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José Matias, de Eça de Queirós


Em 1897 a Revista Moderna publicou José Matias, quando Eça de Queirós já estava nos seus 52 anos de idade. Esta obra-prima queirosiana trouxe a marca das muitas coisas que aconteciam na Europa, Portugal e na geração de 70 nessas mais de três décadas.

José Matias foi o último texto de Eça de Queirós a ser publicado quando o autor ainda era vivo e traz algumas das características de sua prosa: a naturalidade, a fluência, a precisão e a oralidade nada declamatória. No conto Eça de Queirós apresenta-nos uma extraordinária intriga amorosa que serve de pretexto à crítica feita ao ultra-romantismo e à exaltação estética realista.

O processo de empatia do narrador queirosiano com suas personagens problemáticas, já evidente no romance a partir de Os Maias (1888), deu frutos também no conto José Matias. Não perdendo nunca a ironia (seria a perda da identidade do Autor), o narrador, em Eça de Queirós, adoça-se; de impiedoso e duro torna-se compassivo.

Em José Matias os discursos não seguem a ordem cronológica dos eventos, apresentando alterações relativamente a essa ordem ao recorrer quer à analepse quer ao regresso a um tempo no qual ou o protagonista pressupostamente narra sua a história ou uma testemunha a enuncia.

O narrador se auto-denomina Filósofo, e nós, leitores, somos identificados a seu interlocutor e, nas primeiras linhas, recebemos o convite:

Por que não acompanha o meu amigo este moço interessante ao Cemitério dos Prazeres?

Moço interessante seria um eufemismo tático? um modo hábil de dizer rapaz singular sem dizê-lo? Sim, porque é das singularidades de um rapaz louro que o conto José Matias trata.

Com simpatia e humor, o narrador, constrói para seu interlocutor e para nós, um idealista radical. O percurso que, guiados pelo narrador, fazemos pela vida de José Matias, dá-se no tempo do trajeto até o Cemitério dos Prazeres onde o vamos enterrar.

A narrativa é em 1ª pessoa com o narrador (um amigo de José Matias) conversando com outra pessoa durante esse trajeto:

Linda tarde, meu amigo!... Estou esperando o enterro do José Matias – do José Matias de Albuquerque, sobrinho do Visconde de Gamilde...

Múltiplas vezes a narração é interrompida para se regressar a esse tempo em que se processa a narração, utilizando a expressão meu amigo:

E este enlevo, meu amigo, durou dez anos, assim esplêndido, puro, distante e imaterial! Não ria...

E, durante esse tempo, o Matos Miranda? Meu amigo, o bom Matos Miranda não desmanchava (...) a quietação desta felicidade! Tão absoluto seria o espiritualismo de José Matias, que apenas se interessasse pela alma de Elisa, indiferente às submissões do seu corpo, invólucro inferior e mortal?... Não sei.

Esta forma entrecortada de introduzir o tempo em que, pressupostamente, se contam os eventos mais uma vez permite que o leitor se distancie da história e consiga alcançar uma atitude de reflexão perante o comportamento exageradamente espiritualista de José Matias. Contudo, no final do conto, o narrador deixa à consideração do leitor o modo de avaliar as relações entre espiritualismo e materialismo, sugerindo que a Matéria, mesmo sem o compreender, sempre adorará o Espírito.

Na verdade, se Elisa alimenta o amor idealizado e espiritual de José Matias sem prescindir do amor carnal, quando finalmente José Matias morre, ela manda o seu amante carnal acompanhar à cova e cobrir de flores o seu amante espiritual!

Assim, contando a história em flash-back, Eça reconstitui logo no início, a vida de José Matias, "um rapaz airoso" e "duma elegância sóbria e fina", estudioso dos círculos literários lisboetas, culto e sofisticado, mas que, segundo o narrador em seu último encontro com ele, estava em estado lastimável e declara:

...porque a derradeira vez que o encontrei, numa tarde agreste de Janeiro, metido num portal da Rua de S. Bento, tiritava dentro duma quinzena cor de mel, roída nos cotovelos, e cheirava abominavelmente a aguardente.

A partir daí temos pela clareza narrativa de Eça, os elementos necessários para aguçar a curiosidade, pois, afinal, o que levou José Matias, este rapaz dos bons convívios portugueses a arrastar-se por uma vida boêmia e errante?

O desenrolar do conto dá-se na apresentação e na descrição de Elisa (a bela musa dos últimos românticos), e o motivo, segundo o narrador, da derrocada na vida de José Matias. Casada com o conselheiro Matos Miranda e vizinha do Visconde de Gamilde, Elisa é a típica mulher da pequena burguesia portuguesa e que encarna a beleza romântica:

... o pobre José Matias, ao regressar da praia de Ericeira em outubro, no outono, avistou Elisa Miranda, uma noite, no terraço, à luz da Lua! (...) Alta, esbelta, ondulosa, digna da comparação bíblica da palmeira ao vento. Cabelos negros, lustrosos e ricos, em bandós ondeados. Uma carnação de camélia muito fresca. Olhos negros, líqüidos, quebrados, tristes, de longas pestanas...

Neste fragmento, podemos, também, visualizar a concisão de informações fornecidas pelo narrador, mantendo o ritmo da prosa e fornecendo o essencial para prender a atenção de seu interlocutor, essa era uma das maestrias queirosianas.

Temos então, o discorrer da vida de ambos, Elisa enviuva de Matos de Miranda e, após aguardar José Matias durante bom tempo, casa-se com Torres Nogueira. Torna-se viúva novamente e, ainda assim, José Matias a contempla como uma musa abstrata, como uma espécie de amor platônico, deixando-a em pânico.

Ainda vale ressaltar, no conto, o recurso narrativo utilizado por Eça. É interessante porque não permite a voz ao personagem que acompanha o narrador, logo, o jogo de diálogos é presumido e somente conhecemos as falas do personagem a partir do próprio narrador. Assim, de certo modo, o leitor assume uma das vozes narrativas do conto, já que acompanha as pausas reflexivas, as mudanças de assunto, dita o ritmo e o andamento. Dessa forma, o autor descreve a cena do enterro de José Matias:

O Sujeito de óculos de ouro, dentro do coupé?... Não conheço, amigo. Talvez um parente rico, desses que aparecem nos enterros, com o parentesco correctamente coberto de fumo, quando o defunto já não importuna, nem compromete.

Este conto revela, nas cogitações do Eça maduro, a avaliação que estava fazendo da cultura de seu século e conclusões que, de algum modo, havia tirado da obra e do convívio com um de seus mais próximos companheiros de geração. Nesse conto está colocada uma questão crucial: a da divisão radical entre espírito e matéria, resultante dos embates polarizadores do idealismo e do positivismo. Pondera sobre a Perfeição com maiúscula, tal como a concebiam os idealistas, e sobre o desprezo do mundo material.

Também no conto é possível detectar uma estrutura compositiva complexa, uma vez que a evolução da história se processa pela repetição de situações semelhantes concatenadas pela gradação. A situação inical mostra-nos José Matias enamorado da bela Elisa de Miranda que mora em frente com o seu marido, o Conselheiro Matos Miranda. Ora esta situação repete-se à medida que os maridos de Elisa vão morrendo, sem que José Matias tome a iniciativa de casar com ela. De fato, as situações são idênticas durante os sucessivos casamentos da bela Elisa Miranda, uma vez que se mantém inalterável a adoração de José Matias.

— Primeiro vemos Elisa casada com o Conselheiro Matos Miranda de sessenta anos e José Matias que, durante dez anos, a adora a partir das janelas abertas da casa de seu Tio em Arroios. Em 1871, morre o conselheiro, mas José Matias parte logo para o Porto e não responde às cartas de Elisa.

— Elisa casa-se então com o proprietário Francisco Torres Nogueira e logo José Matias regressa e continua a sua adoração escondido por entre fendas das cortinas, alardeando a sua adoração numa vida dissoluta. Passam sete anos e Torres Nogueira morre com uma anasarca. Então José Matias parte apressadamente para a Madeira.

— Elisa vai depois morar para uma casa de esquina na Rua de S. Bento, onde passa a viver com um Apontador das Obras Públicas (que vivia em Beja e cuja mulher, espanhola, o deixara). José Matias — envelhecido, pobre, andrajoso — vem adorá-la dum portal em frente, durante três anos, até morrer.

Este conto apresenta, assim, três situações semelhantes que evoluem porque, de cada vez que Elisa se casa, o tempo vai passando e o modo de vida do protagonista vai decaindo até se encontrar na miséria.

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