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Jóias de Família, de Zulmira Ribeiro Tavares


Em Jóias de Família (1990), a escritora Zulmira Ribeiro Tavares toma como metáfora da construção da tradição familiar a história arquitetada por um juiz em torno de um anel de rubi dado de presente de noivado à sua futura esposa. O referido anel passa a emblematizar o futuro núcleo familiar que ora começa a se formar. A família Munhoz passa a se identificar na jóia e a ser identificada socialmente por ela. Vemos, portanto, que as tradições (principalmente as tradições familiares) são construções que garantem a continuidade do grupo. Continuidade essa possibilitada pela memória e seus objetos. No caso do romance em questão esses objetos são corporificados, essencialmente, no rubi e em um cisne de Murano, ostentados pela família desde seu princípio. Em suma: as tradições são como as jóias de família, que passam de geração a geração, cercadas de histórias.

Como podemos perceber, a narrativa possui como foco a jóia, o “legítimo rubi sangue-de-pombo”, sendo que todos os personagens e o enredo se tecem e centram em torno da importância e significado da jóia.

Logo no inicio do livro, é clara a criação da ilusão, do engano, da teatralidade, quando é apresentada a personagem protagonista Maria Bráulia, dona do anel rubi sangue-de-pombo que ganhou do juiz Munhoz no dia de seu noivado como presente. Maria Bráulia é apresentada como sendo idosa, mas de idade não definida. Esta personagem apresenta dois rostos: um “rosto particular” e um “rosto social”, vivenciando o mundo como palco.

A narrativa se inicia, no tempo presente, com o encontro de Maria Bráulia com Julião Munhoz, em ocasião de um almoço em sua casa. Devido à insistência de seu sobrinho-secretário para que a tia mandasse suas jóias para que fossem avaliadas, Maria Bráulia sugere que tal avaliação comece pelo seu anel rubi-sangue-de-pombo. Tal passagem pode ser exemplificada no trecho que se segue:

Depois de meses de insistência, de amolação mesmo, reconhecia – finalmente a tia havia concordado na semana passada que fosse feita uma avaliação criteriosa de todas as suas jóias, aos poucos (…) E a tia por fim o deixara profundamente emocionado quando lhe havia ainda dito inesperadamente quase na hora de se separarem: Vamos começar pelo meu rubi sangue-de-pombo. Acho que é o que tenho de mais precioso.

O sobrinho revela à sua tia, através da exposição do resultado da avaliação realizada por um joalheiro de renome, que a jóia é falsa. A tia não concorda e fica exaltada mas, por fim, ignora a informação. “Com esse jogo, esquiva-se da ganância do sobrinho e, sem sentimento de culpa ou frustração, teatralmente goza as memórias, falsas ou verdadeiras, que tece para os outros.”

A estrutura do romance se forma como uma imensa metáfora a todas as falências.

A primeira dessas falências é econômica. Zulmira narra a vida de Maria Bráulia Munhoz. Filha de uma família rica, ainda moça, nos anos 1930, casa com um respeitado juiz de direito. Na velhice, viúva e sem filhos, vive do aluguel de alguns imóveis. Embora longe da riqueza de sua mocidade, mantém todos os rituais que a fortuna a ensinou.

Segue-se uma falência moral. Toda vida de Bráulia foi escudada em conceitos rígidos, mas que ao longo da narrativa vão sendo apagados, anulados pela seqüência de fatos que revelam intensas imposturas. Ela mesma vai compreendendo todo esse estranho mecanismo e, claro, se moldando a ele de maneira até cínica. Não abre mão da impostura, pois compreende o quanto ela é necessária para sua sobrevivência como gente. Afinal, precisa manter algumas ilhas de respeito, como a subserviência de Maria Preta.

Só que este respeito é também falido, pois nasce de necessidades mais profundas. Maria a respeita por um certo hábito, enquanto Julião, o sobrinho do juiz Munhoz que deixa o jornalismo para cuidar dos negócios de Bráulia - a tia Brau -, pauta-se pela esperança de uma gorda herança. Sonhando-se muito vivo, ele desconhece toda falsidade daquele mundo familiar. A própria virtude tão cultuada de Bráulia está maculada por seu enigmático envolvimento com o joalheiro Marcel, um francês descendente de português que constrói - ele também - uma biografia escudada numa falsa santidade.

Apesar de todos os pesares, Bráulia mantém seus ritos. Sempre lava as pontas dos dedos em água de pétalas de rosas, respeita o horário da sesta, guarda as jóias em cofre, preserva a memória de uma família mesmo conhecendo o quanto de falsidade e falência há nisso tudo. Mas cada gesto deve ser recorrentemente realizado. E novamente surge a necessidade da sobrevivência e do sentido para a vida. Ela - a vida - foi toda construída sobre as falências e não há mais como mudá-la.

Um mundo envelhecido. Este é o ambiente em que vive a protagonista. Tudo é denso e escuro. Mesmo as felicidades - inexistentes no presente - quando chegam vêm conduzidas pelas lembranças falsificadas, o que desnuda a verdade das alegrias. E embora tudo isso se passe em São Paulo, sob o mundo crescido com os pés de café, tudo se traduz em universalidade. Zulmira conta a saga de Bráulia buscando entender e denunciar o legado de hipocrisias das grandes famílias ocidentais.

Assim as jóias falsas guardadas nos cofres servem como metáfora para as falências daquele mundo. Foram anos em que o discurso da dignidade do trabalho escondeu a prática do ócio, a defesa dos gestos humanitários encobriu a ação autoritária e preconceituosa, a riqueza aparente encobriu o ouro escurecido, o sofá puído, as cortinas empoeiradas. Tudo foi consumido pelo tempo, até a pele sedosa de Bráulia, mas mesmo este fato ela encobre com o excesso de cremes e maquiagem.

No entanto, em Jóias de família nada é explícito, claro. Zulmira age como um pintor expressionista, deforma as imagens, cria enigmas como a presença do cisne de Murano. Aliás, tudo isso se resume de maneira brilhante no breve capítulo final. Ele consegue instigar ainda mais a leitura, pois salienta a necessidade de se olhar esse mudo por mais tempo que o necessário para a leitura de um breve romance.

Jóias de família afasta-se do quadro da ficção brutalista e da ficção marginal mais significativa, representando o todo social a partir de outro ponto de vista. A novela faz das encenações da elite paulistana sua matéria, elegendo centralmente o foco de uma mulher que aprendeu a se valer das falsas aparências,vigentes em seu meio. Avizinha-se, em linha de continuidade, também da prosa machadiana, de um ângulo relativamente novo, que é o da mulher rica, ou de família rica, agarrada às ruínas do antigo patrimônio.

A identidade de Maria Bráulia Munhoz é desvendada ao leitor por meio de uma intrincada trama envolvendo falseamento e autenticidade de um anel de noivado, que ocupa o centro do enredo. A réplica da gema valiosíssima guardada no cofre esconde um casamento de aparências e duplica outra gema igualmente falsa, a “original”, no fundo a mesma — a duplicação é mágica feita pelo noivo de extração social mais baixa, para impressionar a família da noiva. Acompanhando sucessivas peripécias, seguimos as perplexidades da moça, que entretanto aprende com o tempo a se adaptar muito bem às circunstâncias.

Vamos citar algumas das peripécias centrais, para que tenhamos em mente o andamento movimentado do enredo: perda da réplica, descoberta de que esta é tão perfeita que fez Bráulia confundir-se e perder, na verdade, a original; percepção de que seu marido, o juiz Munhoz, é amante do secretário particular; paixão entre o novo joalheiro, levado à casa pelo marido, e Maria Bráulia; desvendamento do segredo das jóias pelo joalheiro, que presenteia a matriarca com um (finalmente) verdadeiro rubi; anos depois, interesse do sobrinho pelas jóias da tia; reprodução, por parte dela, do jogo de aparências (novamente a trama das pedras verdadeiras e falsas) para livrar-se do interesseiro.

A movimentação assemelha-se à da narrativa de entretenimento, embasada em muitas peripécias e algum suspense, mas ganha força por articular-se à revelação do modo de ser de uma classe. Em alguma medida, a leveza, para leitura, da narrativa policialesca torna-se uma maneira adequada de penetrar num círculo de relações em que quase tudo é aparência, e a aparência, uma verdade social. A metáfora que serve de eixo ao livro é, a propósito, a de um cisne de Murano sobre um lago, enfeite de mesa na sala de jantar. O lago tem a profundidade enganosa do espelho e, nele, Narciso não se afoga.

O desmascaramento acontece e traz algum fundo autêntico (Maria Bráulia passa a amar Marcel, o joalheiro, o juiz Munhoz será até o fim da vida companheiro de seu secretário), mas converge afinal com a superfície das conveniências sociais (o casamento deve permanecer, e a mentira é seu acordo tácito; tia Bráulia deve fingir não perceber os móveis secretos da dedicação do sobrinho). É interessante, nesse sentido, que procedimentos da narrativa policialesca — sobretudo suspense e desmascaramentos — sejam adequados mesmo à interrogação da identidade. Acompanhando o ângulo de Maria Bráulia, que se cola ao proscênio da vida de salão, o narrador vê restarem por detrás da máscara apenas “formas apagadas, mal definidas e rugosas, como o interior pálido das ostras”, das quais emerge, todavia, “um espírito muito fino, animado e alegrinho”. A identidade diáfana, se comparada à da mulher que se impõe calibrada por muitas camadas de pó de arroz, não é como um teatro às escuras. Mesmo que no espelho a imagem apareça “esvaziada”, Bráulia se revigora com a oportunidade de estar a sós com seu segredo, o verdadeiro rubi. A técnica do suspense tem então sentido duplo: diante do desconhecimento, que é da própria personagem (sozinha no quarto, não há rosto que venha à tona), tudo são pistas para o narrador; a investigação da subjetividade, entretanto, tem a espessura do entretenimento.

A ilusão de uma subjetividade formada — a um só tempo singular e versátil — funciona ideologicamente como prerrogativa de indivíduos de uma classe. O teor do enunciado formal do livro de Zulmira Ribeiro Tavares nos devolve um retrato algo esquemático dessa dinâmica histórica (e talvez excessivamente explícito em suas metáforas), constituindo, assim, também o seu limite.

Em Jóias de família, o falseamento da realidade, posto de uma perspectiva interna (como vimos, a de uma classe que pode jogar com a realidade à sua volta), torna-se uma aposta formal astuciosa: fazer do engano marca estrutural do livro, dar representação a uma dinâmica social não só por detrás, mas na própria aparência das relações sociais e identitárias, é um dos pontos de interesse do realismo da autora ao brincar com as fachadas.

O engano diz respeito inclusive ao esvaziamento do suspense (a trama das pedras se resolve e a das identidades — quem é cada personagem para si mesma e para os outros? — vai perdendo a ênfase). Se o qüiproquó com as pedras verdadeiras/falsas seduz num primeiro momento, o enredo sofre aos poucos um efeito de esfriamento e distância, assinalado pelo foco narrativo. Este, sem prejuízo das tiradas de ensaísmo crítico, mimetiza, enquanto acompanha o ângulo de várias personagens, uma solidariedade formal com a elite. Embora estejamos diante de narrador impessoal, ele se vale de regalias com relação à narrativa afins às de classe: dentre elas, a técnica de transitar por diversos assuntos e épocas das vidas narradas, assinalando o passe de mágica ao deslizar velozmente por tudo, como o onipresente cisne de Murano; ou a técnica de colocar observações agudas em tom de comédia leve, às vezes entre parênteses, como se quisesse não mais que um olhar crítico en passant. Não é, portanto, sem ironia que o narrador de 3ª pessoa acompanha as brechas pelas quais a mocinha de família, e depois a matrona já experiente, vai aprendendo a se esgueirar (do casamento de aparências, do sobrinho interesseiro, do medo que sente das empregadas) e a se reinventar. A ironia, ambiguamente, ora indica distância com relação ao mundo narrado e sua lei de cinismos, ora revela um à vontade desconcertante, guardando seu veredicto para o final.

O cinismo de classe de Maria Bráulia ancora-se na representação de situações que dão os fundamentos materiais das astúcias da personagem, inclusive na relação com outras classes sociais — o convívio com as empregadas valeria uma análise, sobretudo porque coloca o tema atualíssimo da bondade como máscara social do medo, da qual passa longe a intenção de e o direito à igualdade. Seu jogo é “plenamente justificável”, assim como o do juiz Munhoz — “in dúbio pro reo”, diz este a Bráulia antes de morrer. A sentença poderia caber na boca do narrador que os acompanha. No último capítulo, todavia, o tom de alegreto (a um só tempo crítico e algo acomodado na distância relativa ao “material” que examina) cede lugar ao riso amargo. O clima é de fim de drama, quando baixam as cortinas; “várias cabeças rolaram”, diz ele, “umas fora da vida, outras nos travesseiros”. A piada cínica dá lugar ao patético e tudo vai se aquietando na luz branquicenta da manhã que empresta vida apenas ao que não tem chance de existir: reencontramos a imagem do cisne, “um defuntinho de pé” no fecho da narrativa.

Zulmira Ribeiro Tavares sabe que trabalhar com palavras exige silêncios. E é exatamente se valendo disso que constrói seu romance como uma pequena obra-prima. Diz tudo aquilo que quis dizer, mas, ao mesmo tempo, instiga a imaginação do leitor, o chama para uma parceria. O mundo de hipocrisia, mesmo metaforicamente descrito, está ali com todo sua intensidade. Conclusões, continuidades e similitudes que fiquem a cargo do leitor.

De certa maneira, o texto vem trazendo à luz as sombras dos acontecimentos. Mas a luz não faz com que se enxergue de fato, demonstrando, na verdade, que a identificação das sombras é o mais importante para o entendimento do “real”. O rosto de Maria Bráulia tido como natural nunca vem à tona, enquanto várias facetas do seu social é mostrado. O texto vai se revelando aos poucos, como no enredo, dando pouco a pouco uma visão da representação.

Quanto à Maria Bráulia, ela parece muito bem saber do seu valor como atriz dentro da trama. O seu mundo é um palco; um lugar de representar (por isso o uso do rosto particular e o social). Ela sabe que o mundo, não é a imagem de um mundo subitamente tornado inofensivo, que o espetáculo não imita a realidade, mas permite enxergá-la. Nesse sentido, Bráulia, tida no inicio da novela como uma personagem tímida e passiva, assume toda a manipulação da trama, tanto na ordem do narrado como na ordem da narração.

Como já foi ressaltado anteriormente, o juiz Munhoz presenteia Maria Bráulia com um anel considerado valiosíssimo, que abre as portas da casa para o futuro noivo pois os pais de Maria Bráulia ficam encantados com o presente do noivo, que evidenciava suas posses financeiras, qualificando-o como um bom pretendente. Com a afirmação de que era preciso proteger o anel, o juiz Munhoz manda fazer uma cópia do mesmo, guardando o original no banco. Com a realização da viagem de núpcias, perde-se o anel dito falso.

Posteriormente, quando o juiz manda fazer outra réplica, o joalheiro Marcel de Souza Armand afirma que a jóia que havia ficado no cofre do banco era falsa. O juiz teria se confundido, portanto o anel perdido na viagem era o anel autêntico. Conforme afirma Martins: “perdido o anel, confundido com sua representação, resta apenas o simulacro, ocupando, para sempre, o lugar privilegiado de referência e de verdade”. O falso brilhante passa a transitar todas as cenas ora como original, ora como cópia.

Em um momento da narrativa, somos informados de que o anel que ia e vinha era um só rubi e rubi nenhum. Toda a trama da jóia, a confecção de uma cópia guardada, trocada, sumida, roubada, fora fruto da imaginação do marido e sua enorme capacidade inventiva.

A protagonista consegue dissimular a realidade do anel que, mesmo nunca tendo sido verdadeiro, ela faz com que pareça que o seja. O anel, ponto fundamental da trama, na realidade nunca existiu como um anel verdadeiro, valioso que parecia ser, mas como uma cópia da cópia, multiplicidades de uma simulação. Essa simulação do anel passa a ser mais verdadeira do que o próprio anel.

Quanto ao espaço, pode-se afirmar que na narrativa é o apartamento localizado no décimo andar, em São Paulo, no bairro Itaim-Bibi. Foi neste espaço que se deu a maioria da trama de Maria Bráulia contada por um narrador onisciente. Outros espaços citados são a casa antiga do casal Maria Bráulia e Juiz Munhoz, nomeada como casa da Eugênio de Lima, e a joalheria de Marcel Armand onde a protagonista e seu amante se encontravam.

A descrição do espaço na obra se assemelha a um cenário de teatro. Isso pode ser observado em algumas passagens, como a que se segue:

A cortina está aberta e o palco iluminado e cheio de ouro é como maio derramado sobre esses prédios; uma borracha dourada vai apagando o que acontecia nesses palcos e só deixa a luz esfarinhada e brilhante sobreviver no ar da varanda embandeirada de plantas.

Os personagens, em Jóias de Família, têm a durabilidade da trama. A narrativa é apresentada sob dois focos: um linear, segundo uma abordagem cronológica, e outro que se baseia em uma análise mental no ponto de vista da protagonista. Ou seja: a narrativa acontece em um período de um dia, do amanhecer de Maria Bráulia ao momento em que ela vai repousar e as interferências do passado se fazem através das lembranças da protagonista, anacronicamente.

O tempo da narrativa gira em torno do anel de rubi, sendo o passado dos personagens retomados a partir desse foco. Não há referência anterior a esse momento e nem ao futuro das personagens. Trata-se do aprofundamento nos processos mentais dos personagens, mas feito de maneira indireta, por uma espécie de narrador onisciente que, ao mesmo tempo, os expõe e os analisa.

O narrador é onisciente e domina um saber sobre a vida das personagens e sobre o seu destino. Sabe de onde partem e para onde se dirige, na narração, o que pensam, fazem e dizem os personagens. O foco narrativo, como já vimos, é em terceira pessoa, sendo, por isso, também chamado de narrador-observador. Adota um ponto de vista para além do tempo e do espaço e como canais de informação predominam suas próprias palavras.

Mas é uma onisciência seletiva, pois a narrativa, predominantemente, limita-se a um centro fixo. O ângulo central e os canais de informação são limitados aos sentimentos, pensamentos e percepções da personagem central, sendo mostrados diretamente. Pode-se observar essa onisciência seletiva quando ocorre a exposição de fatos passados, uma vez que esses são limitados à memória de Maria Braúlia, o que se apresenta como um viés de leitura da história.

A narração permite apreender o sentido dos fatos narrados, exigindo do leitor a dedução das significações a partir de fragmentos dos movimentos, ações e palavras dos personagens, criando no leitor um efeito de dúvida. Exige-se do leitor uma posição de alerta aos silêncios da narração, as indeterminações, os brancos, o que a narrativa omite, a começar por tudo aquilo que ela faz supor ter acontecido antes de ela iniciar.

Há também a utilização de diferentes tipos de discurso, dependendo da situação de enunciação. O discurso direto – a reprodução direta da fala dos personagens – é apresentado em alguns trechos da narrativa. Possui a função de proporcionar ao texto maior agilidade e pode expressar as possíveis variações lingüísticas na fala de cada personagem.

O discurso indireto livre, combinação dos discursos indireto e direto, é utilizado em duas passagens da narrativa. Esse recurso confunde as falas das personagens com o pensamento do narrador, forma muito utilizada em textos pós-modernos. Os verbos declarativos são omitidos, o foco está sempre na terceira pessoa do discurso.

Zulmira Tavares cria com maestria, no seu texto, a ilusão, que é problemática tanto no que tange ao enredo da narrativa, como na questão de pensar a própria literatura. O texto finge o tempo todo, inclusive no próprio ato de fingimento, como se fossem criados espelhos. Mas os espelhos funcionam na obra como a afirmação de BAUDRILLARD (1991: p.79), “’Eu serei o seu espelho’ significa não ‘serei o seu reflexo’ mas ‘serei o seu engano’”.

A aparência da realidade é o mais importante. Além da idéia de simples aparência para os outros, os personagens assumem para si mesmos a idéia da aparência, do jogo teatral. O poder de Maria Bráulia na trama está em ter um certo domínio de um espaço simulado, como se de certa forma ela tivesse cordas para representar no palco de sua vida não só os acontecimentos, mas também as pessoas.

Assim, o texto vai se revelando, mas nunca totalmente, sempre deixando nas sombras ou nas possíveis inferências o que acontece.

Fonte parcial: Ana Paula Pacheco

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