Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte (Poema da obra Sentimento do mundo), de Carlos Drummond de Andrade

  • Data de publicação

Eu sou a Moa-Fantasma
que espera na Rua do Chumbo
o carro da madrugada.
Eu sou branca e longa e fria,
a minha carne um suspiro
na madrugada da serra.
Eu sou a Moa-Fantasma. O meu nome era Maria,
Maria-Que-Morreu-Antes.

Sou a vossa namorada
que morreu de apendicite,
no desastre de automvel
ou suicidou-se na praia
e seus cabelos ficaram
longos na vossa lembrana.
Eu nunca fui deste mundo:
Se beijava, minha boca
dizia de outros planetas
em que os amantes se queimam
num fogo casto e se tornam
estrelas, sem irnia.
Morri sem ter tido tempo
de ser vossa, como as outras.
No me conformo com isso,
e quando as polcias dormem
em mim e foi-a de mim,
meu espectro itinerante
desce a Serra do Curral,
vai olhando as casas novas,
ronda as hortas amorosas
(Rua Cludio Manuel da Costa),
pra no Abrigo Cear,
nao h abrigo. Um perfume
que no conheo me invade:

o cheiro do vosso sono
quente, doce, enrodilhado
nos braos das espanholas.
Oh! deixai-me dormir convosco.

E vai, como no encontro
nenhum dos meus namorados,
que as francesas conquistaram,
e cine beberam todo o usque
existente no Brasil
(agora dormem embriagados),
espreito os Carros que passam
com choferes que no suspeitam
de minha brancura e fogem.
Os tmidos guardas-civis,
coitados! um quis me prender.
Abri-lhe os braos... Incrdulo,
me apalpou. No tinha carne
e por cima do vestido
e por baixo do vestido
era a mesma ausncia branca,
um s desespero branco...
Podeis ver: o que era corpo
foi comido pelo gato.

As moas que ainda esto vivas
(ho de morrer, ficai certos)
tm medo que eu aparea
e lhes puxe a perna... Engano.
Eu fui moa, Serei moa
deserta, per omnia saecula.

No quero saber de moas.
Mas os moos me perturbam.
No sei como libertar-me.
Se o fantasma no sofresse,
se eles ainda me gostassem
e o espiritismo consentisse,
mas eu sei que proibido
vs sois carne, eu sou vapor.

Um vapor que se dissolve
quando o sol rompe na Serra.

Agora estou consolada,
disse tu do que queria,
subirei quela nuvem,
serei lmina gelada,
cintilarei sobre os homens.
Meu reflexo na piscina da Avenida Parana
(estrelas no se compreendem),
ningum o compreender.

Neste poema Drummond parte do que seria uma lenda urbana para abordar, na imagem metafrica do espectro noturno assombrado pela solido ps-morte, o seu isolamento e o de toda humanidade.

Assumindo a voz dramtica dessa alma que vaga pelas ruas da cidade mineira em busca da comunho amorosa desconhecida em vida, o gauche assume uma sutil mscara heternima, marcada pelo halo do fantstico, como se sua solido tambm fosse um espectro fantasmagrico a transitar pela desconcertada modernidade do mundo caduco.

A reflexo potica sobre a solido, tecida por Drummond nesse poema, mescla-se com o questionamento sobre o prprio sentido do existir e j guarda, de certa forma, um embrio do pessimismo metafsico que dominar sua escrita a partir de Claro Enigma.

O poeta-moa-fantasma se defronta diante de uma transcendncia vazia, pois a morte e a possvel vida espiritual no surgem como soluo para o enigma da existncia, com o reencontro com o Criador, porm como um intolervel castigo, a expiao de uma solido eterna, Oh! Deixai-me dormir convosco, distante das benesses gloriosas das promessas do paraso que imperam no imaginrio judaico-cristo.

Ultrapassar a fronteira da morte e encontrar a eternidade no propicia Moa-Fantasma a oniscincia sobre o sentido do existir, a comunho adiada com a humanidade, o contato amoroso desconhecido, mas a conscincia da incomunicabilidade plena de um ser ainda repleto de paixes irrealizadas.

Essa alma passa a desvelar o abandono eterno do gnero humano, excludo agora de sua substncia corprea, a transpassar corpos viventes plenos de vida e jamais conseguir com eles comungar.

Esse ser etreo, que se apresenta sensivelmente aos homens, no causa pavor ao poeta, mas apenas uma inquietante identificao.

Resgatando a dimenso simblica da escurido como elemento soturno, opressor, de erupo do medonho, o ambiente da noite ressurge na trajetria dessa apario das ruas desertas da provncia mineira.

Metfora da comunho adiada de Drummond com a humanidade, a Moa-Fantasma aquele ente que, apartado do mundo dos vivos, sofre por perder a dimenso humana de ser vivente que, nem em vida, nem na morte, consegue o encontro com o outro. Morri sem ter tido tempo / de ser vossa, como as outras.

Cano da Moa-Fantasma de Belo Horizonte uma alegoria de uma mundana-fantasma representando as vicissitudes da vida ingrata das mulheres de rua. A originalidade est na forma de representao e na forma potica feliz com que Drummond realizou o projeto alegrico. Com esse projeto, Drummond consegue mexer com o imaginrio popular e mundano sempre atento aos percursos do amores marginais ou clandestinos. O espectro da moa-fantasma assume a narrativa em primeira pessoa numa inteno de apresentar uma mensagem necessria como se fosse uma purgao: Agora estou consolada, disse tudo que queria, subirei quela nuvem, serei lmina gelada.

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