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Cadernos de João, de Aníbal Machado


Análise da obra

Publicado em 1957, Cadernos de João traz a seguinte nota introdutória: "Estes cadernos encerram, revistos e aumentados pelo autor, o ABC das Catástrofes e Topografia da Insônia (Hipocampo, 1951, edição de 120 exemplares) e Poemas em Prosa (Coleção Maldonor, Editora Civilização Brasileira, 1955, edição de 330 exemplares), sendo que os Poemas não obedecem à ordem primitiva". Além dos citados poemas, de algumas crônicas, está em Cadernos uma variedade caleidoscópica de reflexões, imagens, parágrafos descontínuos em que o humor e o lirismo constituem nota constante.

Além dos citados poemas, de algumas crônicas, está em Cadernos uma variedade caleidoscópica de reflexões, imagens e parágrafos descontínuos em que o humor e o lirismo constituem nota constante.

A relação dialética ali estabelecida entre o escrever e o viver, que mutuamente se fecundam, referendam a auto-classificação da Aníbal Machado como "sobretudo um surrealista", conforme entrevista que concedeu a Jones Rocha.

Cadernos de João é o que se pode considerar uma promessa tardia de Aníbal Machado, pois carrega, em pleno Terceiro Tempo Modernista, forte tempero da Primeira Fase do Modernismo. Tal se explica por seu autor ter participado intensamente da Semana de 22, inclusive alimentando-lhe no campo teórico, mas ter se guardado para o grande público.

Dessa forma, Aníbal Machado consegue casar inovação e maturidade. O primeiro aspecto revela-se pela busca de formas e temáticas novas, pelo toque surrealista de suas construções e pelo tom crepuscular, melancólico dos simbolistas do início do século XX. O segundo justifica-se pelo fato de o escritor ter demorado muito para ser editado, o que ocasionou seu encorpamento (há quem aponte na dilação ou atraso o motivo para uma possível pouca qualidade do escritor, já que, tanto tempo encubado, acabou gorando, tal a impressão de ele não estar apresentando nada de novo. No entanto, existem os que vêem aqui que esse clima de “falta de novidade” foi provocado por Aníbal Machado, seus textos e teorias serem por muito tempo comentados, falados. Quando os publicou, já se conhecia há muito suas capacidades e potencialidades).

Quando se menciona a herança simbolista do autor, é importante notar a principal contribuição que recebeu desse movimento literário: a prosa poética. A obra em questão utiliza pequenos fragmentos em sua imensa maioria em prosa, mas vazados de uma alta elaboração de linguagem e de lirismo, característica mais comum na poesia. Tal forma de composição é a que melhor cabe no escritor, pois lhe dá liberdade para a expressão das inúmeras vozes que povoam o seu imaginário de artista sensível (é interessante notar que essa idéia é semelhante a um dos seus textos, A Insurreição dos Internos, em que o eu-lírico confessa estar dominado por inúmeros eus internos, todos malignos, e que sua única saída seria fazê-los sair).

Temática

Busca do Novo – Perfeitamente encaixado no espírito da fase heróica do Modernismo, Aníbal Machado busca sempre escapar à rotina por meio de uma forma diferente, inusitada de enxergar a realidade. Veja como isso se revela no excerto abaixo:

Espaço

O pássaro agonizante põe pela boca os milhares de quilômetros que devorou pelos ares.

Note que muitas vezes, como acima, a novidade está apenas em enxergar o velho, o rotineiro de forma diferente, bastando uma simples inversão de óptica.

Considerações Filosóficas – Assumindo o posto de grande teórico do Modernismo, o autor derrama reflexões quase que doutrinárias, ou seja, com a preocupação de passar ensinamentos. É como ocorre abaixo:

Parece absurdo mas é compreensível que, no céu falso das vaidades endurecidas, o avanço de certas verdades tenha de ser protegido por um grupo de pequenas mentiras.

O melhor momento da flecha não é o de sua inserção no alvo, mas o da trajetória entre o arco e a chegada – passeio fremente.

Narrações – Alguns textos contam histórias plenas de emotividade, algumas até de dramaticidade. Aproximam-se muitas vezes das crônicas narrativas.

Descrições Poéticas – Ao contrário das descrições típicas, sua preocupação não é apenas caracterizar, tornar único o objeto descrito. Há também a intenção de tornar a linguagem ímpar. É o que se vê a seguir:

A CASA ROUCA

Ficara o galo, sobrevivência da ruína.

Rouco o seu canto. Canto que não parecia mais de galo, senão a própria voz da casa abandonada. Casa rachada ao sol, aluindo-se ao vento de chuva.

Não mais agora figuras humanas entrando; apenas lagartixas e morcegos para recepção às sombras.

Casa rouca submersa no matagal, teu galo ficou. E seu canto perdeu o timbre de sol, já não inaugura os dias. E se fez adequado aos estragos do reboco, à podridão das esquadrias – última secreção de pareces gemidas.

Galo rouco. Casa rouca.

O texto acima possui inúmeros exemplos de elaboração lingüística, mas o mais marcante é o que caminha para o cruzamento entre a idéia de casa e a de galo, a ponto de os dois possuírem o mesmo adjetivo, variando apenas o gênero: rouco / rouca. O silêncio de um equivale ao abandono e decadência da outra.

Retratos de Personagens ­ Em vários momentos, alguns com o mesmo título, pipocam descrições de figuras humanas. Vale aqui o que se observou em vários momentos desta análise: busca-se sempre o inusitado, o diferente, ou pelo menos um olhar novo sobre o velho.

Lições para a Vida – Vários textos de Cadernos de João passam ensinamentos para um viver melhor que implica a valorização de um estado de simplicidade da existência em contato com os prazeres esquecidos em nosso cotidiano urbano, burguês e pragmático. É o que se pode ver em O Banho das Cinco Esposas ou abaixo:

Consumimos o melhor tempo da vida a apalpar o terreno, reunir dados, instalar sondas, armar os aparelhos, ajuntar material. Tudo para começarmos a viver. Quando se aproxima o dia da prova – que dia? que prova? – nossas armas estão caducas, o celeiro apodrecido. Vem-nos então a revolta contra as extorsões do tempo; depois, a desconfiança de que fomos logrados.

E não nos conformamos em reconhecer que na longa prorrogação com que disfarçamos o nosso medo de viver estava a própria realização de nossa vida.

Viver é o mesmo que preparar-se para viver.

Metalinguagem – É uma constante na obra a análise sobre o ato de escrever, como se o escritor se voltasse sobre si mesmo ou se se enxergasse durante a sagrada ação da escritura. É o que percebemos no trecho a seguir:

Retira do teu poema as estridências do grito, se queres que ele tenha mais alcance e ressonância.

Note que sua postura, muitas vezes, é doutrinária, o que é justificável, já que se consagrou como um dos grandes teóricos do Modernismo.

Imagens Surrealistas – Constante em toda a obra, a técnica de associar caótica e desconexamente idéias e palavras é uma das marcas registradas de Aníbal Machado. O escritor parece estar liberando todo o seu inconsciente, possibilitando imagens que são fruto do delírio, do sonho, do onírico.

Epigramas – Seguindo o seu caráter doutrinário, o autor vaza em alguns momentos textos extremamente curtos, mas densos de reflexão. É o que acontece no exemplo abaixo.

O homem que ri liberta-se. O que faz rir esconde-se.

Teu inimigo de certo modo te pertence: é um dos teus aspectos.

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