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Aqueles dois (Conto), de Caio Fernando Abreu


O conto Aqueles dois, de Caio Fernando Abreu, é narrado em terceira pessoa, e apresenta em sua composição aquilo que convencionou designar como “duplo por complementação”. Conta a história de Raul e Saul, colegas de trabalho que encontram na amizade que sentem um pelo outro a companhia necessária ao preenchimento de suas decepções amorosas, de suas frustrações sociais e de uma rotina de trabalho enfadonha. Os protagonistas de Aqueles dois parecem buscar, ainda que inconscientemente, a sua metade faltante ou “alma gêmea”, acabando por encontrá-la.

No texto não é explícita a relação homoerótica. Ela é apenas sugerida, mas a intolerância e crueldade são os mesmos agentes, em defesa dos bons costumes.

Do ponto de vista da diegese, a narrativa de Caio Fernando Abreu, parece apresentar um enredo aparentemente simples. Raul e Saul são dois jovens que chegam a uma grande cidade cosmopolita e acabam se encontrando: ambos haviam passado no mesmo concurso e, incidentalmente, acabam por dividirem a mesma sala na firma onde passam a trabalhar.

O primeiro aspecto que chama a atenção neste conto, diz respeito à semelhança do nome dos personagens e às características físicas contrárias que eles apresentam.

Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo seu nome? Sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando.

[...] Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papéis oito horas por dia.

Moreno de barba forte azulando o rosto, Raul era um pouco mais definido, com sua voz de baixo profundo, tão adequada aos belos boleros amargos que gostava de cantar. Tinham a mesma altura, o mesmo porte, mas Saul parecia um pouco menor, mais frágil, talvez pelos cabelos claros, cheios de caracóis miúdos, olhos assustadiços, azul desmaiado.

Tais peculiaridades, relativas aos caracteres físicos dos personagens e à semelhança que os protagonistas revelam em seus nomes, - fato que inicialmente soa apenas como mera curiosidade - acabam funcionando, no desenrolar da narrativa, como índices referencializadores de que algo existe (ou existirá) entre estes dois sujeitos cujo encontro parecia ser trama do destino.

Ambos são seres solitários e produtos de grandes desilusões amorosas e profissionais, acontecimentos que ficamos sabendo à medida que o narrador se encarrega de revelar lentamente o passado de Raul e Saul.

Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol.

Eram dois moços sozinhos. Raul tinha vindo do norte, Saul tinha vindo do sul. Naquela cidade, todos tinham vindo do norte, do sul, do centro, do leste [...]. [...] Eles não tinham ninguém naquela cidade — de certa forma, também em nenhuma outra —, a não ser a si próprios.

O sentimento de fracasso e de intensa solidão desperta nos dois jovens a mesma percepção do espaço de trabalho, reconhecendo-o como um “deserto de almas”. Insígnia que, à medida que intensificam os laços de amizade, reconhecem como sendo ponto-de-vista de ambos. Tal sentimento e percepção, desencadeados em ambos pela atmosfera do espaço, os diferenciam daqueles seres autômatos e destituídos de alma que dividiam com eles o mesmo ambiente de trabalho. Acabam, então, por se reconhecerem um no outro:

[...] Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como um “deserto de almas”. O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído.
[...] Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? [...].

Os pequenos e fortuitos encontros na copa, para tomar um cafezinho e fumar um cigarro, acabam se tornando momentos prazerosos, os melhores de todo o expediente. Entre um encontro e outro, vão estreitando a relação e acabam descobrindo afinidades, dentre as quais uma espécie de paixão pelo cinema.

Trocam telefones e se sentem aflitos com a ausência um do outro, durante os fins de semana. Começam a se falar constantemente pelo telefone, intensificam os encontros, agora intencionais na hora do cafezinho, freqüentam as festas da repartição, unidos, assim como se fossem, agora, “sombras” um do outro.

Durante esse período, acontece uma fatalidade. A mãe de Raul morre e este viaja para o norte para acompanhar o seu funeral. Nos intermináveis dias da ausência do amigo, Saul parece incompleto e ansioso pela sua volta. Parece destituído de uma parte de si mesmo.

Quando Raul chega da viagem, que pareceu longa demais aos olhos e sentimentos de Saul, o doloroso acontecimento parece aproximar mais ainda os amigos. Entre um abraço apertado, que durou o tempo de um cigarro se consumir sem ser tragado, Raul parecia inconsolável nos braços acalentados de Saul.

Afastaram-se, então. Raul disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Saul outra coisa qualquer como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre — e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e álcool.

Esse primeiro contato mais íntimo entre os dois, em uma situação dolorosa, parece intensificar ainda mais a relação dos protagonistas. Com o término da primavera e a chegada das festas de fim de ano, ambos trocam presentes e acabam exagerando no álcool. Na noite de trinta e um, após várias champanhes, uma espécie de “desejo” parece tomar forma e se impor de modo grande demais entre aqueles dois.

[...] Na hora de deitar, trocando a roupa no banheiro, muito bêbado, Saul falou que ia dormir nu. Raul olhou para ele e disse você tem um corpo bonito. Você também, disse Saul, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guardaroupa, outro no sofá.

Aparentemente uma mera observação, o elogio dirigido de um a outro, parece não significar mais que uma simples constatação referente ao aspecto físico dos dois amigos. Entretanto, o comportamento de ambos, após o comentário, parece evidenciar um algo mais.

Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio e olhos incendiados. Pela manhã, Saul foi embora sem se despedir para que Raul não percebesse suas fundas olheiras.

Intriga o motivo da ansiedade, evidenciada pelo excesso de cigarros, e a insônia que acomete aqueles dois durante toda a noite. Qual o razão de tanta preocupação? Seriam, de fato, almas gêmeas na eminência de se fundirem novamente, apesar do peso social e individual que tal processo acarretaria? A resposta, apesar de evidente, fica ao cargo do leitor.

Apesar de se considerar um escritor pouco comprometido com a realidade social, Caio Fernando Abreu, no conto Aqueles dois apresenta uma espécie de confirmação das circunstâncias que envolvem qualquer tipo de relação homoafetiva ou homoerótica, por meio, inclusive, do subtítulo conferido ao conto: “História de aparente mediocridade e repressão”. Quando começa o novo ano, os dois rapazes são surpreendidos com a notícia de suas demissões. O chefe justifica:

Tinha recebido algumas cartas anônimas. Recusou-se a mostrá-las. Pálidos, ouviram expressões como “relação anormal e ostensiva”, “desavergonhada aberração”, “comportamento doentio”, “psicologia deformada”, sempre assinadas por Um Atento Guardião da Moral.

Apesar do enorme desapontamento, ambos parecem maiores e mais altivos diante daquele sujeito que os acusa. Apressam-se em esvaziar as gavetas e retirar os seus pertences daquele “deserto de almas”. Saem juntos, seguidos pelo olhar dos colegas que os acompanham, também, pelas janelas do prédio.

Entram em um táxi, “Raul abrindo a porta para que Saul [entre]”, enquanto alguns outros se encarregam de tecer maldosos comentários. Deixam para sempre aquele lugar “parecido com uma clínica ou uma penitenciária”.

Os colegas de repartição, após a partida de Raul e Saul, pareciam perdidos sem a presença daqueles dois que se assemelhavam a um só — os únicos especiais, possuidores de almas, naquele deserto de seres estranhos e destituídos de sensibilidade. Nas palavras quase proféticas do narrador, aqueles autômatos parecem, agora, punidos pelo destino: “Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro [...]. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram”.

Vê-se, portanto, ao longo do texto, o narrador fazer sugestões de uma possível atração física que surgiu entre os dois colegas. O que mais se destaca na narrativa é o fato da relação entre os dois rapazes não chegar a se concretizar. O que importa não é se de fato há uma atração sexual entre os dois homens. Como o enigma de Dom Casmurro, não se sabe se o amor entre os iguais é concreto. O que se tem certeza é da intolerância da sociedade, que não pode suportar um comportamento diferente e reage com toda a violência. Entretanto, ao contrário dos agressores do conto “Terça-feira gorda”, que assumem sua violência, esses agem através de cartas anônimas para o chefe da sessão, levando-o a despedir os rapazes, que não se defendem. O próprio subtítulo do conto (“História de aparente mediocridade e repressão”) é uma pista sobre o que, na verdade, Caio Fernando Abreu quer denunciar.

Fontes: Marcelo de Araújo Sant'anna, Universidade Estácio de Sá | Grazielle Katyane dos Santos Silva, UNESP | Luana Teixeira Porto, Departamento de Letras, UFRS

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