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Jubiabá, de Jorge Amado


Análise da obra

Jubiabá, romance escrito por Jorge Amado, em 1935, trata da trajetória da personagem Balduíno, de menino do Morro do Capa Negro a líder grevista em lutas trabalhistas na cidade da Bahia, Salvador.

A intenção central da obra, além da visão romanesca da vida popular, é sugerir o lento amadurecimento do protagonista, rumo à consciência política. É um romance característico do "realismo socialista", com alguns ingredientes sensuais e apimentados do cenário baiano.

O romance teve duas adaptações para o teatro, ambas com as peças intituladas Jubiabá: a primeira, de autoria de Roberto Alvim Correia, foi levada a cena, no Rio de Janeiro, em 1961; a segunda, efetuada por Miroel Silveira, e também encenada no Rio de Janeiro, ocorreu no ano de 1970.

Jubiabá é construído sob traços romanescos e épicos que o tornam obra expressiva aos moldes do romance de 30 no Brasil, romance que documenta um momento de lutas pelos direitos trabalhistas, na cidade da Bahia, Salvador, além de tratar dos tipos peculiares habitantes daquele lugar, sob uma ótica ao mesmo tempo realista e idealista.

O romance se chama Jubiabá, nome do pai-de-santo e guia espiritual do povo, não levando o nome do protagonista Antônio Balduíno. O pai de santo representa toda a comunidade do morro do Capa Negro, e adjacências, sendo o herói épico e religioso que dá identidade ao povo durante toda a narrativa. No desenrolar do romance, o pai-de-santo é, insistentemente, a referência para o negro Balduíno, é modelo e orientação de vida. Balduíno somente se liberta de seu domínio a partir do momento em que Jubiabá não pode explicar o sentido da greve, sentido descoberto por Balduíno no final da narrativa, o que vai fazer dele um novo homem.

A narrativa é composta de contos e lendas que fazem parte do imaginário do povo nordestino, além das histórias de marinheiros viajantes que levam uma vida de constantes perigos. Essas histórias educam a personagem Balduíno durante toda a primeira e segunda parte do romance.

O mundo ao qual Balduíno pertence é recheado de histórias de seu povo, tanto dos seus ascendentes quanto dos homens que viveram ali: saveireiros, jagunços, sertanejos, operários, que se dão ao seu conhecimento pelas vozes narrativas dessas pessoas mais velhas: pai Jubiabá, Zé Camarão, Mestre Manuel, tia Luísa.

Narração

Jubiabá tem um narrador em terceira pessoa, onisciente, que com grande clareza, conta as peripécias do protagonista e dá voz às personagens. Observam-se, nesse romance, dois tipos de discurso, sendo o primeiro o discurso narrativizado, ou contado, em que o narrador coloca-se por detrás, conduzindo a narrativa em seu próprio nome. Pode-se citar, como exemplo, as primeiras páginas do romance: Antonio Balduíno ficava em cima do morro vendo a fila de luzes que era a cidade em baixo. Sons de violão se arrastavam pelo morro mal a Lua aparecia. [Ele] vivia metido num camisolão sempre sujo de barro [...]. A outra forma de discurso empregada pelo narrador é aquela denominada discurso mimético, na qual o narrador finge ceder literalmente a palavra à sua personagem, fazendo uso dos diálogos, presentificando as atitudes, gestos, sentimentos das personagens. Cita-se um trecho, a fim de exemplificação: – Deus lhe paga, seu comendador, essa caridade que o senhor está fazendo com o menino... Deus lhe paga dando saúde a todos desta casa... – Obrigada, Sinhá Augusta. Agora leva o menino lá pra dentro e diga a Amélia pra dar comida a ele.

O narrador, em Jubiabá, é, acima de tudo, um contador de histórias. É possível mesmo afirmar que a formação do protagonista, Balduíno, dá-se informalmente, através de relatos de histórias do povo, veiculados pelas vozes narrativas possibilitadas pela estratégia do narrador mimético. Quem fala é uma personagem responsável pela narração, um sujeito que relata, e eventualmente todos os que participam da atividade narrativa. O narrador que inaugura esse tipo mimético é a tia de Balduíno, Luísa, velha conversadeira e envolvente.

Todos os habitantes do morro acabam por se constituir narradores de lendas e histórias. Sentam-se às portas dos casebres, todas as noites, para contá-las e ouvi-las. São histórias tristes de mulheres abandonadas, de surras bem dadas, de mortes para defesa da honra.

Os elementos formadores de sua personalidade são a escola da rua, as histórias do povo e sua própria experiência como homem. Pode-se dizer que este narrador é do tipo extradiegético, que relata uma história da qual não tomou parte, mas que, entretanto, conhece.

Observa-se ainda que esse narrador cede espaço à voz de algumas personagens que tomam a frente da narrativa, alternando, portanto, ao discurso extradiegético um discurso intradiegético.

Em Jubiabá, pode-se reconhecer, ainda, os dois tipos de narradores pelas formas de narrar: constata-se ali tanto as experiências do narrador sedentário quanto as narrativas do marinheiro mercante. Este é o narrador que instrui Balduíno através das viagens, que acontecem, no romance, na parte denominada “Diário de um negro em fuga”. Ali, percebe-se que o narrador bebeu de boca em boca as experiências que narra.

Por outro lado, o narrador sedentário narra as histórias conhecidas do povo e as transmite oralmente; exemplificando: Antonio Balduíno “conhece as histórias e tradições de sua terra”. A personagem que encarna esse tipo de narrador é o pai-de-santo Jubiabá.

Isso posto, pode-se dizer que há também, no romance, um narrador nato que buscou narrativas conhecidas do povo para construir sua obra.

Os dois tipos de narradores que encontramos aqui se aproximam do narrador épico, isto é, aquele que trabalha com elementos narrativos simples, combinados entre si de forma linear.

O narrador onisciente mantém uma distância das histórias que conta, em nenhum momento, no romance, temos sua intervenção. O narrador emite opiniões através das vozes narrativas das suas personagens: Severino explicou: — Rapaz, greve é como esses colares que a gente vê nas vitrinas. É preso por uma linha. Se cortar a linha caem todas as contas. É preciso não furar a greve....

Importância do capítulo "Fuga"

O capítulo "Fuga" tem um significado essencial para o desenvolvimento da narrativa.

Situado na segunda parte do romance, "Diário de um negro em fuga", o capítulo tem a função de um ponto de filtragem, de uma correção de rumos para a trajetória da personagem, ao mesmo tempo em que institui uma nova dicção estética, em relação à forma de composição narrativa da obra. Narra-se ali o episódio da briga entre Antonio Balduíno e Zequinha, desentendimento que tem como centro o ciúme de Balduíno com relação às intenções de Zequinha por uma menina de doze anos, Arminda. Balduíno encontra seu inimigo numa estrada, este vem armado. Esse encontro provoca a luta entre Balduíno e Zequinha. O encontro, a luta entre os inimigos, desencadearia a aventura da fuga de Balduíno por uma mata cerrada. Esse é o entrecho que precede a narração da fuga do negro Balduíno.

No princípio deste capítulo, temos o encontro dos dois oponentes, Balduíno e Zequinha, narrado em terceira pessoa: Zequinha correu para cima dele com a foice na mão”. Na seqüência, o negro Balduíno fere Zequinha, fincando um punhal em suas costas e sai correndo como louco, fugindo: “Era de noite e o negro ganhou o mato. A partir daqui narra-se a fuga do negro por dentro da mata e sua busca de sentido para o que havia feito num momento de muita raiva. A fim de descrever a fuga, o narrador faz uso da onisciência neutra que tem por função descrever e explicar ao leitor, com sua própria voz, as ações das personagens.

Para narrar, Jorge Amado faz uso do discurso indireto livre, mostrando o desespero de Balduíno na fuga: [...] não vê nada na escuridão. Agora pára. Ouve ruídos de matos quebrados. Quem vem lá? Já o perseguirão? [...] Aquilo tinha que acontecer... e se ele não viesse com a foice na mão, Antônio Balduíno não puxaria o punhal.

O texto é recheado de lembranças, a personagem recorda-se do que viveu, lembra-se de dos Reis, de Lindinalva. Ele reflete sobre o que fez, sabe que está errado, mas que tudo já está feito e não pode voltar atrás. A lembrança de Lindinalva o persegue o tempo todo, ela é a mulher que ele ama e sabe que não aprovaria sua atitude. Reflete sobre a vida dessas pessoas, que fazem parte de sua vida, a fim de tentar entendê-las e ao mesmo tempo tentar entender-se.

Lembra-se de Viriato, o anão, que um dia entrou pelo caminho do mar, como aquele outro velho que foi retirado da água numa noite em que os homens do cais carregavam um navio sueco. Será que Viriato encontrou sua casa?

Seus pensamentos seguem num turbilhão.

Sabemos, através desse narrador onisciente, que Balduíno está arrependido do que fez, pois pensa que poderia ter dado apenas uma surra em Zequinha. Porém, justifica-se quando se lembra de que Zequinha viera com a foice: Ele poderia ter dado uma surra unicamente em Zequinha. Pois ele não era Baldo, o boxeur? Não derrubara tantos outros no largo da Sé na Bahia?...Sim, ele poderia ter derrubado Zequinha a socos. Mas ele viera com uma foice. Percebe-se também o questionamento da personagem com relação à punhalada que desferiu em seu adversário: O homem não briga de foice e traição se paga com traição.... Assim, em todo o capítulo "Fuga", seus pensamentos o perseguem e as lembranças das pessoas queridas não o deixam: pensa na tia Luíza, que morrera de dor de cabeça; lembra-se do tempo em que começara a fumar; recorda-se do homem que conhecera no terreiro do Pai Jubiabá, o qual poderia escrever seu ABC, e pensa em como sairia do mato.

Verificamos neste capítulo o uso do discurso indireto livre apontando as reflexões do negro Balduíno. Esse procedimento usado pelo narrador são rememorações da personagem principal, característica que marca um traço romanesco do romance Jubiabá.

O trabalho do narrador com o tempo, nesse texto, é singular. Ocorre em dois níveis de discurso: um discurso que se passa no tempo do presente do indicativo, onde temos a fuga por causa da punhalada que Balduíno desferiu sobre Zequinha: abre caminho pelo mato. Corre entre as árvores que se fecham [...]. Corre sem rumo, corre, perdido; o machucado que a personagem faz na face quando está fugindo: Cai sangue do seu rosto”; os ruídos dos perseguidores que escuta no mato: “Ouve ruídos de matos quebrados. Quem vem lá?. No decorrer da leitura do texto, percebe-se o emprego freqüente desse tempo verbal que parece tornar as cenas realistas, mostrando como a mata é implacável para com um homem. Na seqüência, ele se sente cercado como um cão danado, está acuado [...] começa a sentir fome. Pode-se dizer que o uso do tempo presente do indicativo orienta-nos no mundo do intercurso cotidiano, da ação e das decisões. O emprego desse tempo aproxima o locutor do objeto, configura uma situação de “locução discursiva”, de “comentário”.

O presente pode ser tomado como um recurso estético em forma de aproximação dramática. É justamente isso que encontramos no presente texto: o presente aproxima a personagem do leitor do texto, o emprego desse tempo dá a impressão de sucessão rápida de primeiros planos cinematográficos.

Em meio a essa presentificação das cenas, o narrador indica as lembranças e reflexões da personagem, as quais são marcadas pelo uso do tempo passado dos verbos. Por exemplo, quando a personagem chega numa clareira e começa a lembrar-se da dos Reis, sabe-se pelo narrador que ela foi com a família para São Luiz; lembra-se também de Viriato que só conversava sobre sua tristeza. Ele recorda-se da infância mendigando na Bahia e da morte de Filipe, o Belo, em decorrência de um acidente, fato que marcara o menino Antônio Balduíno. O texto é sempre mesclado dos tempos presente e pretérito. A narrativa vem se desenvolvendo no tempo passado, e num mesmo parágrafo surge o tempo presente, alternando lembranças e realidade (tempo presente): Balduíno brigou (passado) por causa dele uma vez. Sorri (presente) ao se recordar do fato. Fora (passado) uma surra bonita que dera no Sem Dentes [...] Agora ele está (presente) certo que não gostava do Zequinha. Percebe-se acima a alternância do momento presente da ação e das lembranças da personagem.

Outro momento marcado pelo tempo pretérito são as inferências da personagem com relação à realidade dos fatos ocorridos. Segundo Balduíno, Zequinha estaria morto, todos estariam de sentinela e o Filomeno, negro que também estava interessado em Arminda, estaria levando a jovem para sua casa. Zequinha estava estendido no barro com um punhal nas costas. Porém de que valeu? Agora o negro Filomeno já a levou para casa, com certeza. Nada disso acontece, o leitor saberá dos verdadeiros fatos na seqüência do romance. Percebemos uma espécie de perturbação da personagem nessa mistura de fatos reais e de fatos imaginários, provocados provavelmente pelo cansaço e pelas dores e aflição da fuga.

Nesses momentos de imersão no passado, o tempo psicológico emerge numa sucessão de estados internos, também chamado duração interior. Ocorre a descoincidência com as medidas temporais objetivas, acarretando um tempo irreversível, isto é, tudo o que a personagem fez não tem volta, é fato consumado. Exemplo:

Não, ele não diria que o olho da piedade vazou, que ficou somente o olho da ruindade... Por que ele havia de dizer isso? [...] Matou Zequinha, matou... Mas foi porque ele e stava andando com uma menina de doze anos, [...] não era mulher feita [...] é inútil mentir a pai Jubiabá. Ele sabe tudo.

Quanto ao tempo cronológico, observam-se marcas pontuais dos dias que Antônio Balduíno ficou na mata fugindo do crime cometido. Primeira noite: Era de noite e o negro ganhou o mato. Outra informação de que o tempo passou são as dores: Os pés estão doídos da caminhada; a sede e a fome: a garganta está seca, o estômago arde, e sente uma dor violenta no rosto; a presença da lua que saiu, a grande lua alva que está bonita como nunca. Sabe-se da noite que passou quando a personagem acorda com os passarinhos que trinam. Olha tudo em redor [...] o talho dói no rosto (lembra-se dos fatos da véspera, seu rosto inchou durante a noite). Na seqüência, a personagem sente-se bem porque descobre que o que mais ama é brigar, até que depara com a poça de água, bebe grandes goles e lava a ferida do rosto. Constata-se que o tempo cronológico é também marcado pelo presente dos verbos, de forma que os fatos parecem desfilar perante o leitor, vêem-se os gestos da personagem. O dia passa marcado pelos pensamentos da personagem, Balduíno fica largado no chão depois de beber água barrenta, sentindo muitas dores no rosto. Uma nova noite chega e com ela uma espécie de sonho mistura-se à realidade da personagem: homens o perseguem; a velha, mãe de Arminda: veio com os olhos inchados, o corpo inchado, a língua de fora. Ficou rindo dele. Até que tropeça e cai. Um novo dia chega, a personagem toma a decisão de enfrentar os homens: Porém a sua aparição súbita na estrada põe os homens atônitos. Ele ainda tem forças para derrubar um que está na sua frente. E atravessa o grupo com a navalha brilhando na mão.

Quanto ao espaço onde acontece a fuga, verifica-se o percurso da personagem por uma mata cerrada: árvores que se fecham [...], o silêncio do mato [...] sem fim se estende na sua frente. É um lugar de riscos e de perigo, lugar onde Balduíno corre em disparada, machucando-se. Está correndo, fugindo: corre assim como um cão perseguido pelos garotos malvados [...] com os pés doídos evitando as estradas, se rasgando nos espinhos. Balduíno continua a caminhada, abrindo caminho com as mãos. Cai sangue do rosto [...]. Um espinho rompeu o rosto do negro [...]. O mato é ralo mais adiante. Através das folhas o negro vê as estrelas que brilham. O céu está claro. Farrapos de nuvens correm. Nesse momento, depois de tanto correr, começam as lembranças dos fatos ocorridos; [...] a mata misteriosa e evocadora, cheia de terror, por onde foge Antônio Balduíno simboliza um espaço propício para que o negro reflita sobre sua vida passada. Através de descrições, fruto da imaginação do negro, constata-se como ele ficou perturbado com o ato que cometera, tanto que imagina seu adversário morto: O cadáver estaria ferido no jirau com a ferida nas costas.

Assim como analisado o tempo e sua relação entre o passado e o presente, isto é, as lembranças e o sofrimento atual da personagem, aqui também o momento presente espacializa nossa personagem:

[...] sua garganta está seca, o rosto sangra, rasgado pelos espinhos, a roupa retalhada [...]. Naquele mato não tem frutas. Não é época de goiabas [...]. Os grilos fazem um ruído insuportável. Agora ele não vê mais as estrelas que o mato é cerrado [...]. Felizmente os cigarros e os fósforos estavam no bolso da calça.

Observa-se que a personagem, que se localiza num lugar determinado, a mata, volta-se para os espaços onde viveu, através da rememoração: Ainda no Morro do Capa Negro ele já fumava. Apanhou por causa disso. Balduíno lembra-se de que na frente da sua casa, no morro, os homens se reuniam para conversar. Nesse espaço, ele ouviu histórias de homens corajosos. Sempre imaginou ser cantado em ABCs pelas aventuras que vivesse; talvez, agora, tivesse um ABC, depois do ato heróico que, segundo ele, praticara.

Concluindo, pode-se dizer que todo o capítulo focaliza um processo de auto-reflexão pela personagem, a fim de mudar o sentido de sua vida. Até então, a vida da personagem parecia girar em torno de suas pequenas satisfações pessoais: roubos, assaltos, amores, bebida; a partir desse episódio, Balduíno retorna para sua cidade natal e descobre que o sentido de sua vida seria sempre o de lutar, não corpo a corpo, mas por causas maiores e coletivas, como a liderança numa greve geral.

Personagens

As personagens, em Jubiabá, são criadas a partir de modelos típicos, capazes de atribuir à narrativa caráter fortemente idealista, ao mesmo tempo em que constroem o cenário realista em que se passa a ação.

A maior parte das personagens do romance são típicas, retratam o povo pobre da Bahia: os operários das fábricas, os trabalhadores do cais, os padeiros, os marinheiros, personagens que fazem parte da massa que se uniu a Balduíno, no fim do romance, para lutar pelo reconhecimento dos operários como uma classe que participou da construção de uma nação.

Jubiabá - personagem que dá nome ao romance, é o mentor do negrinho Balduíno. Jubiabá era conhecido pelo povo do morro do Capa Negro como feiticeiro. O pai-de-santo era respeitado no morro porque curava doenças, fazia rezas, afastava demônios, dizia conceitos, rezava em nagô. A presença do pai Jubiabá na vida de Antônio Balduíno foi de extrema importância para sua formação, já que o menino era órfão, vivia com a tia Luísa, e o teve como guia espiritual por toda a vida.

Pode-se classificar também a personagem Jubiabá como personagem tipo, aquela que alcança o auge da peculiaridade sem atingir a deformação. O tempo todo, no romance, Jubiabá permanece o mesmo, não muda, sua função foi sempre a de guia, orientador, curador. Todas as características do pai-de-santo o aproximam do lendário, pois conheceu histórias do povo e as narrava para a comunidade onde vive. Também, com sua fé, Jubiabá era o refúgio do povo carente, que não tinha posse alguma, e encontrava no curandeiro a força divina para prosseguir na vida difícil que levava.

Balduíno - personagem típico à medida que nele estão inscritos traços físicos e de caráter, concretos e abstratos, capazes de representar, de forma concisa e em um único indivíduo, o tipo do “negro” e do “malandro” criado no morro e formado nas ruas de Salvador. Na infância, [...] já chefiava as quadrilhas de molecotes que vagabundavam pelo Morro do Capa Negro e morros adjacentes. Aos quinze anos, depois que fogiu da casa do comendador Pereira, foi o imperador da cidade negra da Bahia. Ser imperador da cidade, para o negro, era poder andar solto pelas suas ruas, dormir em portas de hotéis de luxo, comer as melhores comidas dos melhores restaurantes, chefiar o bando de moleques formado de meninos negros, brancos e mulatos. Assim viveu durante dois anos.

Depois desse tempo na rua, o grupo se desfez, cada um seguiu um caminho. Balduíno voltou para o morro, vivendo uma vida de malandro: compôs sambas, foi à macumba no terreiro de pai Jubiabá, tocou violão. Um dia, um homem bem vestido apareceu no morro perguntando por Antônio Balduíno, quis saber se vendia os sambas que compunha; como o negro precisava de dinheiro, vendeu dois deles. Somente mais tarde o negro veio a saber que os sambas foram gravados e fizeram bastante sucesso.

Em outro momento, nessa mesma época, Luigi convidou Balduíno para lutar boxe, pois ficara impressionado quando vira o negro dando um soco pesado no soldado Osório, que ficou estatelado no chão. Balduíno aceitou o convite, lutou, suas vitórias foram publicadas num jornal.

A personagem seguiu, durante o avançar da narrativa, em direção à conscientização política, projetando o idealismo cultivado pelo autor, Jorge Amado, tanto em relação à “cor local” quanto em relação à classe operária em formação. Assim, pode-se afirmar que a trajetória do protagonista Balduíno foi conduzida por forças paralelas, que não se anulavam: o determinismo de origem étnica, histórica e social e a idealização do proletariado, classe que foi, por fim, redimir o antigo vagabundo Balduíno, inserindo-o em uma função social relevante.

Balduíno teve, de fato, uma trajetória em ascensão. Nasceu pobre, no morro, mas era um menino diferente dos outros, o tempo todo ele procurava ser diferente dos outros, estava em busca de alguma coisa. Balduíno carregava uma revolta e uma negação da memória da escravidão, dizendo que não seria escravo. O romance propôs a liberdade do marginal como alternativa à escravidão das ocupações proletárias. Balduíno cresceu tomando ciência de uma memória familiar marcada pela tradição da rebeldia social e de uma memória comunitária que atualizava a tradição do cativeiro. Os meninos mais novos que Balduíno já sabiam do seu destino desde cedo: cresceriam e iriam para o cais onde ficariam curvos sob o peso dos sacos cheios de cacau, ou ganhariam a vida nas fábricas enormes. E não se revoltariam porque desde há muitos anos vinha sendo assim: os meninos das ruas bonitas e arborizadas iam ser médicos, advogados, engenheiros, comerciantes, homens ricos. E eles iriam ser criados destes homens. Para isto é que existia o morro e os moradores do morro. Coisa que o negrinho Antonio Balduíno aprendeu desde cedo no exemplo diário dos maiores. Como nas casas ricas tinha a tradição do tio, pai ou avô, engenheiro célebre, discursador de sucesso, político sagaz, no morro onde morava tanto negro, tanto mulato, havia a tradição da escravidão ao senhor branco e rico. E essa era a única tradição.

Para Balduíno, ser diferente era ter um ABC como os famosos que ele conhecia. Pode-se dizer que essa característica de Balduíno (querer ser conhecido por um ABC) é uma característica de personagem épico, isto é, o herói épico seria conhecido através de uma narrativa que contava suas glórias, conquistas, amores, aventuras, assim como as personagens das histórias contadas pelas pessoas do Morro do Capa Negro. Através do ABC, Balduíno não seria como as outras pessoas do morro, não ficaria na obscuridade como os trabalhadores que conhecia, estaria salvo do caos que os seus viviam.

Outra característica de Balduíno era a curiosidade. Ao mesmo tempo que tinha medo de Jubiabá, tinha respeito pelo pai-de-santo, [...] não sabia o que esperar de Jubiabá. Respeitava-o mas com um respeito diferente do que tinha [pelos outros adultos] os homens o ouviam com respeito; recebia cumprimentos de todos [...]. Na sua infância sadia e solta, Jubiabá era o mistério.

Balduíno foi sempre um bom discípulo: Se no jogo da capoeira o negro Antônio Balduíno fora o melhor discípulo de Zé Camarão, no violão cedo bateu o mestre e se tornou tão célebre quanto ele. Outra característica que o diferia era seu talento musical, tanto que sobreviveu com a venda dos sambas que compôs. Também teve grande prestígio entre as mulheres.

Depois de longo período de vida livre e descomprometida, Balduíno passou por algumas etapas de trabalho nos campos de colheita de fumo, mas a sua transformação de fato ocorreu somente quando reencontrou Lindinalva, seu primeiro amor e filha do branco que o teve como agregado. Lindinalva encontrava-se à beira da morte e legou a Balduíno seu filho.

Para criar o menino, o protagonista submeteu-se ao trabalho e tomou consciência da vida que devia seguir a partir de então.

Foi dessa forma que a personagem Balduíno ascendeu, ao longo de sua trajetória, em direção à conscientização política e à atividade em prol do bem comum.

Zé Camarão - mestre de capoeira do negrinho Balduíno e também tocador de violão, mulato alto e amarelado, eternamente gingando o corpo, que criara fama desde que desarmara dois marinheiros com alguns golpes de capoeira, personagem modelo para a educação do negro. Zé Camarão era valente e cantava ao violão histórias de cangaceiros célebres passava horas e horas ensinando aos garotos do morro o jogo da capoeira, tendo uma paciência infinita com os moleques, mostrava como se aplicava um rabo de arraia, como se arrancava o punhal da mão de um homem. Era amado pela garotada que o queria como a um ídolo. Antônio Balduíno gostava de andar com ele, de ouvir o desordeiro contar casos da sua vida.

Balduíno o admirava pelo seu jeito desordeiro, pelo modo como contava uma história cheia de detalhes, para que ninguém duvidasse da sua veracidade; sempre dizia que era testemunha ocular de crimes que aconteciam ali e exagerava na exaltação da participação saliente que tivera em alguns deles. Tinha um modo especial de cantar as histórias com seu violão que prendia todo o povo na frente da casa da velha Luísa. Exerceu influência na formação de Balduíno assim como o pai Jubiabá, tanto que seu pupilo seria melhor que o mestre na capoeira: E como já era o melhor aluno de capoeira queria também aprender violão.

As personagens Zé Camarão e pai Jubiabá mantiveram-se iguais do começo ao fim do romance, elas coincidiram com elas mesmas, não se modificaram.

Luísa - tia que criava Balduíno, era mãe e pai do menino, mulher trabalhadeira e contadora de histórias, dona da casa onde o povo do morro se reunia para ouvir histórias e conversar. Era por ela que Balduíno sabia alguma coisa de seu pai, [...] Valentim, que fora Jagunço de Antônio Conselheiro quando rapazola, que amava as negras que encontrava a cada passo, que bebia muito, bebia valentemente e que morreu debaixo de um bonde num dia de farra grossa. Como eram esparsas as histórias sobre seu pai, Balduíno o idealizava um grande guerreiro e dizia que queria ser igual a ele. Luísa sofria de dor de cabeça, quando vinham as crises, Jubiabá era chamado, fazia as rezas e ela melhorava. Mas as dores começaram a ser muito freqüentes, foi preciso interná-la num sanatório até que não pôde mais e veio a morrer. Em decorrência dessa morte, a vida de Balduíno começou a mudar.

Lindinalva - único amor da vida do negro Balduíno, era uma moça ingênua que viveu de sonhos, na casa dos pais, o Comendador Pereira e sua esposa. Lindinalva classifica-se entre as personagens do romance folhetim, jovem virtuosa e seduzida por um cínico sedutor. Lindinalva e Balduíno se conheceram quando este foi encaminhado à casa do Comendador porque perdera a tia e precisava freqüentar escola a fim de ter um futuro melhor que aquele dos meninos do morro. A menina era sua companheira de toda hora nas brincadeiras. Depois que Balduíno fogiu da casa do Comendador, este perdeu a mulher, começou a perder dinheiro, Lindinalva ficou noiva do Dr. Gustavo Barreira. Devido à ausência do pai, que viveu em casas de prostitutas, vindo a morrer em uma delas, Lindinalva se envolveu intimamente com o noivo, engravidou, sendo abandonada por ele. Logo que o filho nasceu, tornou-se prostituta para poder sustentá-lo, morreu na ladeira do Taboão, lugar onde viviam as mulheres mais decadentes da Bahia. O enredo de sua vida assemelha-se ao enredo do romance de folhetim, recheado de histórias de amor, a espera do príncipe encantado, donzela que se entrega ao amor, a fuga do amado, tudo muito semelhante ao gosto do público.

Gordo - negro, religioso, morava com uma velha a qual ele tinha muita estima e chamava-a de avó, sua alcunha se deve ao porte físico do personagem que era gordo. Amigo inseparável de Balduíno.

Tempo

A narração se inicia no presente da personagem Balduíno: a luta de boxe entre ele e o alemão Ergin, da qual Balduíno saiu vencedor. A narrativa começa com essa luta que voltaou a aparecer depois que já se sabe quem é o negro Antônio Balduíno, no capítulo “Lutador”. Nesse capítulo inicial, intitulado “Boxe”, todo o povo estava reunido em torno de Balduíno que lutava com o alemão.

No segundo capítulo, chamado “Infância Remota”, começa a narrativa em analepse, isto é, a narração da infância do negro no Morro do Capa Negro, adolescência na casa do comendador e juventude até os dezoito anos de Balduíno. Percebe-se a narrativa em analepse pelas marcas verbais e pela indicação da idade da personagem Balduíno: Apesar de seus oito anos, Antônio Balduíno já chefiava as quadrilhas de molecotes que vagabundavam pelo Morro [...]. Dos quinze aos dezoito anos, Balduíno morou na rua com outros meninos pobres, quando conheceu Luigi, que o transformou em lutador de boxe. O tempo passa marcado por sucessivas lutas de boxe, entre as quais a da abertura do romance. Nesse ponto do romance, a analepse se encontra com a narrativa do capítulo “Boxe”, fechando a história da juventude de Antônio Balduíno. A carreira da personagem terminou quando lê no jornal a notícia do noivado de Lindinalva com o advogado Dr. Gustavo Barreira.

Os episódios da primeira parte do romance, “Bahia de Todos os Santos e do Pai-de-Santo Jubiabá”, decorrem num tempo cronológico que descreve um percurso de vida que só ascende em direção ao seu reconhecimento como homem psicológico e social. Foi preciso toda uma vida de buscas e desencontros para que Balduíno encontrasse o sentido de sua vida.

No capítulo intitulado “Infância Remota", narram-se acontecimentos que se repetiam na vida de Balduíno: momentos em que ele ficava vendo as luzes da cidade se acenderem e se esquecia da vida; as histórias que, todas as noites, ele ouvia dos moradores; os sons de macumba que chegavam a amedrontar o menino. É necessário salientar que se trata aqui de freqüências narrativas, caracterizadas pela recorrência do mesmo acontecimento.

No próximo capítulo, sabe-se que Balduíno perdeu a tia que o criava e foi encaminhado até a casa do comendador Pereira. Na casa, que se localizava na Travessa Zumbi dos Palmares, cujo nome dá título ao capítulo, Balduíno ficou três anos. Lá estudou, brincou com Lindinalva, começou a ficar moço. Freqüentou a escola durante um ano, mas a abandonou, também fugindo da casa do comendador. Observa-se nesses dois capítulos que o texto é rico em informações sobre a trajetória do menino Balduíno. Nos capítulos que se seguem, compondo a primeira parte do romance, também se notou o mesmo procedimento narrativo: freqüências narrativas em “Mendigo”, “Moleque”, “Lanterna dos Afogados”, “Macumba”, “Lutador”.

Em Jubiabá tem-se a narração dos sete aos dezoito anos da personagem, a passagem do tempo é marcada por um tempo cronológico, o discurso é modelado com exatidão, e relatado com vagar através de discurso direto, pormenorizado e fluente, com espaço e tempo abundantes para a descrição bem ordenada, uniformemente iluminada pelas descrições da vida das personagens que rodeiam Antônio Balduíno e que ajudam na sua formação. Percebe-se que a passagem do tempo da história corre paralela à passagem do tempo da narrativa, que cresce com a personagem principal, nas suas malandragens de menino e adolescente pobre e negro na cidade da Bahia.

Percebe-se que essa primeira parte flui numa seqüência de episódios leves, com muitos acontecimentos, os quais lemos sem perceber a passagem do tempo real da leitura; entre eles, relatos de histórias do povo, a história do Lampião e seus cangaceiros, a história do lobisomem, a do Zumbi dos Palmares, de quem Balduíno era fã, aquelas do mestre Manuel, quando da viagem no saveiro.

A partir do fim da primeira parte, ocorre uma mudança na narrativa, a história abrangerá menos fatos, enquanto a narrativa será expandida através de um número maior de anacronias.

A partir do capítulo Cais, verifica-se uma mudança no texto. Através de uma peripécia (a personagem ficou sabendo que a mulher que amava ficara noiva), Balduíno se abalou muito, perdeu uma luta, o que resultou em uma viagem em busca de um sentido para sua vida.

A partir do momento em que Balduíno partiu em viagem no saveiro do mestre Manuel, intensificaram-se os acontecimentos, ocorre o uso mais freqüente do discurso indireto livre.

Em cada um desses capítulos, a narrativa torna-se mais reflexiva, através da intervenção do narrador na psicologia da personagem. Trata-se de um narrador mais sofisticado, que, embora ainda em terceira pessoa, mescla-se à consciência da personagem.

Observa-se que os acontecimentos, a partir desse momento, são mais rápidos, ocorrendo mesmo uma fusão dos dezoito aos vinte e seis anos de Balduíno, de quem se sabe ter viajado, passado por experiências (tempo marcado por seu afastamento de Salvador), também por períodos de reflexões sobre sua vida.

A última parte do romance chama-se “A B C de Antonio Balduíno”, em que vê-se a efetiva construção da personagem enquanto homem engajado num movimento social. Como já citado, a personagem teve uma vida de vagabundo, entretanto, quando reencontrou Lindinalva, tudo se transformou. Fica-se sabendo da vida da moça e do motivo que a levou a ser uma mulher da vida, quando da perda da mãe, um ano após a fuga de Balduíno. Lindinalva envolveu-se com o advogado, foi enganada por ele com uma promessa de casamento, depois foi abandonada, grávida de Gustavo. Toda a narrativa de Lindinalva era um retorno ao tempo passado, a fim de explicar os motivos que a levaram a se perder. Tal capítulo intitula-se “Romance da Nau Catarineta”, em referência a um livro romântico do qual a moça gostava. A leitura desse livro fazia com que ela sonhasse com uma vida harmoniosa ao lado de um homem que a amasse. A vida sonhada pela personagem seguiu os moldes do romance folhetim, cuja trama de encontros e desencontros é o veio que norteou a narrativa. A personagem refletia os sonhos que nutria, influenciada pela leitura desse tipo de romance. O gênero folhetinesco trabalha narrativas previsíveis e redundantes, sentimentalismo, pieguice, lágrimas, emoções baratas, suspense e reviravoltas, linguagem retórica e chapada, personagens e situações estereotipadas etc. Todas estas características folhetinescas refletiram-se na vida que a personagem gostaria de ter. Constata-se através da leitura do capítulo que a vida dela era mais alegre quando podia sonhar (ver sua vizinha noivando) e ler os romances românticos.

No capítulo seguinte, intitulado “Cantiga de Amigo”, narra-se o declínio de Lindinalva, a sua entrada na pensão Monte Carlo, casa de prostituição, e em seguida sua total decadência. O título “Cantiga de Amigo” é referência à cantiga de amigo medieval, na medida em que a vida da personagem é uma história de abandono, isto é, a moça viveu uma paixão incorrespondida ou incompreeendida, mas a que ela se entregou de corpo e alma. O que se encontra nesse capítulo é a história da mulher abandonada.

Na seqüência, ocorreu o reencontro de Balduíno e Lindinalva. No momento do encontro, Lindinalva não o reconheceu, porém Balduíno sentiu-se mal.

Dias depois, ele voltou à casa de Lindinalva, que estava morrendo. Colocou-se ao lado de seu leito, foi acariciado por ela, que lhe pediu para ajudar Amélia, a cozinheira, a cuidar do filho que teve com o advogado. Por causa desse filho, o negro foi ter uma profissão, ia ser escravo da hora, dos capatazes, dos guindastes e dos navios, não iria entrar pelo caminho do mar como tantos outros.

O reencontro com Lindinalva configura o ponto culminante do enredo. Nota-se que esse encontro resultou na mudança da personagem, a sua transformação num sujeito engajado em seu tempo-espaço.

Espaço

Em Jubiabá, a delimitação do espaço concorre para a caracterização do realismo crítico, ou seja, a delimitação das questões sociais, como aquela da exploração capitalista, é apresentada através do detalhamento determinista do espaço. Vê-se o espaço da vadiagem, o trabalho dos estivadores, aquele nas fábricas de charuto, a colheita do fumo, o trabalho no circo etc. Esses espaços marcam uma época, um momento na história de um povo, assim como na trajetória do protagonista. Percebe-se, em Jubiabá, a predominância de espaços abertos, que configuram a liberdade característica da personagem Balduíno.

A estrutura do romance é marcada por subtítulos que se referem a espaços que marcaram a vida da personagem Balduíno: na primeira parte do romance, os capítulos que constituem referências espaciais são: “Box(e)”, que narra uma luta de boxe entre Antônio Balduíno e Ergin, o alemão; “Travessa Zumbi dos Palmares”, narrativa que identifica o lugar para onde Balduíno foi levado ao perder tia Luísa; “Lanterna dos Afogados”, espaço de encontros e desencontros das personagens; “Macumba”, cuja ação transcorre no terreiro de Pai Jubiabá; “Cais”, narrativa de alguns fatos da vida da personagem. O mesmo procedimento se dá na segunda parte do romance: “Saveiro”, narrativa da viagem empreendida pela personagem Balduíno no saveiro do mestre Manuel; “Sentinela”, narração da morte e do velório da velha Laura e o assédio dos homens sobre Arminda, neta da velha; “Vagão”, narrativa do retorno da personagem à sua terra natal; “Circo”, primeira tentativa de emprego da personagem. Na terceira parte: “Criouléu”, narrativa de alguns fatos ocorridos durante um baile num clube de negros; “Guindastes”, decisão de Balduíno em assumir o filho de Lindinalva e trabalhar na estiva a fim de ter uma profissão e sustentar o filho.

Mediante essa verificação estrutural do romance, a vida da personagem principal foi se construindo em cada um desses espaços onde viveu.

Os espaços percorridos por Antônio Balduíno são, em sua grande maioria, espaços coletivos, abertos ou públicos: a luta de boxe; as reuniões nas portas dos casebres, no morro, para ouvir histórias sobre o passado dos negros escravos e de mitos e lendas da região nordeste; a viagem no saveiro; a greve dos operários na cidade da Bahia.

Destaca-se também nos capítulos: “Saveiro”, “Cheiro doce de fumo” e “Mão”, da segunda parte do romance, a agudeza do aroma de mar que exalava a esposa de Mestre Manuel na viagem de saveiro e o aroma dos abacaxis no porão do saveiro, que embriagava a personagem Balduíno, além do aroma do fumo na cidade de velha Cachoeira, que vinha das fábricas de charutos e impregnava tudo. Esses capítulos proporcionaram à personagem principal experiências de reflexões sobre o tipo de vida do povo daquela região: as histórias das vivências do Mestre e o trabalho escravizante nas fábricas de charutos. Experiências essas proporcionadas pelas sensações táteis e olfativas no contato direto da personagem com tais elementos.

A narrativa se inicia com uma luta de boxe, no largo de Sé, da qual a personagem principal saiu vencedora, pode-se dizer espaço de vitória, lugar de brilho tão almejado pela personagem.

No segundo capítulo da primeira parte, temos a narrativa da infância da personagem num morro, que tinha casas muito pobres e simples, habitadas por pessoas do povo. A vida de sacrifícios que a personagem levava ali a motivou a querer coisas melhores, tanto que sonhava em morar na cidade. Toda tarde Balduíno ia admirar a cidade imaginando como seria a vida lá embaixo.

Balduíno viveu aqui momentos de contemplação que se assemelharam às experiências das personagens românticas, num espaço propício ao sonho. O espaço da cidade contemplada, pela qual o negrinho começou, conforme foi crescendo, suas pequenas incursões, representou para ele, a liberdade. Balduíno era atento ouvidor de histórias, queria ser como as pessoas das histórias. Entretanto o espaço do morro permitiu relativa liberdade ao negrinho Balduíno, desde cedo desejoso de ser diferente dos outros meninos dali, o que já apontava para a mudança que ocorreria em seu destino.

A transferência do menino do espaço do morro para aquele da cidade se deu no momento da morte de sua tia Luísa e seu encaminhamento para a casa de um burguês, o comendador Pereira. A casa situava-se na Travessa Zumbi dos Palmares.

Pode-se observar, pela descrição dessa travessa, um ambiente de tristeza e abandono, que já refletia breves sentimentos que sondariam o negrinho. Todavia o sobrado do comendador era grande, tinha muitos quartos, alguns até fechados, salas enormes, cozinha bonita, a latrina melhor que qualquer casa do morro! O negrinho pôde comparar essa nova moradia com a anterior, muito menor e mais pobre. O espaço social foi percebido pelo menino: morro muito pobre, em oposição ao sobrado, casa de rico. Neste espaço, ocorreu uma primeira tentativa de moldá-lo segundo padrões que até então ele não conhecia. Na casa, ele fez as refeições com a cozinheira Amélia, brincou com Lindinalva. Num dia foi surpreendido pela cozinheira, fumando, levou uma surra. Freqüentou a escola pública, mas chefiava as malandragens e acabou por ser expulso da mesma. Balduíno aprendeu a ler apesar das peripécias. No entanto ele era rebelde, fogiu da casa e do colégio, que eram espaços institucionais, deixando para trás apenas seu amor por Lindinalva. Balduíno buscou a liberdade de outrora.

Com a fuga, novamente deparamos com o espaço da rua. O capítulo ao qual nos referimos se chama “Mendigo” e mostra a personagem Balduíno juntando-se a outros meninos que também viviam da malandragem. Ele conheceu toda a cidade negra da Bahia. A cidade era ocupada pelos negrinhos que dormiam em portas de grandes hotéis, pediam comida em bons restaurantes, dominavam a cidade a seu modo. Os meninos sobreviviam com a prática de pequenos furtos, pediam esmolas. A rua era espaço propício para a vida de malandragens, primeiros amores nas areias do cais, espaço de sonho de dias melhores, mas ainda único meio de sobrevivência do grupo.

Também um outro espaço de liberdade apresenta-se no capítulo “Moleque”, é o espaço do mar, da areia do cais. Esse espaço trouxe ao coração do negro a paz que não teve na cidade. Toda a vida da personagem foi marcada pelo mar. O mar era seu guia. Também, nesse espaço, Balduíno amou as cabrochas que encontrava pela cidade. Além disso, Balduíno foi ao cais para ver os transatlânticos.

Pode-se dizer que começaram, a partir desse momento, as primeiras reflexões de Balduíno sobre a situação dos negros escravos que via trabalhando no cais, embora soubesse que não era a vida que queria para si. Ele não queria ser pobre e escravizado como os meninos do morro, ele escolheu o caminho da liberdade, que estava nas ruas, nos pequenos furtos, nas relações amorosas rápidas. Também nesse capítulo, outra experiência marcante: ele (Balduíno) presenciou a retirada do corpo morto do velho Salustiano da água do mar, o homem estava desempregado desde que saíra das docas, motivo que o levou a procurar o caminho do mar.

O mar, a praia, o cais são espaços tanto de prazer quanto de sofrimento e de perdas. Embora os garotos vivessem num espaço aberto, de muita liberdade, acabaram por serem presos como malandros e desordeiros. Foram espancados com borracha até sangrar, sem saber por que. O espaço da cadeia é descrito muito brevemente, de que se pode concluir que não foi marcante para a reestruturação da vida desses meninos.

Nova mudança de espaço ocorreu quando o grupo se desfez, depois de dois anos de união, e cada um deles seguiu o seu caminho. Balduíno voltou ao Morro do Capa Negro como malandro, tocador de violão, capoeirista, compositor de sambas e freqüentador do terreiro de macumba de pai Jubiabá. Sobreviveu vendendo sambas, em seguida foi convidado a ser lutador de boxe, ocupação da qual também usufruiu certo status, ganhando alguns níqueis. Nessa fase, temos novamente a vida solta e sem compromisso da personagem, que vivia o dia-a-dia, sem quaisquer preocupações.

Outro espaço marcante, também, foi o botequim “Lanterna dos Afogados”, velha sala negra de um sobrado colonial, que acolhia os negros que trabalhavam no cais, marinheiros, mulheres de vida fácil, todos o freqüentavam para ouvir músicas, modas tocadas ao violão, histórias de arrepiar. O botequim pertencia à viúva de um marinheiro que o montara havia muitos anos, ela era uma mulata escura que fazia arroz-doce para os fregueses e “bóia” para os marinheiros. Quando seu Antônio o comprou, mudou-lhe o nome e fez uma limpeza geral no lugar, entretanto os fregueses não apareceram, devido à repentina e inesperada mudança. No dia seguinte à mudança, seu Antônio, supersticioso, voltou a tabuleta com o antigo nome e chamou a viúva que havia dispensado quando adquirira o bar. Esta voltou a fazer o arroz-doce para os fregueses e a bóia para os marinheiros e, principalmente, voltou para a cama de casal que fora ocupada pelo antigo dono. Espaço de diversão, muito freqüentado por Antônio Balduíno, lugar onde se bebia e se fumava, conversava-se com amigos. Era também lugar para onde Balduíno levava cabrochas a fim de mostrar aos marinheiros e outros freqüentadores a sua virilidade. Em meio à alegria e diversão, o botequim também acolheu o corpo morto de Viriato, o Anão, que se atirara ao mar como o velho Salustiano. Segundo Balduíno, Viriato estava tentando achar o caminho de casa porque era sozinho, mas encontrou o caminho do mar, que era a única solução para a vida de pobreza e solidão que levava. Percebe-se que o espaço condicionou as ações das personagens, ele era marca da liberdade e da tristeza, da vida e da morte.

Ambiente especial esse do botequim, onde se constatou a primeira conscientização, por parte de Balduíno, da situação escrava em que viveram os negros brasileiros. No capítulo “Uma toada triste vem do mar”, penúltimo da primeira parte do livro, que se desenrola no botequim “Lanterna do afogados”, a personagem Balduíno ficou impressionada com a história de um negro com as costas marcadas de surra, Balduíno narra: [...] eu hoje tive um sonho esquisito, deitado no areal.... [....]. Vi aquele negro com as costas marcadas, pai Jubiabá... [...]Aquele negro chicoteado nas costas... Eu vi no sonho... Estava horroroso. Eu tenho vontade de bater naqueles marinheiros...; o sonho intensificou o sentimento da condição escrava.

Na seqüência da narrativa, Jubiabá contava a história do avô de Balduíno: eram muitos negros na fazenda do Senhor Leal, esse Senhor não tinha feitor, mas um casal de gorilas: Catito e Catita. Esta andava pelas casas e matava galinhas, Catito levava os negros na roça; quando alguém não trabalhava, o gorila chicoteava os negros. Outra barbaridade era abusar de negras. Num dia que Senhor Leal tinha visitas, Catito pegou uma negra jovem, casada. Seu marido presenciou o episódio e, enfurecido, desferiu duas facadas em Catito. Diante disso, Senhor Leal, para se defender, atirou no negro cujo corpo estava em cima do gorila, formou-se um amontoado deplorável de carne e sangue, entretanto, as visitas do Senhor Leal vêem a cena demonstrando certo prazer. Essa narrativa vem carregada de mágoa, de rancor, de sofrimento por tudo o que os negros viveram, pois o narrador descreve os gestos de pai Jubiabá, que apontam para tais sentimentos: Está com o rosto enrugado aberto em ódio. Mediante esse episódio narrado, Balduíno vai se contaminando com a história, pois que já havia demonstrado preocupação com a situação do sofrimento da sua raça. Ouvem-se ao fundo canções de um cego que tocava violão. A canção foi ouvida alternadamente com a história de Jubiabá e as conversas entre os convivas, o que intensificou em Balduíno a consciência de uma situação da qual, até então, ele não tomara conhecimento. Nesse momento, também já soubera que Lindinalva iria se casar, por isso perdera na luta de boxe. Além do mais, a canção ao fundo retratava o que ele estava sentido.

A alternância das canções, das conversas e da narrativa do pai-de-santo intensificou a insatisfação de Balduíno, esses três elementos acompanham os sentimentos da personagem, o ritmo da música, as lembranças da escravidão, o barulho das conversas são momentos que antecedem a uma tomada de decisão, de certa forma, crucial para o desenvolvimento e formação da personagem Balduíno. Ele decidiu procurar no mar, em uma viagem de saveiro, um sentido para sua vida, sentido o qual ainda não encontrara: Pegou o Gordo e fugiu pelo mar num saveiro. Ia procurar nas feiras, nas cidades pequenas, no campo, no mar, a sua gargalhada, o seu caminho de casa. Percebe-se que esse lugar, o botequim, proporcionou a Balduíno uma tomada de decisão, ele precisava fazer alguma coisa, foi um espaço motivador de uma ação decisiva para sua vida; a partir de então, criar-se-iam oportunidades de novas vivências que contribuíram para sua transformação.

Esses episódios, como já citado, levaram Balduíno a reflexões sobre a vida, fase marcada pela viagem no saveiro com o Mestre Manuel, onde pôde desfrutar da liberdade que o mar proporcionava aos marinheiros. Ele escutou as histórias do Mestre, presenciou o bom relacionamento dele com sua mulher Maria Clara, embriagou-se com o cheiro do mar e dos abacaxis do porão, que era as fontes de trabalho e sobrevivência de Mestre Manuel. Pode-se chamar de viagem de conhecimento, ou começo da transformação pela qual a personagem passou, a fim de tomar consciência de que já era um homem.

Balduíno passou a ter, nessa segunda parte do romance, intitulada “Diário de um negro em fuga”, alguns momentos de reflexão, que foram breves indícios de conscientização proletária.

A personagem deixou o saveiro de Mestre Manuel quando desembarcou na cidade velha de Cachoeira, lugar de produção de charutos. Aqui, a descrição da vida se deu pelo cheiro de fumo que impregnava o ar. Nota-se a focalização do espaço enquanto região delimitada, com suas características singulares. Há descrições realistas da situação de exploração das operárias das fábricas de charutos que são exportados:

Nas fábricas de charutos não havia trabalho (para homem). Ali quase só mulheres pálidas e macilentas [...] fabricavam charutos caros para fins de banquetes ministeriais [...] .Mas eis que elas saem e são tristes e cansadas. Elas vêm tontas daquele cheiro de fumo que já impregnou nelas, que está nas suas mãos, nos seus vestidos, nos seus corpos, nos seus sexos [...] passam silenciosas como se estivessem bêbadas [...] entram pelas ruas estreitas que já escurecem e rumam para os becos sem iluminação no fundo da cidade.

São [...] fábricas brancas que tomam quarteirões inteiros , onde operárias sofriam no trabalho minucioso e dedicado da produção dos charutos, enquanto, no hotel, por outro lado, os filhos dos donos das fábricas, que eram alemães, divertiam-se.

O narrador descreve o lugar e o modo como as pessoas ali viviam: os alemães ficavam no hotel com jovens que vinham da Bahia lhes fazer companhia, em contraste com as casas pobres da vila onde [...] brilha a luz vermelha dos fifós [...]; as paredes da casa, onde Balduíno e o Gordo são convidados para jantar, são sujas de fumaça. A mulher masca fumo. Tem os beiços arrebitados e uma cara amarela de quem sofre maleita; também se passa muita fome, ali, quando as mulheres perdem o emprego: Quando uma mulher sai de uma fábrica, não arranja emprego em outra. Eles têm uma combinação, e não é todo dia que tem peixe, não.... O narrador aborda o problema da exploração capitalista dos países ricos sobre países menos desenvolvidos.

Apesar de Balduíno presenciar os fatos acima descritos, viu que havia diversão na cidade velha de Cachoeira: o samba na casa do Fabrício, lugar onde se tocava harmônica e os casais dançavam.

Observa-se que o ambiente contagiante fez esquecer as tristezas e mazelas que se viviam, a dança os embriaga, leva-os a outras dimensões, divertia-os, era uma terapia para aquele povo que só tinha a colheita do fumo para sobreviver, a dança atingiu o clímax, ponto máximo da diversão. Verificaram-se, aqui também costumes de uma região, o interior da Bahia, um violão e alguma música e estava feita a diversão. O tom ritualístico do episódio pode ser considerado um momento de passagem, Balduíno transformou-se pouco a pouco numa personagem romanesca, quando foi tomando consciência dos problemas sociais, até tornar-se o líder da greve do operariado na cidade da Bahia.

Observou-se até aqui a predominância de espaços coletivos, ritualísticos, espaços que se opõem àqueles do romance romanesco, que são individuais, internos, como, por exemplo, alcova, quarto, sala de estar.

Neste romance predominou o espaço público, aberto, o que tem conseqüência na própria formação do protagonista. Mesmo quando Balduíno atingiu uma espécie de individualidade, através da consciência política, predominaram as ações e os espaços coletivos, como a rua, a praça, o cais etc.

Estilo

Jorge Amado alterna mazela e diversão, realidade e sonho para culminar no capítulo “Mão”, que trata do sofrimento do povo na colheita das folhas de fumo.

Nos campos de colheita do fumo, cuja descrição se dá neste capítulo “Mão”, que seguiu àquele acima analisado, o sofrimento do colheiteiro também estava muito bem enfocado, os homens trabalham de sol a sol.

Percebe-se como as pessoas eram manipuladas, não havia valorização do que se faz, tudo girava em torno do lucro das empresas. O autor, sempre que possível, faz uso do realismo na linha do realismo crítico. Incluem-se aqui os escritores que se preocuparam em representar artisticamente os problemas sociais.

“Mão” descreve um lugar onde há quatro casas em bloco, formando um quadrado, no centro do qual os homens se reuniam para tocar violão e conversar. Uma das casas era habitada por um casal de velhos, outra por uma moça, e uma terceira, por quatro trabalhadores, entre os quais Balduíno. A importância do capítulo decorre do enfoque no trabalho braçal desenvolvido pelo homem do campo, no caso, o colheiteiro.

Também são focalizadas as mãos que tocam o violão e apagam as tristezas desses homens que vivem longe de tudo para poder sobreviver.

Além do mais, temos as mãos que servem para satisfação de desejos íntimos, uma terceira atribuição da mão dada pelo narrador: Não, não é sua mão calosa que ele tem em cima do sexo. É o sexo alvo da atriz loira, que não está com vestido nem com leque e que ama Ricardo, trabalhador das plantações de fumo. [...] A mão é sua mulher.

O capítulo se fecha com a descrição de um acidente que provocou a perda das duas mãos da personagem Ricardo. Como se vê, simbolicamente, as mãos são metáfora do trabalho escravo, também da alegria, além de símbolo da morte. O capítulo referido também se aproxima das características folhetinescas, tais quais vários episódios aventurescos, muitas emoções e algumas lágrimas.

Posteriormente, “Sentinela”, capítulo que trata do velório de sinhá Laura, faz de Balduíno novamente um indivíduo que estava em busca de algo que ainda não tem. No recinto onde aconteceu o velório, a personagem percebeu que um de seus colegas da colheita de fumo interessou-se pela filha da defunta. Temos uma belíssima descrição do modo como a personagem observava a menina e como percebia os olhares de um seu colega sobre a mesma, o que provocou certo despeito em Balduíno e, ao mesmo tempo, consciência do problema dos homens que trabalhavam ali: falta de mulher, as poucas que ali habitavam, ou já tinham dono, ou eram muito jovens, por isso, a primeira que aparecesse poderia satisfazer os desejos há tanto tempo insatisfeitos. Verifica-se aqui o traço determinista do espaço que dirige a ação dos homens, determinismo característico da escola naturalista, com a qual o romance Jubiabá mantém certa relação. Esse episódio culminou numa luta de morte entre o protagonista e a personagem Zequinha, exemplo claro do determinismo naturalista.

Todo esse processo de questionamento antecedeu à mudança que, posteriormente, operou-se na personagem. Os pensamentos começaram a surgir mais consistentes a partir desse momento, a linguagem mais introspectiva gerou elementos para os traços romanescos da personagem. Traços que se intensificaram no capítulo “Fuga”, já citado.

Nesse capítulo, "Fuga", Balduíno se envolveu numa briga, ferindo um homem. Devido a esse episódio, temos a seguir a descrição da fuga do herói. Balduíno embrenhou-se numa mata, espaço fechado, (em oposição aos espaços épicos que predominam no romance) aterrorizante; lugar de reflexão dos atos cometidos. Acompanhamos seu sofrimento e dor numa descrição clara e viva que fez com que tudo parecesse mais real, é esplêndida a dramaticidade da descrição da fuga, numa riqueza de detalhes da situação física e psicológica da personagem, identificação que se deu com o escuro da mata, o frio da noite, o medo e a dor.

Pode-se dizer que estamos diante de uma etapa iniciática que concorre para a transformação da personagem em um homem engajado, e percebemos, principalmente, a intensificação de seus traços romanescos.

O retorno à terra natal se deu em um trem que seguia para Feira de Santana, no capítulo “Vagão”. O trem estava parado, Balduíno forçou uma porta, ela se abriu, ele saltou para o vagão, Fecha a porta por dentro e só então nota que amedrontou uns vultos que se escondem no fundo do vagão entre rolos de fumo. O vagão estava escuro porque era noite, apenas a brasa de um cigarro iluminava de vez em quando. Aqui também a personagem ouviu outras histórias que colaboraram para sua formação: aquela da moça grávida que era mulher da vida, a do ex-soldado, tudo mostrava a Balduíno que [...] A vida de pobre é desgraçada... Pobre é mesmo que escravo..... Antônio Balduíno, mediante as histórias de vida que ouviu ali, já tinha alguma consciência proletária, o que se pode verificar na fala: – Eu vim de um lugar, meu tio, onde o povo era muito desgraçado... Ganhava deztão por dia....

Posteriormente, no capítulo intitulado “Circo”, a ação se desen

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