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Bóris e Dóris, de Luiz Vilela


Diálogo intenso, reflexão social, atualidade e marcas de vivências estão contidos em Bóris e Dóris, de Luiz Vilela.

Mais uma vez Luiz Vilela dá uma demonstração deste seu domínio na recriação ficcional de uma longa conversação. O autor acompanha o café da manhã do casal título. Em 80 páginas, os personagens mantêm uma ininterrupta troca de palavras no restaurante de um bar de hotel, às vezes agressiva e rancorosa, como costuma ocorrer com casais de longa data, às vezes extremamente divertida.

A vida vazia de Bóris e Dóris se revela em conversas curtas e secas. Palavras duras e reveladoras que traduzem a tensão de ambos.

A autor dá uma lição sobre como sustentar toda uma narrativa tendo como eixo apenas um diálogo entre duas pessoas. E ao mesmo tempo ser capaz de passar para o leitor uma visão crítica sobre as mazelas do mundo atual e sobre o difícil relacionamento entre as pessoas, mesmo entre aquelas que se amam.

Os protagonistas parecem vindos de outras esferas. São um encontro de contradições. Há diferenças de idade e de sentidos. Há o trabalho e o ócio, o pragmatismo e o sonho, a ambição e o vazio. E tudo no princípio parece tão óbvio, pois o enredo aponta para o bem-sucedido homem de negócio que casa com uma mulher mais jovem e bela e a trata como uma propriedade qualquer.

Bóris e Dóris se pinicam com as palavras, transmitindo para o leitor, através de suas observações e expressões, seus sonhos, medos e angústias. Os sonhos, medos e angústias de todos nós.

O tempo da narração é múltiplo. A novela se passa num pedaço de manhã e num resto de noite. Bóris se mostra sempre preocupado com o seu tempo pessoal, com a angústia de não se atrasar para a convenção do grupo empresarial a que pertence. Dóris com o excesso de tempo de sua vida ociosa. Os dois se conciliam no medo do envelhecimento implacável e no que fizeram de suas vidas. E aí Bóris, tão senhor de seu momento, sente o dissabor de quem não tem o domínio sobre tudo.

O espaço da narrativa está restrito ao hotel-fazenda, ou melhor, ao salão do café-da-manhã e ao quarto onde está hospedado o casal. Nas lembranças dos dois os espaços se ampliam, mas sempre na necessidade de analisar momentos e definições de suas vidas. E no final este espaço está limitado a um mundo pequeno e mesquinho, pois em torno dele transitam pessoas que independem das decisões e necessidades do casal: o rapaz da recepção, a senhora misteriosa, as duas moças vizinhas de mesa, os amigos do grupo empresarial, o irmão de Bóris.

Num diálogo direto e sem malabarismos retóricos, Luiz Vilela traça vidas e reflete sobre as contradições entre sonhos e ambições. Bóris ambiciona enquanto Dóris sonha. E juntos, aos poucos, perdem as esperanças. São a síntese de um mundo sem perdões. Enfim, Vilela prossegue na marcha de suas revoluções pessoais.

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