Felicidade clandestina (Livro), de Clarice Lispector

  • Data de publicação

Este livro nasceu de um convite feito a Clarice Lispector, em 1967, para escrever semanalmente no Jornal do Brasil. Seriam crnicas, mas ela mesma declarou: Vamos falar a verdade: isto aqui no crnica coisa nenhuma. Isto apenas. No entra em gneros. Gneros no me interessam mais.

No entanto, a obra considerada como livro de contos. Alm dos publicados no Jornal do Brasil, acrescentaram-se outros escritos em pocas diversas da vida da autora. Neles h muito de autobiogrfico: recordaes da infncia (a filha do livreiro de Felicidade Clandestina existiu; o professor de Desastres de Sofia percebeu o tesouro da futura escritora.).

Escritas em primeira pessoa, neste que poderia ser considerado um dos livros de cunho mais autobiogrfico da autora, as narrativas resgatam, de uma perspectiva memorialista da mulher adulta, a arguta ingenuidade de seus pensamentos e sentimentos aos oito e nove anos de idade, quando moradora da cidade do Recife, por cujas ruas perambulava, aos saltos, enchendo-as da memria da sua passagem. Esse material, buscado a uma poca tenra de sua histria pessoal, utilizado para suas reflexes sobre a vida, a atividade literria e o exerccio de um feminismo mstico que se torna a marca de seu estilo.

Esta obra rene 25 contos que tematizam a adolescncia, a infncia, e a famlia, sem deixar, em momento algum de se referir as angstias da alma, tal como prprio da autora.

Os textos no diferem da orientao geral da fico de Clarice Lispector. Ela pratica a exacerbao do momento interior dos personagens, a ponto de a prpria subjetividade entrar em crise. O esprito deles viaja nas asas da memria e da auto-anlise. No se trata, porm, de sondagens psicolgicas sentimentais egocntricas. A inquietao ntima dos personagens se concentra na busca da prpria identificao num cotidiano montono e vazio. As camadas mais profundas da conscincia humana so removidas pela autora em busca do significado da existncia. H portanto o encontro da psicologia com a metafsica: conhecer-se para ser.

Clarice Lispector emprega o processo narrativo do fluxo da conscincia, que o rompimento dos limites de espao e de tempo. O pensamento fica solto. Pequenos fatos exteriores provocam uma longa viagem abstrata das idias, sem se basear numa estrutura seqencial da narrao.

Ela faz os personagens viverem o processo chamado de epifania, ou seja, revelao. Em outras palavras, de repente, diante de ocorrncias mnimas, o personagem se descobre e v revelada uma realidade mais profunda. Muitas vezes, ele mesmo no consegue perceber com clareza que realidade essa, porm sua vida ou sua viso mudam.

Exemplos dessas situaes epifnicas: a menina que se torna amante do livro; os dois amigos que se separam para avivarem a amizade sincera; o menino mope que descobre a paixo no amor; a menina que se sente valorizada quando o folio lhe entorna confete na cabea; a mulher que percebe sua real situao pisando num rato morto; a menina ruiva que sente o peso da solido quando o cachorro se vai; a contemplao de um ovo que faz a narrador refletir sobre o mistrio profundo da vida; a menina formal que se v criana diante de um pintinho e reage matando-o; a mulher que, olhando o dente quebrado, confirma a falta de sentido da vida; a viso do inseto esperana que leva a mulher a se questionar sobre o nada; a macaquinha que induz o filho a perceber seu amor pela me; a menina que faz o professor sorrir e, assim, descobre sua falta de importncia; a criada que oportunidade de a patroa entender um ser humano; os adolescentes que diante da casa velha concluem no serem pessoas especiais; o menino que se descobre homem ao beijar a esttua da mulher-chafariz...

Os vos metafsicos de Clarice Lispector partem, geralmente, de cenas domsticas ou, na viso estereotipada masculina, sem importncia. Sua condio de mulher a faz muito sensvel aos problemas das pessoas carentes. A marca registrada de seus personagens serem tipos sem relevncia aos olhos da sociedade (meninas, velhas, adolescentes) mas ricos em sua interioridade.

Ainda integra a caracterstica de mulher-autora a viso do nascimento da mulher na menina. So numerosas as personagens-meninas que, de uma forma ou de outra, se tornam adultas a partir de experincias aparentemente corriqueiras.

Toda essa exaustiva pequisa do interior do ser humano a subjetividade procurando se orientar envolvida pela objetividade pode passar despercebida ao leitor desatento. Isso porque os textos so muito pobres de fatos, alis, propositalmente pobres. Cenas comuns, desenhadas sem rebuscamentos, mas com bastante preciso de detalhes, podem esconder a profundidade do contedo analtico. As palavras no so raras, os aspectos descritos e narrados parecem irrelevantes, a sintaxe no se complica. O campo da linguagem fica livre para o leitor acompanhar os pensamentos que movem as intenes dos personagens procura de se ajustarem com eles mesmos.

ENREDOS

FELICIDADE CLANDESTINA

Neste conto a narradora recorda sua infncia no Recife. Leia mais...

UMA AMIZADE SINCERA

Neste conto, a histria incomoda porque obriga ver a amizade como um desconforto: o cotidiano de dois amigos, as confidncias, a partilha das coisas banais da convivncia so um fardo que ambos suportam pela amizade. Leia mais...

MIOPIA PROGRESSIVA

O narrador conta sobre um menino que usava culos e sobre sua relao com os familiares, que agiam segundo suas falas mais ou menos originais.

O menino era tido como inteligente e astuto em casa. O que ele dizia provocava olhares mtuos de confirmao de sua superioridade. Ento ele comeou a compreender que dependia dele a boa convivncia dos membros da famlia. Quando no era ele o centro das atenes, eles se desentendiam.

Para apoderar-se da chave de sua inteligncia, o menino costumava repetir seus ditos; mas ningum prestava mais ateno. Essa instabilidade dos familiares passou para ele, que adquiriu, ento, um hbito mantido o resto da vida: pestanejava e franzia o nariz, deslocando os culos que usava por causa da miopia. Toda vez que desenvolvia esse cacoete, era sinal de que estava interiormente tendo noo de sua instabilidade.

Iria passar uma semana na casa de uma prima que no tinha filhos e que adorava crianas. Passou os dias preparando-se, criando expectativas, imaginando o dia inteiro que passaria com ela e o amor inteiro que receberia. Na semana que antecedeu a esperada visita, a cabea do menino ferveu: como se apresentaria diante da prima? Inteligente? Bem comportado? Quem sabe at como palhao? Triste talvez? Sentia at aperto no estmago quando antecipava a situao de que ia ser amado sem seleo, sem escolha, o que representava uma estabilidade ameaadora. Aos poucos, suas preocupaes passaram a ser outras: que elementos ele daria prima para ela ter certeza de quem ele era? Como encararia o amor que ela nutria por ele?

Ao entrar na casa da prima, duas surpresas o desnortearam (ele se desnorteava com surpresas): a prima tinha um dente de ouro no lado esquerdo da boca; ela o recebeu com naturalidade, sem evidenciar am-lo.

J que suas previses foram por terra, resolveu brincar de no ser nada. No entanto, medida que o dia avanava, o amor da prima se evidenciou. Era um amor sem gravidez: ela queria que ele tivesse nascido dela; por isso demonstrava o amor estvel, a estabilidade do desejo irrealizvel. Amor que inclua paixo, a paixo pelo impossvel.

Quando o menino descobriu o ingrediente da paixo no amor, ele perdeu a miopia e viu o mundo claramente. Foi como se ele tivesse tirado os culos e a prpria miopia o fizesse enxergar.

Desde ento, talvez, ele adquiriu o novo hbito de tirar os culos a pretexto de limp-los e, sem culos, fitava o interlocutor com uma fixidez reverberada de cego.

A forma de am-lo era deix-lo viver e ele sentiu-se amado, e foi como se a miopia passasse e ele visse claramente o mundo, ou a miopia mesmo que o fizesse enxergar.

RESTOS DO CARNAVAL

Em Restos do Carnaval o procedimento narrativo o mesmo que em "Felicidade Clandestina": a escritora adulta rememora um episdio da sua infncia passada nas ruas e praas de Recife, que encontravam sua razo de ser no Carnaval. Leia mais...

O GRANDE PASSEIO

Uma velhinha pobre andava pelas ruas. Era apelidada de Mocinha. Havia sido casada, tivera dois filhos: todos morreram e ela ficou sozinha.

Depois de dormir em vrios lugares, Mocinha acabou, no se sabia por que, passando a dormir sempre nos fundos de uma casa grande no bairro Botafogo. Cedinho ela saa passeando. Na maior parte do tempo, a famlia moradora da casa se esquecia dela.

Certo dia, a famlia achou que Mocinha j estava l por muito tempo. Resolveram lev-la para Petrpolis, entreg-la na casa de uma cunhada alem. Um filho da casa, com a namorada e as duas irms, foi passar um fim-de-semana l e levou Mocinha.

Na noite anterior, a velhinha no dormiu, ansiosa por causa do passeio e da mudana de vida. Como se fossem flashes descontnuos, vinham-lhe cabea pedaos de recordaes de sua vida no Maranho: a morte do filho Rafael atropelado por um bonde; a morte da filha Maria Rosa, de parto; o marido, contnuo de uma repartio, sempre em manga de camisa, ela no conseguia se lembrar do palet... S conseguiu dormir de madrugada. Acordaram-na cedo e a acomodaram no carro.

A viagem transcorreu para Mocinha entre cochilos e novos flashes de memria com cenas entrecortadas da vida passada. Foi deixada perto da casa do irmo do rapaz que dirigia, Arnaldo; indicaram-lhe o caminho e recomendaram que dissesse que no podia mais ficar na outra casa, que Arnaldo a recebesse, que ela poderia at tomar conta do filho.

A alem, mulher de Arnaldo, estava dando comida ao filho; deixou Mocinha sentada sem lhe oferecer alimento, aguardando o marido. Este veio, confabulou com a mulher e disse a Mocinha que no poderia ficar com ela. Deu-lhe um pouco de dinheiro para que tomasse um trem e voltasse para a casa de Botafogo. Ela agradeceu e saiu pela rua. Parou para tomar um pouco de gua num chafariz e continuou andando, sentindo um peso no estmago e alguns reflexos pelo corpo, como se fossem luzes. A estrada subia muito. A estrada branca de sol se estendia sobre um abismo verde. Ento, como estava cansada, a velha encostou a cabea no tronco de rvore e morreu.

COME, MEU FILHO

A me d comida ao filho Paulinho e ele fica puxando conversa para evitar ter que comer. Os assuntos que ele traz so desconexos, simples pretextos para no comer. Por exemplo: o mundo chato e no redondo; o pepino parece inreal, faz barulho de vidro quando a gente mastiga; quem teria inventado o feijo com arroz; o sorvete bom quando o gosto igual cor... A me, paciente, vai respondendo laconicamente e insistindo em que Paulinho no converse tanto e coma.

No fim, ele pergunta se verdade que adivinhou que ela o olha daquele jeito no para ele comer, mas porque gosta dele. A me diz que ele adivinhou sim, mas torna a insistir em que ele coma. Paulinho retruca: Voc s pensa nisso. Eu falei muito para voc no pensar s em comida, mas voc vai e no esquece.

PERDOANDO DEUS

Este texto de Clarice externa, com sua peculiaridade de expresso, uma experincia interior de grande impacto protagonista. Leia mais...

TENTAO

uma cena lrica. Uma menina ruiva estava sentada na calada, triste e soluante.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmo de Graja. A possibilidade de comunicao surgiu no ngulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um co. Era um basset ruivo.

A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua lngua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que esto prontos para se tornarem donos de outro ser, l estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro.

Que foi que disseram? No se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois no havia tempo. Sabe-se tambm que sem falar eles se pediam. Pediam-se com urgncia, com encabulamento, surpreendidos. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Graja.

Mas ambos eram comprometidos.

Ela com sua infncia impossvel, o centro de sua inocncia que s se abriria quando ela fosse mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.

A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mos, numa mudez que nem pai nem me compreenderiam. Acompanhou-o com os olhos pretos que mal acreditavam, debruada sobre a bolsa e os joelhos, at v-lo dobrar a outra esquina.

Mas ele foi mais forte que ela. Nem s uma vez olhou para trs.

Leia o conto na ntegra:

Ela estava com soluo. E como se no bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabea da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ningum na rua, s uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se no bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluo a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mo. Que fazer de uma menina ruiva com soluo? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntria. Que importava se num dia futuro sua marca ia faz-la erguer insolente uma cabea de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, s duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com ala partida. Segurava-a com um amor conjugal j habituado, apertando-a contra os joelhos.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmo em Graja. A possibilidade de comunicao surgiu no ngulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um co. Era um basset lindo e miservel, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.

L vinha ele trotando, frente da sua dona, arrastando o seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.

A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua lngua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que esto prontos para se tornarem donos de outro ser, l estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, sria. Quanto tempo se passava? Um grande soluo sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Tambm ela passou por cima do soluo e continuou a fit-lo. Os plos de ambos eram curtos, vermelhos.

Que foi que se disseram? No se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois no havia tempo. Sabe-se tambm que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgncia, com encabulamento, surpreendidos.

No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a soluo para a criana vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos ces maiores, de tantos esgotos secos - l estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes do Graja. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez gravidade com que se pediam.

Mas ambos eram comprometidos.

Ela com sua infncia impossvel, o centro da inocncia que s se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.

A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mos, numa mudez que nem pai nem me compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruada sobre a bolsa e os joelhos, at v-lo dobrar a outra esquina.

Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma s vez olhou para trs.

O OVO E A GALINHA

O conto "O ovo e a Galinha" se parece mais com uma dissertao sobre o mistrio do ovo. Mas sendo algo entre a crnica e o conto ou um simples texto sem classificao, pouco tem daquela organizao que encontramos no poema "O Ovo da Galinha", de Joo Cabral de Melo Neto. Leia mais...

CEM ANOS DE PERDO

Neste breve conto, tambm passado nas ruas de Recife, Clarice Lispector aborda novamente o tema da rosa, que lhe to caro. Leia mais...

A LEGIO ESTRANGEIRA

O conto comea com a protagonista lembrando-se de Oflia e seus pais que conhecera, mas h muito tempo no via mais. Estou tentando falar daquela famlia que sumiu h anos sem deixar traos em mim. Leia mais...

OS OBEDIENTES

Neste conto enfocada a vivncia de um casal, e a voz narrativa tem papel preponderante para interpretar os acontecimentos sob uma tica de ironia, que desmascara muitos valores da sociedade patriarcal.

Trata-se de um relato singular, que recria a rotina desmotivadora de um casal, que vai vivendo por viver, sem ter conscincia nem de sua realidade medocre, nem da realidade que os cerca. So pessoas annimas, iguais a outras pessoas, que se submetiam ao irremedivel da vida.

Um casal viveu muitos anos junto. Sua harmonia conjugal era aparentemente perfeita. Mas no tinham emoes. Cumpriam com perfeio a rotina, totalmente obedientes ao que se convencionou chamar de realidade de um casal, inclusive quanto fidelidade.

Nem individualmente nem em comum faziam ou diziam algo de inconveniente.

J ultrapassada a idade de 50 anos, ambos comearam a ter alguns sonhos. Cada um pensava timidamente em seu interior sem falar: ele imaginava que muitas aventuras amorosas significariam vida; ela, que outro homem a salvaria.

Certo dia, ela estava comendo uma ma e sentiu quebrar-se um dente da frente.

Olhou-se no espelho do banheiro, viu uma cara plida, de meia-idade, com um dente quebrado, e os prpiros olhos... Ento, jogou-se pela janela.

O marido continuou existindo; seco inesperadamente o leito do rio, andava perplexo e sem perigo sobre o fundo com uma lepidez de quem vai cair de bruos mais adiante.

A REPARTIO DOS PES

O assunto do texto um almoo para participantes, como Clarice esclarece: Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Trata-se de um almoo de obrigao oferecido num sbado, dia desejado por todos, e no entanto, era obrigao permanecer no almoo.

Clarice, para reforar o estado de esprito dos convidados, usou como metfora o trem descarrilado que obriga a todos os passageiros permanecerem em um lugar estranho, entre estrangeiros, desconhecidos que no conhecem o prazer de cada um que ali se encontra. O narrador, um dos convidados, foi narrando a insatisfao de perder o sbado com um almoo que poderia ter sido trocado por uma quinta-feira noite. O narrador lamenta tambm que a dona da casa no se importava com o grupo heterogneo: um sonhador outro resignado. Para justificar a longa espera pelo almoo, Clarice, continuou se utilizando da metfora do trem: ...Como pela hora da partida do primeiro trem, qualquer trem ou a metfora do cavalo: menos refrear o cavalo. Finalmente o almoo.

Antes do almoo, a dona da casa, comeou a lavar os ps dos estrangeiros. Com isso Clarice fez meno ltima ceia quando Jesus lavou os ps de seus discpulos em sinal de Humildade. J mesa o narrador detalha a comida que estava sobre a mesma.

Comea dizendo que sobre a mesa se encontrava uma toalha branca, sobre a toalha amontoavam-se espigas de trigo. Descrita a mesa, o narrador comeou a descrever todas as iguarias que estavam sobre ela alm do trigo: mas vermelhas, enormes cenouras, abacaxis malignos... Os tomates eram redondos para ningum: para o ar, para redondo ar. Nas bilhas estava o leite, o vinho quase negro de to pesado. Tudo diante de ns.

Tudo limpo do retorcido desejo humano. Tudo como , no como quisramos. No havia holocausto, tudo queria ser comido. O narrador continua descrevendo o almoo como dizendo estarem todos ocupados como quem lavra a existncia, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi aquela comida e no o seu nome. Finaliza dizendo que: Ns somos fortes e ns comemos. Po amor entre estranhos.

UMA ESPERANA

Uma esperana, um inseto que se chama esperana, pousou na parede da casa da narradora. Ela e os filhos ficaram observando a esperana andar, sem voar (Ela esqueceu que pode voar, mame.)

Uma aranha saiu de trs do quadro e avanou em direo esperana. Embora d azar matar aranha, ela foi morta por um dos filhos.

A narradora se espanta de no ter pego a esperana, ela que gosta de pegar nas coisas. Lembrou-se de certa vez que uma esperana pousou no seu brao. Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois no me lembro mais o que aconteceu. E, acho que no aconteceu nada.

Leia o conto na ntegra:

Aqui em casa pousou uma esperana, no a clssica que tantas vezes verifica-se ilusria, embora mesmo assim nos sustente sempre, mas a outra, bem concreta e verde: o inseto. Houve um grito abafado de um dos meus filhos:

- Uma esperana! E na parede bem em cima de sua cadeira! Emoo dele que tambm unia em uma s as duas esperanas, j tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperana coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim sem ningum saber, e no acima de minha cabea numa parede. Pequeno rebulio, mas era indubitvel, l estava ela, e mais magra e verde no podia ser.

- Ela quase no tem corpo, queixei-me.

- Ela s tem alma, explicou meu filho. E como filhos so uma surpresa para ns, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanas. Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Trs vezes tentou renitente uma sada entre os dois quadros, trs vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.

- Ela burrinha, comentou o menino.

- Sei disso, respondi um pouco trgica.

- Est agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.

- Sei, assim mesmo.

- Parece que esperana no tem olhos, mame, guiada pelas antenas.

- Sei, continuei, mais feliz ainda.

Ali ficamos, no sei quanto tempo olhando, vigiando-a como se vigiava na Grcia ou em Roma o comeo de fogo do lar para que no apagasse.

- Ela se esqueceu que pode voar, mame, e pensa que s pode andar devagar assim.

Andava mesmo devagar - estaria por acaso ferida? Ah no, seno de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo. Foi ento que farejando o mundo que comvel, saiu de trs de um quadro uma aranha, no uma aranha, mas me parecia a aranha, andando pela sua teia invisvel, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria esperana. Mas ns tambm queramos e, oh! Deus, queramos menos que com-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse francamente, confusa sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperana:

- que no se mata aranha, me disseram que traz sorte...

- Mas ela vai esmigalhar a esperana! Respondeu o menino com ferocidade.

- Preciso falar com a empregada para limpar atrs dos quadros.

- Falei sentindo a frase deslocada e ouvindo certo cansao que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada; eu lhe diria apenas; voc fez o favor de facilitar o caminho da esperana.

O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e com a nossa esperana. Meu outro filho, que estava vendo televiso, ouviu e riu de prazer. No havia dvida: a esperana pousara em nossa casa, alma e corpo, mas como bonito o inseto: mais pousa que vive, um esqueletinho verde e tem uma forma to delicada que isso explica porque eu que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei peg-la. Uma vez, alis, agora que me lembro, uma esperana bem menor do que esta, pousara no meu brao, no senti nada, de to leve que era, foi s visualmente que tomei conscincia de sua presena. Encabulei com a delicadeza. Eu no mexia o brao e pensei: e essa agora? Que devo fazer? Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois no me lembro mais o que aconteceu. E acho que no aconteceu nada.

MACACOS

Perto do Ano-Novo, a famlia ganhou um mico de presente. Era um macaco ainda no crescido, que no dava sossego a ningum. A dona da casa-narradora estava exausta.

Uma amiga entendeu o sofrimento dela e chamou uns meninos do morro. Eles levaram o macaco.

Um ano depois, a narradora comprou uma macaquinha nas mos de um vendedor em Copacabana. Era delicada e recebeu o nome de Lisette. Vestiram-na de mulher e ela encantava a todos.

Trs dias depois, Lisette estava na rea de servio sendo admirada pela famlia. Ela encantava sobretudo pela doura. S que no era doura, era a morte chegando. Levaram-na rapidamente para o veterinrio, enfrentando um trnsito difcil. Ela estava tendo falta de oxignio. Deixaram-na na clnica.

No dia seguinte, morreu. Uma semana depois, o filho mais velho disse para a me: Voc parece tanto com Lisette! Eu tambm gosto de voc, respondi.

OS DESASTRES DE SOFIA

Este longo conto tambm alude, como no conto "Felicidade Clandestina", a um livro infantil: Os Desastres de Sofia, da Condessa de Sgur, grande sucesso na Frana e no Brasil at meados do sculo XX. Tambm neste caso a aluso no parece ser gratuita. Leia mais...

A CRIADA

Descrio potica de Eremita, a criada que fazia os servios domsticos como algum talhado exatamente para aquilo. Parecia viver num mundo profundo e misterioso, mas sem a verdadeira conscincia da profundidade da floresta em que mergulhava.

Eremita que nada mais apresentava a no ser o perfil de um criada: nem bonita nem feia, cumpria seus deveres sem competncia e sem desleixo; mas, por trs da figura-padro e das frases convencionais pronunciadas convencionalmente, escondia-se um mundo interior indecifrvel para qualquer pessoa, inclusive para ela mesma.

De vez em quando, se interiorizava, se desligava; quando retornava desse passeio por sua floresta ntima, estava mais calma e ia consolidando a sua doura prxima das lgrimas.

Nada em Eremita denunciava perigo, a no ser uma maneira rpida de comer po. No resto era serena. Mesmo quando tirava o dinheiro que a patroa esquecia sobre a mesa, mesmo quando levava para o noivo em embrulho discreto alguns gneros da despensa. A roubar de leve ela tambm aprendera em suas florestas.

A MENSAGEM

Conto cujo tema a dificuldades de relacionamento, sobre dois estudantes, que tentam no se ver como homem e mulher.

Um rapaz de dezesseis anos e uma moa de dezessete, colegas de escola sem amizade, um dia se sentiram ligados um ao outro porque ela disse que sentia angstia e ele tambm.

A partir de ento se tornaram ntimos. Intimidade que no significava sexo nem amor. Eles se sentiram ligados porque ambos queriam ser autnticos, sinceros, diferentes dos outros. No se viam como homem e mulher, mas como dois seres angustiados, procura de algo que eles no sabiam o que fosse. Vagamente, confusamente, achavam-se portadores de uma mensagem. Mas o que era isso?

Saindo do colgio no ltimo dia letivo, os dois caminhavam numa rua prxima do Cemitrio S. Joo Batista, no Rio. A calada era estreita e os nibus passavam rentes. De repente, os dois se viram colados a uma casa velha. Pararam diante dela, olharam para a fachada. Em seu ntimo cada um foi se descobrindo ali, parados: ele era apenas um rapaz e ela, uma moa. No tinham mais o que se dizer e por que continuarem juntos.

Ela despediu-se, correu para um nibus que estava parado. Entrou subindo como se fosse um macaco, pensou ele, vendo-a acomodar-se l dentro.

A moa sara envergonhada por se sentir mulher; o rapaz tinha acabado de nascer homem. Mas, atolado no seu reino de homem, ele precisava dela. Para qu? (...) para no esquecer que eram feitos da mesma carne, essa carne podre da qual, ao subir no nibus, como um macaco, ela parecia ter feito um caminho fatal. O que estava acontecendo a ele naquele momento em que viu a moa entrar no nibus daquele jeito? Nada! Apenas um instante de fraqueza e vacilao. S que agora ele se sentia fraco para resistir ao que os outros tentavam ensinar-lhe para ser homem. Mas e a mensagem?! a mensagem esfarelada na poeira que o vento arrastava para as grades do esgoto. Mame, disse ele.

MENINO A BICO DE PENA

Neste conto o adulto, ao escrever para a criana, desenha-a. A autora se dispe a uma anlise que visa acompanhar no menino o nascimento da linguagem e do sujeito.

O narrador busca a viso de criana (do beb) reconhecendo o mundo e o mostra desse ngulo inusitado.

As experincias espaciais do beb, a baba, o sono, a me, o aconchego, a solido, a percepo das coisas, a segurana da me, a fralda seca.

um conto sobre o qual melhor no dizer, mas ler.

Um menino, que ainda no fala nem anda direito, est sentado no cho. Tenta dar alguns passos, cai; engatinha, baba. Depois a me o toma no colo, o faz dormir, troca a fralda dele e o ouve dar os primeiros sinais da fala.

UMA HISTRIA DE TANTO AMOR

Uma menina de Minas Gerais tinha duas galinhas, Pedrina e Petronilha. Cuidava delas como se fossem pessoas.

Certa vez, foi passar o dia fora e, quando voltou, Petronilha tinha sido comida pela famlia. Ficou contrariada. Mas a me lhe disse que foi pena as duas, ela e a filha, no terem comido algum pedao de Petronilha, pois, quando a gente come os bichos, eles ficam parecidos com a gente, assim dentro de ns.

Pedrina morreu naturalmente. Morte apressada pela menina que, ao v-la doente, colocou-a embrulhada num pano escuro, em cima de um fogo de tijolos.

Um pouco maiorzinha, a menina teve outra galinha, a Eponina. Esta foi comida ao molho pardo por toda a famlia, inclusive pela menina que, embora sem fome, quis que Eponina se incorporasse nela e se tornasse mais dela morta do que em vida. Nessa refeio tinha cimes de quem tambm comia Eponina. A menina era um ser feito para amar at que se tornou moa e havia os homens.

Leia o conto na ntegra:

Era uma vez uma menina que observava tanto as galinhas que lhes conhecia a alma e os anseios ntimos. A galinha ansiosa, enquanto o galo tem angstia quase humana: falta-lhe um amor verdadeiro naquele seu harm, e ainda mais tem que vigiar a noite toda para no perder a primeira das mais longquas claridades e cantar o mais sonoro possvel. o seu dever e a sua arte. Voltando s galinhas, a menina possua duas s dela. Uma se chamava Pedrina e a outra Petronilha.

Quando a menina achava que uma delas estava doente do fgado, ela cheirava embaixo das asas delas, com uma simplicidade de enfermeira, o que considerava ser o sintoma mximo de doenas, pois o cheiro de galinha viva no de se brincar. Ento pedia um remdio a uma tia. E a tia : "Voc no tem coisa nenhuma no fgado". Ento, com a intimidade que tinha com essa tia eleita, explicou-lhe para quem era o remdio. A menina achou de bom alvitre d-lo tanto a Pedrina quanto a Petronilha para evitar contgios misteriosos. Era quase intil dar o remdio porque Pedrina e Petronilha continuavam a passar o dia ciscando o cho e comendo porcarias que faziam mal ao fgado. E o cheiro debaixo das asas era aquela morrinha mesmo. No lhe ocorreu dar um desodorante porque nas Minas Gerais onde o grupo vivia no eram usados assim como no se usavam roupas ntimas de nylon e sim de cambraia. A tia continuava a lhe dar o remdio, um lquido escuro que a menina desconfiava ser gua com uns pingos de caf - e vinha o inferno de tentar abrir o bico das galinhas para administrar-lhes o que as curaria de serem galinhas. A menina ainda no tinha entendido que os homens no podem ser curados de serem homens e as galinhas de serem galinhas: tanto o homem como a galinha tm misrias e grandeza (a da galinha a de pr um ovo branco de forma perfeita) inerentes prpria espcie. A menina morava no campo e no havia farmcia perto para ela consultar.

Outro inferno de dificuldade era quando a menina achava Pedrina e Petronilha magras debaixo das penas arrepiadas, apesar de comerem o dia inteiro. A menina no entendera que engord-las seria apressar-lhes um destino na mesa. E recomeava o trabalho mais difcil: o de abrir-lhes o bico. A menina tornou-se grande conhecedora intuitiva de galinhas naquele imenso quintal das Minas Gerais. E quando cresceu ficou surpresa ao saber que na gria o termo galinha tinha outra acepo. Sem notar a seriedade cmica que a coisa toda tomava:

- Mas o galo, que um nervoso, quem quer! Elas no fazem nada demais! e to rpido que mal se v! O galo quem fica procurando amar uma e no consegue!

Um dia a famlia resolveu levar a menina para passar o dia na casa de um parente, bem longe de casa. E quando voltou, j no existia aquela que em vida fora Petronilha. Sua tia informou:

- Ns comemos Petronilha.

A menina era uma criatura de grande capacidade de amar: uma galinha no corresponde ao amor que se lhe d e no entanto a menina continuava a am-la sem esperar reciprocidade. Quando soube o que acontecera com Petronilha passou a odiar todo o mundo da casa, menos sua me que no gostava de comer galinha e os empregados que comeram carne de vaca ou de boi. O seu pai, ento, ela mal conseguiu olhar: era ele quem mais gostava de comer galinha. Sua me percebeu tudo e explicou-lhe:

- Quando a gente come bichos, os bichos ficam mais parecidos com a gente, estando assim dentro de ns. Daqui de casa s ns duas que no temos Petronilha dentro de ns. uma pena.

Pedrina, secretamente a preferida da menina, morreu de morte morrida mesmo, pois sempre fora um ente frgil. A menina, ao ver Pedrina tremendo num quintal ardente de sol, embrulhou-a num pano escuro e depois de bem embrulhadinha botou-a em cima daqueles grandes foges de tijolos das fazendas das minas-gerais. Todos lhe avisaram que estava apressando a morte de Pedrina, mas a menina era obstinada e ps mesmo Pedrina toda enrolada em cima dos tijolos quentes. Quando na manh do dia seguinte Pedrina amanheceu dura de to morta, a menina s ento, entre lgrimas interminveis, se convenceu de que apressara a morte do ser querido.

Um pouco maiorzinha, a menina teve uma galinha chamada Eponina.

O amor por Eponina: dessa vez era um amor mais realista e no romntico; era o amor de quem j sofreu por amor. E quando chegou a vez de Eponina ser comida, a menina no apenas soube como achou que era o destino fatal de quem nascia galinha. As galinhas pareciam ter uma pr-cincia do prprio destino e no aprendiam a amar os donos nem o galo. Uma galinha sozinha no mundo.

Mas a menina no esquecera o que sua me dissera a respeito de comer bichos amados: comeu Eponina mais do que todo o resto da famlia, comeu sem fome, mas com um prazer quase fsico porque sabia agora que assim Eponina se incorporaria nela e se tornaria mais sua do que em vida. Tinham feito Eponina ao molho pardo. De modo que a menina, num ritual pago que lhe foi transmitido de corpo a corpo atravs dos sculos, comeu-lhe a carne e bebeu-lhe o sangue. Nessa refeio tinha cimes de quem tambm comia Eponina. A menina era um ser feito para amar at que se tornou moa e havia os homens.

AS GUAS DO MUNDO

O conto relata o banho matinal de uma mulher no mar. Este a mais ininteligvel das existncias no humanas; aquela, o mais ininteligvel dos seres vivos.

Este texto de Clarice Lispector mostra a integrao de um no outro: ela dentro do mar, ele dentro delas aos goles.

s seis horas da manh, a mulher entra no mar: este, o mais ininteligvel das existncias no humanas; ela, o mais ininteligvel dos seres vivos.

Ela vai entrando, cumprindo uma coragem. Avanando, abre o mar pelo meio. Ela brinca com a gua. Com a concha das mos cheia de gua, bebe em goles grandes. E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o lquido espesso de um homem.

Agora ela est toda igual a si mesma.

Mergulha de novo, de novo bebe mais gua. Como contra os costados de um navio, a gua bate, volta, no recebe transmisses. Depois caminha na gua e volta praia. Agora, pisa na areia. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos so de um nufrago. Porque sabe sabe que fez um perigo. Um perigo to antigo quanto o ser humano.

Leia o conto na ntegra:

A est ele, o mar, o mais ininteligvel das existncias no humanas. E aqui est a mulher, de p na praia, o mais ininteligvel dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligvel dos seres vivos. Ela e o mar.

S poderia haver um encontro de seus mistrios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscveis feita com a confiana com que se entregariam duas compreenses.

Ela olha o mar, o que se pode fazer. Ele s lhe delimitado pela linha do horizonte, isto , pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.

So seis horas da manh. S um co livre hesita na praia, um co negro. Por que que um co to livre? Porqu ele o mistrio vivo que no se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.

Seu corpo se consola com sua prpria exigidade em relao a vastido do mar porque a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e essa exigidade que a torna livre gente, com sua parte de liberdade de co nas areias. Esse corpo entrar no ilimitado frio que sem raiva ruge no silncio das seis horas. A mulher no est sabendo: mas est cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manh, ela no tm o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no amr em simples jogo leviano de viver. Ela est sozinha. O mar salgado no sozinho porque salgado e grande, e isso uma realizao. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem a de , no se conhecendo, no entanto prosseguir. fatal no se conhecer, e no se conhecer exige coragem.

Vai entrando. A gua salgada de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria uma fatalidade - j a tomou, embora nem lhe ocorrera sorrir. Pelo contrrio, est muito sria. O cheiro de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela est alerta, mesmo sem pensar, como um caador est alerta, mesmo sem pensar. A mulher agora uma compacta e uma leve e uma aguda- e abre caminho na gelidez que, lquida, se ope a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposio pode ser um pedido.

O caminho lento aumenta as coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo lquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo - espantada de p, fertilizada.

Agora o frio se transformou em frgido. Avanando, ela sobre o mar pelo meio. J no precisa da coragem, agora j antiga no ritual. Abaixa a cabea dentro do brilho do mar e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mo na gua, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente j esto endurecendo de sal. Com a concha das mos faz o que sempre fez no mar, e com altivez dos que nunca daro explicao nem a eles mesmos: com a concha das mos cheia de gua, bebe em goles grandes, bons.

E era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro como o lquido espesso de um homem. Agora est toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe com o sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam pois ela um anteparo compacto.

Mergulha de novo, de novo bebe mais gua, agora sem sofreguido pois no precisa mais. Ela a amante que sabe que ter tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao sec-la, ela mergulha de novo: est cada vez menos sfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de p parada no mar. Assim fica pois. Como contra os costados de um navio, a gua bate, volta, bate. A mulher no recebe transmisses. No precisa de comunicao.

Depois caminha dentro da gua de volta praia. No est caminhando sobre as guas - ah, nunca faria isso depois que h milnios j andaram sobre as guas - mas ningum lhe tira isso: caminhar dentro das guas. s vezes o mar lhe impe resistncia puxando-a com fora para trs, mas ento a proa da mulher avana um pouco mais dura e spera.

E agora pisa na areia. Sabe que est brilhando de gua , e sal e sol. Mesmo que o esquea daqui a uns minutos, nunca poder perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos so de nufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo to antigo quanto o ser humano.

A QUINTA HISTRIA

Este conto descreve com muito humor e certa dose de suspense, experincias sobre o extermnio de baratas. Relata uma histria, a de como matar baratas, em cinco verses, o que leva ao questionamento sobre as muitas formas de narrar um fato, o que incluir, o que excluir, e como um mesmo fato pode originar histrias muito diferentes. Nesse conto, encontra-se a reflexo sobre o fazer literrio que acompanha os contos de Clarice Lispector. Leia mais...

ENCARNAO INVOLUNTRIA

A narradora tem o hbito de, quando v uma pessoa que nunca viu, observ-la e encarnar-se nela, para poder conhec-la.

Certa vez, num avio encarnou-se numa missionria. Durante toda a viagem e alguns dias em terra, assumiu o ar de sofrimento-superado-pela-paz-de-se-ter-uma misso.

A narradora levanta a hiptese de nunca ter sido ela mesma seno no momento de nascer, e o resto tinha sido encarnaes. Depois ela afirma que no, que ela uma pessoa. E quando o fantasma de mim mesmo me toma ento um encontro de alegria, uma tal festa, que a modo de dizer choramos uma no ombro da outra.

Uma vez, tambm em viagem, ela encontrou uma prostituta perfumadssima que fumava entrefechando o olhos e estes ao mesmo tempo olhavam um homem que j estava sendo hipnotizado. Ento, a narradora fez o mesmo. Mas o homem gordo que eu olhava para experimentar e ter a alma da prostituta, o gordo estava mergulhado no New York Times. E meu perfume era discreto demais. Falhou tudo.

Leia o conto na ntegra:

s vezes, quando vejo uma pessoa que nunca vi, e tenho tempo para observ-la, eu me encarno nela e assim dou um grande passo para conhec-la. E essa intruso numa pessoa, qualquer que seja ela, nunca termina pela sua prpria auto-acusao: ao nela me encarnar, compreendo-lhe os motivos e perdo. Preciso prestar ateno para no me encarnar numa vida perigosa e atraente, e que por isso mesmo eu no queira o retorno a mim mesmo.

Um dia no avio...ah, meu Deus - implorei - isso no, no quero ser essa missionria!

Mas era intil. Eu sabia que, por causa de trs horas de sua presena, eu por vrios dias seria missionria. A magreza e a delicadeza extremamente polida da missionria j haviam me tomado. com curiosidade, algum deslumbramento e cansao prvio que sucumbo vida que vou experimentar por uns dias viver. E com alguma apreenso, do ponto de vista prtico: ando agora muito ocupada demais com os meus deveres e prazeres para poder arcar com o peso dessa vida que no conheo- mas cuja tenso evangelical j comeo a sentir. No avio mesmo percebo que j comecei a andar com esse passo de santa leiga: ento compreendo como a missionria paciente, como se apaga com esse passo que mal quer tocar o cho, como se pisar mais forte viesse prejudicar os outros. Agora sou plida, sem nenhuma pintura nos lbios, tenho o rosto fino e uso aquela espcie de chapu de missionria.

Quando eu saltar em terra provavelmente j terei esse ar de sofrimento-superado-pela-paz-de-se-ter-uma-misso. E no meu rosto estar impressa a doura da esperana moral. Porque sobretudo me tornei toda moral. No entanto quando entrei no avio estava to sadiamente amoral. Estava, no, estou! Grito-me eu em revolta contra os preconceitos da missionria. Intil: toda a minha fora est sendo usada para conseguir ser frgil. Finjo ler uma revista, enquanto ela l a Bblia.

Vamos ter uma descida curta em terra. O aeromoo distribui chicletes. Ela cora mal o rapaz se aproxima.

Em terra sou uma missionria ao vento do aeroporto, seguro minhas imaginrias saias longas e cinzas contra o despudor do vento. Entendo, entendo. Entendo-a, ah, como a entendo e ao seu pudor de existir quando est fora das horas em que cumpre sua misso. Acuso, como a missionariazinha, as saias curtas das mulheres, tentao para os homens. E, quando no entendo, com o mesmo fanatismo depudorado dessa mulher plida que facilmente cora aproximao do rapaz que nos avisa que devemos prosseguir viagem.

J sei que s da a dias conseguirei recomear enfim integralmente a minha prpria vida. Que, quem sabe, talvez nunca tenha sido prpria, se no no momento de nascer, e o resto tenha sido encarnaes. Mas no: eu sou uma pessoa. E quando o fantasma de mim mesma me toma - ento um tal encontro de alegria, uma tal festa, que a modo de dizer choramos uma no ombro da outra. Depois enxugamos as lgrimas felizes, meu fantasma se incorpora plenamente em mim, e samos com alguma altivez por esse mundo afora.

Uma vez, tambm em viagem, encontrei uma prostituta perfumadssima que fumava entrefechando os olhos e estes ao mesmo tempo olhavam fixamente um homem que j estava ficando hipnotizado. Passei imediatamente, para melhor compreender, a fumar de olhos entrefechados para o nico homem ao alcance da minha viso intencionada. Mas o homem gordo que eu olhara para experimentar e ter a alma da prostituta, o gordo estava mergulhado no New York Times. E meu perfume era discreto demais.

Falhou tudo.

DUAS HISTRIAS A MEU MODO

A narradora relembra duas histrias, que ela escrevera para se divertir, dando ao autor imaginrio o nome de Marcel Aym.

Flicien era um vinicultor francs que produzia o melhor vinho da regio, mas no gostava de vinho. Ele e a mulher Leontina escondiam de todos esse fato. Flicien costumava at fingir-se de alcoolizado para esconder que no bebia vinho.

Ento o narrador imaginrio, Aym, pra essa histria e em Paris conta sobre Etienne Duvil.

Duvil, funcionrio pblico em Paris, pobre, que gosta de mesa farta e vinho, e no as tem.

Sua realidade era uma famlia grande que sonhava com mesa farta e ele, com vinho. Depois do sonho de uma noite de sbado, a sede de vinho piorou.

Ele passou, acordado, a querer no s beber vinho mas beber todo o mundo.

Tinha uma sede tamanha que quase mata o sogro parasita. Duvil enlouquece e no sanatrio s bebe gua. At hoje ele est internado num hospcio, tratado com gua mineral que estanca sedes pequenas e no a grande. Enquanto isso, Flicien pegou gosto pelo vinho.

O PRIMEIRO BEIJO

O texto se encontra na terceira pessoa, o autor narra a histria do pequeno rapaz que havia tido sua primeira experincia com o sexo oposto, mesmo que de uma forma surreal.

O autor no se introduz na histria, a narra analisando todos os acontecimentos como se estivesse ao lado do protagonista.

Podemos dizer que a realidade do conto consiste na paixo do rapaz por sua primeira namorada, e no cime dela. Podemos tambm entender como real, a dvida que o menino tem quanto a sua experincia com a esttua.

A dvida o sentimento mais presente em toda a construo da narrativa. Talvez a necessidade que o menino estava de beber gua o tenha feito sonhar um pouco mais. O encontro dos lbios do menino com os lbios da esttua da mulher nua, despertou sensaes que at ento no havia conhecido. O fazendo vivenciar experincias marcantes para sua vida como homem.

Neste conto de Clarice Lispector, ela evoluiu como elemento principal a esttua da mulher, que da base para todo o transcorrer do conto, para todo o contexto irreal do conto.

Em "O Primeiro beijo", a autora apenas narra uma situao da qual no fez parte diretamente.

Um rapaz conta para sua namorada que j havia beijado outra mulher. Numa excurso de nibus escolar, ele estava com muita sede. Quando houve uma parada perto de um chafariz, ele foi o primeiro a chegar para beber. Colou a boca no orifcio de onde jorrava a gua. Depois que se saciou, abriu os olhos e viu que o orifcio era a boca de uma esttua de mulher nua. Afastou-se, ficou olhando para a esttua. Fora seu primeiro beijo. Perturbado, atnito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tenso agressiva. (...) Ele se tornara um homem.

Comentários

Siga-nos:

Confira no Passeiweb

  • O primeiro voo do Homem no espaço

    Em 12 de abril de 1961 o homem decolava, pela primeira vez, rumo ao espaço. Em 2011, no aniversário de 50 anos deste fato, ocorreram comemorações no mundo inteiro e, principalmente, na Rússia.
  • Tsunami

    Tsunami significa "onda gigante", em japonês. Os tsunamis são um tipo especial de onda oceânica, gerada por distúrbios sísmicos.
 

Instituições em Destaque

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e receba as últimas notícias do Vestibular além de dicas de estudo:
 
 
 
-

Notícias e Dicas - Vestibular

Cadastre-se na nossa newsletter e receba as últimas do Vestibular e dicas de estudo: