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Casa Tomada, de Julio Cortázar

  • Data de publicação

Casa Tomada, de Julio Cortázar, é um conto escrito em 1946, primeiramente publicado na revista Anales de Buenos Aires por Jorge Luis Borges, e depois compilado com outros contos do autor no livro Bestiário, de 1951. Foi inspirado no conto A queda da casa de Usher, de Edgar Allan Poe. Cortázar consegue dar uma nova roupagem ao seu texto, trazendo outras possibilidades de interpretação e entendimento do conto. Casa Tomada é um modelo de conto do realismo fantástico, tão tradicional na literatura latino-americana no século XX e que tem em outro argentino, Jorge Luis Borges, o seu maior expoente.

O fantástico do conto pode ser considerado como as forças estranhas que invadem a casa e forçam a saída dos irmãos. Mas também pode-se afirmar que o fantástico vai sendo construído através do percurso do conto por meio de uma sintaxe particular que articula as suas partes.

O enredo é relativamente simples: o narrador e sua irmã, Irene, imersos na trivialidade da realidade cotidiana, têm a casa onde residem tomada. Tomada pelo que? Não se sabe. Forças ocultas, entidades insondáveis, forças irracionais. Entretanto, Cortázar se utiliza neste conto de um recurso metafórico clássico: a realidade objetiva da casa como representação da realidade subjetiva dos personagens.

O conto inicia-se a partir da descrição da casa na qual o cotidiano, a tradição, a rotina, a estabilidade e a noção de espaço amplo são colocados. A idéia de um tempo eterno que vem do passado e prolonga-se a um futuro que vai além dos irmãos (até primos distantes) é inicialmente desenhado. Porém, nesse relato de aparente serenidade, é colocada uma primeira suspeita: a casa poderia ter impedido o casamento dos irmãos, a casa os unia. Após a descrição da casa, o narrador começa a falar de Irene (a irmã) e sua atividade: o tricô. Ela faz isso como qualquer outra mulher:

"...yo creo que las mujeres tejen cuando han encontrado en esa labor el granpretexto para no hacer nada". (Cortázar,1997, p. 107)

E Irene, assim como as outras mulheres, tricotava coisas necessárias: chales, meias, coletes etc.

Casa Tomada gira em torno de duas histórias. De um lado, conta a convivência de dois irmãos que habitam a mesma casa, de posse da família há anos. Assim, por meio da narração dos seus hábitos e costumes, vai sendo desvelada a maneira como eles vivem e o modo como interagem. De outro lado, o que move o conto é a relação de ambos com a casa e, fatalmente, com a presença anônima que vai aos poucos tomando conta do lugar.

Para uma maior compreensão desse conto, seguem algumas escolhas do autor na sua confecção: o tempo cronológico é baseado em sumários, ou seja, a história é narrada com pouca presença de descrição de cenas para dar a idéia de um tempo desperdiçado pelos personagens e a aparente despreocupação do narrador – o irmão – com o andar dos acontecimentos; aliás, a onisciência seletiva dada ao irmão é outro ponto fundamental para dar a idéia de alienação do próprio enredo.

É transmitida ao leitor uma desconfiança sobre os pensamentos do narrador, que se apresenta ao leitor de maneira humilde e tranqüila, disfarçando sua visão egocêntrica. A irmã, Irene, é descrita por ele complativamente. Não se vê em nenhum momento do conto o que Irene pensa a respeito da casa, dele e dos fatos que acabam se sucedendo, sendo sua personalidade totalmente filtrada pela lógica do narrador, às vezes extremamente contraditória. É inegável também perceber o quanto a personalidade de um acaba complementando a do outro, levando à idéia do duplo, uma dicotomia extremamente utilizada no conto moderno.

Nesse conto, nota-se a clara análise psicológica do homem quanto ao seu desejo de fuga do desconhecido e a busca da acomodação frente às intempéries. Pode ser feita também uma leitura no contexto histórico-social: a época da ditadura de Perón e a caça às bruxas – a qual Cortázar sofreu e o levou a se exilar em Paris – do socialismo. Nessa visão, o clima asfixiante e a fuga sem solução causada pelo inimigo onipresente dão o tom da realidade vivida na época na Argentina.

Como já citado, em Casa Tomada tem-se logo no início, a casa – pertencente ao narrador em primeira pessoa e a Irene, sua irmã – e é apresentada como índice da memória:

Gostávamos da casa porque (...) guardava as recordações de nossos bisavós, o avô paterno, nossos pais e toda a infância. (Cortázar, 1986, p.11).

Pode-se dizer que a casa do conto de Cortázar constitui-se como um repositório de lembranças, inacessíveis ou esfumadas e vagas. A casa adquire o status de um personagem, assim como Irene e o narrador. Isso pode ser comprovado a partir de alguns exemplos:

Às vezes, chegamos a pensar que foi ela [a casa] que não nos deixou casar. (Cortázar, 1986, p 11).

É da casa, porém, que me interessa falar, da casa e de Irene, porque eu não tenho importância. (Cortázar, 1986, p.12).

A casa parece decidir o destino dos personagens, já que conseguiu impedir o casamento de seus habitantes, além de ser o assunto de interesse do narrador e de sua irmã. Como pode ser notado, em Casa Tomada também tem-se a presença de um casal de irmãos e indícios de uma relação incestuosa. Nas palavras do
narrador:

(...) simples e silencioso matrimônio de irmãos (...) (Cortázar, 1986, p.11).

Apesar de ser uma grande casa, os irmãos preferem viver sós e isolados:

Habituamo-nos, Irene e eu, a permanecer nela sozinhos, o que era uma loucura, pois nessa casa podiam viver oito pessoas sem se molestarem. (Cortázar, 1986, p.11).

O leitor pode fazer suas suposições a respeito do motivo que levou os personagens a tal isolamento. Uma das hipóteses que se pode salientar está relacionada ao medo de expor uma vida tão reservada a terceiros, o receio de que alguém descubra o “silencioso matrimônio”, que deveria continuar sendo mantido em silêncio. Mas não é só o medo de que alguém venha a saber da verdade. É um medo que os próprios personagens possuem por ter de assumir uma verdade com a qual nem eles mesmos sabem como lidar. Sendo assim, é melhor deixar tudo quieto como está.

Um outro ponto interessante que chama a atenção diz respeito à questão da “limpeza”, presente em diversas passagens do conto. Os personagens de Casa Tomada têm uma excessiva preocupação com a limpeza:

Fazíamos a limpeza pela manhã (...) (Cortázar, 1986, p.11).

(...) quase nunca íamos além da porta de carvalho, salvo para fazer a limpeza (...) (Cortázar, 1986, p.14).

A limpeza ficou tão simplificada que mesmo nos levantando muito tarde, às nove e meia por exemplo, não eram onze e já estávamos de braços cruzados. (Cortázar, 1986, p.15).

Sobre esse assunto, cabe mencionar olimpo significaria puro, sem mancha, sem mácula. A mitologia cristã, cumpre assinalar, aproveita bem tal relação para criar preceito oposto ao pecado. Sendo assim, a grande preocupação com a limpeza da casa pode ser vista como uma tentativa de compensar uma sujeira invisível, escondida, que não pode ser enxergada, mas que está presente e faz parte da vida dos personagens. Pode-se pensar que os personagens agem com o intuito de se livrar de alguma culpa por erros cometidos. E o incesto pode ser um dos motivos dessa culpa. A poeira da casa, a sujeira física causa um mal-estar aos personagens porque faz com que eles se lembrem da mácula incutida em suas almas. Ao limpar sua morada, têm a ilusão de que estão se purificando. Mas essa
purificação não atinge a essência do sujeito, limitando-se apenas à superfície.

A partir de um determinado momento da história, a casa começa a ser invadida por ruídos, por sons inexplicados. Ao ouvir os sons que se propagavam, a reação do narrador é a seguinte:

Atirei-me contra a porta antes que fosse demasiado tarde, fechei-a violentamente, apoiando meu corpo; felizmente a chave estava do nosso lado e, além disso, passei nessa porta o grande ferrolho para maior segurança. (Cortázar, 1986, p.14).

O mais interessante é que em nenhum momento os personagens se preocupam em verificar a causa dos ruídos. Eles, simplesmente, se abrigam numa parte da casa. A casa passa, então, a ser separada pela grande e pesada porta de carvalho. Aliás, o narrador ressalta que, antes da invasão dos sons:

Irene e eu vivíamos sempre nesta parte da casa, quase nunca íamos além da porta de carvalho (...) (Cortázar, 1986, p.13-14).

A porta de carvalho separa dois mundos, duas instâncias distintas. Por algum motivo, os personagens não freqüentavam muito o outro lado da casa e, quando este lado é tomado, procuram adaptar-se às suas novas limitações. De forma alguma eles tentam reaver o que lhes foi tomado. Mais tarde, o narrador percebe novos ruídos, “notando claramente que eram deste lado da porta de carvalho, na cozinha e no banheiro, ou mesmo no corredor, onde começava o cotovelo quase ao nosso lado” (Cortázar, 1986, p.17). Então, “apertei o braço de Irene e a fiz correr comigo até a porta, sem olhar para trás” (Cortázar, 1986, p.17).

Em primeiro lugar, pode-se interpretar os ruídos que invadiram a casa como o afloramento incontrolável do inconsciente, como a pulsação do passado, um passado que tinha a necessidade de se manifestar, de se revelar, mas que é mantido recalcado. Por outro lado, os personagens revelam toda a sua negação, todo o seu medo de encarar as lembranças e reminiscências. Eles nem sequer procuram saber o que significam os ruídos que tomam a casa, apenas tentam ignorá-los. O problema surge quando os ruídos – as lembranças, as memórias – ultrapassam a porta de carvalho que os mantinha temporariamente afastados. Os ecos do passado são mais fortes que o desejo de mantê-los distantes e, assim, nem a pesada e maciça porta de carvalho consegue conter a manifestação impetuosa do inconsciente. Quando o narrador foge com sua irmã “sem olhar para trás”, e ao concluir que “Pode-se viver sem pensar” (p.16), tem-se mais algumas indicações da negação que os dois se impõem. Casa Tomada não significa só angústia e perda, mas também o preço imposto ao indivíduo que recusa sua história (pessoal e social)

À medida que os ruídos vão aumentando e ocupando novos espaços, a casa vai-se tornando cada vez mais opressiva e sufocante para os personagens. Em A queda da casa de Usher, como já mencionamos, a atmosfera não é menos desagradável. Neste conto de Cortázar, o clima opressivo se constitui aos poucos, causando pequenas alterações nas atitudes dos personagens, que visam a uma adaptação, a uma tentativa de se livrar da sufocação ou, pelo menos, de tentar manter o clima opressor sob controle, fechando portas e mantendo-se distantes. Pode-se verificar que a reação dos personagens de Casa Tomada funciona apenas como um paliativo, pois, a certa altura, eles não conseguem mais controlar os ruídos que tomam conta da casa.

Em Casa Tomada os personagens continuam tentando fugir do passado que os persegue, continuam negando sua história. A casa, que normalmente se caracteriza como um ambiente familiar e aconchegante, acaba tornando-se “um ‘território-surpresa’, de dupla face, onde se estabelece um jogo entre o familiar e o estranho, a rotina prosaica e a inesperada ruptura.

Fonte: José Henrique da Silva Prado, Aluno do Programa de Pós-Graduação do Mestrado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

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