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Como e porque sou romancista, de José de Alencar


Como e Porque Sou Romancista, escrito em 1873 e publicado postumamente em 1893, é a autobiografia intelectual de José de Alencar, importante para o conhecimento de sua personalidade e dos alicerces de sua formação literária.

É um autêntico roteiro de teoria literária, o qual, reunido a outros ensaios, pode bem constituir um corpo de doutrina estética literária, que o norteou em sua obra de criação propriamente dita, sobretudo no romance.

O autor enfatizou, em sua formação escolar, a importância dada à leitura, com a correção, nobreza, eloqüência e alma que o mestre Januário Mateus Ferreira sabia transmitir a seus alunos. Ainda menino, como ledor dos serões da família, teve oportunidade de contínuo e repetido contacto com um escasso repertório de romances, cujos esquemas iam ficando gravados em seu espírito. Alencar ainda conta que ainda com pouca idade, comovia familiares e amigos com suas leituras em voz alta; sentavam todos à sua volta para ouvi-las.

Já cursando a Faculdade de direito, em São Paulo, com grande esforço, dominou o idioma francês para ler obras de Balzac, Dumas, Vigny, Chateaubriand e Victor Hugo:

A escola francesa, que eu então estudava nesses mestres da moderna literatura, achava-me preparado para ela. O molde do romance, qual mo havia revelado pôr mera casualidade aquele arrojo de criança a tecer uma novela com os fios de uma ventura real, fui encontra-lo fundido com, a elegância e beleza que jamais lhe poderia dar.

À influência das leituras na sua formação de escritor, sobrepôs Alencar o valor da imaginação: Mas não tivera eu herdado de minha santa mãe a imaginação de que o mundo apenas vê flores, desbotadas embora, e de que eu sinto a chama incessante, que essa leitura de novelas mal teria feito de mim um mecânico literário, desses que escrevem presepes em vez de romances.

Em Como e porque sou romancista, Alencar diz que a sua primeira aproximação com as letras deu-se por meio das charadas, que lhe teriam alimentado o "dom de produzir a faculdade criadora". Ainda na adolescência tentou um poema heróico sobre a Confederação do Equador e um romance histórico, Os contrabandistas.

Alencar, neste texto claro e absorvente, vai dispersando por entre suas reminiscências de infância, juventude e maturidade os elementos que fariam de sua obra algo original no panorama da literatura brasileira do Segundo Império, e prenunciaria o surgimento do magistral Machado de Assis.

Com os "olhos da saudade", e às vezes da mágoa, pouco a pouco nos vai esclarecendo o seu fazer literário. Acompanhamos o menino, em sua função de "ledor" familiar (registro importante para uma História da Leitura), suas primeiras experiências com a forma folhetinesca, e, finalmente, já na adolescência, o necessário contato com autores franceses, ingleses e americanos, que lhe apurariam o arcabouço da forma romanesca.

Cabe aqui salientar que Alencar estabelece uma diferença sensível entre "modelo" e "imitação". Deixa-nos claro que "modelo" nada mais é que a forma do romance ainda jovem e em constante mutação; porém adotada em toda a literatura ocidental. Assim, o romance brasileiro nada teria de imitação, pois adquiria características próprias, de acordo com o contexto do autor.

Evidentemente, imitação houve, durante o período romântico; mas Alencar escreve de si e por si. Assim, vale a pena uma leitura atenta, em especial para compreendermos o surgimento de uma obra magnífica, tal como Iracema, em sua linguagem inovadora, e mesmo textos pouco estudados, tais como O Garatuja, Minas de Prata e A Guerra dos Mascates, com seu humor ácido.

Também a geração Ultra-Romântica recebe dele alguma atenção, quando nos narra sua passagem pela Academia de São Paulo, com destaque para a circulação dos livros, autores mais lidos e a formação de um núcleo de escritores que marcariam um dos períodos mais criativos do século XIX. Merecem um estudo mais cuidadoso aqueles nomes citados que hoje caíram no esquecimento. Uma pesquisa cuidadosa poderia nos indicar os critérios de valor e de legitimação típicos da época; além de nos fornecer farto material para compreendermos melhor a formação do cânone brasileiro.

Bastante sombrias são as memórias da maturidade, em que percebemos as dificuldades que os romances, e os romancistas, ainda encontravam para se afirmar enquanto escritores; as questões financeiras que envolviam a publicação de um livro; o comércio abusivo e a baixa remuneração dos autores. Descontadas as diferenças entre o incipiente mercado editorial de então, frente à sofisticação atual, talvez possamos dizer que, neste aspecto, pouco se inovou no Brasil, desde então.

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