a mim com razo me tem,
pois me deixais por ningum,
e eu por Arnica vos deixo.
Vs por um Dom Patarata
trocais um Doutor em Leis,
e eu troco, como sabeis,
uma por outra Mulata:
vs fostes comigo ingrata
com a grosseira ingratido,
eu no fui ingrato no,
e quem troca odre por odre,
um deles h de ser podre,
e eu sou na troca odre so.
Eu com Anica querida
me remexo como posso,
vs co Patarata vosso
estarei bem remexida:
nesta desigual partida
leve o diabo o enganado,
porque eu acho no trocado,
que me vim a melhorar
mas na Moa por soldar,
que vs no Moo soldado
Se bem vos no vai na troca
pela antiga benquerena,
que farei logo a destroca:
porm se Amor vos provoca
a dar-me outros novos zelos,
hemos de lanar os plos
ao ar por seguridade,
e eu sei, que a vossa amizade
h de custar-me os cabelos.

Texto II:

Soneto bem conhecido

A cada canto um grande conselheiro
Que nos quer governar cabana e vinha,
No sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um freqentado olheiro,
Que a vida do vizinho, e da vizinha,
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha
Para a levar Praa, e ao Terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos pelos ps os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.
Estupendas usuras nos mercados,
Todos, os que no furtam, muito pobres,
e eis aqui a cidade da Bahia

Apesar de ter feito linda poesia sacra e lrica, foi como poeta satrico que o "Boca do Inferno" se destacou. Em seus sonetos (2 quartetos e 2 tercetos), oitavas (estrofes de 8 versos), dcimas (estrofes de 10 versos) e poemas de diversas formas, Gregrio de Matos no perdoa ningum, rico ou pobre, homem ou mulher, inimigo ou no. Assim, o poeta "abrasileirou" a linguagem inserindo em suas poesias palavras nativas e palavres chulos, usando sempre o estilo barroco de mostrar uma viso de mundo conflituosa com antteses, hiprboles, paradoxos, metforas e simbolismo.

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