dcsimg

Em liberdade, de Silviano Santiago


Em Liberdade, de Silviano Santiago, publicado em 1981, é um diário (ficcional) de Graciliano Ramos, uma espécie de biografia-confissional que se refere alegoricamente ao “biógrafo” (Silviano).

O livro deveria ser publicado vinte e cinco anos após a morte do autor de Memórias do Cárcere, para que a mítica de um Graciliano Ramos, absolutamente verossímil, como se o narrador de Vidas Secas pudesse ser questionada em Em Liberdade, como o ex-detento que jamais superou a dor de ser excluído, sendo como maior e melhor amigo, o cigarro causador da sua morte por câncer.

A ação ficcional se dá no final da década de 30, ou seja, na fase imediatamente anterior à Segunda Guerra Mundial. Silviano Santiago nos mostra o Brasil sob o regime ditatorial de Getúlio Vargas. A cidade é a do Rio de Janeiro nos anos de 1936 / 1937.

Para tanto, transforma o escritor Graciliano Ramos, representante de uma corrente literária que visava retratar o Brasil através da representação de suas reais condições sociais, em personagem de uma ficção onde uma trajetória pessoal marcada pela profunda consciência, dialoga com a realidade.

No livro podemos encontrar a busca de continuidade do livro de memórias de Graciliano Ramos, Memórias do cárcere, publicado inacabado após sua morte em 1953, onde o autor escreve sobre os dez meses e dez dias em que ficou preso (3 de março de 1936 a 13 de janeiro de 1937). Quando morreu Graciliano Ramos, faltava apenas a escrita de um capítulo dessas memórias, tal como nos informa a nota explicativa de seu filho, Ricardo Ramos, apresentada ao final do segundo volume. Ricardo conta uma conversa que teve com o pai sobre esse último capítulo. Graciliano lhe dissera ser tarefa de uma semana a redação do capítulo que faltava; “pretendia escrever das sensações de liberdade, a saída, uns restos de prisão a acompanhá-lo em ruas quase estranhas”: “Um fim literário”. Em janeiro de 1937, Graciliano teria escrito um diário no calor do momento, cheio de esperança e frustração, com críticas a amigos e inimigos. Mais tarde, percebendo que essa introdução destoava completamente do conjunto da obra Memórias do Cárcere, Graciliano teria resolvido sacrificá-la, entregando-as a um amigo que brodianamente as teria repassado ao editor Silviano Santiago. Fica assim construída a ficção da ficção. É isso que faz Silviano Santiago em 1981. Santiago deseja capturar são os meses imediatamente posteriores à sua libertação.

Silviano Santiago coloca em diálogo o poeta Cláudio Manuel da Costa (poeta e rebelde do século XVIII que participou da rebelião de Vila Rica em 1789), o romancista Graciliano Ramos (na década de 1930), o jornalista Wladimir Herzog (morto em fins da década de 1970) e ele mesmo. Temos então uma conversa onde o papel do intelectual brasileiro frente a regimes autoritários e intolerantes ecoa durante o livro todo. Nesse livro tudo é verídico e tudo é ficção e, portanto, as relações entre literatura, história e biografia são objetos de constante questionamento. Tanto no plano geral quanto no mais específico, o romance coloca em questão a discussão sobre identidade e fragmentação, nas duas dimensões de identidade, a identidade coletiva de um país, o Brasil, e a identidade pessoal do autor, do personagem e do próprio leitor em vários lugares e em vários momentos.

Em uma literatura rica em sátiras e paródias, Em Liberdade talvez seja o mais importante pastiche da literatura brasileira. Santiago incorpora o estilo característico de Graciliano não para simplesmente imitá-lo, ou criticá-lo, ou trazê-lo para o presente, mas para incorporá-lo, para através dele empreender uma reflexão sobre o papel do escritor diante das ditaduras.

Na narrativa de Silviano Santiago, a grande vedete é a própria mensagem, o foco narrativo e ficcional de Silviano sobre um Graciliano Ramos humanista e visceral, um homem que antes do cárcere era um escritor, mas ao sair, saiu como prisioneiro da elite e do seu desconforto em saber demais. Silviano, que compõe o prólogo do livro como um processo de metalinguagem, compartilhando com o leitor a composição temático-formal do seu livro, faz uma crítica ao sistema da elite que mal sabe ler os enunciados dos livros de literatura aos escritores que se submetem para usar palavras para ser compradas por essas elites.

A subjetividade de Silviano é aludida alegoricamente (ele se apresenta apenas como “editor” do manuscrito de Graciliano) e só pode ser recuperada pelo leitor contando com a sua bagagem de informação contextual.

Alegórica ou metonimicamente, a subjetividade do autor-narrador se coloca no texto através de um mergulho numa outra subjetividade com a qual o narrador estabelece um jogo. E em ambos os casos o que relaciona essas duas subjetividades é um trauma: o trauma dos intelectuais na ditadura, num caso, e o trauma da morte no outro.

E esses traumas estão inscritos na História brasileira, o que dá à experiência individual uma dimensão nacional.

Dizemos que ao se narrar a subjetividade do outro, faz-se referência à subjetividade do narrador / autor e este procedimento se repete no interior de Em liberdade, no projeto de Graciliano de escrever um conto sobre Cláudio Manoel da Costa: “Cláudio será Graciliano... O desespero dele, ao saber que todos os seus planos vão por água abaixo, porque não existe pujança para concretizá-los, é meu”. No texto a exposição da subjetividade está mediada por uma estrutura complexa que desconstrói a possibilidade de se ler um suposto “sujeito confissional”.

Além de problematizar o discurso confessional, o romance recusa o discurso da victimização. O “Graciliano” de Em Liberdade se sente permanentemente incomodado com a situação de ser visto como herói-mártir, figura que se tornara lugar comum no memorialismo dos anos 80. A recusa a narrar a experiência do cárcere, e em troca narrar os dias em liberdade, afasta o romance daqueles escritos sob o “síndrome da prisão”.

Na obra Em liberdade, Silviano Santiago faz uma reescritura que pode ser pensada como elaboração do passado. Uma experiência traumática se configura como uma máquina de tempo, que relaciona momentos da história nacional. O passado não deixa de retornar na estrutura em abismo, na qual um tempo contém o passado o futuro.

É uma obra que fala de liberdade de maneira absolutamente não lúdica, porque a liberdade no livro é tratada por um autor que sabe muito bem o que ela deva ser, por tê-la perdido de maneira arbitrária e de conquista por um movimento repressor. Respostas bem pouco civilizadas. Elas utilizam a linguagem mais convincente por aquelas bandas e talvez por todo o Brasil: a da violência de Estado. A perseguição ao inimigo torna-se idéia fixa na cabeça dos poderosos do momento, que sim acreditam poder neutralizar, reduzir a pó toda força de discórdia, conseguindo uma unanimidade que só existe pelo terror que amedronta e cala. Todo governo, mesmo o que não se diz autoritário, reclama da unanimidade.

O autor, que narrava a saída de Fabiano, Sinhá Vitória e os meninos, além e Baleia, não é o mesmo narrador da efeméride de Em Liberdade, do diário de relatos de um Graciliano sob ponto de vista menos eloqüente, menos verossímil e mais humanista, uma vez que a sua vida fora exposta como num diário íntimo e cronológico. Em Vidas Secas, narrava a história como um Deus que pairava onipotente sobre as dificuldades do cenário de horror e de seca e de determinismo e de clausura de soluções. Na obra Em Liberdade, o autor estava sob a força de Deus e o seu pré-juízo.

Neste livro temos o Brasil em época da primeira República em choque de militarismo dominante como garantia para uma República de domínio também ideológico e absolutamente prepotente. No Nordeste esse quadro se confirmava com maior seriedade porque se configurava e se justificava, uma justiça tenentista violenta e de reprimenda dos ativismos mais exaltados, inclusive o de Graciliano. Graciliano fora perseguido pela sua super-exposição ou análise sociológica feita em livros como: São Bernardo.

Havia uma super-exposição do seu caráter de análise sociológico comparada a sua narrativa com a de Dostoiévsi (conhecido por seu livro Crime e Castigo e por sua narrativa impressionista e de submundo, onde o foco de análise era sempre o lado obscuro do ser humano e a difusão de suas idéias humanistas, como a teoria da liberdade de que o super-homem era aquele capaz de cometer assassinatos, e se dispor da vida de outrem). Graciliano era capaz de estabelecer com louvor e frieza de detalhes a super exposição irrisória da condição humana, ou melhor desumana das grandes estruturas. Ele não acreditava na composição social, não acreditava na benevolência de regimes imperialistas, não acreditava na bondade humana, quanto mais na bondade divina, por ser absolutamente cético ou apenas crente na concepção da adversidade como elemento primordial do homem e das relações humanas.

Vingança, perseguição, violência, cadeia e assassinatos são as armas utilizadas pelos mandões como mecanismo de persuasão. Ver reduzidas até a morte as nossas possibilidades de atuação política, acabamos por acreditar nas manhãs do destino ou nas mãos todas-poderosas de Deus. Se destino houver, ele é trançado pelas artimanhas da vingança dos homens.

Graciliano e o seu clássico antropomorfismo (concepção de que Deus tem defeitos absolutamente humanos), com um discurso magoado e agnóstico como a condição de adversidade nordestina, na qual ele submete o Nordeste e ao nordestino. Numa narrativa cumulativa de ódios e de passionalidades, onde ele expunha seus postulados, uma vez que se expunha como uma ferida ou marca social do estigma da ditadura.

O livro narra por datas, as anotações de Graciliano feitas quase em expurgo depois da saída da prisão (onde ele é o principal personagem, o epicentro da construção da narrativa ficcional de Silviano Santiago), é uma construção antes de tudo sentimental e absolutamente articulada pela narrativa de autor. Até a chegada de Graciliano a pensão no Catete, a luta pela reconquista da liberdade, a reconstrução ou ressignificação da sua vida pós-cárcere, a luta por sobrevida numa sociedade de capas, de elite, de unanimidade e que proíbe que as dissonâncias sobrevivam com a mesma dignidade.

O ponto alto do livro, momento anacrônico de articulação perfeita de todos esses vetores, é quando Graciliano / Santiago está pesquisando sobre a vida de Cláudio Manuel e, de um livro de história do Brasil que ele não nomeia nunca mas diz que sempre carrega, ele pinça o seguinte comentário sobre o pretenso suicídio do inconfidente: Tudo leva a crer que foi levado ao tresloucado gesto por ter se conscientizado da sua situação, e estar arrependido da sua militância.

Ao nos depararmos com esta obra em especial, não podemos nos esquecer de que o personagem Graciliano Ramos, cunhado na pessoa do escritor Graciliano Ramos, esteve preso na Colônia Correcional Dois Rios, na Ilha Grande, estado do Rio de Janeiro, tendo permanecido antes alguns dias no porão do navio Manaus, rumando nele para a Ilha. Por si só, este episódio biográfico já se prestaria a variadas interpretações simbólicas, o que, no entanto, não será feito, a não ser quando tais circunstâncias estejam mencionadas dentro do texto ficcional de Em liberdade.

Resumo

O personagem Graciliano Ramos, vai, logo de seu livramento do cárcere, viver como hóspede do escritor José Lins do Rego.

Ele, o personagem Graciliano Ramos, narrador que inicia o diário dizendo que não sente, nem deseja sentir seu corpo, vai retomar sua capacidade física e, junto com seu desejo, seu corpo e a capacidade de trabalho.

São as caminhadas na praia, e as experiências à beira da água ou com água que, desde sua primeira menção, acompanham esta retomada.

O mar, a areia, o ar que ele respira começam a coadjuvar seu regresso ao domínio pleno de sua força.

No poema de Baudelaire citado pelo personagem, os abismos humanos são comparados às riquezas íntimas do mar. Mar e homem são tenebrosos e discretos. O personagem confessa o desejo de "levantar âncoras", "ir à deriva", "navegar de encontro ao desconhecido". Mas não tem forças e se pergunta onde está sua seiva. Constata que não sabe ainda conviver com seu corpo doente, no calor úmido do Rio de Janeiro. Está preso dentro das quatro paredes do quarto em que é hóspede. Diz "não me lavo em rio, lavo-me na pia.

Em seguida, reporta uma cena passada na cadeia em que identifica a paixão com o ato de lavar voluptuosamente as mãos, de entrega total. Lava as mãos como se mantivesse uma relação sexual, intensidade percebida e criticada pelo colega de prisão.

Depois de dias de chuva, ele sai para passear à beira-mar. Encontra um jardim onde uma fonte jorra formando uma gaiola líquida e dentro da prisão um pássaro. A água do desejo, da vitalidade, o pássaro como símbolo do falo, aprisionado no corpo doente. A visão do repuxo se anula por um corpo de mulher que ele segue. Com crescente satisfação percebe a excitação chegando, e tem uma fabulosa ereção enquanto segue a moça que vai à praia.

Com a retomada do desejo vem a mudança, da casa do amigo para um quarto de pensão. A esposa viajou por mar para Maceió. Ele constata, antes de mergulhar numa pesquisa que também o libertará, que desejava ter o corpo solto no ar do Rio de Janeiro, travando uma relação sexual com a brisa marinha. Na rua, sente-se como um navio, abrindo caminho entre ondas humanas.

Mergulhado em trabalho, as últimas reflexões de seu diário dizem "saltei do trampolim", "mergulhei", "em golfos de esperança flutuando mil vezes busco a praia", "abro as comportas", "volto à superfície".

O diário do personagem começa no dia 14 de janeiro de 1937:

Não sinto o meu corpo. Não quero senti-lo por enquanto. Só permito a mim existir, hoje, enquanto consistência de palavras.
...
A caminhada matinal com Heloísa pela praia de Ipanema me fez bem. Não acredito que estaria escrevendo estas linhas se não me tivesse alheado do mundo e das pessoas esta manhã. Se não tivesse finalmente voltado os olhos para o estado lastimável em que se encontra o meu corpo.
...
Pisar a areia. Ver o mar. Sentir a brisa úmida de encontro à pele do meu rosto recém-escanhoado. Dia quente, céu azul, o sol brilhando sem tréguas.
...
Caminhando em direção à praia, já de longe sentia o cheiro agridoce do mar e antes de enxergar o areal branco de Ipanema, com os olhos semi-cerrados pelo excesso de claridade, revia ilusoriamente praias nordestinas como se tivesse assistindo a um filme. A tela era o azul que o funil de casas configurava lá no fundo. Estava com a cabeça aqui e a mente lá.
...
Larguei por minutos o braço de Heloísa e apressei o passo para chegar logo e sentir-me tão forte como antes da cadeia.
...
Respirava fortemente e aproximava-me do corpo de Heloísa percebendo quão indispensável era sua presença ali. O cheiro do mar se confundia com o seu cheiro.
...
O cheiro do mar confundiu-se de novo com o cheiro feminino, ativado que estava pelos corpos das moças que ondeavam correndo em direção ao mar. O sol cintilava contra as águas, lá no fundo, ferindo a minha vista já cega pela luminosidade do verão. Escondemo-nos por alguns minutos debaixo de uma amendoeira, seguindo sugestão minha. Abraçados como estávamos, parecíamos um casal de namorados em encontro furtivo. Agora, dava descanso à Heloísa, amparando-me contra o tronco da árvore. Era sólido e firme e invejei-o. Invejei a seiva que corria por dentro do seu cerne e alimentava galhos e folhas. Com palavras impensadas, lamentei a frustração da minha vida em liberdade. Heloísa levou a mão até os meus lábios e fez-me calar. Agradeci-lhe mentalmente o gesto e, em retribuição, recitei-lhe uns versos de Baudelaire, sem saber em que armadilha caía:

"Vous êtes tous le deux ténébreux et discrets:
Homme, nul n'a sondé le fond de tes abîmes,
O mer, nul ne connaît tes richesses intimes,
Tant vous êtes jaloux de garder vos secrets!"

("Sois todos os dois tenebrosos e discretos:
Homem, ninguém sondou o fundo dos teus abismos,
Ó mar, ninguém conhece tuas riquezas íntimas,
Tão ciumento que sois de guardar vossos segredos!")

Repeti em seguida as rimas, procurando um jogo de significados que a estrofe escondia: "discrets secrets", "abîmes intimes".
Segredos discretos, abismos íntimos. Heloísa me olhava e me escutava. Os segredos discretos jazem para sempre em abismos íntimos. Do fundo dos abismos os segredos exalam odores semelhantes às flores do jardim protegidas por grades intransponíveis. Do jardim, no entanto, saía o perfume da mocidade em ruído e alegria. Os corpos bronzeados femininos dançavam em direção ao mar. "Quand tu as balayant l'air de ta jupe large / Tu fais semblant d'un bateau Qui prend le large." (quando vais varrendo o ar com a saia rodada /Pareces um navio que avança para o alto-mar.) Levantar âncoras. Soltar-me. Abrir as velas, ir à deriva, navegar em direção ao desconhecido, seguir com os olhos, com as narinas com o corpo, alcançá-las. Acariciar a pele tafetá de serpente. Heloísa devia perceber a minha sofreguidão, a minha ânsia de vida. Queria amparar-me e conduzir-me. Dar-me-ia o seu próprio corpo, se fosse possível. Vi que me contemplava penalizada, julgando-me um enfermo sem forças para poder ir até o fim do desejo. Percebia que a chama acesa da paixão se acendia apenas nos meus olhos e era logo apagada pelo desgaste corporal. Onde a seiva? Não quis que tivesse pena de mim. Larguei a amendoeira. Perguntei se continuávamos.
Sátiro, disse de mim para mim, com grande felicidade. Descobria que os meus sentidos não tinham sido embotados pela escrotidão da cadeia. O meu corpo pesava e me deixava triste, paralisado. Era preciso conduzi-lo à sua alegria de antes, ao seu ardor de buscas e encontros, de fugas e rompantes.
Heloísa, os segredos não exalam odores, os segredos são narinas que se revelam ao capricho dos odores. O cheiro do mar, o cheiro de Heloísa, o perfume de flores encarceradas, a essência dos corpos. Por mais que estivessem escondidos no fundo dos abismos, por mais que os julgasse mortos e sepultados nos corredores e celas escuras e tenebrosas, os desejos voltavam a trabalhar à superfície da nossa caminhada matinal em direção ao mar. Os desejos encaminhavam-me para uma jovialidade de sensações que considerava coisa do passado.

Alguns dias depois, num fragmento identificado como "Sem data", encontrado na narrativa após às páginas correspondentes ao dia 18/02/98, encontramos o seguinte:

O meu corpo, no entanto, está doente. Não sei ainda como conviver com este calor úmido do Rio de Janeiro e com as possibilidades (magníficas em outra ocasião) de um caminhar sem rotas marcadas, como este que é propiciado pela liberdade numa grande cidade.O périplo entre as quatro paredes deste quarto dá às pernas a rotina da marcha dentro de limites estreitos, calculada e reticente, econômica. No cubo protetor deste quarto, as pernas atrofiam-se, o corpo compraz-se com a horizontal, ou dobra-se ao meio no conforto da cadeira. Não piso terra, piso o chinelo; não vejo sol, vejo a lâmpada; não me lavo em rio, lavo-me na pia.
...
A paixão requer o desperdício. Requer que se gaste sem economias, sem o espírito de poupança. Requer o corpo e espírito em toda a sua plenitude. Sem perspectiva de futuro, existe o presente.
Outro dia, na cadeia, riam de mim enquanto lavava voluptuosamente as mãos. Alguém, às minhas costas, queria que eu não gastasse o sabonete como estava gastando. Depois queria que eu me apressasse, pois desejava usar também a pia, o sabão e a água. "Está gastando demais, vai acabar", "usa e abusa", "deixa para os outros, seu egoísta" – eram os pedaços de frases que se escutava, repetidos até a exaustão. O meu companheiro de cadeia queria que economizasse o sabão, a água e a pele das minhas mãos. Que até mesmo – quem sabe – economizasse a minha energia. Quanto `a mim, só sentia que queria interromper-me na metade. Tornar rotina o ato de lavar as mãos. Deixar-me sem a satisfação, frustrado. Entreguei-me com mais sofreguidão à água e ao sabão, ao esfregar. A voz sem rosto visível não soava mais. Fechara os ouvidos. De repente, eis que uma frase, precisa como um golpe de martelo na cabeça de um prego, abre os meus ouvidos e fura os tímpanos:
Ele lava as mãos como se estivesse fodendo.

Em 22/01/1937, o personagem sai de casa, após dias de chuva que impediam-no de caminhar e se dirige à praia de Botafogo:

Chegando ao destino, parei por alguns instantes junto a um repuxo que fica defronte à baía. É um repuxo onde, se não colaborou a mão do artista original, entrou a do artesão hábil e sentimental, desses que conseguem, se fazem filme ou escrevem peça de teatro, arrancar lágrimas de comoção da platéia. Sua intenção, bem lograda por sinal, foi a de fazer que os jatos circulares de água desenhassem no espaço uma gaiola líquida, dentro da qual se banhava uma ave em mármore. Um cisne, penso, pois tinha o bico voltado contra as penas da asa. Estava admirando a precisão e, por certo, a delicadeza da composição, quando de repente a imagem do repuxo é anulada pela do perfil de uma garota dos seus vinte anos. Atravessava a avenida, escapando dos carros. Ia bronzear-se neste dia de sol ralo, que se sucedeu aos dias chuvosos. A areia da praia, já tinha reparado, nem seca estava.
Admirei o corpo e o andar, o torneado das coxas e a rigidez da carne, as curvas esculturais do traseiro, o vigor no busto e a limpidez de pensamentos no rosto e no olhar. Admirei o corpo e o andar e, sem o sentir, já estava amarrado à corrente da concupiscência, como se fosse o mais fiel dos cachorrinhos. A moça deixava atrás de si um rastro de perfume silvestre, impregnando o ar com doçura e severidade. Deixava-me absorver por aquela atmosfera cálida e esquecia passantes, trânsito, barulhos, vozes. Apenas os dois. Caminhava ela na direção do Morro da Viúva, e lá ia eu atrás.
Nisso passou-se o inesperado: mais caminhava, mais sentia o meu membro enrijecer-se. Como tinha saído de paletó, não tive receio do escândalo que poderia causar. "Sátiro", "tarado", "ridículo" – foram palavras que nem passaram pela minha cabeça na hora. Passam agora, quando não posso impedir-me de rever moralmente a cena, encontrando dificuldade em narrar, de maneira singela e verdadeira, o que aconteceu. Enfiei a mão esquerda no bolso das calças e arranjei-o de tal forma que ficaria todo o tempo protegido da curiosidade alheia pelas abas do paletó que se entrecruzavam.
Obrigado a abotoar o paletó, já não sentia a aragem que circulava pelo seu interior, esfriando com a umidade da manhã as axilas. O suor ameaçava empapar a camisa.
O membro enrijecido – e sensação era extraordinária, tenho de confessar – inchava e subia. Ao subir, levava literalmente consigo o meu corpo, dando-me a nítida experiência de estar em ascensão. Flutuava no espaço. Levitava, como diria um amante das ciências ocultas. Era tomado por uma força que vinha da junção das pernas, da fricção operada pelo movimento cadenciado delas, como se ali estivesse um dínamo que transmitia energia para o membro e toda a parte superior do corpo, esquentando-a, dando-lhe vigor. Tomava conta do tórax, deixava a transpiração solta e forte como um fole, atingia o esôfago, esquentava a boca, iluminava o rosto, fechava os ouvidos, clareava a vista, atiçava os cabelos curtos. Inchava como se fosse um balão de São João. Subia pelos ares.

Após alguns dias, em 25/01/1937, o personagem acompanha a esposa ao cais, onde ela embarca para Maceió. Duas semanas depois, ele se muda para uma pensão, onde reflete, em 15/02/1937:

Tenho o esqueleto tenso, tenho os músculos tensos. Gostaria de aprender a soltá-los, como que para deixar que o meu corpo exista sem os constantes enredos, mandos e desmandos da cabeça. Queria o meu corpo solto no ar do Rio de Janeiro, fazendo brincadeiras coma brisa marinha, como se travasse com ela uma relação sexual. Quando passo pela rua, sinto que abro caminho no ambiente como se fosse um navio torpedeiro, antagonizando o ritmo natural das ondas humanas. Viver no ar como se bóia na água.

A partir de então, já de novo pesquisando e escrevendo ficção, o personagem lança-se ao trabalho em seu quarto de pensão. Uma pesquisa sobre o inconfidente Cláudio Manuel da Costa passa a ocupá-lo por inteiro. Quase ao final da narrativa, na data de 20/03/1937 ele nos conta:

Há dias saltei do trampolim. Há dias mergulhei. Retenho a respiração por dias seguidos; retive-a enquanto não explodiam os meus pulmões. Não agüento mais a pressão da água. Tenho de voltar à superfície para respirar.
Quando mergulhar de novo, Cláudio já existirá na folha de papel em branco, onde jogarei as suas palavras. Não serei mais eu.
...
Fui eu quem escreveu: em golfos de esperança flutuando mil vezes busco a praia desejada; e a tormenta outra vez não esperada ao pélago infeliz me vai levando.
...
Sinto a energia e a intensidade que existem reprimidas na frase de Cláudio. Abro as comportas. Deixo que se espichem, se robusteçam, exercitando-se por algumas páginas mais.
Volto à superfície.

O final da narrativa se dá em 26/03/1937, quando o personagem vai ao cais buscar a esposa.

Comentários

Siga-nos:

Instituições em Destaque

 
 

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e receba as últimas notícias do Vestibular além de dicas de estudo: