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Essa terra, de Antônio Torres


Essa terra, obra de Antônio Torres, primeiramente publicado em 1976, é uma obra quase autobiográfica. Um relato emocionante do impacto da "cidade grande" sobre o retirante, o imigrante nordestino. O próprio autor - nascido na pequena cidade de Junco, interior da Bahia - percorreu os mesmos caminhos dos seus personagens, deixando o Nordeste para procurar a sorte nas metrópoles do Sudeste.

A caracterização sertaneja do Junco não é um mero retorno à temática regional. O autor salienta que o romance Essa Terra está em confronto com o regionalismo considerado como espaço da tradição, problematizando o regionalismo também enquanto tradição estética. O que poderia ser uma volta ao regionalismo tradicionalista, é na verdade um discurso narrativo de desinvenção, de desconstrução de um espaço regional identitário, coloca-se assim em questão o próprio mito de autenticidade regional. Desse modo, o romance rompe com a vertente mítico-nostálgica do regionalismo para retomar e atualizar sua vertente mais crítica.

Desde o início da narrativa de Essa Terra, pode-se verificar como o processo de duplicação da identidade influencia tanto o autor, que também viveu a experiência diaspórica - como já citado, como os personagens criados por ele. Essa Terra poderia perfeitamente ser considerado um romance de autoficção por narrar a precariedade e o desconforto do autor, que coincide, em certo sentido, com o desconforto do personagem submerso na parafernália apresentada pela modernidade da cidade paulistana. Torres traduz de forma instigante as inquietações ligadas aos problemas de natureza identitária, surgidos pela convivência do eu com o estranho outro.

Nesse sentido, o sujeito (autor/personagem) se expõe para o outro em busca de afirmação e de reconhecimento identitário. A maneira como o autor descreve a condição em que surge as primeiras linhas do romance nos fornece as pistas para verificar o quanto a narrativa acaba sendo orientada através da política do reconhecimento.

Se estiver vivo um dia ele aparece, foi o que eu sempre disse”. (TORRES, 1976, p. 7 ) Com a criação dessa frase está iniciada a narrativa do romance Essa Terra.

Essa Terra narra a história de Nelo, um sujeito que trilha o caminho de volta da grande São Paulo (uma cidade devoradora), para o antigo lar, no povoado do Junco, situado no interior da Bahia. Contrariando as expectativas depositadas pela família, a trajetória vivida por Nelo traça o percurso dos fracassos e dos dilemas que lhe acompanharam desde a partida da terra natal à cidade grande, culminando com o suicídio por enforcamento.

Nelo, ao deixar o povoado do Junco leva consigo o sonho de uma vida melhor. A esperança por melhores roupas, maior desempenho linguístico-cultural e de um grande sucesso com as mulheres. Sonhos projetados a partir do contato com os “estrangeiros”, e de um olhar que pretende se reconhecer através da leitura do “outro”.

Nelo descobriu que queria ir embora no dia em que viu os homens do jipe. Estava com 17 anos. Ele iria passar mais três anos para se despregar do cós das calças de papai. Três anos sonhando todas as noites com a fala e as roupas daqueles bancários ? a fala e a roupa de quem, com toda certeza, dava muita sorte com mulheres. (TORRES, 1976, p. 11)

Já o narrador-personagem Totonhim, na tentativa de avaliar a causa da migração do irmão Nelo, do Junco rumo à cidade de São Paulo, faz ao mesmo tempo, uma retrospectiva da partida como uma espécie de justificativa:

(...) um dia pegou um caminhão e sumiu no mundo para se transformar, como que por encantamento, num homem belo e rico, com seus dentes de ouro, seu terno folgado e diferente de casimira, seus raybans, seu rádio de pilha?faladorzinho como um corno?e um relógio que brilha mais do que a luz do dia. Um monumento, em carne e osso. O exemplo vivo de que a nossa terra também podia gerar grandes homens. (TORRES, 1976, p.14)

O fragmento textual mostra como a projeção de uma vida bem sucedida encontra-se no romance apropriada pela efetivação do poder de aquisição de bens materiais. A narrativa coloca em evidência a relação do sujeito, da sua construção identitária, a partir da realização do consumo desses bens, a exemplo da identificação do próprio indivíduo com “um monumento, em carne e osso”, que seria “reconhecido” e valorizado como grande homem.

A relação dos indivíduos com os bens materiais, com o consumo desses bens, orientam a vida das personagens do romance e justificam suas atividades no decorrer da narrativa. Nesse sentido, a projeção está voltada mais para a noção de identidade (da construção da identidade através do olhar do outro), do que a uma política de reconhecimento que integra a alteridade, ou seja, que possibilite a dialética do mesmo e do outro, o que permitiria entender as razões de cada um e a estrutura dos conflitos e das negociações.

Nelo é descrito como um filho maravilhoso pelo olhar da mãe, a qual lembra-se dos envelopes gordos, que chegavam todo “mês com dinheiro vivo, paulista, rico”. Totonhim, o pai e toda a parentada do Junco também viam em Nelo a personificação de um indivíduo bem sucedido na vida. E a projeção da identidade de Nelo segue na narrativa sendo formada a partir do julgamento do meio exterior.

Enquanto Nelo é visto como aquele que migra para se salvar, como aquele que fugiu das limitações impostas pelo lugarejo interiorano, a experiência da migração vivida pela personagem é narrada mostrando o intenso sentimento de estranhamento da experiência diaspórica enfrentada pelo sujeito, que parte de um ambiente interiorano miserável, mas ainda conservador de certos valores humanos, “para uma São Paulo sem rosto e sem forma”. É esse sentimento de estranheza, experimentado pelo personagem principal do romance Essa Terra, o grande responsável pelo conflito existencial vivido pelo indivíduo. Ao investir num descentramento do sujeito, que não consegue mais se identificar com a cidade grande, muito menos com o ex-familiar espaço nordestino/ interiorano, a narrativa acaba produzindo no personagem a sensação de não pertencimento a lugar algum. Nelo conheceu e viveu no Junco e em São Paulo, mas não se sente pertencente a estes lugares. São Paulo representa ao mesmo tempo o exílio e a perda:

Dinheiro, dinheiro, dinheiro.
Cresce logo, menino, pra você ir para São Paulo.

Aqui vivi e morri um pouco todos os dias.
No meio da fumaça, no meio do dinheiro.
Não sei se fico ou se volto.
Não sei se estou em São Paulo ou no Junco
”. (TORRES,1976, p. 63)

Na experiência vivida por Nelo coexiste o enigma de uma “chegada” sempre adiada, como se fosse uma espécie de pressentimento, uma consciência de que o seu desenraizamento já não lhe permitiria a re-integração à terra natal.

A fragmentação da estrutura do romance igualmente refrata e reflete a identidade fragmentada dos personagens e a relação que eles estabelecem entre eles e a terra: o romance está dividido em quatro partes: “Essa Terra Me Chama”, “Essa Terra Me Enxota”, “Essa Terra Me Enlouquece” e “Essa Terra Me Ama”, cada parte subdividida em capítulos.

O estar “entre-lugares” é também uma expressão viva nas linhas do romance Essa Terra. Os personagens principais vivenciam a relação consigo próprios, com os outros e com a terra de certa forma transculturamente: as relações possuem um movimento de “síntese e simbiose”, “um diálogo (uma harmonia) incômodo” entre a “continuidade e a ruptura”, “a coerência e a fragmentação”. Observe:

— Qualquer pessoa deste lugar pode servir de testemunha. Qualquer pessoa com memória na cabeça e vergonha na cara. Eu vivia dizendo: um dia ele vem. Pois não foi que ele veio?
— O senhor está com razão.
— Ele mudou muito? Espero que ao menos não tenha esquecido o caminho lá de casa. Somos do mesmo sangue.
— Não esqueceu, não, tio — respondi, convencido de que estava fazendo um esclarecimento necessário não apenas a um homem, mas a uma população inteira, para quem a volta do meu irmão parecia ter mais significado do que quando dr. Dantas Júnior veio anunciar que havíamos entrado no mapa do mundo, graças a seu empenho e à sua palavra de deputado federal bem votado.
(ET, p. 10)

No trecho acima, retirado do primeiro capítulo da primeira parte do romance — “Essa Terra Me Chama”, o narrador-personagem Totonhim leva o tio ao encontro do sobrinho Nelo, que retorna após vinte anos. Interessante notar que a volta dele é esperada não só pelo parente, mas também pela população da cidade. Espera compreendida entendendo-se que a figura de Nelo está relacionada a um monumento valorativo da cidade, ou melhor, das próprias pessoas do Junco. Ao comparar a peculiaridade do significado da vinda do irmão com o dia em que a cidade festejou seu ingresso no mapa do mundo, fica claro que a ida de Nelo para São Paulo não foi esquecida, no decorrer dos anos, ela estava ativa na memória dos familiares e da comunidade do lugarejo como retorno triunfal. O dia em que o deputado discursou foi, embora o povo tenha festejado, apagando-se de suas memórias, diz Totonhim, “apesar de nada mais ter acontecido daí por diante” (ET, p. 10). A saída de Nelo do Junco, entretanto, não foi apagada, tornou-se uma expectativa de retorno, um acontecimento sempre em suspenso, à beira de uma efetivação:

Quem não mudou em nada mesmo foi um lugarejo de sopapo, caibro, telha e cal, mas a questão agora é saber se meu irmão ainda lembra de cada parente que deixou nestas brenhas, um a um, ele que, não tendo herdado um único palmo de terra onde cair morto, um dia pegou um caminhão e sumiu no mundo para se transformar, como que por encantamento, num homem belo e rico, com seus dentes de ouro, seu terno folgado e quente de casimira, seus Ray-bans, seu rádio de pilha — faladorzinho como um corno — e um relógio que brilha mais do que a luz do dia. Um monumento, em carne e osso. O exemplo vivo de que a nossa terra também podia gerar grandes homens — e eu, que nem havia nascido quando ele foi embora, ia ver se acordava o grande homem de duas décadas de sono, porque o grande homem parecia ter voltado apenas para dormir. (ET, p.10)

Se a cidade não mudou, a chegada de Nelo é sinal de mudança para os habitantes da cidade. O esperado retorno concretiza-se, fica-se então sabendo que o homem que deixou sua terra natal foi em busca de fortuna e melhores condições de vida. São Paulo transformaria Nelo num monumento vivo, em carne e osso, com dentes de ouro e óculos Ray-bans. Todavia, o irmão, segundo Totonhim, retornara apenas para dormir, pois duas décadas de sono (leia-se: de ausência) não foram suficientes para realizar um desfastio pela cidade. Junco o faz adormecer, o sono de Nelo é mórbido e Totonhim o pressente. O narrador-personagem continua caminhando com o tio em direção à casa onde Nelo se encontra, sentindo que algo de ruim estaria acontecendo.

A alpercata esmaga minha sombra, enquanto avanço num tempo parado e calado, como se não existisse mais vento no mundo. Talvez fosse um agouro. Alguma coisa ruim, muito ruim, podia estar acontecendo.
—Nelo — gritei da calçada. [...]
Não ouvi o que ele respondeu, quer dizer, não houve resposta. Não houve e houve. Na roça me falavam de um pássaro mal-assombrado, que vinha perturbar uma moça, toda vez que ela saía ao terreiro, a qualquer hora da noite. Podia ser meu irmão quem acabava de piar no meu ouvido, pelo bico daquele pássaro noturno e invisível, no qual eu nunca acreditei. Atordoado, me apressei e bati na porta e bastou uma única batida para que ela se abrisse — e para que eu fosse o primeiro a ver o pescoço do meu irmão pendurado na corda, no armador da rede.
(ET, p. 12)

O tempo parado e calado, uma voz que não responde, o piar da morte, a porta que revela o monumento pendurado por uma corda, monumento que não transmitirá à posteridade a memória de uma pessoa notável, a volta triunfal era uma fantasia. Nelo retorna para fincar definitivamente suas raízes na cidade onde nasceu — do Junco saiu, ao Junco em pó retorna. A morte de Nelo é o fecho do primeiro capítulo, e o acordar de uma cidade: “E foi assim que um lugar esquecido nos confins do tempo despertou de sua velha preguiça para fazer o sinal-da-cruz” (ET, p.13); diz Totonhim no inicio do segundo capítulo, revelando-nos uma cidade que despertada pela morte evidencia sua vida sem pulso.

Junco, cidade preguiçosa de sopapo, caibro, telha e cal é ainda desnudada nos seus mais íntimos sofrimentos: no segundo capítulo, temos um panorama do lugarejo esquecido pelo tempo e castigado pela natureza do sertão baiano. Terra sofrida que faz sofrer seus filhos.

O Junco: um pássaro vermelho chamado Sofrê, que aprendeu a cantar o Hino Nacional. Uma galinha pintada chamada Sofraco, que aprendeu a esconder os seus ninhos. Um boi de canga, o Sofrido. De canga: entra inverno, sai verão. A barra do dia mais bonita do mundo e o pôr-de-sol mais longo do mundo. O cheiro de alecrim e a palavra açucena. E eu, que nunca vi uma açucena. Os cacos: de telha, de vidro. Sons de martelo amolando as enxadas, aboio nas estradas, homens cavando o leite da terra. O cuspe do fumo mascado da minha mãe, a queixa muda do meu pai, as rosas vermelhas e brancas da minha avó. As rosas do bem-querer:
— Hei de te amar até morrer.
Essa é a terra que me pariu.
— Lampião passou por aqui.
— Não, não passou. Mandou recado, dizendo que vinha, mas não veio.
— Por que Lampião não passou por aqui?
— Ora, ele lá ia ter tempo de passar neste fim de mundo?
(ET, p. 14)

Se a morte do irmão faz Totonhim descrever sua terra, é, na verdade, para ele próprio e para família que se volta. O Junco é o fumo de sua mãe, a queixa de seu pai, as rosas de sua avó... a terra — lembranças, memória que envolve Totonhim. Entretanto, Junco é uma cidade esquecida. Na venda de Pedro Infante, alguém profere amor eterno a terra, outro revela que a cidade é um fim de mundo, nem Lampião teve tempo de visitá-la. A morte de Nelo desperta Junco e atiça Totonhim a caminhar pelos contornos de sua cidade. O narrador-personagem continua ainda a falar sobre o seu lugar natal, fica-se sabendo que Junco é uma terra em que seus filhos não fincam raízes profundas, a pobreza do lugarejo é sinal de abandono:

Moças na janela, olhando para a estrada, parecem concordar: isto aqui é o fim do mundo. Estão sonhando com os rapazes que foram para São Paulo e nunca mais vieram buscá-las. Estão esperando os bancários de Alagoinhas e os homens da Petrobrás. Estão esperando. Tabaréu, não: rapazes da cidade. [...]
— Até as casadas enlouqueceram, e arrastaram os seus homens e suas filhas para as cidades — reclama-se na venda de Pedro Infante, o abrigo de todas as queixas. — Muitos maridos vão e voltam, sozinhos, com uma mão adiante e outra atrás. Sina de roceiro é roça.
Vagaroso e solitário, o Junco sobrevive às suas próprias mágoas, com a certeza de quem já conheceu dias piores, e ainda assim continua de pé, para contar como foi.
(ET, p. 14)

A migração é fato comum em Junco. A cidade grande torna-se a panaceia das moléstias de uma terra situada nos confins do mundo. Os habitantes do Junco aventuram-se em busca de melhores condições de vida, entretanto, sua sina de roceiro já está traçada e possui mão de via única — a roça. Vão embora com as mãos vazias e da mesma maneira retornam.

A descrição do Junco, a morte do irmão e o processo migratório narrados nos trechos acima pelo narrador-personagem, não iniciam apenas uma história a ser desenvolvida, mas revelam o olhar de quem ao se encontrar num lugarejo situado nos confins do mundo, vê na realidade que o circunda um espaço de desolação, pobreza e esquecimento. Um lugar em que o tempo parado e sem vento permite que se escute o piar da morte. A cidade não mudou, nos diz Totonhim, uma terra que acorda de sua preguiça para fazer o sinal da cruz e que vagarosa e solitária sobrevive. A personificação do Junco parece ser um correlato das pessoas da própria cidade. Entretanto, há algo mais nas palavras proferidas por Totonhim, São Paulo é o lado inverso do lugarejo. Se verá mais adiante como a relação entre as duas cidades é estabelecida. Apenas observe-se aqui que a descrição do lugar feita pelo narrador-personagem poderia ser vista apenas como mais uma paisagem sertaneja da seca, da miséria que, de certo modo, justificaria a ida dos “rapazes” para São Paulo. O panorama do lugar, contudo, vai além da imagem de uma terra nordestina, mais que uma simples descrição, o olhar de Totonhim sobre sua terra é de crítica e distanciamento.

Se os habitantes insistem em sair dos limites do Junco, este continua sobrevivendo para contar os sofrimentos pelos quais já passou. Fica-se então sabendo por Totonhim que o Junco havia passado, em 1932, pela pior seca que já havia vivenciado, o lugar “esteve para ser trocado do Estado da Bahia para o mapa do inferno” (ET, p.15). Porém, continuou em pé assim como seus habitantes. Em 1933, as primeiras chuvas pareciam anunciar dias melhores, mas a morte parecia não querer deixar a terra: “O que se viu mais tarde foi o dilúvio, a sezão e o impaludismo: desta vez o povo caía e morria tremendo, de frio” (ET, p. 15).

Ao lado da seca e do dilúvio, o narrador-personagem passa então a falar de um cidadão do Junco. É-nos apresentado então Caetano Jabá, que lutou junto com Antônio Conselheiro, o único sobrevivente da guerra pela qual, em vez de uma medalha, deram-lhe um apelido e uma enxada: instrumento de seu sustento. Caetano Jabá profere que no ano dois mil o velho mundo será queimado por uma bola de fogo, restando apenas o “dia do juízo”, ensinando as Sagradas Profecias, ele nos revela um Junco bíblico. Totonhim parece entender o que significaria na realidade esse juízo final:

— E eu sei que esse dia está perto. Ora vejam bem: nossos avós tinham muitos pastos, nossos pais tinham poucos pastos e nós não temos nenhum [...] Isso também está nas Sagradas Escrituras. Muitos pastos e poucos rastos. Poucas cabeças, muitos chapéus. Um só rebanho para um só pastor.
[...]
— Qualquer dia o Anticristo aparece. Será o primeiro aviso. Depois o sol vai crescer, vai virar uma bola do tamanho de uma roda de carro de boi e aí — dizia papai, dizia mamãe, dizia todo mundo.
Ninguém disse, porém, se a vinda da Ancar estava nas Sagradas Escrituras. Ancar: o banco que chegou de jipe, num domingo de missa, para emprestar dinheiro a quem tivesse umas poucas braças de terra.
(ET, p. 16-17)

Se a escassez dos pastos estava profetizada nas Sagradas Escrituras, Totonhim indaga porque então a vinda da Ancar não foi prevista. Banco que foi a ruína do pai, acreditando nos bancários, fez o empréstimo e ainda acatou a sugestão deles: plantou sisal. O investimento foi negativo e as dívidas cobradas. O pai perde tudo. Foi nesta época que Nelo, aos dezessete anos, decide ir embora, mas espera mais três anos para efetivar sua decisão de deixar o Junco, três anos “sonhando todas as noites com a fala e as roupas daqueles bancários — a fala e roupa de quem, com toda certeza, dava muita sorte com as mulheres” (ET, p. 18).

Pode-se então dizer que o Junco é, assim, desnudado pelo narrador-personagem. O curioso de seu relato não é o desnudamento em si do lugar, mas o que esse desnudamento afeta e revela de Totonhim e dos outros personagens principais. O distanciamento do olhar de Totonhim é de alguém que vê através da própria narração as deficiências de um lugar esquecido nos confins do mundo. Ora, totonhim salienta que ninguém previu nas Sagradas Escrituras que a Ancar viria, desse modo, o olhar crítico do narrador personagem vai além, repetimos, de uma simples descrição. É preciso, então, observar nas palavras de Totonhim o distanciamento que ele próprio opera na representação do lugar que descreve e a que pertence.

Totonhim, na verdade, firma-se como narrador-personagem ou como o autor prefere utilizar — narrador-protagonista, desde do início do romance, com paralelo valor expressivo. O fato de Totonhim narrar a volta e morte do irmão, de delinear sua cidade, assim como falar dos outros personagens ou destes tomarem a voz narrativa etc., não torna menor, evidentemente, sua expressividade. Além de que, é preciso salientar, o romance apresenta diferentes nuances de narrador.

Vê-se que a migração é um fato comum em Junco. A miséria do lugar abala as raízes de seus habitantes que lançam um olhar para as grandes cidades e enxergam nelas o solo que acreditam ser mais nutritivo para suas necessidades e sonhos. Nelo vai em busca dessa nova terra — São Paulo —, mas lá ele encontrará do mesmo modo um terreno seco e arenoso. A metrópole, a cidade urbana é sempre imaginada como modelo de progresso, desenvolvimento: “[...] gente se amontoando na janela do sargento, para ver a novela das oito, na televisão — esse milagre que só um homem da capital poderia nos ter revelado” (ET, p. 53). O Sul é o arcabouço da modernidade, da tecnologia, do avanço, as metrópoles são atrativas e cobiçadas pela miséria da vida sertaneja que é representada como pobreza, desolação, isolamento. E da cidade grande vem os bancários, os homens da Petrobrás, e o homem da capital traz milagres tecnológicos (a televisão) para o Junco, como não se deixar seduzir? Nelo caiu nas malhas da sedução metropolitana. Entretanto, ele não consegue a vida que desejava e nem se torna um paulista rico. Primeiro neto e primeiro filho, o preferido da mãe:

A mala me fez pensar no correio e nos envelopes gordos de antigamente, que chegava de mês em mês. Dinheiro vivo, paulista, rico. Também me lembrei de mamãe: — Tomara eu tivesse mais um filho igual a ele. Bastava um.
Nelo, Nelo, Nelo.
Um acalanto, uma toada, uma canção.
Nelo, Nelo, Nelo.
Miragens sobre o poente, nosso sol atrás da montanha, sumindo no fim do mundo.
Nelo, Nelo, Nelo.
São Paulo está lá para trás da montanha, siga o exemplo do seu irmão.
Nelo, Nelo, Nelo.
Éramos doze, contando uma irmã que já morreu. Só ele contava.
Nelo, Nelo, Nelo. — Bastava mais um
. (ET, p. 20)

No trecho acima, retirado do terceiro capítulo da primeira parte do romance, Totonhim relata o seu encontro com Nelo, no dia em que este chega ao Junco. A presença da mala do irmão o faz relembrar das cartas que Nelo enviava para a mãe. É interessante notar que os “envelopes gordos” foram recebidos apenas num determinado período, o “antigamente” revela a perda de peso dos envelopes com o passar do tempo. Havia uma ilusão de que o primogênito era um paulista rico, mesmo quando o dinheiro diminui, a ilusão persiste, mas ela é ferida quando Nelo se mata. Ele também é um exemplo a ser seguido, para a mãe, diz Totonhim, apenas o irmão contava. Nelo tinha ido atrás do sol atrás da montanha, São Paulo.

A linguagem da obra chama atenção por sua singularidade. O que envolve Essa Terra de um valor estético-literário. A personificação do lugar que acorda e é vagaroso e solitário, o pássaro Sofrê, a galinha Sofraco, o boi Sofrido — o desnudamento do lugar é envolto numa metaforicidade. São Paulo transforma-se num elemento natural, Nelo em música que acalma, tranquiliza — imagens são criadas. O que poderia ser apenas um simples relato, configura-se numa nova dimensão de sentido.

Nelo vai embora, entretanto, o sol não foi generoso com ele, pois retorna sem riqueza: “— Não se esqueça que eu dei conselho a seu pai, para ele deixar você ir embora — o primeiro visitante vinha cobrar os juros de um empréstimo a longo prazo” (ET, p. 24); Totonhim salienta a cobrança de um conhecido, a ilusão da riqueza de Nelo continua viva na esperança do povo. O primogênito é cercado pelos familiares e conhecidos que desejam ver concretamente o dinheiro da metrópole, o lugarejo recebe Nelo com cobranças que há vinte anos esperam por quitação: “— Paga uma? Quero ver a cor do dinheiro de São Paulo — parentes afoitos correm os olhos em busca da mala” (ET, p. 25); procuram por “lembrancinhas”, não há nada para ninguém. A imagem do monumento vivo começa a apresentar rasuras: “— Ah, Nelo. Tu tá rico como o cão, não é? — Dá para ir vivendo — ele disse —, mas suas palavras não destruíam toda a nossa ilusão” (ET, p. 25). Ilusão ainda em parte mantida, até o momento que a morte do irmão se concretiza. Totonhim então percebe que, na verdade, Nelo não ficara rico, os bilhetes de loteria vencidos encontrados em sua carteira, depois do suicídio, evidenciam a busca da fortuna pela sorte.

São Paulo não foi realmente generoso com Nelo, na cidade grande ele também encontrou terreno sertanejo para seus objetivos, uma vida melhor não conseguiu vivenciar. A sua ida a São Paulo significava também o seu oposto — a volta, imaginada como retorno triunfal, libertador da pobreza. Todavia, seu retorno não foi redentor, mas conflituoso. Ao chegar em Junco, Nelo vivencia uma experiência transcultural: ele parece estar ao mesmo tempo em Junco e em São Paulo.

No quinto capítulo de — “Essa Terra Me Chama”, o narrador-personagem Totonhim relata o momento em que ele e o irmão caminham juntos em direção à casa onde haviam nascido. Nelo, Totonhim salienta, estava bêbado. Em determinado momento da caminhada, Nelo quer ir à casa da sua mulher, pede que o irmão mude de rumo e o leve até ela. Totonhim admira-se, pois não sabia que o irmão era casado. Explica que não sabe onde fica, mas Nelo insiste: “— Deve ser um Itaquera. Ou no Itaim. — Onde diabo fica isso? — Perto de São Miguel Paulista” (ET, p. 35). Nelo pensa estar em São Paulo. O narrador-personagem descobre ainda que o irmão tem dois filhos, Nelo diz estar com saudades deles, pois não os vê faz mais de um ano. Totonhim responde que ele só está ali há três semanas, não sabe que a mulher havia deixado o irmão por um conterrâneo e levado consigo os filhos. O narrador-personagem tenta situá-lo: “— Nós estamos no Junco, homem. Quantas vezes na vida você passou por essa estrada? Lembra?” (ET, p. 35). Nelo então recorda das vezes que passava por aquele caminho com uma lata de leite na cabeça e os sapatos no pescoço. Mas, em seguida, pede novamente ao irmão que o leve até a mulher. Voltar ao lugar onde nasceu, às ruínas da casa natalícia, o remete à ruína da casa paulista: a perda da mulher e dos filhos. Nos dois lugares fracassou.

Ora, Nelo está em Junco, porém pensa estar em São Paulo. Poderíamos pensar que a sua confusão se deve ao fato de Nelo estar bêbado. Entretanto, num determinado momento ele recorda do caminho que percorre. Na verdade, os dois lugares passam a ser vivenciados de forma transcultural. A destruição de uma casa evoca a ruína da outra: há um “diálogo (uma harmonia) incômodo” entre a casa natalícia e a casa paulista, entre sentimentos de perda e de encontro. Os dois lugares, dessa forma, parecem semelhantes, embora sejam diferentes.

A caminhada dos irmãos continua. Nelo pede a Totonhim para se esconderem numa moita, pois estava chovendo e a chuva era verde. Totonhim responde dizendo que, na verdade, estava fazendo um sol muito forte. Nelo insiste e diz que chove verde em seus olhos. Totonhim então olha entre o olho e a lente verde dos óculos do irmão, fala que ele tinha razão, mas que era uma chuva fininha. Chuva no sertão, em terra seca, é sinal de esperança, de colheita, de matar a sede. Entretanto, a chuva é escassa, fininha, não é o bastante para acarretar uma mudança. Totonhim, então, aponta a casa. Nelo pára, dá alguns passos à frente para que o irmão não o visse limpando os óculos e diz:

— Você está certo Totonhim. Não teve chuva nenhuma.
Ele agora contemplava a casa e os pastos como se estivesse diante do túmulo de alguém que tivesse amado muito — e o efeito do que estava vendo devia ser muito forte, porque já não parecia tão bêbado como antes.
— Vamos voltar?
(ET, p. 38)

Nelo não quer ir mais adiante e volta, como salienta o narrador-personagem, “calado, fechado, trancado”. A sobriedade repentina de Nelo é a consciência de seu fracasso: o túmulo — a casa, é ele próprio e a família que não conseguiu ajudar. A chuva verde não é suficiente para reverter a situação.

Junco e São Paulo estão adornados na memória de Nelo e ligados entre si pela desilusão, pelo fracasso e sofrimento. As duas cidades tornam-se uma terceira: de configuração sertaneja-metropolitana:

Eles me agarraram pelas orelhas e pelo pescoço e bateram a minha cabeça no meio-fio da calçada. Berrei. Que meu berro enchesse a rua deserta, subisse pelas paredes dos edifícios [...], rachassem as nuvens pesadas e negras da cidade de São Paulo e fosse infernizar o sono de Deus: — Socorro. Estão me matando.
Uma luz se acendeu ao meu terceiro grito e um homem chegou à janela. Ficou olhando. Eles continuaram batendo minha cabeça no meio-fio. A luz entrou no meu olho, dura e penetrante, como a dor. [...]. Foi nesse momento que a mão de papai apareceu, me oferecendo um chapéu. — Cubra a cabeça. Assim dói menos.Tentei esticar o braço mas, quando a minha mão já estava quase agarrando o chapéu levei nova pancada.
— Você me denunciou, Totonhim. Olhe o resultado. Fuxiqueiro de merda.
[...]
Papai desapareceu sob as águas. O chapéu boiava na correnteza.
Às margens plácidas, águas turvas.
Tietetânicas.
[...]
Eles estão mijando na minha cara e eu estou tomando banho no riacho lá de casa, as águas do riacho lá de casa vão para o rio de Inhambupe que vai para o rio Tietê, seguro um tronco de mulungu, para não me afogar, bato com as pernas na água, devagar, sem pressa, para não me afogar, o tronco escorrega e escapole, desço ao fundo, enfio a cara na lama, volto à tona, estou me afogando: — socorro
.(ET, p. 55-60)

Confundido com um ladrão, Nelo sofre uma surra da polícia de São Paulo. Neste décimo capítulo, ainda da primeira parte — “Essa Terra Me Ama”, é o próprio Nelo que passa a narrar o evento. O capítulo já inicia com a descrição da sova, mas é interessante observar que a rememoração do fato se faz provavelmente em Junco, pois Nelo não sabia da existência de Totonhim até voltar ao lugarejo onde nasceu. Como então acusá-lo pelo mal que estava sofrendo? Subjetivamente Nelo interliga pessoas a fatos de espaço–tempo diferentes. As duas cidades e a família passam a co-existir nas suas lembranças de forma simbiótica. A confusão de Nelo denuncia o estado de quem viveu a experiência de estar “entre-lugares”, de vivenciar o contanto intercultural. A confusão entre as duas cidades é a fragmentação da sua própria identidade.

Durante a agressão Nelo vê o pai tentando dar a ele um chapéu, que representa a sanidade. O pai já havia ensinado que o chapéu fora inventado “nos tempos de Deus Nosso Senhor” (ET, p. 122), para que o homem não andasse com a cabeça no tempo, já que assim perderia o juízo. O pai, no passado, havia lhe dado um chapéu que Nelo esquecera ao sair de casa. E naquele momento tentava novamente dar outro, mas não para salvá-lo de perder o juízo, pois já era tarde. O tempo em São Paulo andava perdido no juízo de Nelo.

O pai também ensinou Nelo a nadar utilizando um tronco de mulungu, que nas águas do rio Tietê reaparece como ponto de apoio, de salvação. O riacho onde aprendera a nadar em Junco é o mesmo que deságua nas margens plácidas, turvas, “tietetânicas” do rio em São Paulo. Todavia, de suas margens não se escuta “o brado retumbante” de um “povo heróico”, e sim o grito de um homem fracassado e sendo torturado ao ser confundido com um ladrão.

A surra de Nelo não é apenas uma tortura física, mas também de conflito psicológico. O momento da agressão é lembrança confusa da terra natal:

O mijo corre quente e fedido, é a chuva que Deus mandou na hora certa, viram como foi bom a gente plantar no dia de São José? Ajudei papai a plantar o feijão e o milho, eu, mamãe, as meninas e os trabalhadores, e todo dia eu acordava mais cedo, para ver se a plantação nascia [...]
— Aonde você escondeu o dinheiro, ladrão?
Não, não, não.
Papai, tomara que tudo melhore, eu penso nisso o tempo todo, tomara que tudo melhore.
Nossos pastos já foram verdes, eu sei. Já não temos mais pastos.
Preciso mandar um dinheiro para o senhor comprar de novo a roça e a casa que o senhor vendeu, tomara que tudo melhore.
Faço fé na loteria, toda semana. Jogo, perco, jogo, perco, nunca acerto.
Trabalho duro, tento me regenerar, até parei de roubar, digo, parei de beber.
[...]
Zé está me matando. Eles estão me matando. Devem ser uma dúzia de homens, fardados e armados. Aqui no meio da rua. Na grande capital.
Dinheiro, dinheiro, dinheiro.
Cresce logo, menino, pra você ir para são Paulo.
Aqui vivi e morri um pouco todos os dias.
No meio da fumaça, no meio do dinheiro.
Não sei se fico ou se volto.
Não sei se estou em São Paulo ou no Junco.
(ET, p. 61-62)

Nelo recorda-se da família, do Junco. Denuncia seu fracasso, a loteria seria sua salvação e de seus familiares. Confunde-se, por um momento, parecia acreditar que de fato era um ladrão, e assim fica-se sabendo do seu problema com a bebida. Zé do Pistom é o seu agressor, conterrâneo a quem ajudou conseguir um emprego em São Paulo, e que, como gratidão, roubou sua mulher e seus filhos. Nelo relembra em suas palavras a vontade da mãe, realizou seu desejo e agora confuso não sabe o que fazer: vai embora, retorna, é São Paulo ou Junco?

No quarto capítulo da terceira parte do romance — “Essa Terra Me Enlouquece”, Nelo expressa a mesma dúvida. Neste pequeno capítulo, a casa do avô, onde fica hospedado quando volta ao Junco, o faz refletir sobre o passado numa noite de insônia. O avô retorna para reclamar de sua fraqueza que antes já havia delatado: “— o pai vendeu a roça, para seguir a cabeça da mulher. O filho é um fraco igual ao pai” (ET, p. 121). Lembra também do conselho do pai: usar o chapéu, pois quem anda com a cabeça no tempo perde o juízo. Sonhava quase todas as noites com o pai lhe dizendo o mesmo conselho, mas Nelo foi embora e esqueceu de levar o seu chapéu. Ele passa então a achar que passara a vida com a cabeça no tempo porque esquecera de levá-lo. E a saudade invade Nelo, a mulher encena em seus desejos, ele a deseja de volta junto com os filhos: “Uma confusão de desejos, arrependimentos e dúvidas. Estragado pelos anos, esbagaçado pelo álcool, já não via por onde recomeçar” (ET, p. 121); o narrador-personagem Totonhim resume o estado do irmão. Noite de insônia reveladora, Nelo continua pensando sobre sua terra, terra que diz ser selvagem, onde tudo já está condenado desde do começo. Terra de sol e chuva selvagens, sol que queima o juízo e chuva que arranca as cercas “deixando apenas o arame farpado, para que os homens tenham de novo todo o trabalho de fazer outra cerca, no mesmo arame farpado. E mal acabam de fazer a cerca têm de arrancar o mata-pasto, desde a raiz. A erva daninha que nasceu com a chuva, que eles tanto pediram a Deus” (ET, p. 124). Junco está condenado ao ciclo da erva daninha, entretanto, ela não é aqui apenas a representação da miséria de um lugar, mas é também a erva daninha da lembrança que invade Nelo arrancando-lhe também a cerca de sua estabilidade subjetiva. A insônia é o balanço de sua vida.

Junco e São Paulo possuem a mesma medida de conflito, o tempo devorou o lugar de Nelo em ambas as cidades, fincar raízes parece ser agora utopia. Na verdade, as raízes de Nelo estavam no ar, no terceiro espaço entre São Paulo e Junco: “— É por isso que não sei se volto ou se fico. Acho que tanto faz. Porque o tempo que comeu o meu chapéu de palha, agora está comendo o lugar que deixei em São Paulo” (ET, p. 124). O “parentesco” entre Junco e São Paulo não é uma identificação arbitrária. A semelhança entre os dois lugares coloca em suspenso suas diferenças: entre uma cidade considerada como o cerne do progresso e a outra como atraso, uma ponte interseciona a metrópole e o sertão: a pobreza, a desilusão, o sofrimento, a falta de oportunidades.

Em ambas as partes “Essa Terra Me chama” e “Essa Terra Me enlouquece”, a dúvida de Nelo é expressa da mesma forma, porém gerando uma ambiguidade: não sabe se fica (em Junco, São Paulo?) ou vai embora (de Junco, São Paulo?). Essa terra que chama e enlouquece é Junco, é São Paulo. O demonstrativo "Essa", neste caso, mais do que indicar um distanciamento de Nelo em relação as duas terras, marca a ambiguidade de referência.

Citou-se aqui que a confusão de Nelo no que concerne as duas cidades é a fragmentação da sua própria identidade. Ora, se o contato intercultural propicia viver processos de identificação num sentido transcultural, Nelo não foge ao padrão. Ele retorna com “costumes de outras terras”, como observa Totonhim, ao vê-lo pela primeira vez: “Chego e interrompo a velha e sincera conversa do hoteleiro. Também foi sincero o sorriso do recém-chegado, ao apertar a minha mão. — Muito prazer — ele diz. Costumes de outras terras, eu penso, balançando a cabeça de um lado para o outro abismado” (ET, p 19). No mesmo capítulo em que estão indo juntos rever a casa onde haviam nascido, o narrador-personagem ainda ressalta a fala paulista do irmão: “— Totonhim... você não é o Totonhim? Maneiras paulistas: o fulano, a fulana. Tive vontade de lhe dizer que povo daqui não gosta de quem fala assim. Na frente, louva-se o sotaque novo do cidadão. Por trás —“ (ET, p. 34). É evidente que morando vinte anos em São Paulo, Nelo teve que se adaptar, que renegociar seus valores e costumes. Em suma, o processo de transculturação se fez presente em sua vida. Contudo, tal processo, como viu-se, não envolve um movimento linear, tranquilo; mas um “diálogo (uma harmonia) incômodo” entre “fragmentação e coerência”, “construção e desconstrução”, “síntese e simbiose”. Isto é, torna evidente as semelhanças e diferenças de forma a problematizar as relações entre forças antagônicas que se entrelaçam e ao mesmo tempo são justapostas e contestadas, sem que de fato haja uma hierarquização absoluta.

Desenvolvimento e subdesenvolvimento são os dois lados do mesmo Brasil, o sul não é o redentor e o nordeste a simples vítima de uma natureza devastadora. Nelo é a representação dessas duas faces, ele evidencia a contradição de um espaço nacional pensado em termos dicotômicos, como se a “falta de sorte” que viveu não estivesse relacionada aos aspectos sócio-econômicos mais amplos do país. Todavia, as faces que ele revela não estão apenas ligadas a uma questão material, a dúvida de “ir ou ficar” revela uma identidade fragmentada. Não estar em Junco ou em São Paulo significa que não tornou-se nem paulista, nem baiano: o que se tornou então? E aqui amplia-se a questão para além de uma problemática de pertencimento: tornou-se um baiano-paulista pobre? Tornou-se uma desilusão? O suicídio de Nelo é indício de confusão subjetiva, desilusão de retorno triunfal, não alcançado, o desconforto de saber que fracassou, é a demonstração da trajetória de alguém que viveu “entre-lugares”.

A migração da família tinha se tornado fato corriqueiro, Nelo foi o primeiro, os outros seguiram seu exemplo, embora não tenham ido como ele além das fronteiras do estado. Nelo continua a fazer perguntas sobre a família, indaga se o pai não ajuda em nada e Totonhim silenciosamente pensa dizer-lhe “— Me fale de coisas boas. Chegue à frente e me fale de você. Conte tudo de bom, todas as belas aventuras que você já viveu: palha e lenha dos meus sonhos. Mas ele insistia e perguntava e remoía, enquanto estalava os dedos e se agitava, me agitando. — E os outros? Também não dão nada?” (ET, p. 23). Totonhim não queria falar sobre a família, sobre o passado. Ele estava interessado na história de Nelo, queria mais lenha e palha para seus sonhos, agora com a presença do irmão estes poderiam ser concretos. Passa-se a observar, então, que Nelo seria para Totonhim a personificação de São Paulo, ou melhor, do diferente, da novidade. Mas Nelo insiste nas perguntas, Totonhim só tem desilusão para contar. Totonhim pensa em dizer que de fato os irmãos não dão nada, eles mal conseguem ter o que comer, e ele próprio abandonara a casa em Feira de Santana, pois não aguentava mais a vida que levava, a sua insignificância perante a mãe:
Entre nós só uma estrela brilhou. Está tudo gravado na minha memória. Ouça:

— Ninguém faz nada por mim. Ninguém me ajuda em nada.
Reconhece esta voz? Continue ouvindo. Continue:
— Tenho doze filhos e me sinto tão sozinha. Se não fosse Nelo.
Espere mais um pouco:
— Não vou passar sua roupa. Não sou sua empregada.
E agora atenção:
— Os incomodados que se retirem.
Eis porque me retirei. Quer um conselho? Vá lá. Viva uns tempos com eles. Assim você não precisará de minhas explicações. Tente saber o que é passar a vida dentro de um saco de gatos, com um rombo no fundo. Os gatos entram, se arranham e vão descendo pelo fundo do saco. Comi os farelos enquanto pude suportar, agora...
(ET, p. 24)

Totonhim pensa em dizer ao irmão tudo o que havia registrado em sua memória. Para a mãe, só Nelo importava. A casa, porém, se enche de gente atrás do monumento vivo, e as palavras de Totonhim ficam mais uma vez reservadas na memória. A fala dele ainda revela sua relação conflituosa com a família, enquanto o irmão estava longe e sendo venerado pelos parentes, ele suportou comer os poucos farelos de vida que lhe ofereciam. Nelo estava longe e nem sabia da atual situação da família, perdido da manada, a realidade das respostas de Totonhim o incomodava. Entretanto, Totonhim estava perto da manada, vivenciou os problemas da família, cresceu escutando a mãe venerando o irmão. A presença e morte de Nelo, portanto, significam a rememoração e reflexão de Totonhim sobre sua história, família e Junco.

Através do narrador-personagem Totonhim observa-se Junco como figura de crise, instabilidade, de pobreza; por ele, vê-se também uma família em crise, instável, pobre. Seriam Junco e família a mesma coisa? Parece que sim, ambas sofrem pela seca, em ambas a migração se faz presente. Não há como separar bem o sofrimento da terra do sofrimento das pessoas. Totonhim é o narrador-personagem que evidencia uma distância crítica em relação aos problemas do Junco, que se posiciona de modo reflexivo em relação à terra e aos outros.

Totonhim projeta-se em Nelo, palha e lenha dos seus sonhos, o irmão é também o entendimento de si mesmo. Ora, Totonhim era abafado pela imagem modelo do irmão, a mãe só conseguia enxergar Nelo, embora este estivesse longe. Quando o irmão morre, entre o rádio, o relógio e os óculos do irmão, Totonhim prefere ficar com o último. A escolha suscita algumas questões: com os óculos ele poderia então ver as coisas como Nelo, ou ser como ele? Vendo o mundo como Nelo, a mãe passaria a enxergá-lo? A escolha talvez tenha sido inconsciente, mas ela revela uma crise identitária.

Em relação ao pai e à mãe, ambos representam de um certo modo o próprio Junco. A mãe é a terra que faz os filhos irem embora de casa; o pai é a terra no sentido de territorialidade, ele é o único a querer ficar em seu espaço e foi o único a não concordar que Nelo fosse para São Paulo. A mãe queria que os filhos estudassem, via na cidade a resolução de seus problemas, não desejava que o passado dela se repetisse com as filhas, então deixa a roça e vai para Feira de Santana:

— Meu pai me tirou da escola quando escrevi o primeiro bilhete da minha vida para um namorado. Não posso deixar que aconteça a mesma coisa com as minhas filhas. De fato não deixou. Justiça se lhe faça. Acabamos todos nos arranchando numa casinha pobre de uma rua pobre de um bairro pobre, sem luz, sem água, sem esgoto, sem banheiro. Mamãe alugou a casa fiando-se no dinheiro que mandavas todo mês e, quando atrasavas a remessa, era um deus-nos-acuda. Vivíamos permanentemente debaixo do medo de sermos postos da rua. Ela passou a se desdobrar em trinta numa máquina de costura, enquanto esperava o feijão e a farinha que o velho mandava da roça. De vez em quando ele vinha, para reclamar de tudo (ET, p. 156).

Entretanto, a ida da família para a cidade de Feira de Santana não trouxe grandes transformações, pelo contrário, a pobreza era ainda mais significativa. A própria roça abandonada era ainda uma ajuda. Nesse trecho da última parte do romance — “Essa Terra Me Ama”, Totonhim leva a mãe para o hospital, que após ver o filho morto, passa por um surto de loucura, no caminho, ela fala de fatos passados, a loucura é a rememoração de sua vida.

No romance, a mãe é uma figura importante da história. Há na relação que ela estabelece com os filhos e o marido questões que perpassam pelo papel da mulher na família, na sociedade. Verificar, por exemplo, a posição que ela exerce no romance, talvez revele sua função como mãe, esposa e mulher numa outra ordem representativa.

O pai havia relutado, por um tempo, em sair do seu lugar. Até resolver ir também para Feira de Santana, onde sua mulher e filhos já estavam. Ele culpava a mulher por sua ruína. Se ela não tivesse a ideia fixa de ir para cidade, os filhos teriam ficado e ele não teria tido a necessidade de contratar trabalhadores, nem fazer o empréstimo no banco. Para ele, escola não enchia barriga de ninguém, mal sabia assinar seu nome, pois sua “Escrita era outra e essa ele tinha orgulho de fazer bem: riscos amarronzados sobre a terra arada, a terra bonita e macia, generosa o ano inteiro, desde que Deus mandasse chuva o ano inteiro. A melhor caneta do mundo é o cabo da enxada” (ET, p. 68). A melhor caneta do mundo, entretanto, havia produzido uma dívida no banco. O pai então decide vender tudo para saldar a dívida e ir embora. Antes de ir para Feira de Santana, pensa, por um momento, em ir para São Paulo ou Paraná, acha que em um desses lugares encontraria uma roça para cuidar, como se fosse o dono. A ideia do pai foi muitas vezes recebida por Nelo que, também repetidas vezes, não respondeu. Até o dia em que a mãe recebeu uma carta em que o primogênito avisa que a metrópole não era lugar para o velho pai, ele não ia se acostumar com a cidade, e que, portanto, desistisse da ideia. O pai compreende a atitude do filho como vergonha, Nelo não o queria “no meio das suas civilidades. Eu sou da roça e não tenho as novidades dele. É por isso” (ET, p. 69). Em suma, o pai é o sentimento de territorialidade, de pertencimento, de fincar raízes, de continuidade do passado; a mãe de desterritorialidade, de dispersão, de soltar as raízes, de ruptura com o passado; ambos são Junco, ambos tornam ambígua a terra.

Há no romance Essa Terra uma visão problematizadora e crítica não só da vida, do lugar — das condições da região, como também das relações que os personagens estabelecem entre si e com a terra, relações que estão ligadas a um contexto sócio-econômico mais amplo. Por isso, o romance atualiza a vertente critica e rompe com a vertente mítico-nostálgica, uma vez que o espaço regional em Essa Terra é dilacerado no que ele tem de “crise”, é colocada à vista a “espoliação econômica” que se escondia num discurso que buscava num espaço nordestino a expressão de uma identidade nacional. Além de que o romance não possui, como veremos adiante, um “caráter pitoresco e folclorizante”. A abordagem da temática sertaneja em Essa Terra se afasta seja de uma metonímica glorificação do País, característica do Romantismo, seja de uma crítica externa de raízes sulinas ou litorâneas e de bases positivistas e deterministas, que, expressa sobretudo nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, atribuía a miséria da região às condições mesológicas e/ou à formação étnica da sua população.

De fato, no romance a miséria da região não advém de “condições mesológicas” ou da “formação étnica” dos habitantes do Junco, nem os elementos que representam um espaço nordestino, e que estão presentes no regionalismo tradicional (a seca, a religiosidade etc.), não estão em primeiro plano no romance, mas são secundários e circunstanciais: o foco de interesse, agora, é o processo político e sua repercussão na atividade e na consciência do indivíduo; é o processo econômico e sua interferência na vida familiar e comunitária. O processo migratório que ocorre em Junco, a ruína do pai, a ida de Nelo para São Paulo, o desejo e a luta da mãe para que os filhos estudassem estão, de fato, relacionados e abarcados por um processo econômico (que passa a ter outras configurações, é o que veremos também no próximo tópico) que afeta suas vidas e relações.

A relação entre Totonhim e a mãe parece refratar bem essa ambiguidade do processo de identificação. Ambos têm entre si a “expressão de um laço emocional”, todavia, um laço emocional expresso pelo afastamento. Ao contrário da relação de aproximação entre a mãe e Nelo, havia entre os dois um certo tipo de identificação, a mãe uma vez disse a Totonhim: “Eu queria ser homem para poder mandar no meu destino. Ir para onde bem entendesse, sem ter que dar satisfações a ninguém” (ET, p. 152). A partir desta fala, se pode observar que Nelo, na verdade, é ela própria, isto é, ele representa aquilo que ela desejava para si, pois o primogênito foi embora para onde queria, tornou-se dono de seu destino. Entendemos então a predileção da mãe pelo filho mais velho. Totonhim, de modo diferente, aos olhos da mãe é a imagem inversa de Nelo, Totonhim é o “ficar”, é a terra de vida difícil, ele representa o que a mãe não deseja. Há, entretanto, uma identificação da mãe com Totonhim, visto que ele torna visível aquilo que a mãe não queria para ela. É possível então compreender porque a relação de Totonhim com a mãe é de afastamento, era como se ele não existisse, apenas Nelo importava. Diz-se, desse modo, que Totonhim era invisível perante a mãe, sua invisibilidade, porém, será paradoxalmente sua reapresentação diante dela.

Quem sou eu?” (ET, p. 105); assim inicia o primeiro capítulo da terceira parte — “Essa Terra Me Enlouquece”. A mãe que não suportando ver o filho Nelo morto, passa a vivenciar um surto de loucura, a sua pergunta é direcionada a Totonhim e feita corpo a corpo:

Uma coisa eu acabava de descobrir: éramos do mesmo tamanho. Eu e ela, ali, corpo a corpo. Como dois namorados que se reencontram depois de uma longa ausência e se apertam, se apalpam, antes de um longo e apaixonado abraço. Pela primeira vez na vida tive vontade de abraçá-la. Só não o fiz porque não pude. Ela estava apertando o meu pescoço com toda a força que ainda restava em suas duas calejadas e ásperas mãos [...]
— Você se lembra de mim? Quem sou eu?
Ia dizendo: — A senhora é a filha mais velha daquele homem que está ali, pregado na parede. E a mãe daquele outro que está ali, estirado no chão dormindo pra sempre. Eu queria falar mas não conseguia. Enquanto el

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