As formigas (Conto), de Lygia Fagundes Telles

  • Data de publicação

As formigas, um conto de Lygia Fagundes Telles, e est presente no livro Seminrio dos Ratos. Neste conto a autora rompe com a realidade e com a lgica racional.

Enredo

Primeiro conto de Seminrio dos ratos, "As formigas" tem seu foco narrativo na histria de duas garotas - primas e estudantes - que se mudam para uma penso. A supremacia do mundo feminino evidencia-se desde a introduo de trs personagens mulheres logo no incio. A narradora-protagonista estudante de Direito e a outra personagem, estudante de Medicina.

Neste conto tem-se um narrador autodiegtico, pois a prpria narradora-protagonista quem vivencia a histria contada. Tem-se aqui perspectiva narrativa ou focalizao da personagem principal, j que sua tica direciona a tica do leitor.

A primeira frase do conto avisa que "j era quase noite", indicando que a histria se desenrola noite ou ao menos em parte. A expresso "quase noite" aponta para o fato de que a luz do dia estava indo embora para ceder lugar ao mundo da escurido. A nfase no tempo da noite dada ao longo de todo o texto. durante a noite que os fatos ocorrem, como se as personagens no existissem durante o dia. As referncias diurnas so rpidas. No h comentrios sobre os acontecimentos do dia, como se as aulas no tivessem importncia. A histria transcorre ao longo de um perodo de trs noites e dois dias: no h o fechamento de um ciclo, pois este interrompido antes de se completarem quatro representao da totalidade. As garotas descem do txi em frente penso, um velho sobrado que parece esconder alguma verdade angustiante, dada sua aparncia, tanto que paralisa por momentos as duas personagens: ficamos imveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas, iguais a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada. A intuio inicial preludia algo inquietante: "sinistro", diz uma delas, ante o impacto. A narradora compara as janelas da fachada da casa a olhos, qualificando-os de tristes, estando uma delas com os vidros quebrados. Aps subirem a escada velhssima, cheirando a creolina, so recebidas pela velha dona da penso, que tambm transmite uma imagem de decadncia: o desbotado pijama, as unhas aduncas de esmalte vermelho-escuro descascado e de pontas encardidas, chinelos de salto, tosse encatarrada, peruca negra, balofa. Solta baforadas fortes de charutinho no rosto das meninas. Alm de apresentar um aspecto feminino abandonado, sem nenhuma vaidade, tem atitudes que no demonstram tendncia maternal positiva alguma com suas novas hspedes, j que as examina com indiferena e descaso. Ela parece encarnar o prottipo da feminidade terrvel, da mulher nefasta e no-acolhedora do regime diurno da imagem: soltou uma baforada to densa que precisei desviar a cara.

As primas entram na sala, primeiro aposento descrito pela narradora. Toda a descrio de seu interior faz crer num ambiente decadente e estranho: saleta escura, atulhada de mveis velhos, desparelhados. No sof de palhinha furada no assento, duas almofadas que pareciam ter sido feitas com os restos de um antigo vestido, os bordados salpicados de vidrilhos.

No havia, entretanto, outra opo de escolha, pois nenhuma outra penso oferecera condies e preo to acessveis s duas garotas.

A velhota as convida para conhecer seu pequeno quarto localizado no sto, ao qual se sobe atravs de uma escada de caracol muito estreita. O simbolismo da escada se liga passagem de um nvel a outro, estabelecendo relaes de ascenso e valorizao. tambm a representao da graduao da passagem de nveis existenciais/psicolgicos a outros. necessrio subir esta estreita escada em espiral para chegar ao minsculo quarto, lugar onde acontecer uma transformao de nvel espiritual para material - uma inverso, portanto. A escada contribui para este clima estranho de uma montagem de um esqueleto que surgir depois.

Conto fantstico que nos faz entrar no universo da autora e suas constantes viagens pelo universo feminino, talvez o mais sensvel ou disponvel para prestar ateno s questes da existncia. Trata-se de duas primas universitrias, uma delas a narradora, que se vo instalar num quarto alugado numa casa to decrpita quanto a sua dona, que, apesar da idade, usa uma destoante peruca preta ( interessante notar que a descrio que se faz da peruca (era mais negra que a asa da grana) estabelece uma intertextualidade com Iracema, de Jos de Alencar. Esse recurso muito comum na obra, havendo referncias que vo de Olavo Bilac at Divina Comdia). Curioso perceber que no h presena masculina alguma no texto, apenas a meno a um antigo inquilino do quarto em que as meninas esto se instalando e os ossos que ele havia deixado no cmodo. Uma das garotas, estudante de Medicina, interessa-se pelos restos, ainda mais quando descobre que so de um ano, o que os torna de extrema raridade. O mais incrvel que no meio da noite o quarto das moas tomado por um cheiro ruim (bolor?) e por formigas que no se sabe de onde vm, mas que se dirigem claramente para o recipiente em que estavam guardados os ossos, justamente embaixo da cama (esse lugar riqussimo de simbologia psicolgica, estando ligado ao inconsciente e a pensamentos que so exilados, escondidos l. Haveria aqui uma meno sexualizao, constantes nos sonhos da protagonista?) da estudante de Medicina. E, para aumentar o tom macabro, a narradora havia sonhado com um ano (os ossos corporificados) de olhos azuis a olhar para ela. Eis uma presena masculina inquietante. Quando a prima da narradora vai verificar se no havia algum resduo que na caixa que pudesse atrair as formigas, nota que os ossos tinham sua posio mexida, pois a cabea, que estava no fundo, passara para a posio superior. Matam os insetos. No dia seguinte, no h resto algum deles, sendo que ningum havia feito a limpeza do quarto. Na madrugada seguinte, quando a protagonista tem outro pesadelo, em que havia marcado encontro com dois namorados no mesmo local e hora, acordada pela prima, que comunica o retorno das formigas. E, completando o clima assustador, os ossos haviam mudado mais uma vez de posio, estando a cabea entre os ombros e a coluna recompondo-se. Estaria ento o ano se reconstituindo. Diante desse mistrio, a futura doutora resolve passar a noite em claro e descobrir de onde vinham as formigas. Mas adormece, assim como a narradora. Esta ltima acordada aos sustos pela parenta. As formigas haviam voltado e o esqueleto estava quase reconstitudo, faltando apenas um osso da perna e outro do brao. Fogem desabaladamente da casa.

Neste conto se classifica uma situao de ironia na descrio da dona da penso, em sua frustrada tentativa de aparentar uma juventude inexistente, resultando em uma quase caricata mulher.

Em todo o conto, o tema das oposies se faz presente, em uma tenso dualstica que vai num crescendo, atravs das dialticas luz/escurido, ordem/caos, sono/viglia, realidade/sonho, vida/morte, humano/inumano, curiosidade/temor, contedo/continente. Quando se fala da ambigidade da narrativa fantstica, que o protagonista-narrador aquele que designa a duplicidade da narrao fantstica e a contradio que ele imprime obra.

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