Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles

  • Data de publicação

Ciranda de Pedra, primeiro romance de Lygia Fagundes Telles, datado de 1954, reproduz o comportamento humano e seus relacionamentos. Isso é feito a partir de Virgínia, a protagonista, que vive uma complexa situação familiar e tenta ultrapassar as limitações sociais de um mundo masculino e busca uma identidade que defina um ser completo. Mais que apenas uma afirmação da condição feminina, da procura por independência e autosuficiência, o que a autora produz é uma reflexão sobre a própria condição humana, sobre a impossibilidade de se participar na ciranda de pedra.

Em Ciranda de Pedra vivencia-se a desestruturação de uma família burguesa e a dissolução dos costumes. Laura, mãe de Virgínia, a protagonista, comete adultério contra um marido que lhe dava pouca ou nenhuma atenção, abandona um casamento infeliz mas, ao ter a coragem de romper com a ordem estabelecida, acaba tendo de sofrer as conseqüências. Fica sem duas de suas filhas e ainda tem de arcar com o castigo divino, a loucura. “Nossa mãe está pagando por um erro terrível, será que você não percebe? Abandonou o marido, as filhas, abandonou tudo e foi viver com outro homem. Esqueceu-se dos seus deveres, enxovalhou a honra da família, caiu em pecado mortal!

Enredo

Virgínia é filha de um casal separado: Laura e Natércio. Sua infância é marcada pela tristeza e solidão. Quando da separação, Laura foi viver em casa de Daniel, seu antigo médico, levando consigo Virgínia. Em casa de Daniel, Laura conta com Luciana, empregada antiga e dedicada, para os cuidados tanto do dia-a-dia doméstico, quanto para com Virgínia, que é ainda muito jovem. Luciana exerce grande influência no espírito da menina. Laura, já muito doente, tem seu estado de saúde agravado, apesar de todos os cuidados e desvelo que Daniel concede a ela, inclusive recorrendo a todos os seus recursos financeiros para as despesas de saúde que exigem o estado de sua querida paciente. Sendo assim, a infância de Virgínia é marcada por grandes dificuldades: de um lado, as financeiras que não permitem à menina realizar pequenos desejos e sonhos (trocar a mobília por exemplo), posto que todos os recursos de Daniel são voltados principalmente para os cuidados com sua mãe; de outro lado, a solidão em que vive e o profundo sentimento de rejeição pois ela não se sente aceita sequer na casa de Natércio por ocasião das visitas semanais que lhe faz.

Estes sentimentos e conflitos nos são apresentados quando vamos conhecendo detalhes como o fato de Virgínia possuir duas irmãs, Bruna e Otávia que vivem em companhia do pai, Natércio, advogado conceituado que desfruta de bons recursos econômicos, conseqüentemente vivendo estas últimas em condições (econômicas) mais confortáveis que Virgínia (que, entre outras coisas, usa roupas reformadas da mãe, ou das irmãs, bem como os móveis de seu quarto, que são "sobras" do quarto reformado de Otávia). Seu sofrimento e amargura se afloram tanto mais quando de suas visitas à casa de Natércio, muito grande e bonita, com vasto jardim onde existe uma ciranda de anões de pedra com uma fonte, local que ela costuma com freqüência visitar. Mas, apesar da ciranda de anões que ela ama, Virgínia sente-se muito desconfortável na presença das irmãs que a hostilizam e nas quais ela só vê qualidades, enquanto que ela, Virgínia, ao seu modo de ver, só tem defeitos. Sente-se desconfortável também por não conseguir de Natércio, gestos de carinho e afeto de que ela tanto necessita e que ele não oferece, posto que é um homem muito convencional e severo. Angústia e solidão. São estes os sentimentos que Virgínia conhece quer na casa de Natércio quer na casa de Daniel. Nesta última, a menina não pode sequer aproximar-se da mãe pois esta tem raros momentos de lucidez e encontra-se em estado físico e mental bastante precários.

Distante também é seu relacionamento com Daniel, com quem até hesita em alguns momentos, entre o desejo de ter alguma atitude mais afetuosa, porém recuando sempre, na dúvida de como seria recebido seu gesto. O sonho de Virgínia, nessa época, se resume entre o desejo de ir morar com o pai e as irmãs, e, o que seria a realização máxima, a recuperação de sua mãe com o conseqüente retorno das duas para aquela casa e a família novamente reunida. Porém, o estado de saúde de Laura se agrava, fazendo com que Virgínia realize parte de seu sonho: ela volta a morar naquela casa, passando a conviver com as irmãs, Bruna e Otávia, com Fraulein Herta (a governanta), e os amigos Conrado (por que é apaixonada), Letícia (irmã de Conrado) e Afonso. No momento em que Virgínia volta a morar naquela casa, ela se dá conta de que aquele ambiente familiar com o qual ela sonhava, era uma ilusão. Sentindo-se rejeitada pelas irmãs que criticam a mãe por ter-se separado do pai, e sem receber de Natércio o afeto, apoio e carinho que esperava, a menina percebe que não há lugar para ela nesse fechado círculo. Compara a ciranda de anões de pedra do jardim, que era sua paixão, com o grupo tão fechado formado por Bruna, Otávia, Afonso, Letícia e Conrado.

É nesse conflito de sensações que, duas semanas após a sua chegada àquela casa, Virgínia recebe a notícia da morte da mãe, seguida do suicídio de Daniel. É também nessa circunstância que Luciana (que era apaixonada por Daniel), num momento de profunda dor, revela à menina, durante uma visita, que Daniel era seu verdadeiro pai. Sente-se, então, mais sozinha do que nunca e, dando-se conta que jamais seria aceita no grupo, da maneira que desejava, pede a Natércio que a interne no colégio, pedido este que é por ele aceito.

A segunda parte do romance tem início com uma Virgínia já adulta deixando o colégio e voltando para a casa de Natércio. Acreditando que já havia superado todas as suas angústias chega àquela casa, mas não demora a perceber que o grupo continua fechado: uma ciranda de pedra mais rígida que nunca. Bruna, ainda mais moralista, havia se casado com Afonso. Otávia, alienada, dedicava-se à pintura e a alguns amantes ocasionais. Natércio, envelhecido, já não trabalhava mais. Frau Herta estava doente, só e abandonada em um cômodo sujo e pobre de um bairro afastado. Letícia, agora, dedicava-se ao esporte: uma tenista premiada e que se interessava apenas por mulheres. Por fim, Conrado, seu grande amor de infância, amor que ardia ainda em seu coração, vivia isolado, recuado, com sérios problemas sexuais. O retorno de Virgínia ao convívio com o círculo familiar reabriram-lhe as antigas feridas. Mas é neste momento também que ela percebe a real face de cada componente da ciranda, suas fraquezas, suas amarguras. Cada máscara se rompe. Ela se dá conta do que, na verdade, se escondia por trás daquela hostilidade e rejeição: ela era desejada por todos ao mesmo tempo e, por isso, temida. Aos poucos, então, vai-se apresentando uma Virgínia mais amadurecida e forte, independente e segura. Ela abandona, por fim, as tentativas de sua entrada nesse círculo fechado, decidindo-se por uma longa viagem, sem perspectiva de volta. Não mais a ciranda de pedra, não mais o desejado jardim, não mais os sonhos. Nem mesmo Conrado. Tudo havia ficado no passado. Mas, como uma rocha, em suas lembranças estaria gravado. "...um dia, um besouro caiu de costas. E besouro que cai de costas não se levanta nunca mais".

Trecho escolhido

Virgínia subiu precipitadamente a escada e trancou-se no quarto.

- Abre, menina - ordenou Luciana do lado de fora.

Virgínia encostou-se à parede e pôs-se a roer as unhas, seguindo com o olhar uma formiguinha que subia pelo batente da porta. “Se entrar aí nessa fresta, você morre!” - sussurrou soprando-a para o chão. “Eu te salvo, bobinha, não tenha medo”, disse em voz alta. E afastou-a com o indicador. Nesse instante fixou o olhar na unha roída até a carne. Pensou nas unhas de Otávia. E esmagou a formiga.

- Virgínia, eu não estou brincando, menina. Abre logo, anda!

- Agora não posso.

- Não pode por quê?

- Estou fazendo uma coisa... - respondeu evasivamente. Pensava em Conrado a lhe explicar que os bichos são como gente, têm alma de gente e que matar um bichinho era o mesmo que matar uma pessoa: “Se você for má e começar a matar só por gosto, na outra vida você será bicho também, mas um desses bichos horríveis, cobra, rato, aranha...” Deitou-se no assoalho e começou a se espojar angustiosamente, avançando de rastros até o meio do quarto.

- Ou você abre ou conto para o seu tio. É isto que você quer, é isto?

Virgínia imobilizou-se. Ser cobra machucava os cotovelos, melhor ser borboleta. Mas quem ia ser borboleta decerto era Otávia, que era linda. “E eu sou feia, e ruim, ruim, ruim!” - exclamou dando murros no chão. Ergueu a cabeça num desafio:

- Pode contar tudo, tio Daniel não me manda, quem manda em mim é meu pai, ouviu? Meu pai.

Luciana não respondeu e Virgínia levantou-se tomada de um súbito pavor. Falara alto demais. Teria a mãe ouvido? Pôs-se a enrolar no dedo uma ponta da franja. “Não, não ouviu e se ouviu não entendeu.” Abriu a porta e, assim que a empregada entrou, sondou-lhe a fisionomia. Tranqüilizou-se. “Só se zanga mesmo quando eu falo naquilo.” Riu baixinho.

- Onde está a outra? - perguntou Luciana erguendo do chão uma presilha.

- Perdi.

- Então você vai de fita.

- Não, de fita, não! Meu cabelo é liso demais, fica tão feio...
- Então vai sem nada - disse Luciana com indiferença. Dirigiu-se à cômoda, que tinha um tom rosa encardido, e puxou a gaveta. Estava emperrada. Puxou-a com mais força.
- Dá um pontapé que ela abre logo.

- É um bom sistema esse. Assim, quando se arrebentar tudo, você guarda sua roupa no chão. - Tirou da gaveta um par de meias brancas. - Quando estes móveis vieram de lá, ainda eram novos.

- Mentira - disse Virgínia em voz baixa. Falava com cuidado para que a mãe não ouvisse lá embaixo. - Bruna já me deu tudo assim mesmo. O pai deu mobília nova pra ela e então ela me deu estes. Tio Daniel disse uma vez que ia me dar uma mobília azul e não me deu nada.

- Ele tem mais em que gastar.

- É, mas ele disse que ia me dar uma mobília e não deu nada. Bruna disse que ele tem obrigação de dar tudo pra minha mãe e pra mim. E Bruna sabe.

- É pouco o que ele dá, não?

- Não quero saber, só sei que ele ia me dar uma mobília azul e não deu nada.

Luciana abriu o armário, tirou de dentro um vestido e afrouxou-lhe o laço da cintura. Seus movimentos não tinham a menor pressa. “Assim de costas parece branca”, concluiu Virgínia fixando o olhar enviesado nos cabelos da moça. Eram lustrosos e ligeiramente ondulados, presos na nuca por uma fivela. Na fivela estava pintada uma borboleta vermelha. Lembrou-se então da formiga e instintivamente olhou para as próprias mãos. As mãos de Conrado eram mãos de príncipe. Jamais aqueles dedos esmagariam qualquer coisa.

- Escute, Luciana, você acha mesmo que se a gente é ruim nesta vida, numa outra vida a gente nasce bicho? Tenho medo de nascer cobra.

- Você já é cobra - disse Luciana com brandura.

- E você é mulata - retorquiu Virgínia no mesmo tom. - E gosta dele, por isso faz tudo para parecer branca.

- Ele quem? Ele quem? - repetiu Luciana. Tinha uma expressão zombeteira e seu tom de voz era suave. Mas havia qualquer coisa de dilacerado sob aquela suavidade.

- Ninguém, eu estava brincando.

Deixou-se vestir passivamente. Adiantara-se muito, adiantara-se demais. “Agora ela sabe que eu sei.” Cravou em Luciana o olhar aflito. A fisionomia da moça continuava impassível. “Ela finge que não se importa mas está com vontade de me esganar.” Quando sentiu no pescoço seus dedos frios abotoando-lhe a gola, teve um arrepio misturado a uma estranha sensação de gozo. Viu-se morta, com a grinalda da sua primeira comunhão. Trazidas por Frau Herta, vestidas de preto, chegavam Bruna e Otávia debulhadas em pranto: “Nós te desprezamos tanto e agora você está morta!” Aos pés do caixão, quase desfalecido de tanto chorar, o pai lamentava-se: “Era a minha filhinha predileta, a caçula, a mais linda das três!...” Muito pálido dentro da roupa escura, Conrado apareceu com um ramo de lírios: ‘Ia me casar com ela quando crescesse.’ Alguém se aproximou de Frau Herta: ‘Mas, e onde está Daniel, por que não veio ao enterro?’ E Frau Herta em voz bem alta, para quem quisesse ouvir: “Ele fugiu com Luciana, fugiram os dois, a estas horas estão se divertindo juntos, rindo e cantando era uma vez duas ninfas que moravam num bosque...”

Grossas lágrimas correram dos olhos de Virgínia. Como ele tivera coragem de fugir deixando-a ali, morta? Tapou a boca para conter os soluços. E cantar a Balada das Duas Ninfas, justamente a balada que a mãe gostava tanto de ouvir!...

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