As margens da alegria (Conto de Primeiras estórias), de Guimarães Rosa

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Narrado em terceira pessoa, esse primeiro conto de Sagarana, de Guimares Rosa, considerado, com o ltimo, Os cimos, a moldura do livro, j que apresenta as mesmas personagens no mesmo ambiente.

A principal personagem o Menino e, assim como ele, as outras personagens so apenas identificadas pelo grau de parentesco.

O conto em tom lrico reflexivo, a primeira viagem de um menino, a descoberta do mundo: a crueldade representada pela morte do peru e a beleza e a alegria representadas pelo vagalume.

O autor se identifica profundamente com o protagonista, como se ele espelhasse sua prpria trajetria, sua infncia, como se assim universalizasse, de certa forma, essa travessia. Ou seja, ele tenta perceber o que h de comum na infncia de cada menino, nessas delicadas passagens, em seus estados de alma, nos dolorosos conflitos, nas fascinantes descobertas.

Em As margens da alegria, Guimares Rosa coloca-nos diante de um Menino que, nasua lenta descoberta do mundo, transforma tudo o que lhe passa diante dos olhos emexperincia de dor e alegria, vida e morte. Essa aprendizagem se d a partir da relao diretacom a natureza em toda a sua dinmica, para a qual o Menino volta um olhar sem reservas,cheio de admirao. Aqui a infncia aparece como o lugar do crescimento, da descoberta, daaprendizagem. O Menino tem como primeira fonte de conhecimento o olhar: "espiar","avistar", "ver" e "vislumbrar" so verbos que percorrem toda a narrativa. , portanto, atravsdo olhar atento e encantado que ele conhece e re-conhece todas as coisas que encontra. Omenino agora vivia; (diz o narrador) sua alegria despedindo todos os raios. E continua: Ele queria poder ver ainda mais vvido as novas tantas coisas o que para os seus olhos se pronunciava.

O protagonista, o menino, faz uma viagem de avio at a casa do tio numa cidade em construo, provavelmente Braslia. do alto (do avio) que ele vaidesbravando as paisagens externas. Das alturas ao cho ele mantm o encantamento, e mesmona terra o que se oferece ao seu olhar no maculado pela pequenez do cho, mas fantasiado e revisto pelo lance final quando surge o vagalume.

Esse passeio, como informa o narrador, na mxima felicidade. Os adultos esto sempre o afagando. Tudo belo e novo. E antes mesmo que tenha conscincia das necessidades, j satisfeito. Tais descries conferem com a idia que se faz do Paraso. onde a criana parece estar. Acompanhado pelos tios, que so puras expresses de amor e afeto, oprotagonista vive um momento singular em sua vida. A viagem lhe indita e lhe causasentimentos de fascnio e leveza. O processo de crescimento a apresentado no momento emque o narrador substitui "um menino" por "O Menino".

O clmax de tanta felicidade vai-se dar quando o menino encontra um peru majestoso. Mas dura pouco tempo, pois, depois de um passeio, o garoto fica sabendo que a ave havia sido morta para o aniversrio do Tio. Sua tristeza aumentada quando depois presencia a derrubada de uma rvore. o contato com as imperfeies da vida: a morte e, conseqentemente, a passagem do tempo. Cai do Paraso.

Tem um momento ilusrio: quando pensa ter visto de novo o to amado peru. Na realidade, era outro, menor, menos pomposo. H quem enxergue aqui o platonismo, na medida em que esse segundo pssaro seria sombra do primeiro, perfeito, j que pertencente ao mundo das idias.

O segundo bicho, que bica a cabea decepada da antiga ave, proporcionar ao menino mais experincias difceis ligadas ao campo da inveja e da malignidade. o instante em que comea a escurecer, tanto denotativamente (fim do dia, chegada da noite), quanto conotativamente (contato com o lado escuro da existncia).

A angstia aliviada quando surge, em meio escurido da floresta sua frente, um vaga-lume. Sua luz em meio ao breu simboliza a esperana que se deve ter aps a queda do Paraso, aps o mergulho nas imperfeies da condio humana. Por isso alguns associam esse brilho aos ideais religiosos, como o prprio Esprito Santo, a nos trazer de volta a felicidade do princpio de tudo.

Percebe-se que a estria apresenta quatro momentos especficos: o da viagem, quando o Meninovive uma experincia area, paradisaca, e outros trs acontecimentos terrestres. Um deles aapario do peru no quintal da casa onde estava. O peru "completo, torneado, redondoso", o"peru para sempre", o peru transbordando de "calor, poder e flor" representa o auge da vitalidade do Menino. No entanto, a terrvel sensao da efemeridade experimentada no outro momento quando o protagonista, ao voltar do passeio, vido de v-lo, depara-se apenas com "umas penas, restos, no cho". O brusco desaparecimento do peru representa o movimento oposto aos dois anteriores. Neste momento, o Menino vivencia a experincia da morte: O Menino recebia em si um miligrama de morte.

Vimos o primeiro aprendizado do Menino , sem dvida, o da alegria.

Em As margens da alegria o olhar do menino um olhar que abarca as coisasvistas, porque o mundo , pela primeira vez, descortinado a ele como um espetculo, e porquea paisagem sobrevoada nova, vista pela primeira vez. Tudo estava se inaugurando. Mesmoao chegar terra, so novas as significaes que ele ter que criar com o seu olhar. Oselementos naturais vistos e abarcados agradam-lhe docemente aos olhos, mas tambm, ele odescobre mais tarde, podem feri-lo. No se exclui nada nessa narrativa, nem mesmo a dor;tudo abarcado, e experienciado pelo olhar.

O olhar atravessado do menino tambm sabe prolongar o que consegue ver, o que deve ficar de afetos para a sua alma. Por isso, ele sabia, em algum canto do seu ser, que se tivesse olhado mais, e se demorado nesse olhar, ele manteria na memria a primeira experincia, a da alegria. Na iminncia da perda, por que ele no se demorou mais no olhar?: Soubesse que ia acontecer assim, ao menos teria olhado mais o peru aquele. O peru seu desaparecer no espao.

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