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Beira rio beira vida, de Assis Brasil


Beira rio beira vida é o primeiro livro da série intitulada "Tetralogia piauiense", projeto literário do escritor piauiense Assis Brasil. As obras são ambientadas na cidade de Parnaíba, no período da primeira metade do século XX.

A obra põe em evidência os moradores e trabalhadores do cais: canoeiros, embarcadiços, estivadores, prostitutas, enfim o lumpemproletariado na hostil submissão à deidade-mercadoria. No livro, a prostituição marca gerações de mulheres, que, sufocadas pelo sistema, concebem-na como sina, uma maldição para a qual restava apenas a subserviência.

Para o entendimento da obra, começaremos com uma rápida reflexão sobre o título: Beira Rio (o porto, o contínuo movimento do rio que traz e leva esperanças, marinheiros, desilusões); Beira Vida (a marginalização social).

Essa marginalização é o tema predominante. A pobreza, o preconceito e a falta de oportunidades acabam por balizar o destino das personagens. Isto fica bem evidenciado em:

(...) Nunca conheci outra vida, tudo foi se ajeitando normalmente, acontecendo, acontecendo.
Tudo parecia natural para mim, não era de pensar muito.(...)

Em Beira rio beira vida, lancinantes reminiscências atravessam a trama, memórias vão grassando formas estéticas aos episódios, cuja narração remete à agitada rotina do cais de Parnaíba. A vida ribeirinha mobilizada pelas embarcações matiza gerações de marinheiros, canoeiros, barqueiros, taifeiros, enfim de todos os que têm suas trajetórias proliferadas em meio à agitação das águas, dos passos, dos gritos. Meretrizes se arranjavam pelas proximidades, dada a concentração da população masculina.

A ênfase da narração recai sobre a temática da prostituição em dois enfoques, especialmente: um exógeno, que fica a cargo do narrador impessoal de primeira instância; e outro endógeno, sob o comando da personagem Luíza, que vai tecendo a narrativa segundo a fruição de suas memórias.

Como veremos mais adiante, Luíza advém de uma tradição de mulheres do cais estigmatizadas pela prática do “comércio da carne”.

Adentrou o universo da prostituição como quem cumpre uma sina – a vida da avó, da mãe, uma maldição que se repetia nela. Cremilda, sua mãe, ouviu de uma antepassada que uma mulher havia sido presa, acusada de assassinar o amante, um rapaz rico por quem se apaixonara. Inconformada por pagar por um crime que não cometera, gritava e maldizia a tudo e a todos ao longo das noites na cela, submersa em uma revolta implacável. Ao dar a luz, amaldiçoou a filha e toda a sua descendência: “teria uma filha que pegaria barriga de marinheiro, e a filha de sua filha pegaria barriga de marinheiro”.

Embora o autor permita à personagem Luíza os discursos memorialísticos dos quais brotam a narrativa, a vida social do cais é a base espacial sob a qual o enredo é engendrado: “A sineta dos navios-gaiola, o apito mais grosso de uma barca, o grito dos canoeiros, o barulho seco do arroz e feijão pisados no cais, pareciam varrer com a brisa a calçada escura, cheia de lembranças”.

Uma vez que não apresenta ordem cronológica dos fatos, o romance se apóia no tempo da memória para dar coerência à narrativa, ou seja, apóia-se na maneira que o narrador relembra o próprio passado de uma maneira específica, com recortes específicos, num período de tempo específico. Nesse caso, o tempo da memória citado quer dizer um tempo sem qualquer coerência externa à mente do narrador. A beleza reside justamente nas características particulares do ato de lembrar, praticado no romance por Luíza: falhas, idas e vindas no tempo, a escolha de determinadas emoções e sensações. Utilizando como recurso estilístico a repetição constante de falas e ações, o autor consegue enfatizar a mesmice dos dias e a estagnação das personagens. As horas passam devagar e se tornam um fardo para aqueles que não têm rumo certo ou esperança de transformação. As mulheres do cais, especialmente, percebem o tempo de forma diversa. Para elas, os dias não são determinados pelo calendário, mas sim pela presença dos homens nas suas camas: Os homens deixaram a casa um a um – foram desaparecendo em silêncio. Contava a passagem dos anos pela freqüência deles. A figura masculina vem ressaltar a situação de dependência em que elas se encontram e a falta de controle sobre seus próprios destinos. Os retratos dos ‘clientes’ nas paredes de Cremilda são a prova de que também na realidade ficcional, as personagens só conhecem o tempo da memória e vivem das glórias da juventude e dos feitos de outrora.

Se o tempo pesa e seus efeitos não podem ser ignorados, o espaço não é diferente. A cidade de Parnaíba, especialmente o cais, exerce forte atração sobre os habitantes, não permitindo que se afastem dali sem que haja uma punição.

Isso acontece porque também o espaço conserva sua memória, aprisionando seus filhos eternamente nas mesmas posições da escala social: Você ficaria sempre com a marca do cais e ia acabar mesmo era amigada com um deles, Mundoca. Diante da inconstância do meio de vida do cais, o lugar de origem torna-se sinônimo de conhecimento e segurança, a única coisa realmente concreta na vida dessas pessoas: esperava sentada no cais, com a paciência e a certeza de tantos anos. Certeza de que só o cais existia realmente. E as coisas lhe aconteciam a partir dali e só tinham significação se começassem no cais.

Beira Rio Beira Vida é resultado de uma percepção muito particular da miséria e da prostituição. Uma vez que todo o romance é construído pelas lembranças de Luíza, parece coerente fazer uma análise do texto a partir dos fatos mais marcantes da sua narração, significativos não somente na vida da personagem, mas na fundamentação da denúncia social contemplada por suas lembranças, escolhidas de forma a ressaltar a situação de miséria em que ela se encontra, assim como os legitimadores dessa miséria (o que ela algumas vezes chama de sina, mas que em outras ocasiões ela identifica como a ação de pessoas de um meio social mais elevado). Essas lembranças fundamentam a realidade injusta denunciada através do romance.

Partindo desses episódios, também se identificam outros, pertencentes ao cotidiano da cidade, que oferecem informações importantes para a compreensão do contexto social em que ela está inserida. Dessa forma, evidencia-se com maior clareza a trajetória de Luíza e a formação da sua visão de mundo. Consideram-se, então, três momentos fundamentais das suas memórias.

O primeiro deles descreve o nascimento da sina do cais, ou seja, a maldição que teria dado origem ao meio de vida das prostitutas de Parnaíba. O caso, contado a Luíza por Cremilda, diz que um dia, a mais bela e bem sucedida prostitua do cais se envolveu com um rapaz de família abastada e conhecida.

Apaixonado, ele anunciou o casamento para a família e, depois de ser perseguido pela cidade e deserdado, acabou assassinado por um marinheiro “amigado” com a tal mulher do cais. Acusada de participação no crime, ela foi para a cadeia e, mais tarde, descobriu-se que estava grávida. Passava as noites a perturbar a cidade com seus gritos de revolta, levando as damas da sociedade de Parnaíba a defenderem sua internação na Santa Casa até o nascimento da criança. Porém, o padre não aconselhou a transferência, alegando apenas que seria um “mau exemplo”. Motivo de vergonha para toda a comunidade, ela permaneceu presa:

A mulher passou os nove meses de gravidez gritando e chorando de noite, para que toda a cidade ouvisse. E quando a filha nasceu ainda chorava e gritava, blasfemando. Passou a maldizer o futuro da menina, que ela era culpada, haveria de penar, penar e pegaria barriga de marinheiro, e teria uma filha que pegaria barriga de marinheiro, e a filha de sua filha pegaria barriga de marinheiro.

A sina do cais é, portanto, uma conseqüência da omissão da igreja, da língua ferina e preconceituosa da cidade e da transgressão de um jovem que ousou unir as duas pontas de uma sociedade desigual, provocando o surgimento de uma maldição que há anos condena as mulheres nascidas na beira do rio. Nesse contexto, existe um elemento fantástico para justificar um abuso real – a força das palavras, proferidas durante um sofrimento intenso, é tamanha que atravessa os anos a produzir novas vítimas.

O que Cremilda conta nada mais é que um mito, o relato de um acontecimento primordial que condicionou a existência das outras prostitutas a partir de então.

A explicação mitológica para a vida miserável que levam as prostitutas é a sina do cais; ela determina toda a realidade e faz com que essas mulheres creiam na incapacidade de escrever a própria história. Toda vez que uma delas engravida de um marinheiro, é como se repetisse um ritual que remonta àquela praga, o erro original. Suspende-se a passagem do tempo e por um instante, volta-se àquele momento inicial, no qual mais um destino é marcado para sempre. As vidas se repetem indefinidamente, condenadas a esse ciclo de infelicidade, mas compreende-se o porquê e se aceita o fado.

A sociedade retratada no romance se assemelha às arcaicas, nesse aspecto da busca por imagens mitológicas para justificar a realidade. A crença na reprodução eterna dos eventos e nos desígnios de uma entidade superior também é um indício dessa aproximação. Todavia, na comunidade piauiense não há uma renovação do tempo, no sentido de purificação dos pecados, ou uma reverência sagrada ao passado. Há apenas uma repetição de arquétipos, uma incapacidade de escrever histórias particulares gerada pela pobreza e injustiça do meio social em que se encontram.

É importante ressaltar que, apesar de acreditarem num destino já traçado, as personagens ainda esboçam uma certa reação contra a realidade indesejada. Porém, sabem de antemão que se trata de uma tentativa vã, principalmente se essa reação é intermediada pela figura masculina. É o que acontece com Cremilda, na ocasião da perda de seu armazém, o qual havia obtido através de um ‘casamento de interesses’. Depois de anos de trabalho e dedicação, só lhe resta resignar-se diante do fracasso: “A gargalhada da mãe, a sua ironia – ‘mas de que adiantou tamanho sacrifício se eu sei, sempre soube, que um dia ia perder tudo? Mas foi divertido – no começo foi ainda mais divertido, eu ganhava dinheiro, era uma mulher de negócio, cheguei até mesmo a esquecer quem era, quem um dia voltaria a ser’”.

A impossibilidade de vitória diante desse fado é a fonte de sentimentos de vingança e revolta. A sina é imposta pela reprodução sexual, transformando a maternidade num momento de conflito - enquanto a filha se ressente da falta de escolha, a mãe se vinga da gravidez indesejada sobre a própria cria, transmitindo o fardo pesado da vida do cais: Minha mãe nunca me perdoou. A vingança foi ver a minha vida repetindo a sua, toda noite, todo dia, até o fim. Ela teve culpa, mas, não sei porque, nunca se julgou culpada. Quem sabe o que não sofreu da própria mãe?. A prostituição se torna um veículo de expressão da revolta. O dinheiro e os presentes que recebem são uma maneira de retirar algo de uma sociedade que lhes nega uma vida mais digna. Para tanto, utilizam o próprio corpo: era um gosto esquisito de vingança, tinha que se vingar do mundo, ou mais particularmente deles, dos desgraçados. Estranho que fosse uma vingança na própria carne, na própria alma. Todavia, com a passagem dos anos e a chegada da velhice, a inutilidade dessas batalhas vai ficando cada vez mais evidente. Diante das forças invisíveis que manipulam o cotidiano e da convicção de que nada pode ser feito contra elas, surge uma aceitação que não é fruto da passividade, mas da desesperança: Quantas vezes não lhe contara aquelas revoltas que se foram aplacando, dando lugar àquela paciência de gente sem destino, sem sorte”.

Arraigada profundamente no imaginário dessas mulheres e determinando crenças e escolhas, a sina se faz presente de inúmeras formas no dia a dia do cais. Ela condiciona, por exemplo, a escolha dos nomes das meninas nascidas ali. Como numa transferência simbólica de cargos e fados, as filhas recebem os nomes das avós, prolongando indefinidamente a ação da praga rogada há tantos anos. Na tentativa de interromper o ciclo de sofrimento e desgraça, Luíza chama a filha de Mundoca, ao invés de Cremilda, como seria o habitual: Tudo teria um fim com Mundoca, aquela dinastia do cais. Aquele destino do cais).

Entretanto, é preciso mais do que um nome para se escapar dessa estranha dinastia, é preciso afastar-se da sua presença maléfica. O convívio diário com a exploração sexual acaba proporcionando um ‘aprendizado’ da sina, uma familiaridade que aproxima a mulher de seu destino e impede que a maldição do rio se dissipe no tempo: Sem querer se vigiavam – a conversa com os marinheiros, as histórias, feias e bonitas, mais feias do que bonitas, aprendiam nomes, aprendiam novas posições no ofício, discutiam, se admiravam tanto da esperteza de cada uma – concorrentes no mesmo jogo, lutavam rivais e com fúria.

Essa realidade cruel da prostituição é o tema anunciado pelas epígrafes do romance. São duas frases que sintetizam o cotidiano das prostitutas não somente de Parnaíba, mas de qualquer outro lugar. A primeira, retirada de um texto de Cornélio Penna, sugere tanto uma dissimulação quanto um engano: VIA MÁSCARAS, ONDE ERA NECESSÁRIO, PREMENTE, VER ROSTOS. Dissimular é uma atitude comum às prostitutas, as quais necessitam ‘usar máscaras’ e representar personagens, num processo de anulação da individualidade que as transformam em estereótipos e deturpam a auto-imagem, como sugere outro momento do texto:

“Como seria realmente? O espelho do guarda-roupa lhe puxava a testa para cima, ou o queixo de lado – a boca debruada ou os lábios apertados.
Botava os dentes para fora, fazia caretas, a sua imagem tomava novas formas, ‘é o diabo que está dentro da gente’.

Ao olhar-se como uma ‘mascarada’, a prostituta permite ao homem usá-la e, assim, ele também passa a enxergá-la não como ser humano, mas como máscara que encobre o rosto real da miséria e da humilhação. O homem se engana, assim como o resto da comunidade, porque não considera o indivíduo, mas o objeto, o jogo egoísta do prazer; enganam-se todos porque desumanizam essas mulheres simplesmente para aceitarem com mais facilidade suas desgraças.

Já a segunda epígrafe é uma passagem do próprio romance, a qual se refere ao envelhecimento de Cremilda e à sua ‘substituição’ nos negócios por Luíza: A REDE BRANCA DE VARANDA BORDADA ERA DELA AGORA, ROBE FLORIDO, O LEQUE PERFUMADO – NOVA RAINHA NO TRONO. Através da descrição dos itens de sedução e beleza utilizados na prostituição e que são repassados para Luíza, a frase destaca justamente a ‘transmissão’ da praga do cais com a chegada das novas gerações, as quais retomam as atividades das mães num ciclo interminável. Nota-se, então, que as epígrafes de Beira Rio Beira Vida sustentam a hipótese levantada neste estudo sobre a presença de um mito no comando da vida dessas mulheres. O jogo das máscaras é ilusório, assim como é a origem mitológica da sina, a qual explica um problema social através do sobrenatural. O posto de “nova rainha do trono” e os objetos marcam um rito de passagem, e rituais são necessários na restauração do tempo ab origine do mito, concretizando a transmissão da maldição rogada naquela época.

Com características também similares a um ritual de passagem, a primeira menstruação de Luíza é outro momento fundamental das suas lembranças, o qual define seu lugar no mundo. Apesar da convivência com a prostituição desde a infância, a primeira menstruação é a porta de entrada para essa vida de exploração e humilhação. Diante da metamorfose da filha, a mãe é categórica: - Agora você pode ter homem, besta. E até que pode ajudar sua velha mãe. A menina, por sua vez, reconhece na menstruação a prova física da condenação, o anúncio de uma existência desgraçada:

Cansei de ver os panos dela, a vida que ela levava, aqueles homens – juntava tudo que via com o tipo de vida que ela tinha. E de repente me via suja como ela. Juro, Mundoca, que pensei que só mulher da iguala de minha mãe tinha aquilo, que era como uma sina ou um castigo, uma espécie de marca. E eu fora atingida, minha vida seria igual à dela, quer quisesse ou não.

A primeira menstruação não consolida somente a crença num destino repetitivo e imutável, ela também abre caminho para outras experiências importantes em sua vida, como a primeira relação sexual, ocorrida com um marinheiro quando tinha apenas quinze anos: Quantas vezes teria de esperar pela sua volta? Nuno lhe foi a chave de todo aquele mundo que povoava a cabeça de sua mãe. Abriu o caminho, bem sabia, para mais uma mulher do cais – um filho na barriga, a saudade prendendo os passos. Apesar de ser um agente da sina, o primeiro homem de Luíza se torna referência de porto-seguro, uma espécie de ‘paraíso perdido’, o passado idealizado ou um futuro não-realizado: Nuno não necessitou do retrato na parede, ficou além de todos os outros que se repetiam com suas palavras, suas promessas, seus passos no cais (...) Nuno fora a única projeção nítida, mesmo sem retrato para a volta ao passado. Ele remete a um tempo em que ainda era possível sonhar com um futuro diferente, quando ainda havia esperança. Assis Brasil recorre então à imagem do fruto proibido para simbolizar que Nuno, seu navio e a promessa de uma vida melhor não estão ao alcance de Luíza: Ao morder a maçã identificou o cheiro do navio – o desejo de comer a fruta vermelha marcou seu tormento durante a gravidez de Mundoca. O cheiro e a lembrança de Nuno. Para essas mulheres do cais, a possibilidade do amor é instável como as cheias do rio. Ao contrário do que se poderia pensar, a incerteza não é um tempero para a rotina monótona, mas sim fonte de angústia e desesperança. O grande tormento é saberem que não possuem paragem certa: Deixou que ela ajeitasse o camarote, como se fosse seu ou dos dois o pequenino aposento – se aliviava da casa escura, do cheiro ruim – ah, se aquilo, aquele sonho estivesse em terra firme e não fosse embora. Ah, se tudo não passasse.

O resultado dessa experiência sexual é a primeira e única filha, que vem completar mais um ciclo da maldição do cais. Curiosamente, a mesma gravidez que anuncia o fado é via de liberdade e afirmação da identidade: Jogou tudo na cara dela, tudinho, mais com um sentimento de vingança. Era a sua maneira de se sentir um pouco livre (...) a barriga grande lhe dava uma certa importância, um misto de vaidade e confiança. A mãe nem podia compreender, apenas aceitava a sina, o fato como o complemento de seu destino desgraçado.

Pressentindo que não há mais salvação pessoal, Luíza passa a acreditar que pode contribuir para a libertação de Mundoca. Ao relembrar seu passado de sofrimento, ela tenta mostrar o caminho que a filha deve tomar para que escape à maldição. A grande vitória de Luíza reside no fato da vida de Mundoca não repetir a sua: Mundoca quebrara a tradição das filhas das mulheres do cais. Não explorava os homens, não se impressionava com as embarcações do rio. Nota-se então uma ruptura com o mito ou, pelo menos, uma possibilidade de ruptura.

O trecho sugere que:

a) Assis Brasil, intencionalmente, não desenvolveu a personagem por acreditar que, dessa forma, ressaltaria a sua inutilidade e insignificância na escala social de miséria ali retratada; ou
b) a personagem não ganha mais espaço porque não representa nada de especial na trama, é “apenas um elo quebrado”.

Analisados a partir do ponto de vista do presente estudo, nenhum dos dois pontos procedem. Se por um lado, concorda-se com a intenção do escritor em deixar a personagem Mundoca fora do centro das atenções, por outro se acredita que seus motivos são outros: ela não seria a imagem do fracasso, mas da esperança; ela representa sim algo muito especial na trama, a promessa de libertação. Enquanto Fausto Cunha enfatiza o pessimismo da realidade retratada na obra (o que não deixa de ser um fato), propõe-se aqui que a mensagem é, na verdade, otimista e vislumbra uma forma de reação.

O limbo criador em que Mundoca se encontra é repleto de possibilidades e o seu comportamento, contrário ao das mulheres do cais, aponta para uma quebra da cadeia de miséria e estagnação, a tal praga que na trama simboliza a dura realidade sócio-econômica, assunto que será tratado ao final, junto com a mensagem de transformação contida nos quatro romances da Tetralogia Piauiense.

Dona de uma personalidade peculiar, Mundoca não reclama, sonha ou faz projetos. Parece ter nascido naturalmente desinteressada pelas coisas do cais e da vida como um todo. Não brinca com a boneca Ceci, testemunha silenciosa do sofrimento da mãe e da avó: ao desprezar o brinquedo, a menina despreza todo o passado de prostituição que ele presenciou. Também não deveria ter uma filha, o que Luíza considera essencial para acabar de vez com a sina do rio, nem a máinfluência de suas atividades noturnas: De uma coisa eu procurei livrar você, Mundoca: do meu barulho com os homens, para que não tivesse vergonha diante de sua mãe. A vaidade, que lhe apareceu ainda na infância despertando o desejo de ganhar dinheiro e, conseqüentemente, a busca por ele a qualquer custo, não se manifesta em Mundoca: Você não tem vaidade nem nada. A mulher só tem vaidade quando tem homem em casa. Todas essas qualidades apontam claramente: para se fugir de uma vida desgraçada, deve-se fugir dos homens. Em diversas ocasiões, Luíza associa momentos de felicidade ao fato de não depender de favores ou humilhações, especialmente provenientes deles. Ser livre significa estar livre das obrigações com os homens, do passado que condena e determina todos os seus passos: Correu para o cais, certa da morte de Jessé, o único que quisera mudar sua vida. Mas a transformação teria que partir dela, de uma delas, como acontecia agora com Mundoca – distante, o rio, os marinheiros, as fardas, as embarcações, não seriam mais um passado.

A liberdade completa, entretanto, só pode ser alcançada através da própria morte. O que não quer dizer o fim definitivo da maldição, apenas o término de um ciclo pessoal de sofrimento para o renascimento de outros.

Em Beira Rio Beira Vida, a morte é uma via para a repetição dos mesmos erros. A vida continua a se renovar, mas não se purifica: o passado não é esquecido e as falhas acumulam-se sobre as próximas gerações. Por isso, a morte de Cremilda é considerada o terceiro momento fundamental das lembranças de Luíza. Com a partida da mãe, finda-se um ciclo de miséria para o início de outro: Luíza é a próxima na fila do destino e deverá passar por tudo aquilo pelo qual Cremilda passou. Outras questões também podem ser abordadas a partir dessa morte, como a velhice e a exclusão social, situações muito próximas que requerem um olhar mais atento.

Cremilda morreu sozinha, bêbada, numa noite de Natal. Foi enterrada com o dinheiro doado por um cliente de Luíza, ao qual esta retribuiu “com a consciência de um negociante”. Sepultada sem a presença do padre, pelas mãos de estranhos, foi reconhecida e lamentada por poucos. Passado o funeral, as marcas da sua presença são sistematicamente eliminadas. A figura velha e rabugenta já não é mais um incômodo e a casa até parece maior. É tempo de Luíza retomar o trabalho com novo fôlego:

Pôde arrumar a casa à vontade, abriu as janelas, vasculhou o telhado, as paredes. Limpou tudo, Mundoca ajudando. Ajeitou os poucos móveis. – Eles não devem saber que ela morreu aqui. Desencardiu o piso – debaixo da rede dela, o cuspe empretecera as tábuas. Jogou creolina pelos cantos para afastar o cheiro de sujo – seria bom pintar as portas.

Cremilda foi ‘despachada’ exatamente da mesma forma que havia feito com a própria mãe – primeiro a faxina, depois a volta ao trabalho. O comportamento diante da morte se repete, caracterizando mais um ritual que assegura (inconscientemente, é bom lembrar) a permanência da praga: tanto na vida, quanto na morte, as prostitutas são semelhantes entre si e o aprendizado desses costumes permanece indefinidamente. Se essas condições de morte são próprias do meio de vida do cais, as emoções experimentadas na hora da perda se revelam mais ordinárias, como a empatia. O defunto é a imagem refletida daquele que o observa, o futuro mais do que certo:

Mas muitos chegam por puro egoísmo, como numa corrida para ver quem vive mais – o enterro dos parentes e dos amigos vai soando como estranhas vitórias. ‘Hoje enterrei mais um’ – quantos não dizem isso com satisfação bem no fundo. Eu mesmo senti uma coisa estranha quando enterrei minha mãe – a gente mistura compaixão com alívio, sei lá.

Todas as características apontadas até aqui demonstram que o momento da morte não difere muito da vida retratada no romance. Vive-se e morre-se sozinho, esquecido. A imagem derradeira é suja e vergonhosa. A miséria elimina as pessoas bem antes da hora marcada e aqueles que ficam têm urgência em apagar seus vestígios.

A morte é, pois, um agente a serviço da sina: leva a mãe, para que a filha assuma seu posto; e leva o homem, para que ele não a retire do cais. Antes da partida de Cremilda explicitar o fim que lhe aguardava, a morte de Jessé significou o enterro definitivo da esperança de felicidade. Amigo de infância, Jessé era órfão de pai e mãe quando foi acolhido por Cremilda no armazém. Desde pequeno, se mostrava inconformado com a pobreza e batalhava muito por uma vida diferente.

Conseguiu realizar por um tempo o sonho de trabalhar nas embarcações, navegando pelos rios e visitando outras cidades. Porém, morreu queimado num acidente quando voltava para visitar Parnaíba e Luíza. Seu principal erro foi pensar que poderia mudar seus destinos: Jessé bom, queria remediar tudo, remediar o destino, coitado, como se tivesse poder para tanto. Mesmo não tendo nascido ali, Jessé já estava marcado pelo cais, assim como Luíza. Homens como ele não ficavam ricos; mulheres iguais a ela nunca se casavam: A morte de Jessé, para que ela não virasse uma senhora casada (...) A morte, para que Jessé não a tornasse respeitável. A morte aparece, então, para atestar a impossibilidade de transformação e colocar todos nos seus devidos lugares, assegurando a presença da sina.

Ao fim da existência, os pecados cometidos em vida não são redimidos e o ‘defunto antepassado’ carrega consigo as suas agruras:

Você deve perguntar, Mundoca, por que nunca vou ao cemitério rezar pela alma de Jessé. Não, nunca vou mesmo, e digo a minha razão: é porque ela está lá também, bem perto dele. Está lá, como se ainda tomasse conta do pobre, como se perseguisse ele no tempo do armazém (...) Por isso não vou ao cemitério. Não é desprezo, não. É pra lá que vou algum dia, mas aí já é diferente. Depois vai você, Mundoca, e tudo está terminado.

A atitude no pós-morte não se modifica: Luíza ainda culpa a mãe pela vida que teve, por isso evita ficar perto dela. O que não configura uma vontade de encobrir a morte, uma vez que ela se mostra consciente da própria finitude. As ações e pensamentos são formados racionalmente, inclusive a expectativa de libertação da sina através da morte de Mundoca. Percebe-se pelo comportamento diante da morte que, em Beira Rio Beira Vida, ela não é temida, mas vista apenas como o componente natural de um quadro de renovação constante: é necessário que se morra para que outros assumam seu lugar na linha de pobreza. Esse tipo de morte não causa grandes comoções ou conflitos internos. Também não levanta uma preocupação com a alma ou questionamentos sobre o além-túmulo. Na verdade, o envelhecer nesse mundo se mostra um processo muito mais dramático que o morrer.

Antes de ser o prenúncio da morte física, a velhice determina a hora em que o homem deve se afastar do trabalho, o que na maioria das vezes significa transformar-se em um ser inútil e descartável para a sociedade. A velha prostituta precisa lidar não somente com a perda do vigor e da beleza (o que, diante das condições precárias em que vive, acontece prematuramente), mas também com o seu sustento, uma vez que se encontra numa situação de total abandono em relação às políticas sociais. Dessa forma, ela testemunha o corpo que lhe sustentou por tantos anos, envelhecer e condenar sua existência: o que minha mãe queria era uma vida segura para ela, tão medrosa com aqueles olhos murchando ante a velhice. Sabia que muito cedo os homens iam sumir da vida dela. O meretrício revela ainda uma triste dinâmica da relação mãe e filha – aquela a quem se deveria amar incondicionalmente, é também sua maior rival na luta pela sobrevivência: Compreendera tanto, a mãe se desesperando, de olhos tristes para ela que ainda sorria jovem.

O confronto entre Cremilda e sua deterioração, presenciado (e esperado) por Luíza, inspira um pensamento revelador:

Ia se vingando, tudo tinha que ser tomado, arrebatado, enquanto as forças estavam vivas e a consciência não atrapalhava. Mas a velhice é bem uma doença, Mundoca. Satisfeitos os primeiros desejos, amortecidos os primeiros ímpetos, o desencanto vem para completar a história. Isso não falha, como um desígnio. Se você me perguntasse, Mundoca, que história é essa, eu podia dizer que é a história de todo ente vivo. Podia até ajuntar que ricos e pobres seguem a mesma história. Se a gente adivinhasse o que é ficar velho, o que é chegar ao fim, não sei não.

Durante a narrativa, Luíza menciona diversas vezes a situação de abandono do cais velho, o qual deve ser substituído por outro em construção. Esse painel de fundo reafirma o caráter transitório das coisas - o local vai sendo esquecido, abandonado, consumido pelos anos, juntamente com seus habitantes e suas lembranças.

Caminhando em direção contrária, como numa tentativa de sobreviver a essa destruição, Luíza se recorda, se segura firme nas histórias que o tempo vai levando. Lembrar é uma função social dos velhos; eles se ocupam do passado enquanto os outros se ocupam do trabalho

No romance, o passado acaba funcionando como um combustível para a sina. As pessoas que viveram em Parnaíba ou passaram pelo cais são a consciência desses lugares. Através das histórias que contam, transmitem hábitos e preconceitos com um atestado de importância adquirido naturalmente com a idade. Dessa forma, tornam familiar a praga, validam a sua existência e tudo continua à imagem e semelhança do ontem. Mexer nessa estrutura é perigoso e, geralmente, resulta em nada. O processo se revela um paradoxo para os habitantes à beira do rio: quanto mais se recordam do passado, mais se vêem presos a ele e à miséria que ele representa. A força maléfica da sina tem origem nas lembranças que persistem daquela história original, que camuflam as verdadeiras causas do problema. O recordar como mecanismo de fuga é atraente: A mãe falava, falava, como se procurasse fugir daquelas noites sem sono, que terminavam sempre iguais. Quanto mais falava do passado, mais a vida dela se extinguia. Por não haver expectativas de uma vida melhor no futuro (até mesmo porque esse futuro já chegou para os velhos), volta-se para o passado e para as possibilidades não realizadas que ele conserva.

De fato, ao dividir seu passado com Mundoca, Luíza arrisca-se a alimentar a maldição do cais. A velhice a torna propensa a esse saudosismo, à busca pela compreensão daquilo que viveu. Porém, o que deve ser ressaltado, em concordância com a tal denúncia social pretendida por Assis Brasil, é a natureza do discurso de Luíza, que questiona e tem como intenção mudar a sorte da filha.

Sentada nas pedras do rio, à beira da vida, Luíza percebe que algo pode (e deve) ser feito para acabar com tanto sofrimento. Certamente que sua reação não abrange a totalidade da problemática social que vivencia. Diante de tanta miséria, poucas coisas podem ser feitas individualmente para atenuá-la. Na verdade, o estágio de exclusão social em que se encontram esses moradores do cais os torna praticamente invisíveis para o restante da sociedade, aproximando-os de um estado de morte.

Talvez por esse motivo não existam medo ou expectativas quanto à morte, uma vez que ela está presente no cotidiano; ao contrário, anseia-se por aquilo que está distante, a fugaz sensação do ‘estar vivo’: e a vida a visitara uma vez, assim como dizem que é a morte que visita as pessoas. Essas pessoas se encontram numa imobilidade quase total na escala social. O sucesso não pode ser alcançado, mas todos correm o risco de descerem alguns degraus.

Ricos (na sua comodidade) e pobres (no seu desconhecimento) crêem que os desígnios divinos e outras forças superiores determinam essa realidade, o que torna ainda mais difícil mudá-la: Os mesmos atos, palavras – uma submissão completa. Assim, assim, nada mudava, todos sabiam e aceitavam, a vida era aquela, botar os passos no rumo e pronto. Eles nasceram na cidade para dar esmolas, elas nasceram no cais para receber.

A exploração dos mais fracos surge naturalmente nesse cenário de injustiça e estagnação. Enquanto Cremilda é usada pelos homens em troca de dinheiro, e Jessé é escravizado por ela em troca de comida, todos são consumidos pela cidade de Parnaíba: Ela lá trancada na Santa Casa, demente, comendo da mão dos outros – eu aqui, quase cega, sentada nessas pedras, comendo da esmola de um emprego. E o certo, Mundoca, é que essa cidade vai matando a gente, consumindo. Referindo-se à personagem principal de A Filha do Meio Quilo, segundo romance da Tetralogia, Luíza ressalta a situação de subjugação e dependência que todos se encontram em relação à cidade. Termo usado de forma abrangente, ‘a cidade’ como agente supremo da miséria é a falta de emprego, de casa, de saneamento; é o descaso das instituições religiosas, a maledicência da elite, a omissão dos órgãos públicos.

A sina do cais, que atinge as prostitutas da cidade, também é a sina de todos os desprovidos de Parnaíba: a carência de condições oferecidas pelo meio social. Aqueles que se encontram mais bem posicionados para enxergar a injustiça, perpetuam a crença numa vontade superior que condiciona tudo isso. A desgraça do povo vira espetáculo para aqueles distantes da sua realidade: Os curiosos mais afoitos repugnaram as cenas, voltaram pela rua do Rosário (...) de novo em suas vidas calmas, rotineiras, sem novidades, além das novidades dos filhos e da morte na velhice – o cais era para ‘aquela gente’, eles concluíam. A morte de Jessé, mais um pobre do cais, queimado sobre a embarcação, é real demais para os olhos que insistem em desviar-se da verdade: prostituta, dama, marinheiro ou prefeito, a vida é a mesma, nascer, procriar, envelhecer, morrer. Somente um detalhe os diferencia, o berço. Em Beira Rio Beira Vida, o cais não é somente o lugar da marginalização e da miséria, é o ponto de contemplação do que não se tem. O rio ou a existência passam pelo cais, sem que se possa ali viver no sentido amplo do termo. Os breves contatos da vida com o cais, representados pelas gravidezes das prostitutas, são o pequeno quinhão que recebem os que estão à beira do rio, à beira da vida, em ciclo eterno e mítico, explicável tão somente pelas forças que mantêm tudo e todos do mesmo jeito de sempre.

PERSONAGENS

Como já pudemos perceber, a personagem principal é Luíza. Filha de Cremilda (prostituta), era constantemente humilhada pela mãe. Não tendo pudor para com a sua filha, desde cedo deixa claro para Luíza que o único caminho a seguir é a prostituição. A mãe da personagem mostra-se amargurada, oportunista (em alguns momentos) e, acima de tudo, sem perspectivas. Quando esta herda do "velho Santana" um armazém, vê a chance de sair daquela vida. Acaba perdendo-o. A sociedade se fecha para Cremilda ao tentar comprar uma casa, discriminada socialmente:

- Eles disseram que meu dinheiro não dá.
- Pra quê?
- Pra comprar uma casa aqui na cidade. Sei que é mentira, eles não querem é me vender. Um ainda disse: 'Mesmo a senhora não pode se mudar pra cidade.'Foi o que um deles disse, Luíza, e os outros acharam graça.

Esse mundo sem possibilidades pode ainda ser evidenciado na forma de organização da obra: o final repete o começo, não acenando para possíveis alterações na vida daquelas personagens. Isso é ainda mais reforçado pela repetição dos ambientes e das situações no transcorrer da narrativa, mostrando um mundo monótono e fechado para as prostitutas do porto. Essa idéia é reforçada por Herculano Moraes ao ressaltar: "Os elementos do instrumental ficcionista utilizado por Assis Brasil em Beira Rio Beira Vida são quase sempre o rio, o cais, as embarcações subindo e descendo o rio, os marinheiros, a vida nos armazéns do cais."

Luiza, antes de sua degeneração, entrega-se para seu grande amor (Nuno - marinheiro). Deste relacionamento surge Mundoca. Luiza deposita suas esperanças na filha, para que esta não tenha o mesmo destino da mãe e da avó. O crítico Fausto Cunha, ao retratar Luiza, ressalta que ela "é uma espécie de barro original, a partir do qual são formados os outros personagens. Seu sonho, sua luta, é a evasão pelo amor, num meio em que o amor tem câmbio específico. Realiza-se vicariamente através da boneca Ceci ('personagem' às vezes demasiado literária em seu simbolismo ostensivo) e não percebe que de certa maneira venceu ao não conseguir passar a tocha da degradação à sua filha. Mundoca não sai do limbo criador - como se estivesse fora do foco do romancista. É apenas o elo quebrado de uma cadeia. Nela se conclui o processo através do qual uma sociedade petrificada elimina as sementes inúteis."

Na obra há uma grande distinção entre a cidade e o cais: "(...) a vida era aquela, (...). Eles nasceram na cidade para dar esmolas, elas nasceram no cais para receber.". Enquanto a cidade tende ao desenvolvimento, buscando inclusive a construção de um novo porto, o desnível social vem aumentando vertiginosamente.

O conservadorismo se faz presente na sociedade (revelada em sua hipocrisia, tentando abafar seus escândalos) e no clero (representado por padre Gonçalo), que ignora os menos favorecidos em detrimento da elite. Isto acaba provocando um desamparo e insatisfação nos primeiros, como pode ser constatado abaixo:

(...) O padre velho Gonçalo, esse nunca apareceu no cais que eu saiba. Fica lá nos batizados dos ricos, nos banquetes, nos casamentos.

Ou no enterro de Cremilda:

(...) enterro sem padre, deve ser uma das mulheres, será a Cremilda?

Mundoca mostra-se triste e introspectiva. Fala pouco, é humilhada e assediada no trabalho. O sentimento de repulsa e asco acabam por determinar seu mundo interior:

(...) Sua vida era plana, passava pelo cais de manhã e à noite, não como etapas de cada dia, mas como etapas de um caminho repetido, sem começo nem fim. Não ia nem vinha. Ia sempre para o mesmo lugar, ou vinha sempre da mesma porta.
(...)
Mundoca nunca amou.
(...)
Tinha raiva de tudo, nada era importante, nada tinha alguma significação.

Jessé representa o inconformismo com a sua condição. Criado por Cremilda desde pequeno, tem anseio de ascender economicamente. É reprimido pela mãe de Luiza quando mostra seu desejo de estudar. Chega a capturar borboletas e criar bichos (porcos e marrecos). Transforma-se em marinheiro, morrendo em um incêndio no navio-gaiola.

Toda essa dimensão é enfocada em um plano psicológico (narrado em 3a pessoa). A interiorização das personagens, revelando seus desejos simples, suas amarguras e frustrações, dá à obra uma forte dimensão dramática. A intratextualidade é outro recurso utilizado pelo autor (A Filha do Meio Quilo, Pacamão).

Predomina o discurso indireto e indireto livre. Quando o discurso direto se faz presente, são falas curtas, incisivas, secas, ríspidas ou nostálgicas, ampliando a carga de comoção do texto.

Fonte parcial: Procampus | Francigelda Ribeiro | Maria Janaína Foggetti (UEL)

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