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Cinzas da paixão e outras estórias, de Maria Aparecida Rodrigues


Cinzas da paixão e outras estórias, de Maria Aparecida Rodrigues, é um livro de contos, que se colocam em várias direções ideológicas, filosóficas e estilísticas.

Há narrativas, como “Um apólogo moderno”, em que se revela o tom metalinguístico, com os diálogos entre a mulher de papel e a mulher de imagem se alternando, como se elas fossem insignificantes, em decorrência de suas condições imaginárias. Todavia, este jogo – e todo discurso artístico possui um caráter lúdico – esconde um tônus existencial profundo, à medida que as personagens, sem nome, manifestam os seus limites, próprios da condição humana. A ausência do nome não somente indetermina o ser das personagens, mas revela ainda uma espécie de constância do existir, uma vez que a maioria dos humanos vive em circunstâncias idênticas. Na verdade, a despeito de elas dialogarem – e o diálogo deveria revelar a essência do ser –, permanecem em estado de ente, de objeto perante os olhos.

Enquanto em “Um apólogo moderno” a miserabilidade humana é materializada em linguagem de forma lúdica, no conto “Tocaia”, explora-se o lado monstruoso do homem, marcado por aquela maldade típica do humano, que Brasigóis perscruta em seu “Memorial do medo”. Sabiamente, a autora coloca os fatos narrados na fala do próprio assassino – narrador de primeira pessoa –, fazendo com que os acontecimentos pensados e executados friamente se revistam de maior crueldade, à medida que transforma o homicídio em ato e, não, em ação, como ocorre na maioria das narrativas de enigma. Não é sem razão, portanto, que o assassino combina um novo serviço, provando que a maldade se transformou em uma rotina existencial e, em consequência, a vida perde sua importância.

Uma outra direção ideológica pode ser percebida no conto “Caixa dois”, em que se colocam as dificuldades financeiras do narrador, a fim de sobreviver, e as facilidades de outros, que se enriquecem rápida e inexplicavelmente. A postura da narrativa leva à discussão das necessidades materiais, também imprescindíveis à realização do humano, desde que conjugadas com a visão de uma viagem permanente ao interior de si mesmo. A sobrevivência é necessária à alimentação do corpo, para que ele possa construir o seu monumento do espírito, do ser, no seu mais profundo sentido ontológico.

O livro se compõe de narrativas que examinam os vários sentidos da existência humana, inclusive sua composição psicológica, pautada por desejos que caminham desde a sexualidade, muito bem trabalhada na ambigüidade das palavras, como o seu lado sociológico, objetivado pela convivência ou desavença entre os seres. A desavença resulta de atitudes em que entram os limites da condição humana, que o catolicismo coloca nos sete pecados capitais.

Créditos: José Fernandes, membro da Academia Goiana de Letras

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