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Lisbon Revisited (1926) (Lisboa Revisitada) (Poema), de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)


O autor do poema Lisbon Revisited (1926) é Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.

O tema deste poema é o eu do sujeito lírico, frustrado e desiludido de tudo, revê-se na sua cidade, tão fantasma como ele. Problema de Fernando Pessoa: crise de identidade do eu-ortônimo agora em Álvaro de Campos.

Poema da terceira fase de Álvaro de Campos, é o regresso à abulia, ao tédio, à nostalgia de um bem perdido. Melancólico, devaneador, desiludido, cosmopolita, Campos aproxima-se da poética de Pessoa ortónimo no cepticismo, nas saudades da infância, na dúvida quanto à sua identidade, na fragmentação do eu.

O verso 1 revela o desencanto pela vida (sentimento abúlico). No primeiro momento do texto, o sujeito poético, abúlico e frustrado, manifesta o seu desencanto pela vida.

Nos primeiros versos do segundo momento, o sujeito poético revê a cidade da sua infância que ele considera “pavorosamente perdida” e “triste e alegre” neste último exemplo, numa alusão às duas cidades que conheceu, a da infância e da vida de adulto. Evidencia a dúvida sobre a sua identidade (Verso 34) e refere-se à multiplicidade de eus que vivem nele (verso 37 a 39).

O eu fala da cidade como a revê e de como se sente nela, “Transeunte inútil”, “Estrangeiro”, “Casual” e “Fantasma” (Verso 42 a 48). Do verso 54 ao 58, o final do segundo momento, a perda da imagem está relacionada com a perda de identidade (verso 55 a 56) e pode-se mesmo pensar na recordação da figura materna e da infância quando refere “em que me revia idêntico”.

No verso 57 tem-se a fragmentação do eu.

Ainda no segundo momento do texto encontra-se uma estreita relação entre o título do poema e o desenvolvimento do tema (ver verso 32).

Os verbos no presente do indicativo denunciam o estado de espírito do sujeito poético, a sua frustração face aos fracassos dos seus projetos / sonhos do passado.

O texto é narrativo e descritivo com verbos predominantemente no presente do indicativo; substantivos e adjetivos que descrevem a cidade e a alma do poeta: negatividade e tristeza.

No poema Lisbon Revisited (1926), o espaço relaciona-se com o itinerário interior. O olhar que avista a cidade é filtrado pela subjetividade de um eu que, apesar de revisitá-la, não se encontra mais nela. Mais uma vez a infância aparece como um outrora privilegiado, fissura do eu que tem no agora a solidão, o cansaço e o tédio como determinantes.

O poema, sem dúvida, estabelece um diálogo de tensão e ruptura, pois, o cansaço toma conta.

Poema na íntegra:

1. Nada me prende a nada.
2. Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
3. Anseio com uma angústia de fome de carne
4. O que não sei que seja —
5. Definidamente pelo indefinido...
6. Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
7. De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

8. Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
9. Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
10. Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

11. Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
12. Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
13. Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
14. Até a vida só desejada me farta — até essa vida...

15. Compreendo a intervalos desconexos;
16. Escrevo por lapsos de cansaço;
17. E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
18. Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
19. Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
20. ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

21. Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
22. E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
23. Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
24. (E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
25. Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
26. Onde supus o meu ser, Fogem desmantelados, últimos restos
27. Da ilusão final,
28. Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
29. As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

30. Outra vez te revejo,
31. Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
32. Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

33. Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
34. E aqui tornei a voltar, e a voltar.
35. E aqui de novo tornei a voltar? Ou somos todos os
36. Eu que estive aqui ou estiveram,
37. Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
38. Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

39. Outra vez te revejo,
40. Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

41. Outra vez te revejo — Lisboa e Tejo e tudo —,
42. Transeunte inútil de ti e de mim,
43. Estrangeiro aqui como em toda a parte,
44. Casual na vida como na alma,
45. Fantasma a errar em salas de recordações,
46. Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
47. No castelo maldito de ter que viver...

48. Outra vez te revejo,
49. Sombra que passa através das sombras, e brilha
50. Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
51. E entra na noite como um rastro de barco se perde
52. Na água que deixa de se ouvir...

53. Outra vez te revejo,
54. Mas, ai, a mim não me revejo!
55. Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
56. E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim —
57. Um bocado de ti e de mim!.
..

Outras considerações:

No poema Lisbon Revisited (1923), publicado na revista Contemporânea, 8, há um discurso de repúdio contra toda ordem social estabelecida. A recusa em
pertencer à organização social é carregada de rebeldia contra tudo aquilo que vem de fora, contra tudo que é imposto pelos outros. É um discurso voltado para fora por ser apontado a outro ou outros que pretendem fazer do eu poético aquilo que ele não é e nem deseja ser. Por isso, as negativas iniciais são imperativas,
carregadas de ênfase, cuja marca textual é o ponto de exclamação.

Não me venham com conclusões!
[...]
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

As conquistas da civilização moderna mais uma vez são colocadas sob suspeita, pois, ao mesmo tempo que trazem as vantagens tecnológicas, como a máquina, acarretam um deslocamento do eu, antes certo do seu lugar. Há, ainda, um total descaso e uma zombaria explícita em relação às ciências “(das ciências, Deus meu, das ciências!)”, que na época, ainda representavam um discurso de autoridade, trazendo as explicações possíveis diante de uma sociedade constantemente
assolada por mudanças. Apela-se para a loucura como única saída possível contra o que diz a estética, a moral, a metafísica, as ciências, as artes, a civilização, a técnica. Isto é, tudo aquilo que poderia vir a representar uma verdade ou uma prisão social, como o casamento, o cotidiano, os impostos, é violentamente rejeitado.

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer cousa?

As negativas, aos poucos, tornam-se mais agressivas e passam a ser reivindicações do direito a desejar nada. Portanto, o descontentamento em relação a quererem que ele “seja de companhia!” é expresso quando declara “tenham paciência!”, “vão para o diabo”, “não me peguem no braço!”, “que maçada” e no fim “Deixem-me em paz!” ). E, num procedimento já conhecido, mais uma vez, a memória da infância interrompe o curso do poema e, assim, revisita-se Lisboa.

Ó céu azul – o mesmo da minha infância –,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

O céu azul e o macio Tejo recordam a infância na tentativa de reencontrar neste outrora uma tranqüilidade. Contudo, esta Lisboa de outrora já não existe mais, há somente a “Lisboa de outrora de hoje!”, lugar da mágoa revisitada. O poeta rasura, rabisca aquelas imagens antigas do céu e do rio com a sua mágoa de agora. Portanto, como já dissemos, a infância é uma marca no tempo, mas também no espaço.

A cidade, no entanto, não traz de volta aquilo que ele desejava, “Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.”, pois aquele eu de outrora e aquela cidade de outrora já não estão mais ali, já não pertencem mais àquele espaço. E, já que “a única conclusão é morrer”, “enquanto tarda o Abismo e o Silêncio”, ele pelo menos quer “estar sozinho!

Os trinta e cinco versos de 1923 são retomados em Lisbon Revisted (1926), quando se estabelece um diálogo entre os dois poemas. O poeta, como um arqueólogo, volta a escavar a cidade em busca de si mesmo, encontrando apenas os restos estilhaçados do sido e do vivido. Não é mais possível no agora sonhar com a inteireza que havia outrora. Contudo, apesar da continuidade aparente, adivinha-se um conflito entre os poemas, pois as declarações violentas e revoltadas são substituídas por uma maior passividade. A atitude discursiva do eu já não é a mesma, a rebeldia deu lugar ao tédio. A certeza anterior de não querer nada agora foi substituída pela ânsia de algo que não se sabe bem o que é. Um eu angustiado e desiludido constata que:

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas por dentro de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número de porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta – até essa vida...

Se compararmos o verso “Quando no mundo-exterior como que se abre uma porta”, de “Ode Marítima”, com o seguinte de Lisbon Revisited (1926), “Não há na travessa achada o número de porta que me deram.”, veremos que a porta é uma metáfora da tensão entre o real e o sonho, o limite entre a “vida desejada” e aquela que o faria um sujeito “casado, fútil, quotidiano e tributável”. Mas, não é apenas isto: a chave que abria as portas necessárias ficou perdida no outrora. Como já citado, há também, à medida em que se escreve, uma reflexão acerca do próprio ato da escrita. Sendo assim, percebe-se que houve uma queda daquela criação poética que tinha na concepção infantil um modelo para a sua realização. Agora, não escreve mais a partir da concepção de mundo infantil, agora é somente o adulto nostálgico dos sonhos de criança, mas preso na teia das convenções sociais. Os exércitos sonhados não chegaram nem a realizar-se e mesmo assim estão derrotados e foram as “coortes por existir, esfaceladas em Deus.” Ainda assim, insiste no retorno à infância como dispositivo de transformação do espaço, uma procura pelo segredo da sua identidade. Neste sentido, consideramos fundamental repetir aqui o que já se disse, que a infância constitui um mapa onde coisas e espaços se dispõem segundo uma topologia própria que permite sonhar

A cidade de Lisboa outra vez revista parece ser a garantia de que estariam reunidos os restos, os resíduos daquilo que fora na “infância pavorosamente perdida...” Contudo, o que se esperava não se realiza, pois já não se é o mesmo que ali vivera e a cidade também já se modificou. Revisita-se o espaço na tentativa de reencontrar aquela Lisboa perdida para restaurar e recuperar os estilhaços de um tempo bom, perdido na infância. Escavar, na cidade, as camadas de tempo que o passado soterrou para descobrir o que era seria então única possibilidade para tentar religar “todos os Eu que aqui estiveram, / Uma série de contas-entes ligadas por um fio-memória, Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?” Se assim for, ficamos sabendo que se esgotaram as possibilidades. A unidade, antes presente na infância e na cidade de outrora, já não é mais possível. O sonho de uma restauração estava desfeito, perdia-se, definitivamente, a utopia do centramento e da inteireza do eu. A cidade real funciona assim sobretudo como mediador através do qual Álvaro de Campos expõe uma outra realidade – a sua própria interioridade precária, instável e dividida.

Outra vez revista a cidade, mas já se sente nela como um “traseunte inútil”, um “estrangeiro aqui como em toda parte”, um “casual na vida como na alma”,
um “fantasma a errar em salas de recordações”. Se antes exigia que o deixassem em paz, pois esperava sozinho o Abismo e o Silêncio, desta vez, não mais uma imposição, mas um lamento, vai encerrar o poema: “Outra vez te revejo, / Mas, ai, a mim não me revejo!”. Um lamento que reflete a angústia de não se poder rever na cidade revisitada. A fratura do eu não pode ser reconstituída porque

Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim –
Um bocado de ti e de mim!..
.

É só este eu aos bocados que é possível ser diante de uma modernidade que desloca os tempos e os espaços. A infância vem a ser, portanto, o lugar tranquilo no qual se vai buscar a unidade perdida. Só que este mergulho no outrora não significa que este projeto se concretizará, pois se vive um agora que já não mais permite esta unidade.

Créditos: PUC-Rio (teses abertas)

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