Corda bamba, de Lygia Bojunga nunes

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Este livro, Corda bamba, inicia uma nova fase da criao artstica de Lygia Bojunga Nunes, em que, abandonando o campo do maravilhoso, o espao imaginrio passa a ser ocupado somente pelo humano, e as obras tornam-se mais realistas.

A narrativa a histria da viagem de Maria para dentro de si mesma. Filha de equilibristas e ela mesma artista de circo, assistiu morte de seus pais durante um espetculo e desde ento tem na Mulher Barbuda e Foguinho (o engolidor de fogo), seus companheiros e amigos, a segurana de que necessita. A av, mulher rica e dominadora, para quem o dinheiro compra tudo, decide cuidar de sua educao. Em casa dela, Maria encontra todas as coisas de que precisa, exceto a principal: amor, compreenso. Sentindo-se presa e reprimida, Maria comea a investigar o seu eu interior.

Estrutura

O livro estruturado em doze captulos pequenos, cujos ttulos funcionam como snteses do contedo a ser abordado. A obra est construda sobre um duplo ponto de vista, a impotncia e o processo de liberao da criana, e anuncia, na prpria diviso estrutural dos captulos a inteno de manter-se em equilbrio no interior dos espaos propostos: a impotncia permeia seis dos doze captulos do texto (1, 2, 3, 6, 9, 10), enquanto que a luta pela liberao transparece nos seis captulos restantes (4, 5, 7, 8, 11, 12). A situao de impotncia percebida por meio da submisso que Maria sofre na casa de sua av, na aula particular, em face do sistema autoritrio, hostil e insensvel. Mrcia, Marcelo, Foguinho e Barbuda so personagens rebeldes ao sistema, por isso marginalizadas. Essas personagens so exploradas materialmente, como a Velha da Histria, mostrando-se impotentes tambm diante do mundo adulto autoritrio.

A estrutura da narrativa organizada numa narrativa-base e em encaixes com outras narrativas que vo se cruzando. A histria narrada em ordem cronolgica, com analepse dos episdios do passado rememorados e com prolepse dos desejos e planos futuros. H a histria da Maria, narrativa principal, e a ela, conforme vo surgindo outros personagens secundrios, novos dados so acrescentados. Alm da narrativa ir crescendo, avanando em relao ao problema proposto, os novos dados a explicitam e enriquecem-na.

A organizao estrutural da narrativa lembra os contos em que o personagem uma histria virtual que a histria de sua vida. Todo novo personagem significa uma nova intriga.

Lygia Bojunga Nunes utiliza-se da tcnica da histria-dentro-da-histria e trabalha sua narrativa em dois planos: o horizontal, em que se desenvolvem os fatos seqenciais vividos pelos diversos personagens, e o vertical, no qual a narrativa se volta para os problemas interiores de cada um.

Dividindo a obra em dois eixos narrativos, o real e o imaginrio, Lygia Bojunga Nunes trabalha de forma ldica, demonstrando como Maria supera sua amnsia. A personagem conduzida psicanlise por meio do jogo de portas coloridas. Sempre partindo de sonhos, o narrador permite uma leitura tanto fantstica quanto verdica do texto, sem prejudicar sua estrutura global. A passagem do plano da realidade para o plano fantstico no bem delimitada. No aparece discriminado de forma concreta o que acontece realmente com Maria e o que ela sonha, mantendo-se a histria tambm indecisa entre o realismo e o fantstico. graas a esse recurso que a natureza infantil da narrativa se preserva, permitindo que seu leitor-criana a compreenda, tanto enquanto ao como enquanto introspeco.

Existe uma semelhana entre a estrutura morfolgica da obra e a de um conto de fadas. A Velha da Histria, da mesma forma que o narrador de Corda bamba, conta uma histria humana como na tradio do conto de fadas. possvel observar tambm outros elementos do conto de fadas em Corda bamba. Maria a herona que sai em busca de sua identidade, de sua auto-afirmao. A bruxa a av, visto que ela faz o papel da antagonista. Ela a vil, causadora de toda infelicidade. Primeiramente, ope-se ao namoro dos pais de Maria. Em seguida, rapta Maria, trazendo tristezas ao casal e causando, indiretamente, a morte deles e a amnsia de Maria. A fada seria o av, Pedro, pois ele quem presenteia Maria com o objeto mgico, o talism, no caso a corda, que a levar ao passado, fazendo com que Maria realize uma regresso sua vida uterina e liberte-se dos seus traumas. Alm disso, seu Pedro quem ir ajud-la a realizar seu desejo de passar as frias na Bahia com os amigos do circo, convencendo sua av a deix-la ir.

O final de Corda bamba tambm se assemelha com os contos de fadas, visto que termina com um final otimista, com os problemas solucionados, apontando uma expectativa de futuro, com sentimento de esperanas e desejos de novas realizaes. O fato de Maria ter elaborado a dor da morte dos pais e ter compreendido o seu passado ajudou-a a conquistar a sua prpria identidade.

Percebe-se, portanto, que a mensagem de Lygia Bojunga Nunes sempre aberta s solues de cada leitor, sempre questionadora e instigante.

Outra caracterstica de Corda bamba semelhante ao conto de fadas a linguagem carregada de simbolismo.

O fato de a histria ficar entre a realidade e a fantasia faz com que se preserve a natureza infantil da narrativa, permitindo que seu leitor-criana a compreenda, tanto enquanto ao como enquanto introspeco. Alm disso, a sua estrutura morfolgica a mesma do conto de fadas, identificando-se com a criana, embora a autora tenha concentrado demasiados elementos psicanalticos na sua narrativa para o pblico infanto-juvenil.

Narrao

Em Corda bamba, pode-se perceber dois nveis narrativos: narrativa do primeiro nvel e do segundo nvel. Na narrativa do primeiro nvel, inclui-se a histria de Maria. Ao relatar a histria da protagonista, o narrador posiciona-se como extradiegtico-heterodiegtico, ou seja, um narrador do primeiro nvel que no participa, como personagem, da histria narrada, conta uma histria em que est ausente, conforme o exemplo a seguir:

As duas vinham andando pela calada — a mulher Barbuda e Maria. De mo dada. A mulher Barbuda usava saia, barba e uma sacola estourando de cheia; Maria, de cala de brim, um embrulho debaixo do brao, ia levando a tiracolo um arco enfeitado com flor de papel, quase do tamanho dela...
Foguinho estava parado na esquina tirando um coelho da meia: andava treinando pra ser mgico. H anos que ele comia fogo no circo, mas agora tinha dado pra ficar de estmago embrulhado cada vez que engolia uma chama, tinha dias, que s de olhar pras tochas que Barbuda trazia, o estmago j se revoltava todo.

Na narrativa de segundo nvel, esto presentes a histria da Velha e a histria de Dona Maria Ceclia. Por serem histrias com um universo diegtico distinto do que descrito no relato intradiegtico, inseridas que esto nas recordaes de Maria, pode-se dizer que so narrativas de nvel metadiegtico. O narrador da narrativa de segundo nvel a Velha Contadora de Histria, personagem da narrativa intradiegtica. Ela se torna narradora da histria na narrativa de segundo nvel, posicionando-se como narrador intradiegtico-homodiegtico, ao contar a sua prpria histria. E a Menina, como personagem do universo ficcional do primeiro grau, passa a ser narratrio intradiegtico, pois ela o destinatrio imediato do discurso da Velha, conforme o exemplo: Outro dia tua av chegou e perguntou Quer casa e comida de graa? Desconfiei; s olhei. A expresso tua av indica que a Velha est falando diretamente com a Maria, revelando a existncia da relao narrador/narratrio entre a Velha Contadora de Histria e a Maria.

Aps relatar a sua histria, a Velha Contadora de Histria conta a histria de Dona Maria Ceclia, dividindo-a em quatro partes, conforme as mudanas de marido:

A Velha largou a comida. Se indireitou na cadeira. Anunciou:
— Histria do primeiro casamento de Dona Maria Ceclia Mendona de Melo. — Se sentiu meio empanturrada; resolveu ficar de p pra ver se a comida descia mais depressa. Anunciou de novo: — Histria do primeiro casamento! Dona Maria Ceclia sempre gostou de homem de bigode; e de homem de bigode chamado Antero, ... Fim do primeiro casamento.
(...)
— Segundo! Dona Maria Ceclia Mendona de Melo sempre gostou de homem de culos; e de homem de culos chamado Joo Felipe,... Pronto, fim do segundo.

Quanto ao foco narrativo, distingue-se 3 modalidades de focalizao:

1) Narrativa no-focalizada, ou de focalizao zero, em que o narrador domina totalmente a histria, controlando e manipulando todos os relatos. Nessa modalidade, o narrador oferece ao leitor apenas os dados por ele selecionados.

2) Narrativa de focalizao interna, que se caracteriza por estar centrada na conscincia de uma ou mais personagens da histria. Aqui, s possvel ao narrador relatar aquilo que as personagens conhecem. Ela se divide em fixa, varivel ou mltipla. Ser fixa, quando o foco se centra em uma s personagem, ocorrendo, eventualmente, uma intromisso do narrador. Ser varivel, quando houver uma alternncia de pontos de vista. E ser mltipla, quando um grupo de personagens centra o foco de viso sobre o mesmo acontecimento, neste caso, a narrativa traduz a perspectiva de todos.

3) Narrativa de focalizao externa, que se constitui pela representao de elementos externos observveis das personagens, do espao e dos eventos. O narrador posiciona-se de forma restrita, podendo relatar apenas o que qualquer observador hipottico v externamente. Esse tipo de focalizao comum no incio das narrativas, em que se observa a descrio de uma personagem, de um ambiente ou de um acontecimento que antecede chegada do protagonista. O autor aponta, contudo, possveis ocorrncias dessa modalidade no desenrolar da narrativa, quando h mudanas no foco narrativo, o que no resulta no rompimento da harmonia e coerncia da obra.

Um determinado modelo de focalizao no constante em toda narrativa, nem se verifica em todo o conjunto de uma obra. Desta forma, comum verificar-se a alternncia de focalizao, tanto do modelo interno para externo, como do ponto de vista de uma personagem para o de outra.

O tempo da histria e o tempo do discurso

Lygia Bojunga Nunes entrelaa as trs dimenses do tempo passado, presente, futuro para narrar a histria de Maria.

O momento presente refere-se vida de Maria, desde a sua chegada casa de sua av at o telefonema de Barbuda, convidando-a a ir junto com eles a Bahia.

Os captulos A chegada, Janelas, Conversa de orelho, Quico sonhava muito, O passeio, Aula particular e os primeiros pargrafos do captulo Portas novas fazem parte desse perodo.

O passado intercala-se no momento presente, aps o sexto captulo, e refere-se ao momento em que Maria, por meio de sonhos ou imaginao, revive sua histria, desde o namoro de seus pais at o instante do acidente deles no circo.

Os captulos Mrcia e Marcelo, O barco, O roubo, O presente de aniversrio e Tempo de chuva correspondem a esse momento.

O tempo futuro relaciona-se com os acontecimentos antecipados que podero ocorrer na vida de Maria. A parte final do captulo Portas novas compreende esse perodo.

Portanto, a narrativa uma seqncia duas vezes temporal: h o tempo da coisa-contada e o tempo da narrativa (tempo do significado e tempo do significante).

Em Corda bamba, o narrador relata acontecimentos que j ocorreram. Ao analisar a ordem em que os fatos so narrados, percebe-se que o tempo da histria e o tempo do discurso no seguem a mesma seqncia, ocorrendo uma anacronia diferentes formas de discordncia entre a ordem da histria e a da narrativa. Nota-se que a histria inicia-se in medias res, com a chegada de Maria casa de sua av. Ela segue linearmente at o stimo captulo, Mrcia e Marcelo, e, a partir da, os fatos da sua vida presente so colocados de lado, para deixar os acontecimentos do passado virem tona.

Quando o perodo dos eventos relatados antecede ao da narrativa primeira, a anacronia denominada analepse. Alm disso, esta ser externa se a sua dimenso temporal for anterior cronologia da diegese. Portanto, os episdios a que Maria assiste ao abrir as portas, nos quais so exibidos acontecimentos de sua vida passada e de seus pais, constituem analepses externas, pois todos os fatos narrados se realizam antes da ida de Maria casa de sua av, quando se inicia o tempo da diegese.

A analepse segue at o penltimo captulo, Tempo de chuva. No entanto, ela se divide em trs etapas, que so entremeadas pelo momento presente. A primeira analepse inicia-se no stimo captulo, Mrcia e Marcelo, quando ocorre o deslocamento espacial e temporal da vida da personagem na narrativa. O alcance, ou seja, o perodo de tempo que compreende essa anacronia, de vrios anos: Dona Maria Ceclia Mendona de Melo, que vinha zangada, parecendo uns dez anos mais moa. O tempo diegtico recua para um perodo que antecede o nascimento de Maria, na poca em que seus pais se conheceram e comearam a namorar, visto que todos os fatos a serem relatados so conseqncias dessa relao afetiva. A sucesso de acontecimentos que formam a analepse organiza-se conforme o ponto de vista da protagonista, visto que ela vai selecionando os episdios mais relevantes de seu passado, que vo ajud-la no desbloqueio de seus traumas interiores.

A segunda analepse ocorre quando retratado o momento em que Maria foi raptada pela av, separando-a de seus pais e do circo. Nesse perodo, ela estava com 4 anos. E uma menina de quatro anos brincando sozinha, empurrando um barco de papel, fingindo que o cho era gua. O alcance dessa analepse de 3 anos, ou seja, dos 4 aos 7 anos da personagem, pois quando Maria empurra a porta encostada, o aniversrio dela de 7 anos se descortina: E na sala tinha uma festa de aniversrio: a Menina estava fazendo sete anos..

A terceira analepse constituda pelas cenas das portas azul e vermelha. Elas abrangem o perodo compreendido entre o reencontro de Maria com os pais e o momento da morte deles, ou seja, dos sete anos, dez meses e dezoito dias aos 10 anos: a Menina tinha chegado nos dez anos que Maria tinha. Desta forma, o relato dessa analepse o desfecho da anacronia temporal iniciada no captulo Mrcia e Marcelo, quando Maria inicia sua regresso ao passado. E, assim, o fim dessa anacronia d continuidade cronologia interrompida, pois a narrao retoma, a partir desse momento, o tempo da diegese, voltando ao momento presente, no captulo Portas novas.

Sendo assim, os acontecimentos vividos por Mrcia, Marcelo e a Menina seguem o desenrolar cronolgico da vida de Maria, permitindo-lhe, ao contempl-los, reviver todo seu desenvolvimento e identificar-se com a Menina. Verifica-se, ainda, que Maria acompanha o crescimento da personagem mirim durante a sucesso dos episdios do passado, e, no momento em que o estgio existencial da Menina atinge o de Maria, as duas figuras se unem, ou seja, Maria incorpora totalmente os elementos pretritos at ento esquecidos.

Se o tempo da histria for colocado em ordem cronolgica, pela data mais remota, pode-se dizer que ela se inicia com a histria de Dona Maria Ceclia contada pela Velha da Histria, no dcimo captulo, O presente de aniversrio.

A dama da sociedade casa-se por quatro vezes e, em um dos trs primeiros casamentos, tem uma filha Mrcia. Sabe-se que Mrcia fruto de um dos trs casamentos de Dona Maria Ceclia, porque, quando Maria abre a porta branca, v apenas retratos de trs maridos.

Em seguida, continua no momento em que Mrcia e Marcelo se conheceram, comearam a namorar e resolvem casar-se mais ou menos 10 anos antes no stimo captulo, Mrcia e Marcelo. Segue-se no oitavo captulo, O barco, momento em que Maria nasce. Prossegue-se no nono captulo, O roubo, no qual h o relato do rapto de Maria. Nesse perodo, Maria est com 4 anos.

Sabe-se que, nesse momento, Dona Maria Ceclia tinha sido abandonada pela quarta vez e por isso resolve tomar a neta da filha, conforme o relato da Velha da Histria. Em seguida, continua no captulo O presente de aniversrio, momento em que Maria est fazendo 7 anos. Depois, segue-se no captulo Tempo de chuva, em que se relata o reencontro dos pais com Maria. Nessa fase, ela est com sete anos, dez meses e dezoito dias. Prossegue at ela completar 10 anos, quando os pais falecem.

A partir de ento, a histria continua no primeiro captulo, A chegada, quando Maria foi morar com a Dona Maria Ceclia. Verifica-se que Maria no havia se encontrado com sua av h trs anos, desde o dia em que sua me conseguiu reencontr-la: Mas deixa eu ver, voc no cresceu muito nesses trs anos. A ida casa da av ocorre um ms aps a morte dos pais.

Observa-se que depois de alguns dias, Barbuda ligou para Maria, conforme informao dada no captulo Conversa de orelho.

Sabe-se que, no dia seguinte em que Maria foi morar com a av, ela j a levou escola.

No ms seguinte, Maria ir iniciar seus estudos em uma escola, e ela est tendo aula particular para recuperar os contedos atrasados: — . A escola vai comear no ms que vem e elas falaram que na minha idade eu tenho que ir pra quarta srie mas eu no posso ir pra quarta srie se eu no sei essas coisas todas que precisa saber.

O tempo da histria continua nos outros dois captulos, Quico sonhava muito e O passeio. So captulos que, a princpio, constituem relatos de um sonho durante uma noite.

No captulo seguinte, o sonho continua como se os episdios vivenciados por Quico fossem reais, criando ambigidade. Percebe-se que esse sonho tem durao de uma noite.

O prximo captulo, Aula particular, descreve o perodo de uma hora de aula que Maria est tendo com Dona Eunice. No entanto, a durao do discurso narrativo longa, a narrativa caminha lentamente, dando a impresso de que a aula demora a passar. O efeito de sentido que se obtm com esse recurso demonstrar o estado angustiado de Maria, que no v a hora de acabar a aula.

A partir desse captulo, as recordaes de Maria so narradas por meio das analepses, demonstrando que a protagonista, aos poucos, rememora seu passado.

Esse fato revela que Maria, aps ter revivido alguns acontecimentos de sua vida, fica pensativa, como se estivesse digerindo essa experincia vivida para poder relembrar mais fatos do seu passado. Dessa forma, Maria se empenha em novas recordaes. As lembranas dessa segunda analepse so muito fortes e deixam Maria triste, sem vontade de rememorar mais nada, como pode ser verificado pelo seguinte trecho: E perdeu a vontade de contar. E perdeu a vontade de sair na corda tambm; passou uma poro de dias sem voltar no corredor. Maria era calada, mas com Quico ela conversava, contava-lhe suas recordaes. Esse fato deixa Quico desapontado, pois, ao indagar se ela foi passear na corda, com o que poderia inferir se ela havia relembrado mais algum fato, Maria se desculpa.

Enfim, passa-se um ms desde a chegada de Maria casa de Dona Maria Ceclia. Pode-se chegar a essa concluso pelo fato de, ao conversar com Barbuda por telefone, Maria dizer que a escola comearia no ms seguinte, e ela teria que passar em um teste, para poder ingressar na quarta srie. Alm disso, quando Maria chegou casa da av, Dona Maria Ceclia fala que Quico estava passando uma temporada em sua casa, pois seus pais estavam viajando e viriam busc-lo dali um ms: Quico deve ficar mais um ms aqui com a gente. No dia do teste de Maria, chegou um telegrama dos pais de Quico, dizendo que viriam busc-lo na segunda-feira. Quico foi embora, entristecendo mais ainda Maria, que no conseguiu prestar ateno na prova e foi um fracasso.

Pode-se observar que esse perodo de um ms em relao ao alcance da analepse, da distncia temporal que retrocedeu, de vrios anos. Embora o tempo decorrido da histria tenha sido de um ms, a informao que foi relatada no perodo alcana muitas dcadas.

Em seguida, h o relato de que Maria, depois do teste, chega em casa cansada debaixo de uma chuva terrvel, e dorme logo depois do jantar. Ao acordar de manh cedo, fica olhando a chuva bater na janela do quarto, e isso desencadeia uma lembrana do circo: uma japonesa que tinha trabalhado no circo, e que se equilibrava de sombrinha em vez de vara ou de arco. Essa lembrana faz com que ela volte ao passado, ocorrendo, assim, a terceira analepse.

Ao final da terceira analepse, o tempo da histria e o tempo do discurso se encontram. No ltimo captulo, Portas novas, h o relato de que fazia quase uma semana que Barbuda havia escrito uma carta a Maria, convidando-a a passar um tempo na Bahia, em casa de seu irmo. Ela estava telefonando para saber a resposta, pois iria, no dia seguinte, direto de So Paulo a Bahia caso ela no fosse junto. Se ela fosse, passaria pelo Rio de Janeiro. Maria no vai, pois sua av no a deixa. Alm disso, Maria informa sua amiga, de forma bem reticente, que se lembrou de todo o seu passado, e Barbuda ouve, sem dar muita importncia ao fato, finalizando o telefonema.

Desta forma, Maria, aps recordar todo o passado, para acostumar-se com suas descobertas, simbolicamente volta vrias vezes ao corredor comprido e escancara as portas j visitadas, sem medo de rever seus contedos. Essa atitude demonstra que ela conseguiu superar os traumas, libertando-se de seus temores e imagens, que estavam reprimidos no seu inconsciente. Experimentando novamente, de forma consciente, todas as emoes e situaes bloqueadas, vindas tona durante o processo de recordao do passado, Maria pode dar novo encaminhamento sua trajetria existencial.

Em seguida, surgem portas novas, com quartos vazios, que Maria preenche com planos futuros, seus desejos, seus sonhos. Esses relatos com projetos futuros caracterizam uma prolepse, pois ocorre a antecipao do tempo narrativo, expondo acontecimentos que poderiam ocorrer no futuro. uma prolepse externa, uma vez que a temporalidade da antecipao excede a cronologia das aes da histria. E as prolepses externas tm a funo de eplogo, como se comprova pela anlise do ltimo pargrafo de Corda bamba. Nele, trata-se do final da histria da personagem, com a antecipao de acontecimentos possveis na sua trajetria futura. O livro encerra sintomaticamente com o catlogo de projetos mentalizados pela protagonista, porque demonstra que Maria reconquistou o passado e tambm desprendeu-se dele, desenvolvendo recursos para viver independentemente o futuro.

Aspectos temticos

As diferenas sociais o primeiro tema abordado em Corda Bamba, pois esse tema que desencadeia a trama. De um lado, temos o pessoal simples do circo cuja vida difcil, arriscada e com muitas dificuldades financeiras e em contraste a este temos Dona Maria Ceclia, para quem o dinheiro compra tudo, objetos e at pessoas. Assim, tenta comprar Marcelo, o namorado de Mrcia, me de Maria, para dela afastlo.

Esses dois mundos se encontram quando a mulher Barbuda e Foguinho levam a menina Maria para morar com a av, pois os pais de Maria haviam morrido em um acidente no circo.

O segundo tema abordado so as questes trabalhistas. A luta concreta por um ofcio digno e protegido por leis de segurana do trabalho explicitado, quando um colega de circo, Foguinho, tenta convencer Marcelo e Mrcia para que no andem na corda bamba sem a rede embaixo.

Esses dois temas encontram-se como que entrelaados entre si, em Corda Bamba, pois um deles nos remete ao outro. a atitude da me de Mrcia (tentar separar Mrcia e Marcelo) que empurra eles para a vida de circo, e so as dificuldades financeiras, a explorao da classe menos favorecida, neste caso os artistas de circo, que fazem com que as personagens Marcelo e Mrcia deixem de lado as questes de segurana no trabalho e trilhem para o caminho da morte.

Corda bamba tematiza a dominao exercida por uma classe privilegiada, de forma agressiva. A av de Maria representante dessa classe, exercendo seu autoritarismo, achando-se no direito de comprar tudo e todos. O que Lygia Bojunga Nunes deseja explicitar, em um nvel possvel de ser compreendido pelo leitor criana, as contradies do momento histrico em que se vive.

Analisando a relao criana versus adulto, a narrativa de Lygia Bojunga Nunes lida com o problema da autoridade, deslocando-o para a perspectiva da criana. A famlia e a escola so agentes privilegiados da opresso institucionalizada que o adulto exerce sobre a criana, sob o disfarce da proteo, e isso transparece nas obras de Lygia Bojunga Nunes.

Em Corda bamba, nota-se que Dona Ceclia exerce sua autoridade, sem respeitar o prximo. Na relao familiar de Dona Maria Ceclia com Mrcia e Maria, observa-se a assimetria em que a av de Maria impe a sua autoridade e poder.

Foguinho e Barbuda, como Mrcia e Marcelo, representam o casal em que o respeito mtuo predomina, constituindo exemplos de uma relao familiar ideal. A hegemonia do adulto se d ainda e com igual ou maior nfase na escola, o principal aparato ideolgico do Estado. Em Corda bamba, isso transparece nas aulas particulares de Maria, em que o medo por no saber matemtica simbolizado pelo cachorro da professora que fica embaixo da mesa e ameaa Maria a todo instante, impedindo-a de prestar ateno.

A obra tematiza a dominao exercida por uma classe privilegiada, de forma contundente. A av de Maria, a protagonista, uma senhora da mais alta sociedade, est habituada a comprar objetos e pessoas. Assim tenta comprar Marcelo, o namorado de Mrcia, me de Maria, para dela afast-lo. A luta concreta por um ofcio digno e protegido por leis de segurana do trabalho explicitada quando um colega de circo tenta convencer Marcelo e Mrcia para que no andem na corda bamba sem a rede embaixo. "Cada um que topa trabalhar do jeito que vocs esto topando, puxa para trs todo o mundo que est trabalhando tambm". E ainda a idia do coletivo da classe trabalhadora formada pela luta de cada indivduo.

Em Corda bamba, Maria vai em busca de sua identidade por meio da corda bamba, um elemento circense. A atividade artstica vista como forma de o indivduo liberar suas tenses, a fim de melhor integrar-se ao grupo social, livre dos conflitos existenciais.

O uso do elemento simblico para revelar os problemas existenciais da criana original em suas obras, possibilitando ao leitor identificar-se com as situaes apresentadas, ajudando-o a elaborar seus prprios conflitos.

Embora se possa verificar uma postura engajada de Lygia Bojunga Nunes no que se refere s questes polticas, sociais, demonstrando uma opo ideolgica de esquerda em Corda bamba, percebe-se que a escritora trata dessas questes em sua obra com sutileza, por meio das aes dos personagens, dos relatos dos acontecimentos, recorrendo a imagens simblicas e alegricas, sem usar discurso moralizante, panfletrio. Lygia Bojunga escapa do panfleto porque ela no d recado nem faz mensagem. Ela narra com seu olhar e deixa a formulao crtica por conta do leitor. Sua literatura critica e engajada, utilizando-se da fantasia e da pardia, transfigurando o real, fazendo arte potica.

possvel observar, em Corda bamba, uma preocupao com assuntos ligados sociedade, como a luta pela igualdade social e questes como a situao de explorao em que vivem as pessoas menos privilegiadas economicamente, trazidas ao texto de modo especial. o caso de Marcelo, smbolo do homem explorado, humilhado, engolido pelo sistema. Por necessitar sobreviver na corda bamba da vida, arrisca-se para ter uma existncia mais digna, como pode ser constatado pelo relato de sua histria a Mrcia, em que trata das dificuldades por que passava, da misria de sua infncia, feita de uma poro de nada, e do seu trabalho no circo, quando ainda era solteiro. No circo, sujeita-se explorao do dono, fazendo o nmero da corda sem rede de proteo, com o objetivo de conseguir mais pblico.

Aceita o desafio a fim de ganhar fama e melhorar o salrio. No entanto, no consegue realizar o nmero, pois o medo o domina, e ele despedido. O sonho de um trabalho digno, que atenda s normas de segurana, com seguro de vida e defesa contra acidentes, alm de um salrio condizente, torna-se distante. Esse fato traumatiza-o e ele no consegue emprego em outro circo, visto que foi humilhado. Assim, obrigado a procurar outro tipo de servio, resolvendo ser pintor de parede de prdio.

Devido ao desrespeito s necessidades dos outros, os pais de Maria acabam morrendo depois de terem sido obrigados a realizar o espetculo sem rede de proteo para liquidarem as dvidas contradas na busca da filha que fora raptada pela av. As circunstncias da vida fazem com que no cumpram a promessa feita de nunca trabalhar sem a rede de proteo.

Sem utilizar-se do tom moralista, comum da literatura infanto-juvenil, a autora vai registrando o esquema vigente nas sociedades capitalistas, em que o individualismo se tornou mola propulsora do progresso econmico.

J Dona Maria Ceclia poderia ser vista, alegoricamente, como uma rplica do poder constitudo que, principalmente na dcada de 70, excedeu-se em suas prerrogativas de dono absoluto do poder. Ela, por ter dinheiro, acha-se no direito de mandar e desmandar nas pessoas, como fez com sua filha Mrcia, controlando-a desde pequena, escolhendo suas roupas, colgios, amigas e at seu namorado. Quando Mrcia se apaixona por Marcelo, pintor de paredes e artista de circo, ope-se ao namoro pelo fato de o rapaz ser pobre e lhe oferece um cheque de alto valor, para que desistisse de se casar com sua filha. Para no se tornar apenas mais um bem consumvel da sogra, o rapaz rasga o documento e vai-se embora, seguido de Mrcia. Os dois a abandonam, para no se deixarem envolver por princpios valorativos baseados no dinheiro.

Dona Maria Ceclia no consegue comprar Marcelo com seu dinheiro, mas compra seus trs primeiros maridos, mostrando o alcance de seu poder econmico. So pessoas pertencentes classe mdia da populao.

Por comodismo, esses maridos se deixaram cooptar pela atrao por postos que lhes garantissem melhores condies de vida, para poderem dedicar-se ao prazer do seu trabalho, sem se preocuparem com o sustento. No entanto, apesar de, aparentemente, se venderem ao poder econmico, simbolizado pela Dona Maria Ceclia, no se deixaram subjugar aos desmandos da autoridade.

O quarto marido de Dona Maria Ceclia, seu Pedro, smbolo de uma viso humanista do mundo, opondo-se aos trs primeiros. Seu Pedro no se deixa comprar e nem pretende impor-se pela autoridade, sabe respeitar o prximo: nem eu mando em voc, nem voc manda em mim.

No entanto, o pice do poder, do autoritarismo, da opresso, do desrespeito pelo ser humano por parte de Dona Maria Ceclia Mendona de Melo mostrado quando ela compra, utilizando seu prestgio econmico, uma velha contadora de histria, um ser humano, apenas para dar um presente diferente neta.

H a denncia da misria em que vivem as pessoas, que precisam se vender para poderem sobreviver. A Velha da Histria simboliza o povo humilde, sofredor, faminto, os sem-teto, os descamisados, os miserveis deste planeta que necessitam de se vender a troco de comida. No possuem o mnimo necessrio para sua sobrevivncia e se submetem a qualquer humilhao, alm de viverem em situaes subumanas. Lygia Bojunga Nunes trabalha isso de forma humorstica, para enfatizar a ironia da vida dessas pessoas, pois quem passou fome a vida inteira acaba morrendo de tanto se fartar com o que mais desejava comida.

Lygia tece a narrativa fundada em dois planos: o inconsciente e o consciente. No plano do inconsciente, verifica-se o interior de Maria, sua situao interna. No plano do consciente, observa-se a criana incompreendida, privada de quaisquer direitos, submetida a uma relao de dependncia absoluta. Assim, a vida de Maria relatada de forma que sua biografia vai fragmentariamente sendo compreendida, medida que a menina vai recuperando a memria, desvelando o seu passado e recriando a sua histria.

O aprendizado de Maria no circo, as instrues que a me lhe proporciona no so valorizados pelas demais personagens. Segundo a av e a prpria escola, a menina est atrasada em conhecimentos e precisa igualar-se s demais crianas, por isso freqenta aulas particulares com Dona Eunice. A professora um prottipo de tirania, um falso educador, ministrando lies mas dando muito pouco de si, incentivando a submisso e menosprezando o medo que Maria sentia do cachorro.

A escola descrita em Corda bamba ensina valores e modos de comportamentos da classe dominante, ignorando a bagagem de conhecimentos e experincias que a menina j traz consigo. A realidade escolar com que Maria se defronta, com contedos desconexos e desvinculados do conhecimento, nada acrescenta interioridade da personagem.

Corda bamba exemplifica o realismo humanista, por focalizar o assunto da angstia e da crise existencial do homem do nosso tempo, esmagado pela opresso social.

Tanto Maria como os protagonistas de outras obras de Lygia Bojunga Nunes buscam o auto-conhecimento na integrao dos vrios planos da conscincia realidade de um mundo exterior percebido sob diferentes ngulos e nas suas diversas faces.

A personagem no fixada de modo rgido, quer nos traos psquicos, quer nos fsicos. A personagem Maria registrada de forma indireta, pelo seu tipo mido, sua idade e seu temperamento reprimido. Sua figura, embora apresentada como centro do processo diegtico, interessa sobretudo no plano discursivo, como instrumento de veiculao de valores e de idias.

Corda bamba apresenta uma viso pequeno-burguesa do mundo, estruturada de modo a realar o fenmeno da reificao, viso essa dominada pelos efeitos do poder do capital sobre a vida de cada pessoa, sendo, portanto, contraposta a uma viso humanista do homem.

Verifica-se na personagem Maria o desequilbrio da personagem ocorre a partir do motivo gerador da sua amnsia (a viso da morte dos pais). Aps lembrar-se das experincias passadas, reestrutura-as na tentativa de buscar o equilbrio da sua vida presente. Esse equilbrio atingido ao final da diegese, porm, por um discurso aberto, sugerindo o no fechamento da histria de vida da personagem.

Lygia enfatiza o aspecto social em suas narrativas e, por meio de uma linguagem simples, inocente no seu plano expressivo, emprega os smbolos e as alegorias, dados que so, no plano criativo, expresses curiosas do estado das idias nas dcadas de 60 e 70, de um Brasil sofredor das conseqncias de uma poltica repressora.

Em relao linguagem descritiva, Corda bamba enriquece-se de detalhes aparentemente suprfluos, por exemplo, a respeito da professora particular que d aulas a Maria (o brao cheio de pulseiras, as unhas grandes e esmaltadas etc.), pois tais elementos so fundamentais para a caracterizao do realismo humanista da autora. Segundo a estudiosa, a descrio no tem a funo de inventariar exaustivamente pormenores do objeto, mas sim uma funo mais elevada de embasar o universo simblico da fico.

No processo de recuperao da memria de Maria, Lygia Bojunga Nunes faz uso de um vasto campo de smbolos, como portas, cores, compartimentos fechados, flores, sonhos, corredor, corda, arco, mar, gua, barco.

A perda da memria de Maria ante a morte dos pais e todo o processo de sua recuperao tornam-se significativos quando transposto para o plano do real, visto que a anistia tem como caracterstica intrnseca o esquecimento. A perda da memria de Maria pode-se relacionar com a perda de memria do povo brasileiro, assim como a necessidade de Maria recuperar a memria, com a prpria necessidade de a sociedade brasileira no se deixar impregnar pelo esquecimento e lutar pelo reavivamento do passado. Com a trajetria de Maria, que no se conforma com a perda da memria e empreende um retorno ao passado, desvendando paulatinamente os mistrios das portas coloridas que lhe desvelam a histria de sua vida e de sua famlia, o que lhe cria condies para inserir-se no presente e projetar o seu futuro, Lygia Bojunga Nunes aponta a mesma trajetria para a sociedade brasileira.

Em Corda bamba h caractersticas reveladoras do sistema autoritrio e opressivo da sociedade. Dona Maria Ceclia Mendona de Melo representante desse sistema, visto que nela se encontra a juno do autoritarismo com a corrupo, exercidos por meio do poder do dinheiro. Essas caractersticas podem ser percebidas nas suas relaes interpessoais, que so exclusivamente monetrias. Quando Dona Maria Ceclia se apaixonou, no soube conquistar os maridos, foram todos comprados. Para separar a filha de seu namorado, ela usou do dinheiro para afast-lo. Para agradar a neta, ela comprou um ser humano.

A av de Maria poderia ser vista, alegoricamente, como uma rplica do poder constitudo que, principalmente na dcada de 70, se excedeu em suas prerrogativas de dono absoluto do poder.

Como vimos, Lygia Bojunga Nunes d ateno especial escola, que vista como uma extenso do poder central, pois reflete o mesmo sistema hierrquico daquele, em que um detm o poder e os outros se submetem a ele. A pesquisadora observa que a valorizao do ensino como um bem necessrio para a formao integral do indivduo e a crtica forma como esse ensino se processa caminham paralelamente nas obras da escritora. Portanto, para ela, a importncia do saber e a descrena na transmisso desse saber coexistem nas obras de Lygia Bojunga Nunes, refletindo o pensamento crtico daqueles que, analisando o Brasil das ltimas dcadas, constatam a crescente degradao do ensino.

Alm disso, faz referncia misria, instabilidade no emprego, sujeio do indivduo aos perigos de uma profisso que pe em risco a vida e falta de unio da classe em busca de melhores condies de emprego.

Em Corda bamba possvel observar um processo de renovao. Maria, ao perder a memria, necessita reconstituir a vida, pois se encontra sem identidade. Para resgat-la, ela realiza um processo de regresso de forma simblica. Assim, apresentado ao leitor o resgate da identidade da garota, ao mesmo tempo em que se vai desvendando o cotidiano montono da vida burguesa que a av quer oferecer-lhe como opo. Sem memria, Maria encontra-se entre o mundo fantstico do circo, porm perdido, e o mundo de privilgios que o dinheiro da av pode proporcionar-lhe. Isto permite narradora cruzar dois nveis narrativos, mostrando a tenso constante que se estabelece entre o mundo interior, entre ser e parecer. Maria, se pudesse, gostaria de escolher a vida circense, para viver com os amigos Barbuda e Foguinho. Porm, por ser criana e ter a av como a nica pessoa da famlia, precisa ficar com ela. A convivncia com a av d-se de forma negativa. Maria no consegue ultrapassar a barreira existente entre a av e ela. Dona Maria Ceclia, por ser extremamente autoritria, desumana, sem sentimentos, dificulta o relacionamento com a neta, pois a relao com ela s material.

Sendo assim, Maria refugia-se em seu mundo interior, porm esquecido, que precisa ser resgatado a todo custo, como elemento de resistncia. Ao fazer esse percurso interno de busca do seu passado, configurado por meio de cortes na narrativa, misturando vrios tempos, dando ao texto carter fragmentrio, acompanhada pelo leitor. Dessa maneira, so apresentados ao leitor pedaos de discurso que se juntam para, no final, possibilitar a restaurao da identidade de Maria. Cabe ao leitor recolher os fragmentos e reconstituir a histria. Assim, somente com a participao ativa do leitor, o significado se compe. O discurso de Corda bamba requer um leitor participante, capaz de compor os dados lanados pelo narrador. Esse recurso funciona como elemento que aponta para a artificialidade da criao, oferecendo uma zona de distanciamento que alerta para o processo de produo da linguagem. O texto mostra-se, desta forma, como criao, iluso.

A histria de Maria pode ser percebida como real; porm, pela maneira como ela est estruturada, solicitando a interveno do leitor, verifica-se que fico.

Na narrao do resgate da identidade de Maria, h um convite implcito ao leitor para que faa tambm esse retrocesso em sua vida, embora no se pretenda que esta adeso seja automtica. Ao acompanhar a restaurao do passado de Maria, o leitor poder igualmente passar por um processo de regresso e questionar o seu passado, a sua vida, abrindo as portas fechadas, buscando, do mesmo modo que Maria, a sua identidade.

O seu discurso no se quer verdade, objetivando passar valores morais e pedaggicos, doutrinando o leitor, ou uma receita de como superar um trauma, mas cria um espao crtico entre a autora e o leitor, para ser preenchido por este, espao para que o leitor tenha um papel ativo e reconstrua os fragmentos narrativos, dando sentido ao texto.

Percebe-se, portanto, que, em Corda bamba, a ordenao metdica do mundo rompida definitivamente, e prope-se ao leitor viver na corda bamba, em oscilao, onde so incertos os limites entre o possvel e o impossvel, entre o ser e o parecer. O ser humano busca o equilbrio, o equilbrio interior, vivendo em tenso sobre dois plos, para encontrar a sntese.

A Velha da Histria contava histrias para enganar a fome dos filhos, num comportamento herdado de sua me, conforme a histria de sua vida relatada a Maria.

Esse episdio deixa Maria estupefata. No conseguia entender como algum pode comprar outro ser humano.

Repetindo o ato de comprar pessoas, Dona Maria Ceclia demonstra que continua a mesma pessoa egosta, autoritria e sem sentimentos. No consegue perceber que a tristeza de Maria decorre da saudade dos pais e do circo, tudo o que ela mais queria. A culpada era ela mesma, pois, por egosmo, ao ser abandonada pelo quarto marido, resolve ter a neta perto de si. Para Dona Maria Ceclia, o conforto e os bens materiais que oferecia neta seriam suficientes para substituir o carinho, o amor que os pais lhe dispensavam.

Essa atitude de Dona Maria Ceclia demonstra o processo de reificao do ser humano: Maria o objeto que ela mantm em troca de conforto e bens materiais e serve para substituir a perda do ltimo marido, seu Pedro. A Velha Contadora de Histria passa a ser um objeto tambm, comprado por meio de bens alimentcios, com a funo de distrair Maria. Nos dois casos, verifica-se que Dona Maria Ceclia objetiva satisfazer seus prprios interesses: primeiro, agradar Maria, para que ela fique em sua companhia, desconsiderando as carncias afetivas que a ausncia dos pais lhe provoca. Segundo, comprar a Velha, para que se torne um objeto capaz de agradar sua neta, para faz-la permanecer junto dela. O fato de Lygia Bojunga Nunes inserir os relatos da Velha Contadora de Histria e dos maridos de Dona Maria Ceclia na histria de Maria tem o objetivo de crtica ao comportamento da av, reforando a incapacidade de Dona Maria Ceclia amar o prximo, e enfatizar que seu relacionamento exclusivamente monetrio.

Lygia Bojunga Nunes vai desmascarando o artificialismo de muitas atitudes dos adultos, no decorrer da narrativa, e deixa transparecer a crtica sociedade cujos valores esto adulterados. O exerccio do poder corruptor do dinheiro explcito ao comprar a Velha da Histria. Por ser rica, Dona Maria Ceclia acha-se no direito de comprar, mandar e desmandar nas pessoas.

Percebe-se tambm a crtica que faz aos preconceitos existentes nas relaes humanas. De modo muito perspicaz, a autora vai combatendo-os, demonstrando que dependem do ponto de vista da pessoa. Como no caso de Mrcia e Marcelo, apesar das diferenas sociais e econmicas, um completava o outro no amor.

A conscincia do indivduo como parte integrante de um todo abrangente est intimamente relacionada com a valorizao do trabalho como meio de realizao do homem em suas obras.

Em Corda bamba, pode-se perceber essa questo na fala de Foguinho tentando convencer Mrcia e Marcelo a no fazerem o nmero da corda sem a proteo de rede.

Foguinho e Barbuda demonstram possuir conscincia de uma classe: — Voc t deixando eles te explorarem, Marcelo!. Enquanto que Mrcia e Marcelo parecem no ter essa conscincia de classe: — Que outros?... — Que que tem, u?. A preocupao de Foguinho com todos os que trabalham na profisso de trapezistas expressa um ponto de vista coerente e unitrio na realidade imaginada. A classe que ele simboliza e representa se ope classe representada pelo patro, dono do circo. Essa personagem implcita representa a classe burguesa, aquele que se apropria da mais-valia, na condio de explorador dos artistas Mrcia e Marcelo. Estes se deixam explorar, arriscando a vida para aumentar a renda do patro. Barbuda e Foguinho representam a conscincia efetiva de uma classe, mediando os dois plos, interessando-se no apenas pelos amigos, mas por todos da sua profisso, preocupando-se, portanto, com o ser humano em geral. Tem-se, assim, nesse episdio, a luta de classes expressando-se, acima de tudo, na luta ideolgica.

Maria, a personagem

Maria, por ser apresentada como equilibrista de circo, por ter a caracterstica de artista, pode suplantar a condio de criana, no ficando circunscrita apenas ao mbito de sua faixa etria, podendo agir como profissional e vivenciar um problema de estado existencial.

Desta forma, apresentando Maria com amnsia, devido ao choque sofrido quando presencia a morte dos pais no acidente no circo, o livro aborda o tratamento dado ao conflito da criana no interior da famlia. Do ngulo externo, a narrativa mostra os primeiros momentos da nova vida de Maria: a chegada casa da av, o aniversrio de Quico, a conversa com Barbuda pelo orelho, as aulas particulares, o relacionamento com os avs. Do ngulo interno, apresentado o processo regressivo que a menina faz ao seu passado, antes mesmo da fase uterina, desvendando seus mistrios. O momento mais doloroso para Maria a aceitao da morte dos pais, pois isso ocasiona um sentimento de culpa nela.

Ao recuperar a memria, Maria liberta-se da culpa, pois percebe quem verdadeiramente ocasionara as dvidas contradas pelos seus pais: sua av. Assim, liberta-se tambm da influncia dos pais, visto que, ao assumir a morte deles, livra-se simultaneamente do poder repressivo da av e da lembrana opressiva ocasionada pela perda dos pais. Simbolicamente, trata-se da ruptura do cordo umbilical, representada pela corda bamba que leva Maria ao passado.

Deste modo, Maria desprende-se do passado, pois consegue reconquist-lo e planejar seu futuro, para viv-lo autonomamente, buscando a emancipao perante os condicionamentos que os adultos lhe impem e constituindo-se, portanto, num exemplo desse modelo emancipatrio de representao familiar.

Na obra, Maria defronta-se com vrios modelos de famlia, por meio de diversos pais. H seus pais verdadeiros, Mrcia e Marcelo, representantes de uma famlia ideal que no exercem papis de pais autoritrios, cerceando a criana, mas a tratam com igualdade e respeito.

Esse respeito tambm se percebe entre o casal Mrcia e Marcelo. Eles formam o oposto da famlia em que um dos membros quer ser superior ao outro.

Em contrapartida, aps a morte dos pais, Maria passa a morar com sua av, Dona Maria Ceclia, mulher autoritria e repressora, e com Pedro, quarto marido de sua av. O autoritarismo da av j percebido na relao entre me e filha, quando narrado que Dona Maria Ceclia manda e desmanda em Mrcia, sem meias palavras, exercendo o papel de adulto autoritrio, at o dia em que Mrcia se apaixona por Marcelo e resolve seguir o seu caminho, segundo as suas concepes.

Em relao Maria, sua neta, Dona Maria Ceclia tambm sempre usou de seu autoritarismo e de meios corruptos para tentar conquist-la, como quando a raptou de seus pais.

Separada dos pais, morando com a av, submetida a regime de clausura e vigilncia, sendo suprida apenas com bens materiais.

No se observa durante determinadas passagens da narrativa em que Maria morou com a av momento de carinho ou de compreenso, visto que Dona Maria Ceclia reifica, monetariza a relao. O nico desejo da menina ir embora dali, fugir, se pudesse, conforme se pode perceber pelo pedido que ela faz, antes de apagar as velinhas do aniversrio.

Quando vem morar novamente com a av, depois que os pais falecem, sente-se novamente solitria e enclausurada, e a relao entre ambas conflituosa.

A av tenta desvincular Maria de suas razes, de seu passado, do mundo circense. Tenta adapt-la a uma nova vida, com outros valores, matriculando-a na escola, colocando na aula particular para igual-la as outras crianas de sua idade. No entanto, embora esteja passando por um processo de amnsia, sem passado, sem identidade, Maria no deixa que os valores da av se sobreponham aos seus.

Assim, desde o primeiro momento em que chegou sua casa, timidamente, vai desobedecendo sua av, no permitindo que seus valores sejam anulados. Mesmo contrariando a av, anda na corda bamba no meio da sala de seu apartamento e, alm disso, resgata, por meios circenses, a sua identidade, libertando-se da prepotncia da av.

H ainda os pais substitutivos, Foguinho e Barbuda, pessoas amigas que, durante a ausncia de Mrcia e Marcelo, fizeram papel de seus pais e, na solido de Maria, confortaram-na. Barbuda mostra-se amiga, compreensiva, tentando ajud-la a resolver os problemas, como em relao aula particular e ao cachorro, durante a conversa de orelho. A relao do casal tambm a de uma famlia ideal, ningum querendo suplantar o outro, predominando o respeito mtuo entre as pessoas.

Maria, estando em contato com vrios modelos de famlia, aps a morte dos pais consangneos, fica dividida entre o padro de famlia autoritria e o de famlia democrtica, solidria. Dona Maria Ceclia tanto representante da camada burguesa como smbolo de uma viso reificada do mundo. Barbuda e Foguinho so tanto representao da camada operria como smbolos de uma viso humanista do mundo. Desta forma, Maria acaba criando instrumentos para uma existncia autnoma, decorrente de sua maturidade interior, emancipando-se dos valores ideolgicos do adulto.

Percebe-se, portanto, que Bojunga opta pelo modelo familiar emancipatrio em Corda bamba. Escolhendo este modelo, a autora d nfase emancipao do ser humano, reforando a luta pela liberdade. Dessa forma, nota-se que o texto no assume postura pedaggica, mas promove o questionamento dos valores transmitidos, cabendo ao leitor fazer a escolha e com isso atenuando-se bastante a assimetria adulto/criana.

Maria apresentada vivendo na corda bamba, em tenso entre conscincia e subconscincia. A corda esticada simboliza essa tenso.

Inicialmente, aparece como menina tmida, insegura, com medo de enfrentar a realidade, pois se sente culpada pela morte dos seus pais. No seu entender, ela a causadora da morte dos pais, conforme j foi comentado. Entretanto, no decorrer da narrativa, percebe-se a sua capacidade de superar o medo, para vencer os obstculos, para recuperar a identidade perdida, mesmo inconscientemente.

Ela no uma personagem com perfil plano, acabado. Os seus traos pertinentes vo sendo esboados no decorrer da ao, as suas transformaes, registradas aos poucos.

Essa busca da identidade perdida materializa-se pela idia da inveno, por meio da criao, pela fantasia. No caso de Corda bamba, isso ocorre por intermdio dos sonhos, da imaginao. O sono o remdio para o tratamento da amnsia de Maria, pois o sonho funciona como processo teraputico natural de cura, visto que Maria supera os traumas por meio do sonho. Desta forma o esquecimento ser substitudo pela recordao por intermdio do mesmo remdio: o sono.

O primeiro acontecimento que faz Maria recordar o passado o voltar a andar na corda bamba, no apartamento de sua av, durante o aniversrio de Quico.

O fato de voltar corda bamba na casa da av, permite Maria um mergulho no seu subconsciente para trazer tona, a memria perdida do que se passou.

Verifica-se, nas produes de Lygia Bojunga Nunes, que a arte apontada como uma atividade capaz de proporcionar a realizao do ser humano, como uma atividade prospectiva que auxiliar na soluo dos conflitos, promovendo novas significaes e trazendo tona foras antigas. Em Corda bamba, o circo adquire essa funo: a de liberar as tenses de Maria, para faz-la integrar-se ao grupo social, livre dos conflitos existenciais, visto que, utilizando-se de instrumentos circenses, Maria inicia uma volta ao passado, para resgatar a memria perdida.

Para poder libertar-se da culpa, necessita reviver o passado, resgat-lo e dar sentido vida. Para consegui-lo, Maria entra em um processo de regresso, que a leva alm da vida intra-uterina e, por meio da linha do tempo, revisita fatos marcantes de seu passado. A trajetria dessa caminhada, a histria do seu passado, os acontecimentos vividos por ela e por seus pais so revelados a Maria e ao leitor de forma altamente simblica e narrados no plano do imaginrio, no mundo interior de Maria, no seu subconsciente.

O processo de recordao do passado de Maria acontece em estado de letargia, por meio dos sonhos, como se ela estivesse hipnotizada, e pela linha do tempo, simbolizada pela corda, Maria comea sua regresso. No entanto, os primeiros indcios de que Maria entrar em processo de recuperao de sua memria acontecem logo aps ela ter andado na corda a pedido das crianas, pois quando sua av a leva para mostrar o quarto em que ficar, o que chama a sua ateno a janela, sua vista de fora e a altura. Era como se o fato de ter andado na corda, a sensao de altura, olhando a paisagem de fora do apartamento, tivesse desencadeado lembranas esquecidas do passado.

Nos dias que se seguem, o lugar preferido de Maria no apartamento da av a janela do seu quarto. Passava a maior parte do tempo debruada nela, olhando um ptio interno. A viso que tinha era da rea interna dos edifcios vizinhos, no era uma vista bonita, e nada de extraordinrio havia; porm, algo chama a sua ateno: uma janela diferente, com um andaime pendurado em sua frente, arredondada em cima como um arco, que ficava aberta dia e noite e sempre vazia.

A insistncia nessa viso pode ser interpretada como tentativas de rememorar fatos obscuros em sua mente. A janela em forma de arco na parte superior faz com que ela a associe ao arco de flor, altura, ao trapzio, elementos circenses que os pais, trapezistas de circo, utilizavam ao realizar o espetculo. Contudo, em estado de viglia, Maria no consegue relembrar os fatos pretritos; necessrio entrar em estado onrico. Assim, o primeiro processo de recuperao de sua memria inicia-se por meio de Quico, que sonha o desejo de Maria. Ela conta ao seu primo que gostaria de, um dia, ver de perto a janela diferente do prdio vizinho, com forma de arco em cima. Desse modo, Quico, em sonho, v Maria pegar a corda que ganhou de seu Pedro e laar a antena de televiso do prdio bem em frente, no intuito de fix-la, e principiar seu passeio.

O relato de como Maria faz suas viagens ao passado gera ambigidade entre o real e o imaginrio, que se mantm durante toda narrativa, reforando a qualidade esttica da obra. Essa impreciso acentuada na narrativa, visto que os outros passeios de Maria acontecem logo aps o seu despertar. Alm disso, essas incurses ao passado so intercaladas com o tempo presente da diegese. No sonho, Maria se v, ao mesmo tempo, como sujeito e objeto. Maria (sujeito), ao reviver a sua histria, entra dentro do sonho e se v no tempo passado, com sua idade atual, e avista outra menina (objeto) que ela mesma, na fase que est rememorando: no ato do nascimento, aos 4, aos 7 e aos 10 anos, quando se encontra.

Esticar a corda at o prdio vizinho significa fazer a volta ao passado, ao seu interior, pois por meio da corda que Maria volta sua vida pretrita para rememorar fases dela e libertar-se de seus traumas, edificando a sua vida. A corda representa o vnculo entre o presente e o passado e tambm entre o presente e o futuro, pois ata as pontas de sua vida (presente / passado / futuro), alm de ligar o real e o imaginrio, dando-lhe unidade e equilbrio para solucionar seu conflito.

Alm da corda, h tambm outro instrumento de trabalho de Maria que a ajudar no processo de recuperao da memria: o arco. Este representa o instrumento que permite o equilbrio na corda e a mobilidade a Maria e possui sentido de ligao devido sua natureza circular, simbolizando a condio de a herona manter-se sobre seus prprios ps. Maria, para atar os trs momentos de existncia e alcanar a plenitude de sua vida, faz dois movimentos circulares, revelando o percurso existencial da mesma: um do presente para o passado, durante o processo de recordao do perodo esquecido; outro, do presente para o futuro, quando ento o pretrito, esquecido, j est incorporado sua conscincia, para projetar o seu destino Assim, retrocedendo na linha do tempo, Maria vai em direo janela que chama sua ateno. Essa janela carrega toda uma simbologia, como se fosse uma luz no fundo do tnel, para conduzi-la ao incio de sua caminhada no inconsciente.

Na sua viagem ao inconsciente, a primeira revelao ocorre no andaime. Nesse lugar, ela v seus pais e vem a saber como eles se conheceram e comearam a namorar, alm de se informar das diferenas sociais e econmicas dos dois. Como a corda leva Maria fase anterior vida intra-uterina, ela simboliza tambm o cordo umbilical, e o andaime, o tero, visto que o local onde tudo se inicia, o comeo da vida de Maria. Alm disso, a partir do andaime, adentrando pela janela, Maria ser levada a um corredor comprido ladeado por seis portas fechadas, uma de cada cor. O corredor comprido tem toda simbologia da viagem que Maria far em seu interior, no seu inconsciente, e as portas coloridas, cada fase de sua vida, os diferentes momentos de sua existncia.

Portanto, analisando o percurso que Maria realiza, pode-se concluir que ela, ao passar pela janela, inicia sua incurso ao mundo desconhecido do inconsciente em que, ao rever as imagens do passado, adquire o conhecimento pleno de si mesma. A sua travessia pela janela constitui um ritual de iniciao, possibilitando o trnsito para o conhecimento do seu passado e a recuperao de sua memria, ao contemplar as cenas esquecidas que so exibidas nos quartos do prdio visitado.

Linguagem

A linguagem utilizada por Bojunga em Corda bamba predominantemente simblica, fala por imagens e consegue comunicar as idias abstratas. Por meio da anlise dos elementos simblicos vistos, percebe-se que a utilizao dos smbolos medular na obra. Tem o objetivo de ilustrar o elemento psicolgico por meio do significado nele contido, visto que a trama principal da narrativa acontece na mente da protagonista, cenrio de representao dos seus conflitos.

Assim, desde a forma como o texto est estruturado at os pequenos objetos presentes na narrativa, tudo tem significao simblica no texto, como ocorre nos contos de fadas. A estruturao fragmentada simboliza a prpria vida conflitante de Maria, que se encontrava em pedaos aps a morte dos pais. Ela se v sem passado e sem futuro e, a partir do momento presente, reconstri a vida passada para poder construir o futuro. Esse reconstruir e construir realizado na sua mente, no espao psicolgico, recorrendo-se s imagens, linguagem figurada, ao smbolo.
Fonte parcial: Alice Atsuko Matsuda Pauli - Dissertao de Mestrado - Faculdade de Cincias e Letras de Assis Universidade Estadual Paulista

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