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Literatura de dois gumes, de Antônio Cândido

  • Data de publicação

A obra Literatura de dois gumes, de Antônio Cândido, tem linguagem erudita.

No âmbito geral, Antonio Candido traça uma espécie de genealogia da literatura no Brasil, como ela surgiu e quais as decorrências disso para a formação da nacionalidade brasileira. Como a cultura se formou no Brasil? Antes da chegada dos portugueses, no século XVI, havia uma população de índios no país, um povo cuja cultura era primitiva aos olhos dos lusitanos, ao contrário, por exemplo dos índios da região central da América, como os povos incas, os astecas e os maias, que possuíam uma cultura desenvolvida e, em alguns aspectos, eram até mais avançados que os europeus. Então, a cultura no Brasil se formou a partir da imposição aos padrões e moldes europeus. Toda uma tradição foi carregada para cá, ao mesmo tempo em que se tentava frear a cultura indígena e até sua própria língua, o tupi-guarani, que chegou a ser proibida de ser falada em São Paulo, no século XVII. Assim, quando se destrói a língua de um povo, a sua cultura e toda a tradição dessa língua também morrem juntas.

No entanto, com o passar dos anos, num processo histórico que para Antonio Candido é visto como natural, pois toda a América passou por esse momento, o povo nascido aqui começou a perceber que essa cultura imposta estava deslocada. Houve, então, a partir daí, um processo chamado de adaptação cultural, em que se mesclavam a cultura européia (de origem escrita e de maior perpetuação), a cultura indígena e a africana (de vertente mais folclórica, oral, e, portanto, menos difundida). A literatura, no Brasil, então começou a se formar por meio desse caldeirão cultural.

Já no início de sua narrativa, Antônio Cândido fala que ele não vê a literatura isolada dos aspectos históricos, ou seja, como um objeto puramente estético. Observe: vamos supor que nós lemos uma obra produzida no século XIX, um exemplo, Memórias de um sargento de milícias. Se a pessoa entrar em uma livraria, pegar e comprar essa história porque achou-a interessante, vai ter contato com a obra em si, com seu enredo próprio, interno à obra, sem precisar de mediações exteriores, ou seja, sem precisar de entender o que se passou na época em que ela foi escrita. Esse é um tipo de leitura possível. Agora, vendo pelo aspecto de análise de Antonio Candido, veremos a obra levando em conta os aspectos históricos que motivaram a escrita de Memórias de um sargento de milícias: as influências do autor Manuel Antonio de Almeida, como a sociedade carioca do século XIX se portava etc. E, a partir daí, analisaremos a obra e veremos em suas personagens uma forma de refletirmos sobre a sociedade e aprofundarmos um pouco certas questões nacionais.

Pois bem, a partir desse entendimento da abordagem utilizada por Antonio Candido em suas reflexões sobre a literatura, devemos levar em conta que esse ensaio foi produzido para ser proferido em uma conferência, ou seja, ele teve um espaço reduzido para fazer as suas reflexões e seus comentários. Por isso que ao final ele acha que foi limitado em suas abordagens.

A partir da sua independência, o país viveu um momento de reflexão sobre sua identidade, sua nacionalidade. Para isso, havia somente uma figura para se tentar resgatar um passado cultural (que nunca foi respeitado e valorizado, pois a literatura teve sempre que transfigurar a realidade para maquiar os problemas sociais de uma Colônia massacrada por uma forte exploração de riquezas por parte da Metrópole): o índio. Vários pensadores e escritores da época, todos ligados a uma tradição aristocrática, plasmaram a figura de um "índio ideal", aquele ser ligado a um imaginário coletivo, mas que não condizia com o índio real, habitante dessas terras e sofrendo os problemas de invasão territorial, de massacre cultural e expropriação identitária. E isso se refletiu na literatura. O período do romantismo foi um momento de se pensar a nacionalidade brasileira através do viés indígena, o país tentava resolver as suas contradições advindas do movimento Barroco e do espírito mesmo daquela época, em que se conciliavam na mente dos escritores uma tendência ao mesmo tempo de defesa dos interesses da Metrópole e de crítica às instituições arbitrárias dos governantes do Brasil Colônia.

Marília de Dirceu seria, para Antônio Candido, um poema de lirismo amoroso baseado numa experiência concreta, e uma exposição serena e altiva da personalidade de Gonzaga. Esses dois pólos não se excluiriam: juntos, seriam a chave para a compreensão do livro. O juízo crítico do autor divide-se em três pontos principais: a aventura sentimental de Gonzaga, sua formação poética e as características de sua poesia.

O primeiro ponto explica-se pela presença marcante da personagem Marília, tão forte que chega até a ser física. Os poemas criam um mito feminino, dos
poucos existentes em nossa literatura (Iracema e Capitu seriam suas “descendentes”). As musas dos outros poetas árcades, como Silva Alvarenga, tinham existências despersonalizadas; Marília aparece na janela com suas tranças, suas estratégias amorosas, mau-humor e doses de frieza diante de Dirceu apaixonado, e, simultaneamente, a musa de Gonzaga, escreve Antônio Candido, despede-se da vida cotidiana para se tornar uma figura de Fragonard, um bibelô delicado ora louro, ora moreno, ora com flores, ora com cordeiros.

A historicidade é peça-chave no esquema de Antônio Candido, mas o crítico não considera as obras meros sintomas. Para atravessar as páginas de Marília de
Dirceu, o autor levou em conta o contexto cultural da época, mas respeitou o autor em sua integridade estética.

O Arcadismo, ou Ilustração, ou Neoclassicismo, usados pelo autor de forma indiferente, foi a marca decisiva em que as manifestações literárias brasileiras adquirem características de sistema.

O outro “momento decisivo” examinado no livro é o do Romantismo. Se o Arcadismo trouxe a incorporação de padrões europeus tradicionais, que contribuíram para organizar com alguma eficácia a nossa atividade literária, o Romantismo foi além disso e se destacou por sua vontade consciente de forjar aqui uma
literatura independente.

As novas condições criadas no período do Império ao mesmo tempo viabilizavam e dificultavam o novo movimento de individualização nacional, que se
empenhava em combinar o SINGULAR (a expressão da nossa realidade) e o UNIVERSAL (os padrões dos países em que nos inspirávamos).

O quadro histórico se ressentia da falta de um público leitor esclarecido e dotado de uma consciência artística fortalecida, capaz de estimular (ou criticar) os escritores. O “senso de missão” dos românticos não lhes bastava para criarem uma grande literatura. No indianismo, por exemplo, transpareciam muitas ingenuidades. “o espírito cavalheiresco é enxertado no bugre, a ética e a cortesia do gentil-homem são trazidas para interpretar o seu comportamento”.

As insuficiências eram inegáveis, porém o único meio de superá-las era conseguir aprofundar a compreensão das obras sem desprezá-las, mas resgatando o que tinham de melhor.

Segundo Antonio Candido, Machado de Assis é quem nos proporciona o melhor exemplo de lucidez não só na sua vocação para a universalidade.

Na sua compreensão da condição humana, Machado aproveitou autores de todas as proveniências, desde a Bíblia até Schopenhauer, passando por Lawrence
Sterne, Pascal e Jonathan Swift. No entanto, a recuperação generosa dos acertos dos que os antecederam em sua própria terra contribuiu para que ele permanecesse independente em relação aos modismos internacionais. “Esse mestre admirável se embebeu meticulosamente da obra dos seus predecessores”. Extraiu elementos dos escritos de Joaquim Manuel de Macedo, de José de Alencar e de Manuel Antonio de Almeida.

Machado, com sua universalidade, com sua singularidade, funciona como uma chave que ajuda a abrir a “caixa-preta” do desastre nacional. E o modo como Antonio Candido nos mostra isso faz do seu livro uma chave para que não só o povo das letras, mas também nós, da educação, possamos nos pensar e repensar no movimento que se realiza ininterruptamente entre o cultivo da nossa identidade cultural, singular, e a abertura para o diálogo corajoso com o mundo, com os “outros”.

Intertextualidade

Faca de dois gumes = ação ou coisa que merece ponderação, pois tanto pode beneficiar quanto prejudicar.

As palavras são como uma espada de dois gumes; têm o poder de ferir e reconstituir feridas; de destruir e de edificar.

A Faca de Dois Gumes, volume com três novelas de Fernando Sabino, Editora Record (1985). Personagens dúbios; finais indecifráveis. A violência das obras contemporâneas é recurso notório do retrato de nosso tempo na literatura. O discurso em terceira pessoa é permeada de psicologismo, e o fluxo de consciência é retomado o tempo todo por Aldo Tolentino (protagonista).

Créditos parciais: Prof. Darlan de Oliveira Gusmão Lula, Mestre em Teoria da Literatura - Universidade Federal de Juiz de Fora; Doutor em Literatura Comparada - Universidade Federal Fluminense

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