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Encontros de abismos, de Júlio de Queiroz


O legado literário da Bíblia, amplo e variado, deu origem a Encontros de Abismos, de Júlio de Queiroz. O autor se assemelha a um dos representantes em nossos dias daquelas gerações de humanistas que buscam unir o conhecimento, o espírito e a palavra (escrita e oral), na compreensão e tentativa de esclarecimento do homem, como um irmão de grandeza e sofrimento, desprendimento e mesquinharia, fraternidade e solidão. Há nele uma religiosidade que transcende rituais.

1. ESCURIDÃO NO MEIO-DIA

Você é capaz de perceber quem é que está literalmente ao seu lado? São suficientes todas as suas teorias e crenças para torná-lo alguém pronto para o óbvio?

Neste primeiro conto, Julio de Queiroz apresenta o Monsenhor Lustosa, um homem meticuloso, pronto para enfrentar um encontro que discutiria sobre o “Jesus Histórico”.

Parecia pouco interessado, mas a leitura do folheto sobre os palestrantes o deixara um pouco mais interessado, pois estariam lá dois professores de Lovaina, onde ele havia estudado filosofia. “Além disso, a escolha do lugar para o encontro fora-lhe uma agradável recordação”, pois lá morava um antigo amigo seu de seminário, ex-clérigo, “que depois de ter abandonado a vida sacerdotal, havia se mudado para lá”.

Monsenhor Lustosa vinha de uma tradicional família alagoana e unia à piedade melíflua um acendrado horror a movimentos que pudessem, até de longe, ser ameaça aos bens materiais e à posição social dos Lustosas, usineiros e fazedores de governantes.

O encontro ocorre sem maiores sobressaltos e encontramos o Monsenhor Lustosa em visita ao ex-clérigo Flávio. Assentados, conversando sobre os últimos acontecimentos de suas vidas, Flávio elogia sua esposa: “...Parece jamais se cansar. É a admiração da casa; são os filhos; os cuidados com as aulas do cursinho. Atira-se a todas as tarefas com um entusiasmo de menina...” “- Marta!Marta!... - balbuciou Monsenhor Lustosa... Não nos esqueçamos, Amarildo, (nome de batismo do Monsenhor) que sem Martas não teria havido o conforto ordeiro para Jesus descansar quando passava por Betânia. Sem Martas não há casas de famílias. É um alegria vê-las carregando o mundo...”

Há uma breve discussão sobre o celibato: Flávio defende o fim dele, “Quando Roma tornar a permitir o casamento do clero, estou certo, haverá menos santos e santas retratados com visões místicas do Menino Jesus em seus braços”; enquanto Lustosa preza pela sua permanência.

Depois das despedidas, Amarildo “não invejara seu ex-colega nem como pai de família nem como servidor público, ainda que seu anfitrião parecesse satisfeito com ambas as situações”.

“Na noite daquela tarde, bem jantado e depois de uma curta caminhada pelos arredores do hotel, Monsenhor Lustosa viera sentar-se no salão de espera”.

Sozinho, Lustosa desfruta dos três grandes luxos do século XXI: espaços amplos, ausência de barulho e alimentação plena, mas percebe a aproximação de um homem que ele reconhece ter participado do encontro. Tal homem apresenta-se como Manoel Derranges, pertencente a uma congregação evangélica, ele relata uma visão que teve uma visão sobre uma vida passada sua. A angustia consistia na descrença de tal possibilidade por parte de sua congregação e ele busca o aconselhamento de Lustosa. O Monsenhor, que antes explicara que esta denominação refere-se a um ponto na administração da Santa Igreja, afirma, sem muita convicção, “a verdade traz a paz. Liberta.”

Lustosa, em vez de ter-se juntado aos grupinhos dos participantes que iriam em comboio por Floripa, decidiu “flanar” pela Ilha da Magia sozinho, aproveitando as belezas da cidade.

Ao retornar ao hotel, encontra uma arrumadeira que lhe pede algo inusitado: orações por uma irmã que tivera um filho deformado – um bicho -. O padre, obviamente enfurecido negou-se a orar pela morte de alguém. A defesa da arrumadeira é simplória: "- se ele morrer, Padre, é a vontade de Deus. Eu só estou pedindo para o senhor pedir para Deus querer. Se Deus quiser, ele morre."

O telefone tocou e ele foi informado que só poderia voltar de ônibus ou esperar mais um ou dois dias, pois seu vôo estava com problemas. Decidiu pela primeira opção.

Acaba por travar amizade com o Professor Roriz, da USP, um dos especialistas, no momento não lembrava em que, participantes do encontro.

Os dois conversam sobre Teologia, mais Roriz que Lustosa, este último ouve as considerações antropológicas do primeiro e pergunta: “E quem é que o Senhor deificou em lugar do Jesus destronado? - ninguém. Não há necessidade de deuses para se explicar alguma coisa no mundo da História. Não tome isto como grosseria, porém o fato é que nenhum fundador de qualquer religião se declarou “filho de Deus”. Essa honraria lhe foi outorgada por seus seguidores, ciosíssimos da necessidade da condição suprahumana de seu herói inicial.”

A conversa segue com explicações teóricas e históricas do professor Roriz até que Lustosa sugere um almoço, mas com uma condição: não discutirem teologia.

Na rodoviária chamada de Terminal Rita Maria, Lustosa, comenta sobre o interessante nome: “é o de uma vivandeira que manteve sua barraquinha de comidas por esses arredores, muito antes da construção do terminal.. Roriz acredita ser pouco digno tal nome e o Monsenhor atravessa afirmando que “a mais famosa universidade européia chama-se “banhado do boi” (Oxford).

Encontram os dois estudiosos da palavra um certo Pastor Nivaldo da Igreja Joanista que também participara do encontro. Decidiram os três viajarem para São Paulo juntos, mas os números dos bilhetes pertenciam a diferentes poltronas. Solicitaram no balcão a devida troca, que foi possível graças a uma desistência de última hora.

Os passageiros entram no ônibus e Lustosa parece odiar cada momento em que ele deve estar misturado ao povo.

Percebe ao seu lado o homem que havia proporcionado a possibilidade da troca de troca de assentos: “um operário comum, talvez entre trinta e trinta e cinco anos... tomara que não fosse conversador..”

Começa então uma conversa entre os homens de Deus: “- somos um povo católico, professor – Cristão – corrigiu o pastor, mal se virando para trás. - Quis habet majus, habet minus” jaculou o Monsenhor - “quem tem o todo, tem a parte”.

A conversa em torno dos temas bíblicos continua até que o trabalhador ao lado de Lustosa pergunta se eles estavam falando de Jesus. Os participantes do encontro olharam-no com certo desprezo e perguntaram se ele havia participado do mesmo, o que o homem negou, perguntaram então qual sua profissão, ao que respondeu: marceneiro.

A conversa foi interrompida pelo salto do marceneiro que fora ajudar uma criança que acabara de tropeçar, pois estava brincando nos corredores do ônibus.

Continuaram os estudiosos da palavra de Deus a discussão sobre a bíblia até que pelas tantas o prof. Roriz percebe que uma senhora grávida vai vomitar. Lustosa comenta sobre o possível cheiro que iria ficar. Já o marceneiro vai em direção da mulher e a conduz ao banheiro. “...pelo jeito, também gosta de grávidas – comentou sarcasticamente o Monsenhor”.

Na primeira parada, Lustosa percebe que há no ônibus um casal de pobres e seus filhos e que eles nada comem e passam direto pelo bar que servia lanches rápidos.

Há uma discussão sobre a pobreza.

Decidiram nossos personagens por um breve silêncio para descansarem.

Mais que duas horas depois, o ônibus tornou a sair da estrada, agora em direção a uma construção ampla e envidraçada, um restaurante.

Os passageiros desceram para uma refeição completa: “Monsenhor Lustosa pediu um filé mignon. Professor Roriz preferiu um filé de truta a la Belle Meuniére, ressaltando ao garçom a necessidade da presença de alcaparras. O pastor Nivaldo exigiu um filé a cavalo com batatas fritas. E olhou seu relógio, como se quisesse controlar o tempo da chegada do prato.

...Olhem, - disse o Pastor Nivaldo, indicando com os olhos – o carpinteiro do Monsenhor Lustosa está jantando com a família de desempregados,...

...feito o pedido, afastado o garçom, o carpinteiro inclinou-se até a sacola de pano que havia levado consigo e colocado ao pé da cadeira em que se sentava. Dela tirou um pão redondo e escuro, de produção caseira, e o pôs sobre a mesa. Logo após isso inclinou-se de novo e, desta vez, levantou uma garrafa comum, sem rótulo, e a colocou ao lado do pão. Era vinho, também de produção doméstica. Em seguida, serviu vinho, pegou o pão, partiu-o com gestos quase rituais, não sem antes ter levantado os olhos, como que numa curta oração”.

Os três especialistas fazem comentários, alguns até negativos sobre aquela cena.

Pouco tempo depois chegam em São Paulo.

Todos vão em direção de suas casas.

“Estavam atarefados em recolher seus pertences de mão e em despedir-se quando passou por eles, com sua sacola de pano, o companheiro de poltrona do Monsenhor Lustosa.

Nenhum dos três O havia reconhecido.

ENIGMA NO ENTARDECER

Que tal ser testemunha ocular de algum evento? Com certeza, terá a possibilidade de contar uma boa história no futuro. Agora, e se pudesse presenciar o sofrimento de Cristo desde o Horto das Oliveiras até sua crucificação? O conto em questão apropria-se de várias passagens bíblicas, em especial a narração do Evangelista Marcos que pode, segundo alguns teólogos, ser o próprio jovem que corre nu no Horto das Oliveiras e Julio de Queiroz traz para a mesma massa a teologia e a literatura.

Demétrio, o personagem fictício, contará sua história: um espartano, grego feito escravo sexual pelos romanos na casa de uma mulher chamada Aspásia, feito soldado romano livre em Jerusalém e o mais importante: um homem que confessa ter tido sentimentos de amor carnal pelo Cristo.

Demétrio informa possuir sua taverna em Roma e ele está decididamente preocupado com o crescimento de uma certa religião que prega a existência de um Deus único. O narrador é espartano, portanto, nasceu para a arte da guerra. Ele apresenta o seu povo: “Nós, gregos, estamos em todos os lugares do mundo conhecido. Desde então, até os que nos conquistaram pelas armas forma vencidos por nosso cultivo da beleza – o dos nossos escultores e arquitetos; e do espírito – o dos nossos filósofos, dramaturgos e poetas.

Relata Demétrio que foi comprado por uma meretriz de Roma, ao dez anos e que recebeu educação primorosa onde aprendeu com Eudoxis, um outro grego escravo, a usar a beleza e juventude a seu próprio favor.

“Por quatro anos, todas as tardes e noites, trabalhei na cozinha, lavando panelas e vasos de barro. Pelas manhãs, Eudoxis ensinava-me gramática, música, canto e a tocar lira.” Assim, Demétrio começou a servir os convidados e a ter cada vez mais importância na casa de Aspásia.

“Certo começo de tarde, quando Roma festejava as Bacanálias, mandaram-me ir para o cubículo e dormir...“

Foi informado o jovem personagem que serviria apenas o hóspede de honra: Junio Valério, o orador máximo do Senado. Tudo que ele quisesse deveria ser atendido.

Junio Valério ficou encantado com seu novo brinquedo: “...pedi-te um companheiro jovem e trazes-me a promessa de um Apolo...”

Demétrio torna-se então, escravo exclusivo de Junio Valério.

Por mais de dois anos, Demétrio foi ao mesmo tempo hóspede e escravo na casa de Aspásia. Ele aprendeu a cobrar pelo uso de seu corpo e saia durante as noites em busca de alguns denários. Certa vez encontrou uma escrava de nome Cloé, a escrava do chiqueiro, mirrada, corcunda e com um pé deformado, chamavam-na Mínina por ser insignificante. Demétrio promete que um dia irá libertá-la.

Demétrio não sabe, mas há um outro escravo que o segue e que relata todos os seus passos a Junio Valério, este durante uma destas festas na casa de Aspásia profere “Valete” e os outros comensais “Valete Romano”, era a despedida de Junio para o seu preferido.

No outro dia a mudança de vida: “Levanta-te, escravo! Fez-me sair da cama sem qualquer uma das amabilidades com as quais eu já havia me acostumado desde que me tornara o favorito de Junio Valério”.

Descobrira que fora enviado a um certo Patrício, centurião, como presente de Junio Valério.

Mesmo não entendendo bem o que estava acontecendo, Demétrio decide reclamar da condição de escravo, argumento ser espartano ao que Quinto, ajudante de Patrício profere: “- se falaste inspirado pelos deuses, sairás da cozinha, não apenas com a barriga cheia, mas liberto. Se ensaiaste a cena, também estarás liberto, mas o Centurião poderá fazer-te a vida tão miserável que orarás aos teus deuses para voltar à escravidão”.

Então Patrício, lê sua tábula, onde Demétrio é liberto da escravidão e torna-se um soldado como aprendiz na Guarda das Insígnias.

Demétrio analisa a situação, pensando em seus deuses e em um velho ditado grego: “A quem os deuses querem perder, primeiro fazem-no pensar ser um de seus favoritos”.

Vai então Demétrio para Jerusalém, lá entra em contato com os judeus, povo que ele abomina: “- passam o dia ruminado orações – as bênçãos, ora dizem por que vão beber um gole d'água, ora por que não tropeçaram num gato. Suas mulheres, tão sujas e querelosas como os homens – caso não sejam piores – são seres de segunda classe até entre eles, o que não é dizer pouco tendo-se em vista a parte masculina.”

Em Jerusalém, Demétrio aprende a vida na caserna mas também volta a prestar favores a homens em troca de dinheiro e seu ponto de encontro favorito é o Horto das Oliveiras.

Gostava daquela situação, pois os homens que encontra durante a noite, depois, durante o dia, escondiam suas faces: “um dos poucos modos de alguém divertir-se em Jerusalém é humilhar seus habitantes. É quase tão arriscado quanto entrar numa arena para enfrentar animais selvagens, pois pouca coisa é mais perigosa que o filho do casamento da ignorância com o fanatismo religioso.”

Demétrio faz duras críticas à religião judaica, em especial no que tange à crença de um Deus único: “um Deus único não é apenas loucura; é uma mina de ouro”.

É chegada a época das festas da Páscoa e Jerusalém vai entrar em ebulição.

Demétrio relata um caso em que um soldado cometera uma falta grave, postos em fila ninguém confessou a falta até que oito soldados afirmaram tê-la cometido. Todos foram açoitados e os soldados haviam tão somente dito serem os faltantes só para manterem a honra da Guarda. Logo após, foram os soldados informados que teriam seu soldo dobrado naquele mês.

Aconteceu pois um alvoroço tremendo e o jovem Demétrio foi ver o que se sucedia na Porta dos Essênios. A cena descrita é da chegada de Jesus em Jerusalém conforme Marcos 11,1, mas o que mais chama a atenção é o olhar que Demétrio tem certeza ter recebido do Messias: “Eu não sabia se rira salvar esse povo, ou se era enviado pelos deuses do Olimpo. Não sabia de que profundezas do passo tinha vindo; não sabia que futuros o esperavam. Só soube, naquele momento, que aquele era o ser para o qual eu havia sido criado. Que era ele a quem eu pertenceria. Que, diante do amor que ele poderia me dar, Valério, da antiga e orgulhosa casa dos Junios, era um verme sem dignidade. Como ensinado pelo filósofo, aquele homem era minha metade ideal, a que eu recebera na minha criação e que os deuses haviam separado para que, quando reencontradas, elas se tivessem merecido pela busca ingente. Era ele!”

“Aquele olhar em resposta ao meu olhar!Ah! Os mundos desvendados!”

Demétrio fica desconcertado com o encontro: "o judeu poderia não ser o herói que seus compatriotas esperavam, mas era, certamente, alguém de nobreza interior. E tinha se interessado por mim. Caso contrário, não me teria lançado aquele olhar tão docemente penetrante, que me havia conturbado tanto. Era preciso que aquele judeu soubesse que eu, Demétrio, grego e liberto, lhe retribuía o amor".

Na manhã seguinte, Demétrio sai em busca de Jesus e leva consigo uma bilha d'água conforme Marcos 14,13 e isto só por diversão, pois era impensável um homem livre fazer isto.

Encontra dois apóstolos e lhes pergunta sobre o Messias, mas este não lhe dão importância.

Percebe Demétrio que os apóstolos conversam com outro homem que também leva uma bilha à cabeça e que estes o seguem até a casa de Salomão ben Elias.

Ele procura saber quando acontecerá a ceia de Páscoa, para que possa estar em contato com Jesus e descobre que isto acontecerá logo após ser tocado o chofar do Templo.

Demétrio perfuma-se com a certeza de que o Rabino era homem e “...homens são homens, não importa onde”.

Após ser tocado no templo o chofar, Demétrio segue para a casa de Salomão bem Elias onde avistou o Messias novamente. Espreitando os acontecimentos, percebe quando um dos seguidores de Cristo passa por ele segurando uma bolsa de dinheiro que lhe pendia no cinto.

Longo tempo depois, percebe que o grupo dirige-se ao Horto das Oliveiras.

Por conhecer bem o Horto, Demétrio toma um atalho e pode ver, bem de perto, os acontecimentos que se sucedem, ele vê Cristo falar algo aos apóstolos (compare com Marcos 14,32).

Então Cristo separou-se do grupo e para Demétrio isto era um sinal claro de que ele queria encontrar-se a sós com o jovem espartano.

“Estendi o lençol grosso sobre o chão, deitei-me, e, cobrindo com uma de suas pontas apenas uma parte de minhas pernas, deixando nu o peito e o ventre, pretendi estar adormecido.”

Ele sente a aproximação do Rabi mas percebe que o mesmo vai em direção dos discípulos que haviam ficado para trás e estavam dormindo, provavelmente por causa da bebida na ceia.

Chega a tropa do templo para prender Cristo e o jovem Demétrio sai correndo nu com um lençol (compare com Marcos 14,51-52).

Ao chegar a seu acampamento, ele descobre que alguns soldados haviam saído em reunião especial. É delimitado um estado de prontidão para os soldados e Demétrio espera poder logo encontrar-se definitivamente com Cristo.

Findo o estado de prontidão outros soldados o convidam para seguirem uma turba que vai ao Morro da Caveira. Lá ele vê a crucificação de Cristo e faz uma descrição detalhada deste ato bárbaro e quando chega mais perto percebe que o crucificado era seu amado.

Ao ver aquela cena horrenda “sem querer saber o que me impulsionava, avancei celeremente. Chegado ao pé da cruz da qual pendia o rabi nazareno, arranquei a lança das mãos de um guarda espantado, e, levantando-a, com o ímpeto de um titã descontrolado, rasguei o peito arquejante e desfigurado, fazendo-a atravessar o coração ignorado daquele homem desconhecido... (compare com João 19,34).

“Os dias, as semanas e os meses que se sucederam àquela tarde não me foram tempo medido, mas um vácuo sem sentido e sem lembranças.”

Logo, Roma atacou um grupo de judeus e Demétrio nos confessa: “Matei muitos. Não os matei por amor a Roma nem para vingá-la; nem mesmo por desprezo àquela ralé peçonhenta. Matei-os para me limpar da morte indecentemente covarde, na cruz, daquele a quem eu quisera amar." Neste combate, Patrício morre.

Chegando em Roma, recebe cinco mil sestércios como herança e a liberdade do serviço militar.

Assim, Demétrio vai procurar Cloé, a escrava e anuncia sua libertação, já que havia comprado esta mulher que servia na pocilga.

Entretanto, algo de estranho havia no olhar daquela “aleijada”, “...certamente estava feliz. Porém, não era a felicidade exuberante que eu tinha esperado. Estava tranqüila. Cloé anuncia a Demétrio que já é livre, não o corpo torto que ela possuía, este era inteiramente de Aspásia. Explica-se então: “Uns escravos da cozinha, os que faziam compras no mercado e de lá traziam sempre muitas notícias, conheceram outros escravos que lhes contaram a grande novidade. Eles a compartilharam comigo. Com o tempo, às escondidas, também passei a freqüentar os encontros, nas catacumbas. Nelas, recebi a boa nova... Fui comprado pelo Filho do Deus único. Ele morreu na terra dos Judeus, numa cruz. É o Deus dos escravos e dos humilhados em todo o mundo. É por ele que fui libertada. Demétrio, nós, os escravos, os vencidos, somos os vencedores! Depois que aceitei o Senhor, nem Políbio nem Aspásia tiveram mais qualquer poder sobre mim. Nunca mais chorei com medo de ser batida. Já não temo os deuses nem suas apostas para me fazerem sofrer, pois eles são apenas sombras. Logo depois, Demétrio conduz Cloé a seu quarto e começa, em silêncio, a meditar: “na entrada em Jerusalém, o olhar de um homem montado num jumento. O olhar desse mesmo homem, na entrada da casa de Salomão bem Elias, para sua ceia de Páscoa. O mesmo olhar, desde a cruz infamante. Um pregador, aqui, numa praça, no próprio centro de Roma, a a me gritar sobre o mesmo judeu crucificado. Agora, Cloé, que não sentiu o poder daquele olhar; jamais se encontrou com aquele homem enquanto vivo; que não assistiu sua morte, libertada por ele de seus fantasmas interiores. Pacificada. Livre... Na juventude, porque para isso haviam me treinado, apaixonei-me por homens. Esse rabino nazareno foi um deles. Mas fiquei adulto. Essas coisas ficaram para trás. Ele entrou no reino das sombras. Por que não fica lá? Por que me segue?"

FULGOR DA NOITE

Este conto, narrado por Lázaro, começa com o próprio apresentando-se como cordoeiro e irmão de 2 mulheres.

Eis que surgem dois guardas do templo à sua tenda de negócios que o conduziriam ao Templo para ser examinado. Sua casa não era longe de Jerusalém, já que era morador de Betânia. “Depois do exame dos sacerdotes, se eu tivesse sido proclamado leproso, teria poucas horas para deixar o lugar onde vivi e ir para o Vale dos Mortos Vivos, as cavernas longe da estrada, sem jamais ter podido voltar à cidade, sob o risco de ter sido apedrejado até a morte. É a lei”.

Um dos médicos do Templo, após a inspeção em Lázaro declarou-o limpo. Um dos sacerdotes gritou: "por sete semanas deves ir ao átrio do Templo e, a cada vez, oferecer um carneiro para oblação, em agradecimento Àquele cujo nome não se pronuncia. Em gratidão, pela purificação."

Ninguém ousaria comentar, muito menos Lázaro, em voz alta que sempre era retirada uma parte dos carneiros para os sacerdotes, mas já que ele estava limpo ninguém seria contrário a uma decisão do Sinédrio.

Mas nada escapa aos ouvidos e olhos dos vizinhos e ele tornou-se Lázaro, o leproso.

Viveu Lázaro por vários anos explicando-se sobre seu apelido, até o dia em que lhe veio a febre.

Então morrer é só isso?

Lázaro nos conta que ao tentar levantar-se seu corpo voltou à cama e atônito viu-se saindo de seu próprio corpo. Ele era puxado, não pelo vento, por ele mesmo que era agora vento. Percebeu um túnel, viu seu corpo estirado mais uma vez, viu também um Núbio, que ele enganara algum tempo atrás vendendo-lhe uma corda inferior, perder sua camela ao estouro daquela corda. Voltou então a ser criança, aprendendo em círculo na ieshivá. “Eu tinha agora oito dias de vida. Estava no colo do sondek, meu padrinho, e o mohel tinha acabado de me circuncidar. 'É um filho da aliança', exultaram eles.”

Tornou-se então um nada em busca da luz na boca do túnel. “O anjo da Morte lá estava à minha espera. Crescia em potência à minha vista. Não, não podia ser o Anjo da Morte. Devia ser o Anjo da Vida, pois me fixava com o terno amor de mil mães. É ele! Nesse momento, eu o soube. É ele o querubim, o que serve junto ao trono do Altíssimo. E me amava muito!”

Extasiado, Lázaro sabe que agora era parte de Elohim, “não, não era parte, eu era o próprio Elohim, e estava então na minha herança legítima, verdadeira, eterna. Para sempre, eu haveria de ser na luz! Como isso era deleitoso! É só isso morrer. Repentinamente Lázaro começa sentir que está sendo puxado e ouve um trovão. Ele tenta lutar contra tal força, mas é inútil. O chamado: “Lázaro! Vem para fora!”(compare com João 11,43).

“é ele!é sua voz! É o Rabi Nazareno a quem minhas irmãs tanto agradavam quando passava por nossa casa. Parecia ser meu amigo quando me olhava sorrindo, com o que me levava a crer ser uma ternura grande. Mas não era amigo. Se o fosse, saberia que aqui, onde eu tinha chegado, é que era meu quinhão de herança.” (compare com João 11,4)

Lázaro descreve seu ressuscitar com os olhares estupefatos de suas irmãs, vizinhos e amigos. Começaram a retirar as faixas longas que cobriam o corpo daquele homem e em vez da sensação de liberdade, Lázaro confessa-nos que sentia-se preso.

“O rabi, calmamente, como eu sempre o vira, olhou-me demoradamente e sorriu-me. Constrangido, sorri-lhe de volta. - Será preciso ir ao Templo, louvar ao Altíssimo, bendito seja, e oferecer um sacrifício de agradecimentos, - declarou um dos que esperneavam em minha volta. - Não podes deixar de ir!- Aconselhou-me".

Começa Lázaro a enfrentar as mais diversas opiniões sobre o acontecimento: “- Não há ressurreição – afirmou Simão, o coxo, a meu lado. Nós, os saduceus, sabemos disto. A promessa é vida longa, cheia de filhos e netos. A benção é a vida!”

Depois de uma festa concorrida, quando voltavam para casa, as irmãs de Lázaro informam que venderam seus pertences: sua cama e suas roupas, tudo para pagar seu funeral, como era costume da época. Uma das irmãs não entende o porquê de Lázaro estar furioso com tudo que lhe tem acontecido, pois um milagre foi realizado. “-Bem sei que os mortos morrem e ficam mortos, apodrecem nas grutas. Bem sei que é assim que deve ser. A menos que um rabi intrometido os venha arrancar de lá!”.

Ao acordar bem cedo, Lázaro que havia dormido no chão fez uma das primeiras orações, das muitas que um judeu deve fazer durante o dia: “Bendito sejas, Senhor do Universo, por não me teres feito gentio”.

Vagando e procurando alguém que acordasse tão cedo quanto ele, encontrou Gideão, o pastor e conversam longamente. Gideão faz um convite para que Lázaro vá com ele às montanhas e por 3 dias é o que faz.

“Nem a imponência de Jerusalém, nem as moscas de Belém é um dito que nós, os de Betânia, citamos sempre que queremos descrever nossa cidade. O que não quer dizer nada. Mas o repetimos.”

Assim, Lázaro volta a sua cidade. Ao caminhar até a tenda de Benjamim, o samaritano, encontra Tadeu, um publicano, coletor de impostos, e Dídimo, um grego, note que serão os apóstolos Mateus e Simão. Os dois informam-lhe que já não chamam Lázaro de “o leproso”, mas sim de “o ressuscitado”.

Os dois homens comentam sobre o possível truque feito pelo Rabi Nazareno, mas Lázaro permanece calado.

Na tenda de Benjamim os dois continuam a discutir sobre sua ressurreição e Benjamim não acredita também que Lázaro possa ter voltado dos mortos. Seu amigo fala-lhe sobre o túnel de luz e Benjamim afirma que ingerir algumas poções leva as pessoas a verem tais coisas.

“Benjamim, vi o dia dos dias, vi a mãe de todas as luzes. Senti o amor de todos os amores! Benjamim, a Lei nada sabe disso!... - A loucura do Nazareno te infeccionou. Se precisas tanto assim da morte, podes ir. Mas não me ponhas nessa armadilha que te armaram. Que a paz esteja contigo!”

As irmãs de Lázaro o recebem sem qualquer tipo de pergunta e a vida segue para ele. Chega, certa feita, uma mulher que lhe perde alguns côvados de corda e ele percebe que a mulher o olha demoradamente. “Acaso não manda a Lei que uma mulher não encare demoradamente um homem estranho? - um homem, sim – respondeu - mas não um que já não é. - a língua da mulher pode ser pior que o veneno de dez víboras. - nenhum veneno mata aqueles a quem nem o inferno quis manter – arrematou, indo-se.”

Ainda naquele dia viu Lázaro meninos brincando de ressuscitá-lo, o que o ceixou mais triste ainda.

Durante a noite, Lázaro sai às escondidas para um encontro com uma mulher de nome Raquel, a fiandeira. Comenta ele que não é fácil ser judeu, pois quase tudo não é permitido e além disso, os judeus vigiam uns aos outros.

A mulher com que ele se encontra é viúva e não tinha cunhados que pudessem esposá-la novamente.

Segundo Raquel os dois não podem mais se encontrar, pois uma tal Sulamita parecia ter descoberto que eles se encontravam secretamente. O medo de ser apedrejada era muito maior que o amor que Raquel sentia por Lázaro.

Agora tudo parecia perdido para Lázaro, até que ele encontra um outro também leproso como ele já fora e o mesmo o convida para viver no Vale dos Mortos Vivos. Lá ele aprende o valor da amizade e da ajuda mútua. Após a morte deste seu amigo de nome Samuel, Lázaro decide voltar para Betânia.

Quando chega em casa, Lázaro é informado de que o Reib, o chefe do Templo quer falar-lhe e que ele será famoso.

Ele é entrevistado no Templo e insistem em perguntar sobre o Rabi Nazareno e Lázaro nega ser seu seguidor ou coisa que o valha.

Depois da entrevista “...ia eu já bem longe na estrada, de volta para Betânia, quando um estranho alcançou-me... Sirvo no Templo... mas sigo o Rabi Nazareno... Deram ordens para que divulgassem que quem soubesse do paradeiro de Joshua, nosso Rabi, avisasse o Templo. Buscam prendê-lo. Se o sabes, não me digas, mas avisa-o.”...

"uma benção sobre tua cabeça, amigo. Nem sei por onde anda o Nazareno, nem sou eu seu discípulo. Não menti aos sacerdotes..."

Em sua casa, Lázaro fica sabendo que o Rabi Nazareno virá jantar com ele na próxima noite, seis dias antes da Páscoa.

Lázaro volta do deserto, onde ficara por seis dias até passar o evento da Páscoa.

Encontra uns homens que o informam sobre a crucificação de Joshua ben Josuf, a qual chamavam de Nazareno.

Lázaro pergunta para onde os 2 estão indo e a resposta: “Para Betânia. Vamos em busca de um certo Lázaro, um cordoeiro, que vive junto aos muros da cidade, com duas irmãs. Eram amigos do Nazareno. Recomendaram-nos que lhes pedissem que ficassem por algum tempo com a mãe do Rabi crucificado. É viúva. Está sozinha. Depois, voltamos para Emaús, onde vivemos. Conhecê-lo-ás, por acaso?

Lázaro mais uma vez nega, agora nega conhecer quem os homens procuram.

Assim ele sai em direção das montanhas, decidido ir para o deserto. No caminho, fala sozinho mas também esconde seus próprios pensamentos na tortura do silêncio.

“Eu estava só! Tão só como nunca estivera em toda minha vida. Eu vinha acalentando a idéia de procurar o Rabi Joshua, lançar-me a seus pés e implorar-lhe que me fizesse morrer de novo. Nada, a não ser miséria e sofrimento, tinha me trazido seu milagre. Seu poder já estava comprovado. Que ele me matasse! Eu o lisonjearia, o chamaria de Filho do Altíssimo, do próprio Altíssimo, se isso lhe agradasse, mas que me tirasse daquele horror em que minha vida tinha se transformado.”

Decide Lázaro pelo suicídio em uma escarpa, iria atirar-se dela.

“Lembro-me ainda de ter gritado: -Elohim, recebe-me em teu amor! Fechei os olhos e dei ordem ao corpo para que se atirasse ao vazio. Contive a respiração. Mas antes mesmo de meu corpo ter se lançado da escarpa, havia me faltado ar, eu havia lutado contra uma serpente que se enrolava em meu pescoço, apertando-o, fechando-lje a entrada do ar. Debatia-me freneticamente quando uma dor imensa explodiu no meu coração abrindo nele um rio de sangue, que se escapava em borbotões. Vi a lâmina do punhal reluzir ao sol – era poente, notei-a cravar-se no meu corpo já sem vida...”

Lázaro nos conta que ainda viu os assaltantes buscarem valores em suas vestes e arremessarem seu corpo pela escarpa que antes ele pretendera usar para tirar sua vida.

Lázaro agora vê suas irmãs chorarem por ele mas as mesmas não percebem sua presença. Imediatamente após, ele estava no túnel escuro, rodopiando como uma folha num rodamoinho d'água. Pode ainda Lázaro sentir a mágoa e o medo de Raquel, bem como a lepra da Sulamita e de seus assaltantes.

No fim do túnel pulsava uma luza que o atraía.

“Senti um incomensurável amor envolver-me em ondas cada vez mais absorventes, desfazendo-me e revivendo-me, despindo-me de ser Lázaro para ser o que eu sempre tinha sido, desde toda a eternidade; antes mesmo que a eternidade tivesse existido.”

Lázaro comenta que pode perceber o quão necessário fora o intervalo entre suas duas mortes e o que isto significava, não só para ele, mas para seus amigos e parentes.

Mais ainda, percebeu que no futuro, milhões e milhões de pessoas também seriam iniciadas no verdadeiro amor por causa de sua volta dos mortos.

“Tudo o que me acontecera tinha tido um sentido preciso num plano imenso... Ao perceber isso, transbordei de gratidão iluminadamente amorosa. Deslumbrado, entrevi, dentro da infinita Luz-Amor para a qual eu voltava instantaneamente, o Rabi Nazareno a me sorrir docemente, como sempre havia feito”.

Fonte: Colégio Nova Era

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