Horto, de Auta de Souza

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O livro Horto, de Auta de Souza, é a história de uma grande dor. Formou-o a autora recordando, sentindo, penando. Não se tratava apenas de um relato de vida em versos, tampouco de uma escritora feminina oitocentista, preparada apenas para amar Cristo sob todas as circunstâncias, ela também rompia as barreiras da escrita feminina, pois nessa época, a sociedade estava voltada em especial, para conferir visibilidade social ao homem, não a mulher, havia o sexismo da crítica, a figura femina era prepaprada para “anjo do lar”.

Sua poesia é dotada de um lirismo cheio de pureza e com uma vocação legitimada que marca um estilo próprio, vocação essa reconhecida por ela mesma, ao se definir como “noiva da poesia”, amava o verso. Despreocupada com qualquer engajemento literário, não se filiou a nenhuma escola. O gosto pelo individual em detrimento a objetividade da vida, mística de seus versos, permite o questionamento dos críticos literários em torno de seu estilo: simbolista? parnasiano? romântico? Do ponto de vista da técnica inconfundível do uso de letras maiúsculas nos substantivos comuns, na busca de evidenciar um conteúdo sugestivo e ainda, se considerarmos o caráter místico e religioso de sua obra, revela-se o Simbolismo, a exemplo disso “Crepúsculo”:

O Ângelus soa vagarosamente
A noite desce plácida e divina.
Ouço gemer meu coração doente
chorando a tarde, a noiva peregrina.

Evidentemente o título do livro Horto, numa construção metafórica, faz menção ao local em que Jesus se refugiou para os seus últimos momentos de agonia na cruz e menção ao interior do eu-poético, marcando assim a religiosidade e o subjetivismo, marcas também do Simbolismo. Percebe-se que em seus escritos também se refletem as leituras de românticos como Castro Alves, Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu e Gonçalves Dias, esses dois últimos responsáveis pela entrada da literatura em sua vida. Não há como negar que o estilo desses autores se presenteia em sua poesia, há um forte apelo do momento com marcas de romantismo. Atrelando-se a esse estilo, de certa forma o Simbolismo, que é nela uma continuação do Romantismo, tendo como elementos comuns a espiritualidade, a interiorização, o subjetivo, o vago, o misterioso, o ilógico, há sim um neo-romanatismo, até porque os dois em sua obra não se anulam, se complementam.

Há ainda um inegável conhecimento da forma: soneto com 16 versos, que abre com os dois primeiros decassílabos do segundo quarteto, como epígrafe:

Há pelo espaço um ciciar dolente
De prece em torno da igrejinha em ruínas...

Um prestígio parnasiano em sua obra, o que explica a presença de Olavo Bilac como responsável pelo prefácio da obra. O poeta compartilha com a criação poética de Auta de Souza ao fazer referência à obra “Horto”: “[...] O labor pertinaz de uma artista, transformando as suas idéias, as suas torturas, as suas eperança em pequenas jóias”.

Tratava-se antes de tudo, de uma jovem solitária que buscava em sua poesia a aceitação da existência, versos de sua alma e a razão de viver. Trata-se de uma poeta do “sensível” e “invisível”, que põe em seus versos o discurso de Jesus, num diálogo de confiança.

[...]
“Filha adorada que o teu gemido
Ergueste n’ asa de uma oração,
Na treva escura sempre envolvido,
Por que soluça teu coração?”
[...]

Nos versos da poeta pode-se estabelecer uma relação do sentimento de vida do eu poético comparando-os ao momento de sofrimento de Jesus na cruz, Auta de Souza sofreu unida à cruz do Salvador. E foi esse o grande e iluminoso consolo, principalmente para familiares e amigos que viam a cada momento definhando uma jovem pela doença conhecida como mal-do século (tuberculose), também como “A dama branca”. Não se pode esquecer que o modelo católico ocidental da época preparava as moças católicas para a morte, identificando-a com os sofrimentos do Cristo.

Em palestra pronunciada em Macaíba, pequena cidade Rio Grande do Norte, no dia 12 de setembro de 1976, em comemoração ao centenário de nascimento da poeta (1876-1976), o professor e membro da Academia de Letras, José Melquiades, considerou exagero a afirmação de que a poesia de Auta de Souza fosse apenas uma poesia essencialmente católica. Se considerarmos o poema “Versos ligeiros”, percebemos a amplitude de uma escritora que não está emblemática a um tema, mas sim a um “devaneio cósmico que se insere em sua realidade”, que ousa quebrar tabu e que não deve apenas ser reconhecida como poesia “católica”, mesmo que seus textos sejam marcados com alusões aos cânones católicos e influência de formação da época. Na obra, eles são reisignificados como
metáforas, numa busca do eu-poético em alcançar a plenitude em Jesus Cristo, independentemente de sua condição humana . Ela deixou sim, uma mensagem espiritual, não apenas para igreja, mas para as crianças de sua terra, para a sua família, para os amigos, desnudando o seu cotidiano de forma sublime, poética e não divina. Assim, a sua poesia como “Num leque”, abre-se para possibilitar um sopro novo e não apenas crenças cristalizadas. É possível perceber em Auta de Souza uma poesia simples, mas madura, que rompe a barreira de um Romantismo “piegas” e navega na imaginação “doce” de uma realidade “dura”, marcada muitas vezes pelo realismo que se projeta em temas do cotidiano, a conferir-lhes em sua obra os poemas: “Versos ligeiros”, “No álbum de Dolores”.

“A noiva do verso” despediu-se cedo da vida, não cantou “amores” como era de esperar de uma jovem de sua idade, a convivência com “a dama branca” impedia-lhe de uma vida natural e assim o sofrimento diário, junto à intimidade do verso, levou-a uma relação maior com um outro amado, Jesus Cristo, sentimento esse que aparece como exemplo de contemplação ao divino e refúgio para lhe aliviar o constante sofrimento. “A via crucis de Jesus” se repete no livro Horto, através de um eu lírico carregado de um sentimento panteísta que junto ao cotidiano dessa jovem poeta, promove a transformação do universo poético e místico em um sentimento paradoxal de viver e morrer em plenitude.

RENASCIMENTO

A Olegária Siqueira
Manhã de rosas. Lá no etéreo manto,
O sol derrama lúcidos fulgores,
E eu vou cantando pela estrada, enquanto
Riem crianças e desabrocham flores.

Quero viver! Há quanto tempo, quanto!
Não venho ouvir na selva os trovadores!
Quero sentir este consolo santo
De quem, voltando à vida, esquece as dores.

Ouves, minh’alma? Que prazer no ninhos!
Como é suave a voz dos passarinhos
Neste tranqüilo e plácido deserto!
Ah! entre os risos da Natura em festa,
Entoa o hino da alegria honesta,
Canta o Te Deum, meu coração liberto!

Créditos: Adelina Maria, especialista em Literatura, professora de Língua Portuguesa e Literatura

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