Libertinagem, de Manuel Bandeira

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Anlise da obra

Publicado em 1930, Libertinagem constitui o primeiro livro inteiramente modernista de Manuel Bandeira, e seu quarto livro de poemas. uma sucesso de poemas espantosos, cheios de novidade, humor, erotismo, refinamento musical, fora de imagens tudo isso produzindo uma intensidade emocional que, s vezes, aproxima-se do piegas, mas nunca cai nele.

notria sobretudo a renovao da linguagem, neste livro. Numa fuga expresso "potica", ao "belo" tradicional, Manuel Bandeira explora os veios da fala cotidiana, coloquial e popular usando um "prosismo potico". Tira poema de notcia de jornal, de frases de todo dia.

Com esse material traduz as dores do mundo, a vida e a morte, no na dolncia ou balanceio da poesia habitual, mas numa secura e por vezes num "humor que ostenta a rara qualidade de ser ao mesmo tempo trgico". Exemplos citados so Pneumotraxe Poema Tirado de uma Notcia de Jornal, entre outros.

A essa orientao coloquial-irnica pertence tambm a Balada das Trs Mulheres do Sabonete Arax, escrita pelo poeta depois de ter visto um cartaz do dito sabonete. Neste como em outros poemas, v-se a inteno de poetar o prosaico, o insignificante - atitude tpica do Modernismo e da arte bandeiriana.

Personalista, a poesia de Manuel Bandeira assemelha-se a uma espécie de diário íntimo em que os acontecimentos do mundo se refletem nas imagens da vida íntima e pessoal, como se a expressão poética resultasse da soma entre a confidência e a notação exterior, a contemplação da realidade, numa atitude de estranheza do poeta em relação ao mundo. Surge aí a força humanizadora de sua poesia, marcada por intensa paixo pela vida e por ardente ternura. Tal atitude no pressupe o sentimentalismo fcil; ao contrrio, deplora-o atravs do despojamento, da simplicidade e da reflexo. Reveste-a o tom irnico e tantas vezes amargo de seus poemas, em que se destacam ainda temas como o tdio, a melancolia; o amor, o erotismo; a solido, a angstia existencial; o popular e o folclrico; a fuga do espao, o escapismo.

Seguindo Ritmo Dissoluto, o livro contm trinta e oito poemas escritos entre 1924 e 1930; na maioria deles, podemos observar a inteno do poeta de romper com as formas tradicionais, acadmicas e passadistas. Esta tem sido considerada a obra mais vanguardista de Manuel Bandeira, aquela em ele praticou mais livremente a prpria liberdade formal, valendo-se de versos e estrofação irregulares e abandonando a rima, além de empregar largamente o coloquial, numa atitude inequivocamente antiformalista. Exemplos claros so Potica, verdadeira profisso de f modernista, e Poema Tirado de Uma Notcia de Jornal.

Alguns dos poemas mais famosos de Bandeira fazem parte deste livro: Pneumotrax, cena de humor negro envolvendo um tuberculoso e um mdico infame; Penso familiar, cena do cotidiano de uma pensozinha burguesa, com o inesquecvel gatinho que faz pipi e encobre cuidadosamente a mijadinha a nica criatura fina da pensozinha burguesa; Profundamente, um dos grandes poemas da morte deste grande poeta da morte, e, talvez o mais clebre de seus poemas, Vou-me embora pra Pasrgada, deliciosa utopia que apresenta a fantasia de um pas em que todos os desejos se satisfazem, especialmente os desejos sexuais:

Vou-me embora pr Pasrgada
L sou amigo do rei
L tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pr Pasrgada (...)

Tematicamente, o livro percorre as linhas-mestras abordadas por Manuel Bandeira, que so: lidar com o aspecto autobiogrfico, tratado ora melancolicamente: No sei danar, Andorinha e Profundamente; ora ironicamente: Pneumotrax; ou ocasionalmente: Vou-me embora pra Pasrgada, como j observado. Preocupa-se com assuntos extrados do dia-a-dia, como em Irene no Cu e Poema tirado de uma notcia de jornal, ou ainda com o transcrever de experincias poticas, com preocupaes de definio da poesia, como est exemplificado em Potica, considerada a profisso de f da esttica modernista.

Com a mesma melancolia das passagens autobiogrficas, acrescida de um saudosismo tristonho e quase romntico, so evocadas paisagens antigas (Evocao do Recife) ou paisagens que entram na vida do escritor mais recentemente (Mangue). Sem dvida, o mais profundo poema de Manuel Bandeira , de certa forma, o hino de seu sentimentalismo, O ltimo poema, que encerra o prprio sentido de poesia do escritor:

"Assim eu quereria o meu ltimo poema
Que fosse tenro dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluo sem lgrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais lmpidos
A paixo dos suicdios que se matam sem explicao."

A principal caracterstica da obra de Bandeira , sem sobra de dvidas, o emprego do verso livre. No entanto, isso no significa que Bandeira no fizesse uso das formas fixas. Nas suas ltimas obras ele utilizou-se muito da forma mais clssica de todas: o soneto.

Os versos livres de Bandeira sempre foram escritos sem preocupaes. Ele no gostava de modificar nada. At mesmo, segundo o prprio poeta, o poema Vou me embora para Pasrgada foi escrito dessa forma: "Saiu sem esforo, como se estivesse pronta dentro de mim"

Os principais temas de seus poemas foram: solido, dor e o medo da morte. O cotidiano de Santa Tereza, local onde morava, era constantemente transformado em crnicas.

Poemas escolhidos:

Pneumotrax

Febre, hemoptise, dispnia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que no foi.

Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o mdico:

Diga trinta e trs.

Trinta e trs... trinta e trs... trinta e trs...

Respire.

..............................................................

O senhor tem uma escavao no pulmo esquerdo e o pulmo direito infiltrado.

Ento, doutor, no possvel tentar o pneumotrax?

No. A nica coisa a fazer tocar um tango argentino.

Vou-me embora pra Pasrgada

Vou-me embora pra Pasrgada

L sou amigo do rei

L tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasrgada

Vou-me embora pra Pasrgada

Aqui eu no sou feliz

L a existncia uma aventura

De tal modo inconseqente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Ver a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginstica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a me-dgua

Pra me contar as histrias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasrgada

Em Pasrgada tem tudo

outra civilizao

Tem um processo seguro

De impedir a concepo

Tem telefone automtico

Tem alcalide vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de no ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

L sou amigo do rei

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasrgada

Potica

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionrio pblico com livro de ponto
expediente protocolo e manifestaes de apreo ao sr. diretor

Estou farto do lirismo que pra e vai averiguar no dicionrio
o cunho vernculo de um vocbulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construes sobretudo as sintaxes de exceo
Todos os ritmos sobretudo os inumerveis

Estou farto do lirismo namorador
Poltico
Raqutico
Sifiltico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto no lirismo
Ser contabilidade tabela de co-senos secretrio do amante exemplar
com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar
s mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bbados
O lirismo difcil e pungente dos bbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- No quero mais saber do lirismo que no libertao.

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