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Frio (Conto da obra Malagueta, Perus e Bacanaço), de João Antonio


Um narrador onisciente nos põe em contato com o protagonista, mais pelos sonhos e imaginação, do que pelas ações e palavras deste. O título da narrativa já traz a primeira sensação de um sem nome: Nego é o seu apelido. Tem apenas dez anos, não tem família, não conhece o mar, nunca viu cavalos fortes como os da revista de Paraná. Este é o seu “professor de vida”, que ensina ao mesmo tempo em que explora. Menino pobre e negro, o protagonista é um engraxate que é acordado no início de uma madrugada para atender a um pedido de Paraná. Ao atravessar bairros de São Paulo para levar um “embrulhinho branco” ao próprio que o estaria aguardando – salvo algum imprevisto – num antigo ferro-velho que o garoto deveria abandonar bem cedo, caso ele não aparecesse. É a história de um menino, uma missão a cumprir e o chicotear do frio: eis a fábula da história, que é narrada a partir de cenas em perspectivas. Isso possibilita passar por um traço contínuo, da forma ao conteúdo, pois é o ponto de vista de um menino sobre um trajeto.

O narrador é tão onisciente que o foco transita livremente da terceira pessoa para primeira pessoa, do discurso direto para o indireto livre, promovendo a visualização de um personagem que recria o seu mundo, o qual só existe em seu olhar e em suas impressões que julgam e animam o espetáculo.

Em Frio, o jovem e também anônimo protagonista de apenas dez anos, “pequeno, feio, preto, magrelo”, possui, em sua caracterização, alguns traços típicos dos malandros de João Antônio.

O primeiro aspecto refere-se ao aprendizado que aos jovens vadios é necessário. O menino de Frio elege como mestre o malandro Paraná. Sua obediência chega ao extremo no momento em que, mesmo desprotegido e só, caminha pelas margens ou, como afirma o narrador, “pelas beiradas”, durante horas pelas perigosas ruas de uma São Paulo noturna, para levar um misterioso embrulho até um ferro-velho, a mando de seu mentor. Mesmo cercado por diversos perigos noturnos, comuns a uma metrópole, o menino se lança a esta jornada agüentando “frio” e outros estados que o título da narrativa pode sugerir: angústia, solidão, medo, fragilidade e fraqueza. Fausto Cunha lembra que, mesmo no mundo duríssimo da criança abandonada à própria miséria, há lugar para a amizade, a lealdade, como podemos observar através de excertos exemplificativos extraídos do texto:

Andando. Paraná mandara-lhe não ficar observando as vitrinas, os prédios, as coisas. Como fazia nos dias comuns. Ia forte e esforçando-se para não pensar em nada, nem olhar para nada [...].
Paraná apalpou-o, examinou-lhe a roupinha imunda de graxa de sapato. Tirou-lhe o tênis, cortou dois pedaços de jornal e enfiou-os dentro. Embrulhou uma manta verde. Meteu a mão no bolso, deu-lhe duas de dez. Os olhos brilharam: Se vira com elas [...]. O embrulho é nosso se güenta. Se manca [...].

A admiração e obediência do franzino e negro protagonista por Paraná advém de sua imagem de malandro esperto, “dono da briga”, incapaz de ser pego por policiais ou vadios, uma figura inatingível para o ingênuo menino. A caracterização do malandro Paraná, feita pelo narrador onisciente que adere afetivamente às personagens do submundo, sobretudo pelo uso de diminutivos, transmite-nos a impressão de que o vadio, apesar de seus traços rudes de marginal, muitas vezes alcoolizado, pode perfeitamente ser possuidor de bons sentimentos, como a afeição que sente pelo aprendiz:

Paraná havia -lhe ensinado todas as virações de um moleque. Por isso ele o adorava. Pena que não saísse da sinuca e da casa daquela Nora, lá na Barra Funda [...]. Ensinara-lhe engraxar, tomar conta de carro, lavar carro, se virar vendendo canudo e coisas dentro da cesta de taquara. E até ver horas [...].
Paraná era cobra lá no fim da Rua João Teodoro, no porão onde os dois moravam. Dono de briga. Quando ganhava muito dinheiro se embriagava. Não era bebedeira chata, não [...].
Nego, hoje você não engraxa.
Compravam “pizza” e ficavam os dois. No quarto. Falava. O menino se ajeitava no caixãozinho de sabão e gostava de ouvir [...]. Um falava, outro ouvia. Já tarde, com muita cerveja na cabeça, é que Paraná se alterava: Se algum te põe a mão... se abre! Que’u ajusto ele [...].

A afeição e o sentimento de cuidado e apreensão são recíprocos, pois o menino também se inquieta temendo que algo de ruim aconteça ao seu professor de malandragens, Paraná:

Será que os guardas iriam agarrar Paraná? Ouvira contar que a cana é lugar ruim, escuro, onde se apanha muito. Contudo, Paraná era muito vivo, saía-se bem de qualquer galho. Sossegou. Depois resolveu perguntar se ele apareceria mesmo [...].
O menino procurou o homem por todos os lados. Depois chamou-o. Abafava os sons com a mão, medroso de que alguém, fora, passasse. Chamou-o. Nada de Paraná. E se os guardas tivessem... Uma dor fina apertou seu coração pequeno. Ele talvez não veria mais Paraná [...].

Através do discurso indireto, em destaque acima, nota-se que há uma associação ou uma junção entre as vozes do narrador e da jovem personagem, classificada como “onisciência seletiva”. O que ocorre é que, mesmo em terceira pessoa, o discurso pode ser lido como se fosse narrado em primeira pessoa e, como conseqüência desse recurso, as vozes se misturam e não identificamos se quem fala é o narrador ou a personagem.

O menino de Frio possui uma ingenuidade, uma visível inocência. Mesmo estando constantemente no ambiente da vadiagem e convivendo com indivíduos taxados “pelos homens de bem” como indignos de confiança, ele ainda não se mostra corrompido.

O pequeno protagonista, ao final da narrativa, já no ferro-velho, guarda o embrulho, porém, desconhecendo seu verdadeiro conteúdo, ou seja, ainda não tem noção da sua realidade, de possível infrator, no futuro. Antes de adormecer, revela, através de um monólogo interior, o desejo de sonhar com imagens elevadas, entre elas a dos cavalos “patoludos”, numa forma de evasão dos seus temores de criança, representados em determinadas imagens degradadas, como a do cachorro atropelado na rua, enquanto caminhava em direção ao ferro-velho.

O texto é um poema sobre o frio e todo o desabrigo físico, emocional, abandono de toda a espécie que ele pode significar para um menino. O frio o sentimos na pele no corrente da leitura; já preparados para isso pelo título, de vocábulo único, seco, impositor da solidão. Durante seu percurso gélido, o menino pensa, sente, sonha, lembra; o narrador aparece por trás dele, mas a maior parte do tempo da narrativa a perspectiva é do garoto. Essa qualidade estética que é evidenciada pelo foco narrativo em toda a produção literária de João Antonio, faz dessa narrativa, como de todos os outros, um texto empenhado. É a visão de um menino abandonado no frio de sua solidão.

Frio. Quando terminou a Duque de Caxias na Avenida São João. O pedaço de jornal com que Paraná fizera a palmilha não impedia a friagem do asfalto. Compreendeu que os prédios, agora, não iriam tapar o vento batendo-lhe na cara e nas pernas. Andou um pouco mais depressa. Olhava para as luzes do centro da avenida, bem em cima dos trilhos dos bondes, e pareceu-lhe que elas não iriam acabar-se mais. Gostoso olhá-las. Que bom se tomasse um copo de leite quente!

Aqui, o frio e a escuridão em contraponto com as luzes da cidade. Aquilo que é essencialmente poético reside na percepção das qualidades sutis da cena, que a tornam estranha ou irreal em sua novidade, numa revelação de essências que sugerem forças magníficas na natureza objetiva, forças que estão além do poder do observador de controlá-las ou nomeá-las ou de interromper a sua incessante emergência e desaparecimento. São como relances de um microcosmo misterioso no laboratório do cientista, e tão objetivas quanto o exame disciplinado desse cientista na observação de seus objetos elusivos. O poeta João Antônio elaborou uma linguagem para transmitir essas percepções raras como objetos de admiração e prazer. Embora ligadas a uma disposição de espírito, a uma visão pessoal, essas descrições possuem um amplo componente objetivo que é especialmente evidente na pintura. Outra perspicácia estilística rumo à poesia é o trabalho com antíteses: o desprazer do frio em contraponto com o prazer de olhar as luzes e o quente do leite é realçado, sentido mesmo.

Tensão, esse é o clima que permeia toda a narrativa, afinal, o menino tem uma missão perigosa a cumprir. A influência de Paraná mistura nele uma admiração infantil a uma obediência servil. Na madrugada Paraná lhe tira a manta, sua única proteção, e mesmo dormitando, o garoto segue seu mandado. No seu abandono, o sorriso só aparece quando se sente familiarizado com seu Aluísio e sua filha branca, Lúcia:

Lúcia era menor que ele e brincava o dia todo de velocípede pela calçada. Quando alguma coisa engraçada acontecia, eles riam juntos. Depois conversavam. Ela se chegava à caixa de engraxate. O menino gostava de conversar com ela, porque Lúcia lhe fazia imaginar uma porção de coisas suas desconhecidas: a casa dos bichos, o navio, a moça que fazia ginástica em cima duma balança – que o pai dela chamava de trapézio. Na sua cabeça, o menino atribuía à moça um montão de qualidades magníficas.

O menino pensa em muitas coisas que fazem parte do universo da menina e que lhe são desconhecidas como, por exemplo, os navios:

Lúcia contava que navios apitavam mais sonoros que chaminés. Enormes. Gente e mais gente dentro deles. Iam e vinham no mar. O mar... Ele não sabia. Seria, sem dúvida, também uma coisa bonita. Quando seu Aluísio ria, o bigode se abria, parecia que ia sair da cara. É. Mas o burro Moreno não chegava nem aos pés dos cavalos da revista.
— Cavalo não tem pé.
Quem é que lhe falara assim uma vez?

As retrospecções e as antecipações são reflexos do ir-e-vir dos pensamentos do personagem. São elas que, geralmente, são utilizadas pelo narrador para sugerir níveis de significados por meio de imagens e símbolos.

O escritor não quer falar da solidão universal. Ele não quer dar realidade ao sentimento, por puro brilhantismo estético e o apresentar menos preso ao ser. É daquele menino, negro, pobre e sozinho que ele quer falar. Do micro para o macro é que João Antonio chega ao universal.

Paraná manda que o menino não observe nada para não perder tempo. O garoto quer não ver para não pensar, para não demorar, para não irritar Paraná. Mas a narrativa é só pensamentos, sensações e imagens contidas num personagem, que é infantil, que pensa, sente, vê e imagina. Essa tensão criada entre a grande responsabilidade e a sua ludicidade vivencial, perfaz a dimensão poética do medo e da solidão. O olhar para o menino é afetuoso, mas não paternalizante, é um afeto que, como as vidas que narra, também é duro. O mundo interior onírico em contraste com a realidade externa tumultuada do menino vai cada vez mais desenhando o seu sofrimento:

O menino preto tinha um costume: quando sozinho, falar. Comparava os cavalos taludos e a moça da ginástica e as coisas da Rua João Teodoro. Desnecessário conhecer coisas para comparar. Cuidava que os outros não o surpreendessem nos solilóquios. Desagradável ser pilhado. Impressão de todos saberem o que se passava com ele - pensamento e fala. Paraná também achava que aquilo era mania de gente boba. É. Não devia. Mas era muito bom. O menino achava muito bom, quando pode estar daquele jeito.

Nota-se, como já citado, a importância de Paraná como professor da sobrevivência, apesar da infância, da feiúra, da cor negra e da magreza. Além de professor ele era branco. Na sua fragilidade infinita, dimensionada nessa seqüência de adjetivos, não tem como escapar à paixão por tamanho homem.

Como peça chave da sobrevivência do garoto, o que Paraná não lhe ensina, ele não entende. Os ponteiros dos relógios, que não os do mestre, o menino não os compreende. Sem Paraná as coisas lhe são estranhas e diferentes, denunciando o seu natural apego infantil. Além de tudo, essa amizade é uma união de dois solitários. Esse paradoxo é regado ou erigido pela diferença de idade que ao mesmo tempo em que os une, os separa. O homem e seu universo mutilado por lembranças parcas, poucos ganhos e muitas perdas, a criança e seu universo de muitas das sensações primeiras e pouca compreensão, consciência:

Compravam pizza e ficavam os dois. Paraná bebia muita cerveja e falava, falava. No quarto. Falava. O menino se ajeitava no caixãozinho de sabão e gostava de ouvir. Coisas saíam da boca do homem: perdi tanto, ganhei, eu saí de casa moleque, briguei, perdi tanto, meu pai era assim, eu tinha um irmão, bote fé, hoje na sinuca eu sou um cobra. Horas, horas. O menino ouvia, depois tirava a roupa de Paraná. Cada um na sua cama. Luz acesa. Um falava, outro ouvia.

Aquele momento repleto de palavras, que preenche fisicamente o espaço vazio daquele que ouve e daquele que fala, mas não resolve a solidão. “Coisas saíam da boca do homem”, que só embriagado revela seu afeto pelo garoto: “Já tarde, com muita cerveja na cabeça, é que Paraná se alterava: / — Se alguém te põe a mão... se abre! Qu’eu ajusto ele!”

Só a embriaguez deixa revelar o afeto, o sentimento que, numa tentativa de defesa do sofrimento, não pode aparecer realmente, só o drible pode garantir a sobrevivência. É o que se chama na baixa malandragem, quando se trata da sensibilidade, de “frescuras do coração”.

Pelo contraste a fragilidade do garoto se avulta. A companhia boa de Paraná dá o contraponto essencial para o medo de perdê-la:

Ele sempre sentia um pouco de medo quando Paraná estava girando longe. Fechava-se, metia um troço pesado atrás da porta. Ficava até tarde, olhando os cavalos da revista de turfe de Paraná. Muito alto, espigados, as canelas brancas, tão superiores ao burro Moreno de Seu Aluisio padeiro. Só com os soldados, à noite, é que via coisa igual. Fortes e limpos. Fazendo um barulhão nos paralelepípedos. — Que panca! Muita vez, sonhava com eles.

Os cavalos “fortes e limpos” é a metáfora reversa da sua fragilidade e da imundície experimentadas pelo menino. Sonha com o seu desejo reprimido, com o que gostaria de ser. Três pessoas têm afeto por ele: Paraná, Lúcia, Seu Aluísio: “Havia Lucia, a menina branca e havia Seu Aluísio padeiro. Gostavam dele. O resto eram pessoas que passavam na Rua João Teodoro com muita pressa. Também um meganha que vinha engraxar os coturnos. Dava sempre gorjeta. Esse, entretanto, não falava muito”. O amor, para ele está muito atrelado à abertura para sua meninice, à colaboração e interação do outro para sua música pueril imprescindível, que vem do diálogo, da atenção, de uma atitude em que o outro seja o contraponto necessário para ele se saber, existir. O narrador sabe valorizar o positivo da vida do menino, sem deixar com que o texto caia, como já ressaltamos, numa lamentação chorosa dos descamisados.

Percebe-se que a tensão, estampada na sua tarefa perigosa e o seu universo despretensioso e ingênuo, aparece das mais variadas formas. A sua proteção está na rua João Teodoro e ele está longe dela; a realidade é o frio e a vontade era de um leite quente; o desprazer é a realidade e o prazer as fabulações.

Frio. Quando terminou a Duque de Caxias na Avenida São João. O pedaço de jornal com que Paraná fizera a palmilha não impedia a friagem do asfalto. Compreendeu que os prédios, agora, não iriam tapar o vento batendo-lhe na cara e nas pernas. Andou um pouco mais depressa. Olhava para as luzes do centro da avenida, bem em cima dos trilhos dos bondes, e pareceu-lhe que elas não iriam acabar-se mais. Gostoso olhá-las. Que bom se tomasse um copo de leite quente! Leite quente, como era bom! Lá na Rua João Teodoro podia tomar leite todas as tardes. E quente. Mas precisava agora era andar, não perder a atenção.

É por meio da subordinação do real ao imaginário que o autor constrói o mundo do menino, ou seja, “o efeito de irreal sucede ao efeito de real”. A imagem das luzes carrega aspectos impressionistas, pois se delineia como fenômeno distante num grau de imprecisão, que dá profundidade infinita àquelas. Essa atitude estética do garoto, frente a tal espetáculo urbano, ligada à luz versus escuro da noite, bem como os seus sonhos, pincelam sua feia realidade de beleza, inserindo-o em uma liberdade individual. Assim, ele é capacitado a recriar o árido percurso noturno (porão - ruas - ferro velho), pois nesse intervalo o personagem é atravessado por imagens que dão o suporte imprescindível para sua travessia. E mais uma vez nos encontramos com um personagem remido pela poeticidade do olhar. Nessa perspectiva poética, a mesma luz mágica que ilumina a rua, os edifícios, o céu, enfim a sua trajetória, produz uma força radiante que confere fascínio ao momento. É, portanto, numa ótica impressionista que o panorama urbano flui pelo olhar fortuito e errante do menino. Com “medo”, “cansado”, com “sono”, o “menino preto” sentia que suas “perninhas pretas começavam a doer”. No jogo conseguido entre imagens concretas e afetivas, percebemos a infância não-romantizada: as primeiras evocam quadros que a imaginação do garoto completa à sua vontade, sem que se desfaçam na abstração quando são salvas por uma espécie de resíduo afetivo. Esse recurso faz com que tenhamos a medida certa das apreensões imaginativas e sensíveis da peregrinação e memória dele.

A sua trajetória, na qual rua, cada prédio, cada bar, cada luz é a oportunidade de uma evocação, encontra o mito do labirinto:

Evitava os olhares dos guardas. A Avenida teria muitos, era preciso, quem sabe, desguiar. Enfiar-se, talvez, pelas ruas transversais. Mas temeu se perder nas tantas travessas e não encontrar a igreja das Perdizes. Ia tremelicando, mas ia. [...] Na segunda travessa, topou um cachorro morto.

Essa narrativa está repleta de impressões produzidas, sem que raramente se desenhe um quadro. O vago sentimento de imagens o conduz pelos labirintos de seu sentimento, pelos metafóricos estados dos seus sentidos. No frio da noite, deseja o leite quente que além da temperatura confortante, puxa da lembrança a mãe que não tem; por muitas vezes, apalpa o embrulhinho branco sob sua responsabilidade, o que enfatiza o seu percurso ameaçado. Vê luzes infinitas nas ruas e evita os olhares dos guardas, vê os cavalos taludos das revistas de Paraná e os compara à “moça da ginástica” e às coisas da Rua João Teodoro, numa condensação de tudo o que lhe faz bem, de tudo o que lhe faz restituir a infância abortada e lhe permite sonhar e continuar. Ouvir as divagações de Paraná, as piadas de Seu Aluísio e as palavras de Lúcia é ter um mundo para viver, mas o barulho e o silêncio da noite lhe tiram o chão, a proteção.

Com frio, cansado, encolhido, tênis furado entrando umidade, o menino preto, de só dez anos, vai só numa avenida muito larga de descida muito longa, cujas dimensões erigidas pelos vocábulos, “enormes”, “larga” e “longa”, melhor delineiam sua pequenez e abandono. Além do seu estado físico e emocional precários serem acirrados pelo racial, implícito na contraposição de “Água Branca” com “menino preto”, sua fragilidade se contrasta com a firmeza dos carros que pareciam homens. Essa comparação entre homens e carros abre intervalos poéticos nesse espaço que é preenchido por sensações insistentes de solidão. Nessa cadeia de significações, esse trecho remete a outro trecho, já citado, sobre as pessoas apressadas que lhe pareciam tristes. Em meio a muita movimentação ele se imobiliza, perplexo na sua solidão mal acompanhada de multidões. A identificação do menino com o cão se dá num paralelismo que demarca o lugar que lhes cabe: à margem. O menino se espanta com o corpo deformado na beirada do asfalto como que se espantasse com a sua sobrevivência nos arrabaldes: “Ele ia pelas beiradas...”, “Sentado na beira da cama”. A beira é a parte que lhe cabe. O cão morto é a metáfora antecipada de como o menino se sente com a possibilidade de perder Paraná, ele morreria. O encontro com o cão abre as últimas portas para o vazio, para onde o medo, a desproteção, a perda iminente lhe transportam:

O muro pareceu-lhe menos alto e menos difícil de pular do que advertira Paraná. O menino procurou o homem por todos os lados. Depois, chamouo. Abafava os sons com a mão, medroso de que alguém, fora, passasse. Chamou-o. Nada de Paraná. E se os guardas tivessem... Uma dor fina apertou seu coração pequeno. Ele talvez não veria mais Paraná. Nem Rua João Teodoro. Nem Lúcia.

Depois de não encontrar Paraná, o garoto se apega “com esperança à idéia de que Paraná era muito vivo. Guarda não podia com ele”. A antítese continua a desenhar a sua movimentação interna e externa:

Sorriu. Pulou de novo. Achou a tarimba prontinha. Tateou o embrulhinho branco. No escuro sem lua, os pedaços de folha-de-flandres era o que melhor aparecia. Abriu a manta verde, se enrolou, se esticou, ajeitou-se. Pensou numas coisas. Olhando o mundão de ferrugem que ali se amontoava. Não se ouvia um barulho.

Embrulhado pela noite escura, ele tem um destino incerto como o embrulhinho branco; está envolto por um silêncio que se deixa escutar, matizando o seu olhar perplexo de identificação com aquele amontoado de ferrugem. Seu fluxo de consciência, nesse momento, conjuga o máximo de significados na sua intrincada relação com a realidade fria em que se encontra. O frio e a vontade de urinar chegam ao ápice de significação da suportabilidade que, no penúltimo parágrafo, deixa entrever o seu limite corporal e psíquico diante daquela situação. O narrador, então, num processo metonímico, pinça de uma vida inteira de desamparo, um único acontecimento tão carregado de significado, que o passado, futuro são diluídos nesse presente eterno. Como as crianças das narrativas poéticas, o protagonista não tem passado, como se fosse nascido ontem. Algumas de suas idéias, imagens e seres preenchem o vazio psicológico do protagonista que carrega um segredo.

O frio é a metáfora da desproteção de um menino que ainda vê no leite a possibilidade da sua reconciliação maternal, da sua proteção sonhada. O aumento da sensação do frio pelas anáforas e imagens se dá concomitante à fragilização emocional, na situação tensa, de menino-homem, que a vida lhe colocou. A tensão se configura, antes de mais nada, na estrutura antitética da narrativa, que intercala realidade e fluxo de consciência, imaginação. Nesse procedimento, forma e conteúdo relacionam o aumento da temperatura e da vontade de urinar, com a diminuição da sua capacidade de resistir. Nesse processo de resistência, vê-se intercalar realidade-presente-limite com possibilidade-imaginativa-aberta:

— Cavalo não tem pé.
Onde haviam lhe dito aquilo? Não se lembrava, não se lembrava. Coitado do cachorro! Amassado, todo torto na Avenida. Também, os automóveis corriam tanto... Frio, o vento era bravo. Sentia ainda o gosto bom do leite. Onde diabo teria se enfiado Paraná? Ah, mas não haveria de meter o bico no embrulhinho branco! Nem Nora. Muito importante. Paraná é que sabia. Nora não. Um arrepio. Que frio danado!Entrava nos ossos. Embrulhou-se mais no casacão e na manta. Fome, mas não era muito forte. O que não agüentava era aquela vontade. Lembrou-se de que precisava se acordar muito cedo. Bem cedo. Que era para os homens do ferro-velho não desconfiarem. Lúcia, branca e muito bonitinha, sempre limpinha. Sono. Esfregou os olhos. O embrulhinho branco de Paraná estava bem apertado nos braços. Entre o suspensório e a camisa. Que bom se sonhasse com cavalos patoludos, ou com a moça que fazia ginástica! Contudo não agüentava mais a vontade. Abriu o casacão.

Que bom se ao invés de preto, feio, imundo, ele fosse branco, bonito e limpo como seu modelo desejado, que é Lúcia! Que bom se pudesse ter o amor que estava por trás das características de Lúcia! Que bom se pudesse viver dentro da sua capacidade frágil, no ritmo de uma infância que pode sonhar, imaginar sem interrupções reais que lhe roubam tudo! Mas não pode, não lhe é de direito, só tem dez anos, é preto, pobre e feio e a única coisa que pode é se purificar metaforicamente de todo o peso, urinando. Só a poesia pode dar a possibilidade de um recomeço ao menino, pois a realidade é implacável e o instinto fisiológico milenar: a urina fora do corpo só lhe trará alívio imediato, ficando o seu sofrimento recalcado no por vir: “Então o menino foi para junto do muro e urinou”. O menino acaba sozinho: ele sonha, fábula, mas a vida vai lhe tirando isso, em tempo real.

O contraste entre a sensação de frio que invade o menino e o movimento cadenciado de seus pés assinala o descompasso entre os desafios quase desumanos e a natureza humana frágil do personagem. E ao selecionar tais contornos afetivos, o escritor amplia as marcas contextuais do signo “frio” e enquanto escreve sobre as precariedades, as minguadas alegrias, o sofrimento solto vividos por um menino, o escritor constrói a poesia do abandono.

Texto proveniente de:
Jane Christina Pereira - Doutoranda em Letras da Universidade Estadual Paulista (UNESP)
Luciana Cristina Corrêa - Pós-Graduada em Letras da Universidade Estadual Paulista (UNESP)

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