Incidente em Antares, de Érico Veríssimo

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Anlise

Publicado em 1971, Incidente em Antares o ltimo romance de rico Verssimo e se enquadra no estilo modernista no s pelas inmeras referncias e fatos e pessoas da poca atual, como tambm pela presena de ingredientes que configuram, no livro, o gosto modernista. De sentido claramente poltico, este romance tece, de um lado, o panorama scio-poltico do Brasil contemporneo; de outro, faz um fantstico julgamento dos vivos alguns mortos insepultos, numa Sexta-feira, 13 de dezembro de 1963.

A obra , sem dvida, como j citado, um romance. A primeira parte, contudo, dada sua linearidade e sucessividade episdica, lembra a espcie literria que chamamos de novela: cerca de um sculo de histria fui cronologicamente, antes de o autor se deter na sua anlise, em profundidade, da sociedade antarense.

Foco narrativo

Os fatos so narrados em terceira pessoa por um narrador onisciente e onipresente. Esse narrador, contudo, ao longo da narrativa, vai simulando transcries de pseudo-autores, como o relato do naturalista francs Gaston Gontran dAuberville; a carta do Padre Juan Bautista Otero; os dirios do Padre Pedro-Paulo e do Prof. Martim Francisco Terra (na apresentao das personagens, por exemplo); os artigos de Lucas Faia no jornal "A Verdade"; e excertos do livro Anatomia duma cidade gacha de fronteira, organizado pelo Prof. Martim e sua equipe.

rico Verssimo utiliza-se de todos esses recursos para organizar a sua narrativa, dando, dessa forma, a impresso de que tudo aconteceu e verdade.

Linguagem

Ao longo da narrativa de Incidente em Antares, rico Verssimo revela algumas caractersticas estilsticas que configuram a sua maneira de escrever.

Como j observamos, o escritor constri a sua narrativa intercalando, no romance, textos de pseudo-autores. Essa simulao, em que rico Verssimo transcreve relatos, dirios e artigos de jornais, imprime narrativa uma atmosfera de verdade, d a impresso de que a estria verdadeira.

claro que, ao lado da fico, h fatos histricos, registrados por ele, que realmente aconteceram. Alis, o prprio autor quem observa numa "nota", logo no incio do romance: Neste romance as personagens e localidades imaginrias aparecem disfaradas sob nomes fictcios, ao passo que as pessoas e os lugares que na realidade existem ou existiram, so designados pelos seus nomes verdadeiros.

Essa mistura de fico e histria (ou de estria com histria) sempre foi uma das grandes caractersticas do estilo rico Verssimo.

Combinado com o sarcasmo e esprito crtico que perpassa o livro, o autor revela-se irnico e mordaz ao longo do romance, caricaturando gente, linguagem e instituies. O Prof. Libindo, por exemplo, e outros eruditos da cidade sofrem sob a pena do escritor. Os discursos da palavras bonitas, os artigos de estilo grandiloqente e pomposo (de Lucas Faia) vm sempre perpassados de zombaria e sarcasmo. Veja bem a passagem a seguir, em que o sbio Prof. Libindo digladia verbalmente com o meritssimo juiz Dr. Quintiliano, a propsito do lema dos "Legionrios da Cruz", da D. Quita: Meu caro magistrado, quem defende a Ptria defende precipuamente a Lei e a Ordem contidas ambas no vocbulo ocenico Ptria (...). Pois se a coisa assim, retrucou o juiz, bastaria ento que no lema dos Legionrios da Cruz se falasse apenas em Deus, pois a idia de Deus, na sua universalidade incomensurvel, abrande tudo: Ele prprio, as suas leis, a sua ordem csmica e moral, a Ptria, a Famlia, a Humanidade. Ficava de fora a Prospreridade, o que levou o Cel. Tibrio a gritar: E a prosperidade?.

Quase sempre com essa conotao irnica, vm a informaes entre parnteses, como a que vamos transcrever que reproduz uma discusso entre os mortos, em que Dr. Ccero, ante a proposta de votao de Barcelona, diz: - No direi que aqui em cima estejamos numa democracia. Imaginemos que isto uma... uma tanatocracia. (E os socilogos do futuro tero de forosamente reconhecer este novo tipo de regime).

Assim, pois, combinando com a mordacidade que perpassa a obra, o autor ironiza e caricaturiza mscara da sociedade antarense na sua fala gongrica e vazia, na sua postura fingida e hipcrita. S os humildes e sinceros escapam da "pena da galhofa" de rico Verssimo.

Outro aspecto que se destaca na linguagem do livro a tendncia do autor para criar tempos novos, quase sempre da formao erudita, com base nos radicais gregos e latinos. Alm de "tanatocracia" (= morte + governo), que acabamos de ver no item anterior, veja-se ainda:

- Vivemos numa cafajestocracia, isso que . (hibridismo: cafajeste + governo).

- Democracia qual nada, governador! O que temos no Brasil uma merdocracia! (hibridismo: merda + governo).

Alm desses, chama a ateno tambm para as lies do Prof. Libindo que vai ensinando ao longo do romance:

O Prof. Libindo me garante que a palavra orqudea vem do grego e significa testculo.

O Prof. Libindo, num aparte forado, pergunta se os presentes sabem que a palavra cancula significa na realidade cadela e que era o antigo nome da estrela Srio.

Digno de nota tambm o verbo "filho-da-putear", usado na pgina 79: ... depois de se filho-da-putearem abundantemente, estavam j de revlver na mo.

Alm dessa erudio demonstrada, o escritor entremeia a sua narrativa, sempre pela boca de suas personagens eruditas, de latim, francs, ingls e outras lnguas.

Embora gacho, rico Verssimo usa com parcimnia vocbulos regionais. Uma ou outra palavra trai o regionalismo gacho, como a pronncia de pronome "lhe" (=l), o uso de formas que lembram o espanhol, como "Bueno" e "personalmente" e a pronncia com "e" e "o" do Coronel Tibrio, quando usa o palavro "filho-da-puta": "Felhos da pota".

Aspectos temticos

So muitos os aspectos temticos que podem ser detectados no romance Incidente em Antares:

1. De conotao poltica, destacam-se no romance, entre outros, os seguintes aspectos:

- rico Verssimo tece no livro um verdadeiro painel scio-poltico, no s no Rio Grande do Sul como do pas. Como vimos, o seu mapeamento abrange mais de cem anos e, atravs dele, pode-se acompanhar as marchas e contramarchas da poltica nacional. Sobretudo na primeira parte, a impresso que se tem de que o autor faz mais histria do que fico.

- Nesse contexto poltico, alm de outros, sobressai a figura de Getlio Vargas com seu carisma, com seu nacionalismo, com o seu populismo e mesmo com seu fascismo. Com a sua aurola de "pai dos pobres", chega a ser impiedosamente ironizado por Tibrio, quando do seu suicdio, ao ser inquirido por sua empregada sobre o que seria dos pobres: - Os pobres vo continuar to pobres como no tempo em que ele estava vivo. Mas, apesar da frase de Tibrio, dita com "perverso despeito", Getlio tornou-se um mito para as pessoas simples e humildes, como a preta Accia, que adorava o pai dos pobres "como se ele fosse um santo". Chega a fazer orao a ele por um melhor salrio: Meu ganhame aqui pouco e o trabalho muito, Presidente. Mande essa gente me pagarem mais. Amm!

- No obstante, entre os protegidos de Getlio, a corrupo alastrava com negociatas escusas (contrabandos) e negcios ilcitos. Muitos, como Tibrio Vacariano, enriqueceram-se e matinham contas numeradas em bancos da Sua, favorecidos por negcios falcatruosos e emprstimos com fundo perdido no Banco do Brasil.

Numa conversa em casa dos Campolargos, por exemplo, o Tibrio faz esta denncia: Em matria de dinheiro o Getlio um homem honesto. Mas finge que no v certas safadezas que se fazem ao seu redor. A sua tcnica a de corromper para governar. E nunca se roubou tanto, nunca se fez tanta negociata sombra de Getlio e em nome dele como neste seu atual quatrinio. Mas o Tibrio era suspeito para falar, como pensava com seus botes a D. Quitria: Olhem s quem est falando em negociatas.

- Priorizando a poltica desenvolvimentista e a industrializao, vo-se instalando no pas (perodo sobretudo de JK) as multinacionais e, com elas, a espoliao do pas e a explorao do proletariado, como revela muito bem a fala humilde da negra Accia na sua orao ao Presidente Vargas: Meu ganhame aqui pouco e o trabalho muito, Presidente.

A greve geral decretada pelos operrios das multinacionais de Antares uma resposta dos trabalhadores explorao e ao salrio da misria que recebiam para enriquecer os abastados. A fala de Geminiano, lder dos grevistas, numa reunio com os patres e o prefeito revela exatamente isto: "reivindicaes salariais".

- Combatendo o modelo capitalista, socialmente injusto e perverso, vo-se proliferando os esquerdistas, simpatizantes do socialismo, que se identificam com os pobres e operrios e por isso taxados de comunistas e vermelhos. O momento poltico (de Jango e Brizola) favorecia a esquerdizao e os "subversivos" iam-se proliferando, para desespero da sociedade capitalista e conservadora que no aceitava mudanas e reprimia o movimento.

Como observa o Padre Pedro-Paulo ao Padre Gerncio, numa conversa, comunista o pseudnimo que os conservadores, os conformistas e os saudosistas do fascismo inventaram para designar simplisticamente todo o sujeito que clama e luta por justia social. Numa outra passagem, esse mesmo padre lembrou ao delegado Inocncio a postura "rebelde" de Cristo em face das arbitrariedades impetradas pela sociedade da poca, dominada pelo imprio romano, e desafia o delegado torturador de Joozinho Paz: - Prenda Jesus, delegado, prenda-o o quanto antes! Interrogue-o! Faa-o confessar tudo, dizer o nome de todos os seus discpulos e cmplices... Se ele no falar, torture-o em nome da Civilizao Cristo Ocidental!

- Diante do perigo "comunista" ameaada na sua ordem secular, a caa s bruxas uma conseqncia lgica, engendrada e executada pela sociedade conservadora e capitalista. A punio atravs da tortura e mesmo a morte, no sentido de reprimir esse clamor que exige justia e liberdade, antigo milenar. Basta lembrar Cristo crucificado ou, em nosso caso, o Tiradentes do Romanceiro de Ceclia de Meireles.

Joozinho Paz, sem dvida, aqui o bode expiatrio, executado pela sanha do delegado Inocncio Pigaro, em nome da ordem e da segurana da classe dominante. Conforme vem registrado no dirio do Padre Pedro-Paulo, Joozinho foi torturado barbaramente. Seu rosto est quase irreconhecvel. Um brao e uma perna partidos. Por outro lado, detalhes da tortura vm denunciados pelo morto Dr. Ccero, voz insuspeita do alm-tmulo, no julgamento da praa nobre de Antares: Vm ento a fase requintada. Enfiam-lhe um fio de cobre na uretra e outro no nus e aplicam-lhe choques eltricos. O prisioneiro desmaia de dor. Metem-lhe a cabea num balde dgua gelada e, uma hora depois, quando ele est de novo em condies de entender o que lhe dizem e de falar, os choques eltricos so repetidos....

Como observou o Barcelona, do alm-tmulo, o delegado Inocncio tinha aproveitado bem a sua bolsa de estudos com a polcia do Estado Novo.

2. Numa diviso meramente didtica, destaca-se tambm no romance a anlise da sociedade antarense, que tem obviamente conotao simblica, objetivo esse empreendido e executado com maestria pelo escritor:

- A sociedade enfocada no livro, como se tem mostrado, caracteriza-se pelo conservadorismo, apegada s aparncias e fachadas, coisa de suas tradies e costumes seculares. Atravs da pesquisa organizada pelo Prof. Martim e sua equipe, rico Verssimo faz uma verdadeira anatomia da sociedade local, que tambm, no fundo, o retrato de tantas outras.

Conforme registra Prof. Martim no seu dirio, o juiz Quintiliano bem um smbolo dessa sociedade simtrica, policiada, regida por leis inflexveis e imutveis, cada coisa no seu lugar (e quem determina o lugar exato a tradio, e tradio para ele algo que tem a ver com seus ancestrais pai, av, bisav, trisav, etc). Est sempre, notei, do lado do oficial, do consagrado, do legal.

- Organizada pelo macho, impera na sociedade antarense o sistema patriarcal e machista, em que o poder exercido pelo homem, de forma desptica e absoluta. Sua vontade a lei, o seu querer tem que ser respeitado, a sua voz tem que ser ouvida. O Coronel Tibrio certamente o grande senhor patriarcal do livro. Sempre armado, o coronel tinha o hbito de resolver tudo a bala. At mesmo no caso dos mortos, a sua sugesto, bem como a do delegado, era de fazer os mortos retornarem ao cemitrio, fora.

- Posta nesse contexto, a mulher vive sombra do macho, em tudo submissa, passiva e subserviente, aceitando a ordem estabelecida. Poucas reagem contra essa ordem em que fazem o papel de "matrona romana". Como j observamos, o exemplo de Valentina, com seu gesto de rebeldia, uma tentativa ainda tmida de ruptura na ordem machista. Outro exemplo a hatiana Dominique, mulher de M. Duplessis, a qual costumava aprontar nos rituais vudu.

Entretanto, integrada no baile de mscaras da sociedade, como diz Dr. Quintiliano a Valentina, importante, para a mulher parecer honesta: - Valentina, no basta a uma mulher ser honesta. preciso tambm parecer.

- Organizada assim valorizando as aparncias e fachadas est claro que pobres e humildes sero objeto de discriminao e desprezo. Aqui entram as prostituas, bbados, a favela Babilnia, os loucos e desafortunados da sorte; aqui entram at mesmo os subversivos, como Padre Pedro-Paulo, sempre mal visto e rejeitado pela sociedade; e tambm entram aqui os infelizes e solitrios os que sofrem de amor, como o Mendes, e os que sofreram trauma da frustrao da derrota, como o maestro Menandro. Isso o inferno o inferno estava em Antares sob a forma do preconceito, e do desprezo, conforme dizia a D. Quita, no alm-tmulo: - D. Quitria, eu tive em Antares uma amostra do inferno. A incompreenso, o sarcasmo, a impiedade dos antarenses me doam fundo. O inferno no pode ser pior que Antares.

- Convivendo com essa podrido, conivente muitas vezes com falcatruas e arbitrariedades, parada no tempo, a igreja de Padre Gerncio ia rezando suas missas em latim, encomendando os seus defuntos espera do Juzo Final, acomodada e fiel as tradies milenares, insensvel aos problemas sociais e s vozes que clamam por justia.

Esta a imagem da religio tradicional, moldada imagem e semelhana da sociedade aristocrtica de Antares. A ela se contrape a igreja de Cristo, voltada para os pobres e miserveis da vida; no lugar das rezas convencionais e da liturgia teatral dos milnios, surge o clamor de vozes que buscam a justia e a libertao das garras do inferno, - inferno que a vida degradante de milhes de miserveis que jazem margem de Antares.

Identificada com os pobres, chamando por justia social, combatendo a truculncia e as arbitrariedades humanas, esta a igreja de Cristo, como diz o Padre Pedro-Paulo ao Padre Gerncio: - Padre, enquanto Deus no nos disser claramente o que Ele pensa de tudo isso, ns devamos em nome de Cristo, que era e deste mundo, combater tipos como Inocncio Pigaro, que matam em nome da Justia, do Capitalismo, do Comunismo, do Fascismo, da Famlia, da Ptria e (no ria!) at mesmo de Deus.

Em suma, nesse grande painel que Incidente de Antares, rico Verssimo se revela imparcial, acima de ideologias e faz uma crtica contundente e mordaz sociedade. Atravs do truque utilizado, em que os mortos insepultos exigem o sepultamento, ele expe os podres daquela sociedade em decomposio, hipcrita e carcomida nas suas entranhas. Os mortos insepultos e o mau cheiro exalado, sem dvida, constituem um smbolo e revelam bem a decomposio moral da sociedade.

Nada escapa crtica do escritor. Ao erguer a tampa do caixo, ele destila o fel da sua mordacidade e desmascara a nata da sociedade antarense: nada escapa nem a direita nem a esquerda; nem mesmo a medicina com sua falsa filantropia; nem muito menos a imprensa que com sua bisbilhotice; nem muito menos Rotary e o Lions com seu esprito fraternal; no escapam muito menos os doutores e professores com sua fala erudita e gongrica; tambm as senhoras honradas e impolutas so devassadas nos seus segredos de alcovas, flagradas em delitos de cama; nem mesmo o venerado ancio da esttua, exemplo-mor para descendentes e ascendentes, escapa devassa realizada pelo escritor.

Entretanto, com o sepultamento dos mortos, a verdade tambm foi encerrada e a mentira, vitoriosa e triunfante, retoma o seu lugar no baile dos mascarados e na esttua da praa nobre da cidade.

Personagens

As personagens de Incidente em Antares podem ser agrupadas de acordo com as suas convices polticas e a sua condio social.

1. Representando a ordem social tradicional, marcadamente conservadora e aristocrtica, os dois cls rivais (Vacarianos e Campolargos) dominam a cidade. em torno dessa aristocracia, em que predomina o sistema patriarcal, que se organizam as pessoas gradas de Antares, as quais forma e revelam-se podres e em adiantado estado de decomposio moral, exalando um mau cheiro pior que o dos mortos do coreto na praa nobre da cidade. Ao levantar a tampa do "caixo", retirando a mscara que envolvia cada um desses honrados cidados, rico Verssimo revela a podrido daquela sociedade carcomida nas suas entranhas. Como se viu pela sntese que fizemos, a verdade no convinha a esses aristocratas, e a soluo foi lacrar os caixes e enterrar a verdade com os sete mortos.

2. As personagens femininas, com exceo de D. Quitria, a matriarca dos Campolargos, vivem sombra dos seus maridos, submissas e alienadas, aceitando passivamente a ordem estabelecida. Uma exceo a essa passividade e alienao Valentina, mulher do Dr. Quintiliano. Influenciada por leitura perigosas e possivelmente pelo Padre Pedro-Paulo, ela se rebela consciente e politizada, questionando o marido e no aceitando as imposies. Era, sem dvida, um avano naquela sociedade rigidamente patriarcal. Valentina, contudo, ainda uma "pantera aaimada" (expresso do Prof. Martim) que no tem condies de se libertar plenamente.

3. As personagens esquerdistas, taxadas de comunistas naquela sociedade conservadora, defendem o socialismo e lutam por um ordem social mais justa e um mundo melhor. Evidentemente, esses progressistas chocam-se com os interesses da aristocracia dominante e so perseguidos. Entre outros, destacam-se aqui o Padre Pedro-Paulo, o Prof. Martim, Joozinho Paz com sua mulher (Ritinha), Geminiano ramos, Barcelona, o anarco-sindicalista, e mesmo Xisto, neto do Coronel Tibrio.

4. Entre os humildes, constituindo a ral da sociedade antarense, est o submundo da favela Babilnia. Nessa linha, incluem-se a prostituta Erotildes e o bbado Pudim da Cachaa. Essas personagens, apesar de discriminadas e marginalizadas, revelam, na sua humilde e singeleza, uma grandeza comovente. Certamente por isso, no assustam os amigos visitados depois de mortos (Rosinha e Alambique).

5. Mais ou menos marginalizados, enclausurados, nos seus dramas pessoais e nos seus traumas, destacam-se o maestro Menandro, o neonazista Egon Sturm e certamente o subserviente secretrio do Prefeito (o Mendes). Nessa lista, em falta de outro lugar, talvez possa entrar aqui tambm o fotgrafo checo Yaroslav.

Estrutura e Enredo

No livro, dividido em duas partes, mesclam-se acontecimentos reais e irreais.

Primeira parte

O autor apresenta-nos na cidade fictcia de Antares, o progressivo acomodamento das duas faces (os Campolargo e os Vacariano) s oscilaes da poltica nacional e a unio de ambas em face da ameaa comunista, como conhecida, pelos senhores da cidade, a classe operria que reivindica seus direitos.

A bem dizer, Antares uma cidadezinha perdida no mapa do Rio Grande do Sul, s margens do rio Uruguai, "na fronteira do Brasil com a Argentina". Essa cidadezinha ser palco, em 1963, numa sexta-feira, de "um drama talvez indito nos anais da espcie humana".

A origem de Antares remonta h muitos anos atrs, conforme reza um relato do naturalista francs Gaston Gontran, em seu livro Voyage Pittoresque au Sud du Brsil (1830-1831). Deslumbrado com a beleza do lugar, o naturalista mostra a seu hospedeiro, Francisco Vacariano a estrela Antares. " um bonito nome para um povoado". E em 1853, quando o povoado elevado categoria de vila, Antares substituir o nome primitivo "Povinho da Caveira". Para muitos, entretanto, Antares significava "lugar das antas". Senhor absoluto da cidadezinha at ento, Chico Vacariano ameaado no seu reinado por Anacleto Campolargo, "criador de gado e homem de posses", que passa a disputar com o pioneiro (Chivo Vacariano) o domnio daquele feudo. H lutas de mortes e o dio se estabelece entre os dois cls por geraes sucessivas, com atos de violncia e atrocidades inimaginveis. A rivalidade entre as duas dinastias durou "quase sete decnios, com perodos de maior ou menos intensidade".

A dcada de 20 trouxe para Antares muito progresso, tanto na ordem material como intelectual, e a cidade at ento um municpio exclusivamente agropastoril, comeava auspiciosamente a industrializar-se. O telgrafo, o cinema, os jornais e revistas que vinham de fora, a estrada de ferro e, depois de 1925, o rdio contriburam decisivamente para aproximar o mundo de Antares ou vice-versa.

A rivalidade, contudo, entre os dois cls (Vacariano X Campolargo) domina a cidade a poltica local. Aps um perodo de turbulncia e atrocidades engendradas por Xisto Vacariano e Benjamin Campolargo, chega cidade de Antares, com a misso de estabelecer a paz entre as duas famlias beligerantes, um membro da prestigiosa famlia Vargas, de So Borja: era Getlio Vargas, a essa poca, deputado federal. Usando de artimanhas, Getlio consegue aproximar os dois chefes polticos, ponderando: "Os amigos ho de concordar em que os tempos esto mudando. O mundo se encontra diante da porteira duma nova Era. Essas rivalidades entre maragatos e republicanos sero um dia coisas do passado. Precisamos pacificar definitivamente o Rio Grande para podermos enfrentar unidos o que vem por a...".

Os dois velhos prceres, agora apaziguados sero substitudos por Zzimo Campolargo, casado com D. Quitria (D. Quita) e Tibrio Vacariano, casado com D. Briolanja (D. Lanja). De boa paz e meio indolente, Zzimo era um homem sem nenhuma vocao para liderana. Dessa forma, a chefia poltica da cidade acaba sendo assumida por Tibrio e D. Quita, criatura enrgica e inteligente, senhora de razoveis leituras, e at duma certa astcia poltica. D. Quita, pois, diante da indolncia do marido, acaba-se tornando a eminncia parda, o poder por trs do trono. Com o "tratado de paz" entre as duas famlias, engendrado por Getlio, uma grande amizade cultivava entre os dois casais.

Com a ascenso poltica de Getlio Vargas, que inaugura o Estado Novo no Brasil, Tibrio se estabelece no Rio de Janeiro e vai-se enriquecendo atravs de negociatas e atividades escusas. "Alm de advocacia administrativa, ganhava dinheiro em transaes imobilirias e ocasionalmente no cmbio negro. A Segunda Guerra Mundial proporcionou-lhe oportunidades para bons negcios, uns lcitos, outros ilcitos. Habituara-se a viver scios, e para si mesmo. E, como tantos de seus pares, j possua, num banco de Zurique, uma conta corrente numerada, cada vez mais gorda em dlares".

Com o fim do Estado Novo e a que da de Getlio Vargas, incompatibiliza-se com ele e volta para Antares, onde vai consolidando o seu imprdio: atrai para a regio uma empresa de leos comestveis de Mr. Chang Ling, a qual se alimentava da soja de sua produo: era a Cia. De leos Sol do Pampa, da qual Tibrio Vacariano possua 500 aes que no lhe aviam custado um vintm. Por outro lado, dando vazo aos seus instintos de garanho constitui outra famlia, envolvendo-se com a exuberante Clo, que passa a ser sua "teda e manteda".

Aps as marchas e contramarchas da poltica nacional, em que tem lugar o governo do Presidente Dutra, Getlio Vargas retorna triunfante, em 1951, agora "nos braos do povo". um perodo de turbulncia poltica, em que a UDN de Carlos Lacerda combate tenazmente "o pai dos pobres". O atentado a Lacerda, em 1954, ao que tudo indica comandado por Gregrio Fortunato (escudeiro do Presidente) precipita a queda de Getlio, que tenta resistir: "Daqui s saio morto. Estou muito velho para ser desmoralizado e j no tenho razes para temer a morte".

O suicdio, a forma honrosa encontrada pelo Presidente para "sair da vida e entrar na Histria", desperta no pas profunda comoo popular. Pressionado e abandonado, ao morrer, Getlio escreveu: " sanha de meus inimigos deixo o legado da minha morte. Levo o pesar de no ter podido fazer pelos humildes tudo aquilo que desejava". A sua carta-testamento, redigida em estilo grandiloqente, confere grandeza sua morte: "Lutei contra a espoliao do Brasil. Lutei contra a espoliao do povo. Tenho lutado de peito aberto. O dio, as infmias, a calnia no abateram o meu nimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereo a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo na caminhada da eternidade e saio da vida para entrar na Histria".

Os acontecimentos polticos so acompanhadas com ateno em Antares: cada vez que a sirena de "A Verdade" (o jornal da cidade, de Lucas Faia) tocava, l vinha notcia urgente e em primeira mo. Assim que o povo de Antares vai acompanhando e discutindo (sobretudo a turma da Farmcia Imaculada Conceio) os acontecimentos polticos do cenrio nacional: a eleio de JK e a posse tumultuada, o seu governo de prosperidade e progresso (cinqenta anos em cinco), a construo de Braslia, a industrializao do pas. por essa ocasio que morre Zzimo, no Rio, onde fora transportado em busca de cura.

Candidato da UDN e a parte do PSD dissidente, Jnio Quadros, o candidato de Tibrio Vacariano, vence as eleies e renuncia poucos meses depois, levado por "foras terrveis". Uma decepo para Tibrio. A renncia de Jnio mergulhou o pas no caos e na incerteza, pois o Jango, o vice-presidente, de tendncia socialista, no era bem visto pelos militares e as foras conservadoras. Tudo foi contornado com o artifcio do parlamentarismo, que teria, contudo, vida curta.

Mergulhado na incerteza, com greves e agitaes, com Brizola, fazendo barulho, o governo de Joo Goulart era um convite ao golpe, - o que no demorou a acontecer: era maro de 1964.

Enquanto isso, Antares era objeto de uma radiografia: o Prof. Martim Francisco Terra e sua equipe escolheram exatamente Antares para realizar a sua "anatomia duma cidade gacha de fronteira". O objetivo da pesquisa como expe o professor, era "saber que tipo de cidade Antares, como vive a sul populao, qual seu nvel econmico, cultural e social, os seus hbitos, gostos, opinies polticas, crenas religiosas" etc. Publicado em livro, o resultado da pesquisa revelou-se desastroso para a imagem da cidade, que esperava exatamente o contrrio: Antares era uma cidade prosaica, com gente desconfiada e preconceituosa, com vcios de alimentao e um enorme problema social ao seu redor a favela Babilnia, "um arraial de misria e desesperana".

Incompatibilizando com a cidade, taxado de comunista, o Prof. Martim passa a ser personna non grata na cidade. Mais tarde, ser perseguido pela Revoluo de 1964 e tem que se exilar do pas.

Ao lado da "anatomia" de Antares, realizada pelos pesquisadores do Prof. Martim (inclusive Xisto, neto do coronel Tibrio), as personagens gradas do livro so apresentadas atravs do dirio do professor:

Coronel Tibrio - dono da cidade.
D. Quitria - matriarca dos Campolargos.
Vivaldino Brazo - prefeito da cidade.
Dr. Quintiliano do Vale - meritssimo juiz.
Inocncio Pigaro - delegado truculento.
Dr. Lzaro - mdico da famlia Vacarianoos.
Dr. Falkenburg - mdico da famlia dos Campolargos.
Lucas Faia - jornalista de "A Verdade".
Scorpio - cronista social.
Padre Gerncio - sacerdote de linha tradicional.
Padre Pedro-Paulo - sacerdote moderno, de linha socialista, taxado de comunista.
Dr. Mirabeau - promotor.
Yaroslav - fotgrafo de origem checa.
Egon Sturm - paranico teuto-brasileiro, neonazista.
Menandro de Olinda - maestro solitrio.
Prof. Libindo Olivares - com a sua fama de grande latinista, helenista, matemtico e filsofo.

Segunda parte

Na segunda parte, o "incidente" do ttulo: a greve dos coveiros. Morrem inesperadamente sete pessoas em Antares, incluindo a matriarca dos Campolargo. Os coveiros se negam a efetuar o enterro, a fim de aumentar a presso sobre os patres. Os mortos, insepultos, adquirem "vida" e passam a vasculhar a vida dos parentes e amigos, descobrindo, com isso, a extrema podrido moral da sociedade. Como as personagens so cadveres, livres, portanto, das presses sociais, podem criticar violentamente a sociedade.

Comandada por Geminiano Ramos, uma greve geral paralisa todas as atividades em Antares: reivindicando melhoria salarial, cruzam os braos os operrios do Frigorfico Pan-Americano (de Mr. Jefferson Monroe III), da Cia. Franco Brasileira de Ls (de M. Jean Franois Duplessis), da Cia. De leos Comestveis Sol do Pampa (de Mr. Chang Ling) e tambm os encarregados da Usina Termo-eltrica Municipal, deixando a cidade s escuras. Era o dia 11 de dezembro de 1963, uma quarta-feira.

Por outro lado, nesse mesmo dia, vem a falecer a veneranda matriarca D. Quitria (enfarte do miocrdio) e mais seis outras pessoas: Dr Ccero Branco (derrame cerebral), advogado das falcatruas do Cel. Tibrio e do Prefeito Vivaldino; o anarco-sindicalista Jos Ruiz, vulgo Barcelona; o "subversivo" Joo Paz, torturado pelo delegado Inocncio; o maestro Menandro, que suicidou, cortando os punhos; o bbado Pudim de Cachaa, envenenado pela mulher; e a prostituta Erotildes, que morreu vitimada pela tuberculose, na ala dos indigentes do Hospital "Salvator Mundi", do Dr. Lzaro.

Irredutveis na sua greve, os operrios, com a solidariedade dos coveiros, interditam o cemitrio e impedem o enterro, ficando insepultos os sete defuntos. E a que acontece o fantstico: os defuntos se erguem dos seus caixes e, aps as apresentaes, comandados pelo Dr. Ccero, arquitetam um plano, exigindo das autoridades o sepultamento a que tinham direito: "ou nos enterram dentro do prazo mximo de vinte e quatro horas ou ns ficaremos apodrecendo no coreto, o que ser para Antares um enorme inconveniente do ponto de vista higinico, esttico... e moral, naturalmente".

Dispostos em ordem hierrquica, os defuntos descem at o centro da cidade, provocando pnico e horror por onde passavam, e estabelecem o caos em Antares. Como ficara combinado, cada um poderia dispor do tempo como quisesse at ao meio-dia em ponto-horrio do ultimato ao Prefeito.

D. Quitria, numa visita aos genros e filhas, j exalando o mau cheiro do corpo em decomposio, assiste discusso e brigas pelo seu esplio; o Dr. Ccero surpreende a esposa em flagrante adultrio com um rapazinho louro, e depois dirige-se casa do prefeito; Barcelona afugenta os policiais e d uma lio no delegado Inocncio Pigaro; Menandro toca enfim a "Apassionata" de Beethoven; Erotildes visita a amiga Rosinha que a recebe, na sua humilde, sem nenhum medo (certamente porque no tinha nada a temer...); Pudim de Cachaa vai ao encontro do velho amigo de bebida Alambique, que o recebe tambm sem medo ( comovente o amor que demonstra pela esposa que o envenenara); Joozinho Paz inicialmente conversa com o Padre Pedro-Paulo, na praa, e depois tem um encontro comovente com a esposa grvida (Ritinha).

Por outro lado, reunido com seus pares, o prefeito busca uma soluo para o problema. At mesmo o Padre Pedro-Paulo ouvido na reunio; depois se retira. Aps muitas falaes, em que o sbio Prof. Libindo tenta explicar o fenmeno como um caso de alucinao coletiva, as opinies se divergem: o delegado Inocncio e o Coronel Tibrio propem uma soluo violenta, pela fora; os outros tendem para a parlamentao com os mortos proposta que sai vitoriosa.

O encontro entre vivos e mortos se d exatamente ao meio-dia, com a praa apinhada de gente, sob um sol escaldante. Tem lugar, ento, um autntico julgamento dos vivos, em que os mortos, atravs do seu advogado constitudo, expem os podres sobretudo das pessoas gradas da cidade: as falcatruas do Coronel Tibrio e do Prefeito; a truculncia do delegado Inocncio; a pederastia e vaidade do Prof. Libindo; a caridade falsa do Dr. Lzaro; a magnanimidade hipcrita do Dr. Quintiliano. Ao expor essas mazelas da fina sociedade antarense, o Dr. Ccero arrancava aplausos sobretudo dos estudantes que estavam pendurados nas rvores. Tomando a palavra, Barcelona, sem papas na lngua, revela casos de adultrio de damas insuspeitas e honradas de Antares. O mau cheiro (dos cadveres em decomposio e sobretudo daquela sociedade podre) atrai urubus e, depois, Antares invadida por ratos que empestam ainda mais a cidade.

Esse "fenmeno" provoca em Antares uma verdadeira revoluo: Dr. Lzaro procura o Padre Pedro-Paulo para fazer confidncias; o Major Vivaldino tem que dar explicao mulher; Dr. Mirabeau se preocupa por ter sido chamado de "fresco" e quer provar o contrrio (por sinal, no consegue...); Dr. Quintiliano no consegue dominar mais Valentina, sua esposa, que se revela "pantera acoimada"; o delegado Inocncio briga com o filho (Mauro), que se manda da cidade; Pe. Gerncio balana a cabea, perplexo. Enfim, a cidade de Antares foi sacudida nas suas entranhas com a presena mortos que apodreciam no coreto.

Conforme prometera a Joozinho, o Padre Pedro-Paulo transporta Ritinha para o outro lado do rio Uruguai (Argentina), onde estaria a salvo da truculncia do delegado. nessa oportunidade que fica sabendo do amor do Mendes, secretrio subserviente do Prefeito, pela mulher de Joozinho.

Atacados a pedradas e garrafadas pelos "embuados da alvorada" (bando de Tranqilino Almeida), os defuntos se rendem e voltam para os seus esquifes. Por outro lado, comandada por Germiniano, uma assemblia encerra a greve e os mortos so, enfim, enterrados.

Sepultados os mortos, um vento forte sopra sobre Antares e carrega o mau cheiro que empestava a cidade: aos poucos tudo vai voltado normalidade e as pessoas vo retomando as suas mscaras. Dessa forma, quando o pessoal da imprensa de Porto Alegre chega a Antares para documentar o fenmeno, o prefeito nega tudo e inventa outra estria: tudo fora um artifcio para promover a cidade. Em vo os jornalistas tentam entrevistar outras pessoas. Procurado, o Padre Pedro-Paulo mostra-lhes a favela miservel da Babilnia.

Numa reunio convocada pelo Prefeito, o Prof Libindo prope a "operao borracha", para desespero do Lucas Faia que escrevera um artigo brilhante sobre o "fenmeno". Coroada de xito, a "operao borracha" se encerra com um grande banquete em que a sociedade antarense, apaziguada pelo tempo, repe as suas velhas mscaras.

Retornando cidade com Xisto, o Prof. Martim Francisco ameaado e aconselhado pelo velho Coronel Tibrio e pelo Prefeito a sair da cidade. Na despedida, acompanhado pelos seus amigos Xisto e Padre Pedro-Paulo, ele antev a chegada da revoluo de 64 que est na iminncia de acontecer.

Enfim chega maro de 1964 e a revoluo se instala para ficar e reafirmar os valores da sociedade capitalista, empurrando para longe os anseios socialistas. Cada um vai seguindo o seu destino ou o destino que lhe foi imposto; uns morrem (Coronel Tibrio, Padre Gerncio); alguns so promovidos (Delegado Inocncio, o juiz Dr. Quintiliano); o Prefeito Major Vivaldino Brazo entrou num perodo de hibernao poltica e foi cuidar de suas orqudeas; outros foram perseguidos, pelo novo governo (Geminiano, Padre Pedro-Paulo, Prof. Martim).

Em suma, a julgar pelas aparncias, Antares hoje em dia uma comunidade prspera e feliz. Entretanto, uma criana que estava comeando a aprender a ler, soletra uma palavra perigosa, pichada no muro: "LIBER--- No terminou: em pnico, o pai arrasta-o e silencia-o com um safano".

O trecho escolhido mostra o plano dos cadveres para conseguir seu enterro:

Dona Quitria ergue-se, depois de dar duas palmadinhas consoladoras no ombro do suicida, e diz em voz alta, como quem se dirige a uma assemblia:
- Precisamos fazer alguma coisa!
Ccero Branco congrega os outros seis cadveres:
- Companheiros, no por estar morto que vou deixar de ser o que fui em vida: um advogado. Estive arquitetando um plano...
- Fale! - ordena Dona Quitria.
- Qual o nosso objetivo? O de sermos sepultados dignamente, como de nosso direito e de hbito, numa sociedade crist.
- O doutor falou pouco mas bem! - exclamou Pudim de Cachaa.
- Escutem com a maior ateno. Voc a, Joozinho, aproxime-se e escute tambm. A idia simples. Amanh pela manh marcharemos todos sobre a cidade para protestar...
- Uma greve contra os grevistas! - entusiasma-se Dona Quitria.
- Se o fim da marcha esse - intervm Barcelona -, no contem com este defunto.
- Espere - diz o advogado, tocando o brao do sapateiro. - Usemos de todas as nossas armas. Primeiro, a nossa condio de mortos. Sejamos mais vivos que os vivos.
- Como?
- Impondo populao de Antares a nossa presena macabra. Se no nos enterrarem dentro do prazo que vamos impor, empestaremos com a nossa podrido o ar da cidade.
- Que coisa horrorosa, doutor! - diz Erotildes, ajeitando os cabelos num gesto faceiro.
- Por que no se pe em votao a proposta do Dr. Ccero?
- pergunta o sapateiro.
- Bom - faz o advogado. - No direi que aqui em cima estejamos numa democracia. Imaginemos que isto uma... uma tanatocracia. (E os socilogos do futuro tero de forosamente reconhecer este novo tipo de regime.) Preciso saber se todos vocs me aceitam como advogado, caso em que tero de me passar uma procurao verbal para eu agir em nome do grupo.
Dona Quitria sacode a cabea num movimento afirmativo. Erotildes, Pudim e Menandro a imitam. Barcelona, porm, hesita:
- Primeiro quero conhecer melhor o plano.
- Simples. Descemos juntos pela Rua Voluntrios da Ptria ruma da Praa da Repblica. L nos dispersaremos, cada qual poder voltar sua casa... Para isso teremos algumas horas. O essencial (prestem a maior ateno!) que quando o sino da matriz comear a dar as doze badaladas do meio-dia, haja o que houver, todos devem encaminhar-se para o coreto da praa, sentar-se nos bancos em silncio e ficar minha espera.
- E que que voc vai fazer? - quer saber Joo Paz.
- Vou primeiro minha casa buscar uns papis importantes... Depois me dirigirei residncia do prefeito para lhe entregar um ultimato verbal... ou nos enterram dentro do prazo mximo de vinte e quatro horas ou ns ficaremos apodrecendo no coreto, o que ser para Antares um enorme inconveniente do ponto de vista higinico, esttico... e moral, naturalmente."

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