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Cantares, de Hilda Hilst


Cantares, de Hilda Hilst, obra composta pela reunião de dois livros: Cantares de perda e predileção (1983) com setenta poemas e Cantares do sem nome e de partidas (1995), com dez. Apesar de o título dessa obra suscitar uma remissão ao livro bíblico, Cântico dos Cânticos, (atribuído ao rei Salomão) a poeta, alinhavada com as coordenadas da Pós-Modernidade, dessacracraliza o sagrado para celebrar o profano.

O conjunto permite ver, com nitidez, o emprego pessoal que a autora faz da forma dos cantares, que se define, nela, não como celebração sensual das núpcias dos amantes, mas como canto de despojos de uma guerra vital, ainda amorosa, mas precocemente perdida.

Obras breves, ambas constituem um dos instantes mais densos do lirismo hilstiano, que aqui revisita o tema do amor, dentro da melhor tradição da língua portuguesa. E apesar de terem sido escritos em épocas diferentes, os poemas de Cantares estruturam-se sob uma temática comum que aborda a natureza contraditória das realções amorosas. É um livro em que a amargura e o ressentimento predominam, construindo-se sobre a idéia de que o amor faz sofrer.

Barcas
Carregando a vida
Descendo as águas.
Passam pesadas
Distantes do poeta e de sua caminhada
.

Em Cantares do sem nome e de partidas Hilda retoma um caminho meditativo. São dez poemas curtos que se encadeiam, formando núcleos que adquirem uma quase autonomia, mas cujo sentido maior se dá na relação que mantêm entre si. Seu efeito mais imediato é o da comoção: ele absorve o leitor desde os primeiros versos num fluxo de pulsões de onde não se sai incólume. Nos deparamos com o drama do amor que se sabe não-perene. Rompida a imagem idílica do amor, caímos na problemática da vida e morte, encontro e partida, amor e dor. Pois a despedida é inerente ao amor. Cantares do sem nome e de partidas atenua aquele tom amargo, furioso e vingativo, para se construir como uma espécie de descontentamento, como interdição, como forma lúcida de descobrir desmerecimento no amor.

Em Cantares de perda e predileção, segunda parte do livro, a poesia de Hilda alterna temas amorosos e belicosos, numa demonstração de que o amor, em sua plenitude, é contraditório e conflitante. Daí que uma de suas expressões-chave seja “ódio-amor”, através da qual a poeta universaliza os sentimentos de liberdade e aprisionamento, alegria e tristeza, certeza e incerteza sobre os quais, do ponto de vista adotado no livro, toda situação amorosa é construída.

Cantares de perda e predileção, LXVII

Vida da minha alma:
Um dia nossas sombras
Serão lagos, águas
Beirando antiqüíssimos telhados.
De argila e luz
Fosforescentes, magos,
Um tempo no depois
Seremos um só corpo adolescente.
Eu estarei em ti
Transfixiada. Em mim
Teu corpo. Duas almas
Nômades, perenes
Texturadas de mútua sedução.

Cantares do Sem Nome e de Partidas, I

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.

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