Dispersão, de Mário de Sá-Carneiro

  • Data de publicação

Primeiro livro de poesias de S-Carneiro, poeta de disperso interior, Disperso revela logo no ttulo a dificuldade de concentrao, a pluralidade de opes com que o seu interior se confrontava, anunciando j o termo trgico que daria sua vida. Contm 12 poemas e a busca do ideal inacessvel, o mundo de sonhos onde o poeta se sente bem:

Um pouco mais de sol eu era brasa.

Um pouco mais de azul eu era alm;

E o grande sonha despertado em bruma,

O grande sonha dor! quase vivido...

Disperso e Alm-Tdio so poemas significativos da tristeza, exprimem o tdio endurecido e a dor "de ser-quase" que o faz ter saudades da morte. A propsito dos poemas de Disperso, o poeta no se integra no mundo, o que lhe causa por vezes um sofrimento de morte. S-Carneiro seria destrudo pela sua poesia e em proveito dela.

O dualismo de S-Carneiro revela-se tambm atravs da oposio, anttese, na definio de si mesmo, na impossibilidade de reconciliao entre o poeta e o mundo, entre a alma e o corpo.

No sou amigo de ningum. Pra o ser

Foroso me era antes possuir

Quem eu estimasse ou homem ou mulher,

E no logro nunca possuir.

Eis a confisso de Ricardo a Lcio explicitada no poema Como eu no possuo. Ricardo confessa ainda: estes desejos materiais (...) no julgue que os sinto na minha carne; sinto-os na minha alma. Est aqui bem ntida essa impossibilidade de reconciliao entre a alma e o corpo. Esta dicotomia integral conduzir fatalmente disperso. Em Mrio de S-Carneiro tudo brumoso, difuso, velado, tosco, nevoento, tudo tarde, crepsculo, poente, fim de dia, noite, sombras, trevas, numa palavra mistrio. Os prprios ttulos indicam uma atmosfera nebulosa, mal definida: Intersonho, Vontade de dormir, Disperso, Quase, Alem- Tdio.

O primeiro poema de Disperso, intitulado Partida, exprime o supra-eu do poeta, o seu ideal, a promessa de grandeza e do gnio que se sente em si. J neste poema S-Carneiro toma conscincia da dicotomia dispersiva do seu ser. Temos no poema:

Ao triunfo maior, avante pois!

O meu destino e outro alto e raro.

Unicamente custa muito caro:

A tristeza de nunca sermos dois.

No livro Disperso ainda se notam ressaibos de expresso simbolista. Contudo, j um livro moderno pela ateno que da ao existencial. Verificamos ao longo do livro o desespero do poeta causado pela dicotomia de no conseguir alcanar o celeste, o divino, o ideal. Assim, a sua alma est nostlgica de alm. Patente est tambm o desespero de no se adaptar vida, porque um domingo famlia, / bem-estar, singeleza,! E os que olham a beleza / No tm bem-estar nem famlia. A busca e a disperso de si mesmo so a linha de conduta de todo o livro. O poeta, num desabafo desesperante, diz: Perdi-me dentro de mim / Porque eu era labirinto, / E hoje, quando me sinto, / E com saudades de mim. A dor de no ser quase e o desejo de equilbrio tambm esto presentes, assim como o narcisismo enternecido que por fim se transformara em desprezo e o levar a dizer: O pobre moo das nsias... / Tu, sim, tu eras algum! / E foi por isso tambm / Que te abismaste nas nsias.

Na essncia da sua poesia surge a busca do seu ideal de poeta, a renuncia que dele exige. Tudo constitui um mundo de dvidas, de nsias, de angustias. A poesia de S-Carneiro nasceu madura, na plena posse dos seus recursos.

O poema Disperso, publicado na revista Europa, foi aplaudido por Fernando Pessoa.

Leia o poema Disperso:

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
com saudades de mim.
 
Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na nsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...
 
Para mim sempre ontem,
No tenho amanh nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.
 
(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:
 
Porque um domingo famlia,
bem-estar, singeleza,
E os que olham a beleza
No tm bem-estar nem famlia).
 
O pobre moo das nsias...
u, sim, tu eras algum!
E foi por isso tambm
Que te abismaste nas nsias.
 
A grande ave dourada
Bateu asas para os cus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os cus.
 
Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.
 
No sinto o espao que encerro
Nem as linhas que projeto:
Se me olho a um espelho, erro
No me acho no que projeto.
 
Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.
 
No perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida. 
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.
 
Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas recordo
 
A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hlito perdido
Que vem na tarde doirada.
 
(As minhas grandes saudades
So do que nunca enlacei. 
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que no sonhei!...
 
E sinto que a minha morte
Minha disperso total
Existe l longe, ao norte,
Numa grande capital.
 
Vejo o meu ltimo dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e alm me sumo.
 
Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mos brancas...
 
Tristes mos longas e lindas
Que eram feitas Pra se dar
Ningum mas quis apertar
Tristes mos longas e lindas
 
Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...
 
Desceu-me na alma o crepsculo;
Eu fui algum que passou.
Serei, mas j no me sou;
No vivo, durmo o crepsculo.
 
lcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em urna bruma outonal.
 
Perdi a morte e a vida,
E, louco, no enlouqueo...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneo,...
..................................
Castelos desmantelados,
Lees alados sem juba
......................................

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